Pesquise artigos do blog:

Carregando...

segunda-feira, 11 de março de 2013

Manifesto de (im)postura.





By Gilberto Miranda Junior,

Manifesto de (im)postura.


1 – Minha primeira preocupação sempre será em relação a de que forma um suposto fato é interpretado. O fato por trás das interpretações é uma preocupação posterior minha. Sempre minha primeira preocupação é epistemológica, ou seja, se aquilo que está sendo dito reflete a possibilidade de algo existir ou se se apoia em bases frágeis. Não sei se isso é bom ou ruim, ou mesmo ao que serve essa postura, mas é a minha postura e a minha preocupação.

2 – Não parto do pressuposto de que mundo espiritual ou espíritos não existam. Não é uma descrença em planos espirituais que movem meus questionamentos. Meus questionamentos sempre partem da possibilidade ou não de se justificar nossas crenças. Eu não questiono o objeto da crença e da fé de ninguém em um primeiro momento, mas sim se aquilo que se diz se sustenta.

3 – Questionar o que a pessoa diz e as bases pelas quais ela afirma suas crenças, para mim, é desvendar o real fato que está por trás da crença, independente da existência ou não do objeto da crença. É isso que me interessa e é isso que eu investigo primordialmente.

4 – Não há ódio que a religião me provoque. Quando eu vivia a religião eu só aprendi amor, união e solidariedade, portanto não tenho nenhuma experiência individual negativa com a religião. O que me incomoda, devo confessar, é simplesmente crer e não investigar os motivos da crença, o que te faz crer e se aquilo que acreditamos ser o objeto de nossa crença é justificável, em que nível é justificável e se essa justificativa leva a proposição de que o objeto da crença é real. Não há nenhum ódio envolvendo isso. Há irritação quando existem reações falaciosas e que desviam o foco das intenções em jogo.

5 – Eu jamais combato crenças e fé se a pessoa as desfila sem querer dar o status filosófico ou científico para elas. Conforme nos ensina Stephen Jay Gould toda controvérsia acontece pela confusão entre os MNIs (Magistérios não interferentes). O desrespeito aos MNIs me impulsionam aos questionamentos que faço, mas basta a pessoa admitir que escolheu crer nisso e pronto e o assunto acaba comigo desejando-lhe paz e felicidade.

Por outro lado não me vejo paladino da justiça, mas as confusões epistemológicas já causaram muito mal ao mundo e essa interferência entre magistérios já causou muita morte, opressão e genocídios para me ver impassível diante do gérmen do que rejeito.

7 – Teremos nossas divergências, decerto, mas isso não nos impede o diálogo respeitoso. Para mim o que merece ser discutido é uma mentalidade que busca conforto e praticidade ao invés de conhecimento e práxis (aplicar na realidade o conhecimento). Eu vivo organicamente aquilo que penso, e falar, discutir, dialogar e filosofar faz parte de minha construção existencial constante.

8 – Por fim, tudo é interpretação... O que nos resta é disseca-las para saber até que ponto ela se impõe como válida para algum dos aspectos perspectivos que estamos dispostos a viver.

É isso...


Notas sobre a fé - a partir do Manifesto da (im)Postura.


Eu não discuto objetos de fé. Se é esse o argumento eu aceito, pois defendo até o último fio do cabelo o direito inalienável do ser humano trilhar seus próprios cominhos. A fé, no meu modo de entender, é uma das bases mais frágeis em que algo pode se apoiar para ser chamado de Verdade. A fé torna todo raciocínio ou argumentação tautológico e blindado, o que não raro leva pessoas a serem manipuladas, controladas e dominadas pelos fatores de fora da circularidade que ela encerra. Não há critério pelo qual podemos dizer “aqui se pode ter fé” e “aqui é melhor olhar antes”... Pergunte ao cristão que entrou na jaula do leão e foi trucidado. A fé é um raciocínio subsumido que vai se ajustando às circunstâncias para sempre estar certo e justificar a si próprio a partir do que o subsume.

Se aceitarmos Husserl e todo o pensamento influenciado por ele, de Heidegger à Merleau-Ponty (sem esquecer Sartre, claro), a consciência só é consciência se consciência de algo, o que nos coloca enquanto seres conscientes num campo intencional inescapável. Ora, então não há gratuidade em nada, nem na fé. A confiança gratuita é apenas um ideal construído, um autoengano conveniente.

A fé é uma barganha, por mais sincera que seja. Sub-repticiamente há um campo intencional e utilitário que apazigua, dá força, enche de coragem e alimenta essa fé através de nossa mente descontínua, que pincela apenas os benefícios e subsome tautologicamente os problemas e prejuízos. E digo isso, saliento, sem questionar a veracidade do objeto da fé, mas sim seus efeitos e forma de operar.

Não há nada em nós que não seja ponderado por uma medida avaliada pelo soma, seja de forma consciente ou não. Portanto, por trás de toda relação, principalmente a intencional, há uma ratio, uma razão. Se concedermos que a fé seja espontânea, ainda sim há um raciocínio por trás para seu estabelecimento, uma medida que a estimule, uma ponderação que seja. A palavra raciocínio é ambígua, pois parece pressupor sempre uma deliberação. Porém constantemente nosso corpo, nosso subconsciente está raciocinando reativamente, ponderando, medindo, controlando e atuando diante das coisas. E é possível ler a lógica por trás dos comportamentos e resultados desses comportamentos, ou seja, a lógica dessa ratio que está aquém ou além da ilusão de livre arbítrio que alimentamos.

O raciocínio estabelecido sob fé já é uma fé como raciocínio, ou seja, um raciocínio subsumido pela fé. Ela própria é a garantia de si mesma. Portanto, ela é uma confiança tautológica de troca. Ela pretende ser um ato de salvação, mas é um ato de esperança, sobretudo, de se salvar (ou safar).

Blog do autor Filosofando na Penumbra

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

De nosso caso, um poema (meu adultério)



By Anderson Luíz,



As vezes me sinto poeta,
certas horas me faço poeta,
outras vezes me desnudo inteiro.

Deixo minhas lágrimas escorrem pela pena
A gotejarem letras no papel.
Mas não são lágrimas, é meu deleite...

Meu deleite, teu deleite
Nosso caso impossível,
só possível com a pena e o papel...

Nosso caso, nosso abraço, nosso amor,
impossível, no possível, é real.
Surreal? Meu deleite...

És meu caso, te abraço, me arranhas,
Nosso coito, em meu gozo eu me escorro
Me esbaldo e eu grito e te explodo

Em meu grito, tu pereces
E em teu sangue com meu sêmen
Fica as manchas a escorrerem no papel.

Nasce o verso, entre tinta, sangue e sêmen.
Nasce a estrofe, entre grito, gozo e morte.
Nasce o poema, entre alma, tinta e papel.

Anderson L. de Souza

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Responsabilidade é Minha, em Contrapartida a Culpa da Religião




By Matheus De Cesaro

“A fé sem ciência é loucura, a ciência sem fé é fanatismo” (Martinho Lutero)


Estou a alguns meses analisando e buscando entender algumas questões que envolvem crenças e convicções  associadas a violência e intolerância. E é certo que os nobres amigos concordam comigo que a violência é uma atitude um tanto quanto desprezível ao ser humano, sendo este dotado de racionalidade. É muito comum ouvir e ler frases de defesa a determinadas mazelas do tipo, “é culpa das religiões”, “é culpa da igreja”. Mas confesso que ultimamente eu fiquei muito inquieto e pensativo a respeito destas afirmações, que tendem a acusar, mas no fundo me parecem um mecanismo de defesa, um mecanismo de fuga as responsabilidades.  Percebendo  que há muitos religiosos que são exemplos de caráter, e que fazem o que for possível para promover a paz em todos os âmbitos, e também vendo uma infinidade de não religiosos que espumando nos cantos da boca promovem violência, ódio, ira e males a sociedade, resolvi tentar entender tudo isso, digo tentar, porque há algumas atitudes que são incompreensíveis (tanto de religiosos, como de não religiosos) se tratando de seres que em tese, pensam. Por isso quero aqui neste artigo falar um pouco sobre este “fanatismo”. Mas não o fanatismo religioso somente, mas sim, o fanatismo em si mesmo, nas nossas convicções. Que sejam as cartas lançadas sobre a mesa!

Começo trazendo o significado literal e etimológico do termo em questão.

"Segundo o dicionário Aurélio, fanático é aquele que segue cegamente uma doutrina ou partido, o termo não esta ligado unicamente a doutrinas políticas ou religiosas, pois tudo aquilo que leva o indivíduo ao exagero é considerado como forma de fanatismo. Esse termo tem uma de suas raízes no francês "fanatisme" e corresponde ao estado psicológico de extremo fervor, irracionalidade e obcessiva persistência naquilo que diz acreditar, independente de ser positivo ou negativo. É  extremamente frequente a paranóias, cuja apaixonada adesão a uma causa pode avizinhar-se de delírio e da insanidade."

Para a psicologia, o quadro clínico de um fanático se faz real, quando o mesmo apresenta sintomas como, agressividade fora do normal, multiplicidade de preconceitos irredutíveis, dificuldade de compreensão a outras ideias devido a uma estreiteza mental, uma extrema credulidade no que são suas convicções ou a um sistema de crença, ódio, criação de sistemas subjetivos de valores próprios e por fim um intenso, cansativo e incontrolável individualismo. 

Pessoas que apresentam este quadro clínico são tendenciosas a radicalismos extremos, e são levadas a uma completa intolerância com aqueles que ousam não compartilhar de suas ideias e predileções. Segundo diagnósticos psicológicos, pessoas com estes comportamentos são marcadas por atitudes irracionais e agressivas, que podem chegar a extremos perigosos, fazendo até mesmo uso da violência como recurso para defenderem seus pontos de vista.

Estamos acostumados a identificar estes comportamentos na esfera religiosa com mais frequência, mas gostaria de enfatizar aqui, que este comportamento doentio esta longe de ser um privilégio dos "religiosos", e se percebe também nos meios cientifico, politico, esportivo, e tantas outras áreas. Por isso debater dentro da esfera religiosa, atribuindo o fanatismo somente aos religiosos e fazer da religião uma válvula de escape para camuflar fanatismos internos, que seriam nossas próprias convicções que defendemos com unhas e dentes. Talvez a hipótese de que todos nós sejamos fanáticos em nós mesmos (próprias convicções) seja um ideia mais próxima de ser uma suposta verdade. Pois se analisarmos bem, com honestidade, é muito comum defendermos com muito empenho e determinação nossos discursos, os tornando plausíveis e coerentes ao momento e contexto em que estamos. E nisto, muitas vezes, nos tornamos inconscientemente (as vezes conscientemente, o que é uma lástima) intolerantes difundindo preconceitos, desavenças, ódio e raiva ao contraditório.

Se analisarmos a história das religiões e suas bases principais, suas origens, constataremos que todas possuem um objetivo principal definido, e em tese bom. Que é o aperfeiçoamento do ser humano por meio de um Ser maior, divino, que por meio de um processo especifico (conforme a crença escolhida) o aperfeiçoa no intuito de que se torne uma pessoa boa. Existe um alvo, uma diretriz, que se for seguida pela base principal, a origem da religião em si, não tem maneira de se produzir o mal, a não ser pela cegueira do fanatismo. Por isso insisto em enfatizar, que o mal nasce na esfera religiosa, quando se perde o alvo, o foco, e se deixa tomar pelos seus fanatismos internos, criando assim seus próprios alvos. Como disse o filósofo e ensaísta americano George Santayana ao falar sobre como via o fanatismo, "O fanatismo consiste em intensificar os nossos esforços depois de termos esquecido o nosso alvo". É para mim, aqui que nasce e reside o mal das religiões, no homem, e não na religião em si.

Longe de mim, tentar aqui inocentar a religião, apenas tenho o intuito de afirmar que assim como não é a religião inocente, também não pode ser ela culpada. Pois são os homens, somos nós que a construímos, é são nossas as responsabilidades pelas mazelas que surgem  e pela má compreensão da ideia são produzidas, e acabam pela mídia se tornando a  ferramenta que a transforma em um terrível monstro a ser combatido. Trago este assunto a tona, não por ser um religioso ferrenho, até porque não o sou. Mas pelo fato de perceber que se tornou meio que um "modismo" culpar a religião pelas mazelas existentes. É assim nos confrontos na Palestina, é assim no caso da homofobia, no caso do aborto não ser legal em alguns países, é assim sempre que há casos de violência e preconceitos, e no meio há alguém com a bandeira de alguma religião levantada. Seria tudo culpa da religião mesmo?

Eu participo de fóruns com religiosos e não religiosos, e vejo diariamente discussões onde acusam a religião de intolerância, e ao mesmo tempo agem contra a mesma com intolerância mutas vezes até maior. A grande maioria dos não religiosos expressam uma raiva gigantesca, ódio, e isso não acontece porque não são religiosos, mas sim porque alimentam convicções irrefutáveis em suas mentes, das quais seriam capazes de tudo para defende-lás. E então? A culpa é da religião?

Estas afirmações tendenciosas não seriam apenas fuga de suas próprias responsabilidades?

Até que ponto a religião é como afirmou Jung, "fundamental ao funcionamento do psiquismo e ajuda o homem a compreender realidades do universo que não podem ser conhecidos de outras maneiras".

Quando se encerra o fenômeno religiosos e entra em cena um quadro clínico de fanatismo, tornando a culpa desta atrocidades em nome da religião uma responsabilidade pessoal?

Encerro este pequeno ensaio, com uma frase do meu poeta e filósofo favorito, denominado pelos critícos de "filósofo pop", Friederich Nietzsche

"O fanatismo é a única forma de força de vontade 

acessível aos fracos"



Matheus De Cesaro é colaborador do blog Mundo da Anja. Para ler mais textos deste autor, no link: Artigos Matheus De Cesaro(link) ou em seu blog:  http://filoboteco.blogspot.com.br

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Pena De Morte - Coerente?



By Matheus De Cesaro

Um dos assuntos mais polêmicos e atuais em meio a esta era de violência que vivemos no Brasil. Um assunto que é defendido por alguns e pela grande massa religiosa, principalmente católica e protestante é um ato contrário ao que Deus tem como justo.

Abaixo estão listadas algumas considerações que justificam a pena de morte, e a colocam como algo coerente com a justiça de Deus. Observe leitor, que minha intenção não é defender a pena de morte, mas sim abrir um espaço para o debate acerca deste importante e pertinente tema.

1ª objeção: Não pode haver pena de morte porque podem acontecer erros e acabar-se matando inocentes.


Resposta: Segundo esse argumento, tudo o que contém algum risco de erro é ilegítimo. Se esse argumento procedesse, deveriam ser proibidos o avião e o automóvel, porque acontecem vários acidentes por ano e muitos inocentes morrem. "Abusus non tollit usum" (o abuso não tolhe o uso), é uma máxima do Direito absolutamente verdadeira. Caso contrário, a vida em sociedade seria impossível.


2ª objeção:  Um erro não justifica outro.


Resposta:  A objeção normalmente parte do pressuposto de que a pena de morte é um erro, sem se dar ao trabalho de provar isso. Se assim fosse, a mãe não poderia bater no filho quando ele faz alguma travessura, já que bater é errado e não poderia ser usado para corrigir outro erro.  Dever-se-iam extinguir as cadeias, porque os erros dos criminosos não justificariam outro erro que é o cárcere forçado. E assim por diante.

3a. objeção:  Só Deus pode tirar a vida. E Ele ordenou: "Não matarás".

Resposta:  Então, a Bíblia estaria errada quando diz: "O que ferir um homem querendo matá-lo, seja punido de morte" (Êxodo 21,12). "O que ferir o seu Pai ou sua Mãe seja punido de morte" (Êxodo 21,15). "Aquele que tiver roubado um homem, e o tiver vendido, convencido do crime, morra de morte"(Êxodo 21,16). Na verdade, a ordem divina "Não matarás" significa que ninguém pode matar sem motivo, sem razão. Não impede o assassinato em legítima defesa. Ora, a pena de morte nada mais é do que a legítima defesa da sociedade contra o criminoso em questão. Se a objeção procedesse, não haveria previsão alguma da pena de morte na própria Bíblia Sagrada.

4ª objeção:  A Igreja Católica é contra a pena de morte

Resposta: A Igreja sempre ensinou que a pena de morte é legítima. Ela não poderia ir contra o que a Bíblia ensina de modo tão explícito. Vários santos defenderam a pena capital, entre eles: São Jerônimo, o doutor máximo das Escrituras, Santo Agostinho, São Pio V, São Pio X e São Tomás, o maior doutor da Igreja. Quem se opõe à pena de morte não é a Igreja, mas alguns padres e bispos. São Paulo ensinou que a pena de morte é legítima: "Paulo, porém, disse: Estou diante do Tribunal de César, é lá que devo ser julgado; nenhum mal fiz aos Judeus, como tu sabes muito bem. E, se lhes fiz algum mal ou coisa digna de morte, não recuso morrer..." (Atos XXV, 10-11). São Paulo afirma que existem ações que são dignas de morte. É, portanto, favorável à pena capital. Diz ainda, em outra passagem: "Os quais, tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem tais coisas são dignos de morte; e não somente quem as faz, mas também quem aprova aqueles que as fazem" (Rom I, 32).


5ª objeção: Não se pode punir os criminosos com a morte. Ninguém tem esse direito.

Resposta: É necessário punir os faltosos. A justiça manda "dar a cada um o que é seu".

Quando um ladrão rouba uma pessoa, cometeu uma injustiça e a vítima, além da sociedade, é "credora" desse ladrão. Então, para se fazer justiça, o ladrão deve pagar. Restituir o que subtraiu à vítima e pagar uma pena. Por isso sempre se diz: "O criminoso está em dívida com a sociedade", "Já paguei minha dívida com a sociedade". Os maus devem ser punidos, é o que ensina São Tomás na "Suma contra os gentios", em que cita algumas passagens da Bíblia: Diz o Apóstolo: "Não sabeis que um pouco de fermento corrompe a massa?" (ICor 5, 6e13), acrescentando logo após: "Afastai o mal de vós". Referindo-se à autoridade terrestre, diz que: "Não sem razão leva a espada, é ministro de Deus, punidor irado de quem faz o mal" (Rm 13,4). Diz S. Pedro: "Sujeitai-vos a toda criatura humana por causa de Deus; quer seja rei, como soberano; quer sejam governantes, como enviados para castigar os maus, também para premiar os bons" (1Pd 2,13-14). De acordo com essas passagens, a punição é necessária, e os governantes têm o direito de punir. A pena deve ser proporcional ao agravo. Desse modo, para uma infração leve devemos ter uma pena leve, para uma infração média, uma pena média, e para uma infração grave, por exemplo, um assassinato, devemos ter uma pena forte, que é justamente a pena de morte. Por isso a Bíblia elenca e descreve uma variedade enorme de crimes que são dignos de morte.


6ª objeção: A pena de morte não resolverá nada. Os EUA são a prova disso.


Resposta: Resolve sim. Primeiro porque um apenado com a pena capital não cometerá crimes novamente. Segundo, porque nos países onde ela existiu, no decorrer da história, sempre houve baixa criminalidade. Por exemplo, na França. Em Paris, entre 1749 e 1789 - quarenta anos - aconteceram apenas DOIS assassinatos. E hoje em dia, nos países que aplicam a pena máxima - como é o caso dos países árabes e de Cingapura - há baixíssima criminalidade. Nos EUA, se não houvesse pena de morte haveria ainda mais crimes. Além disso, o sistema americano é imperfeito; há poucas condenações e os processos são demorados demais. Em New York a criminalidade está despencando de forma muito rápida e um dos motivos é a aprovação da pena de morte.

7ª objeção: É uma falta de caridade com o criminoso. É contra os princípios cristãos.

Resposta: Pelo contrário. Como ensina São Tomás, o ódio perfeito pertence à caridade. A pena de morte na verdade é caridosa. Quando aplicada a um criminoso irrecuperável, ela impede que ele cometa mais crimes, ou seja, impede que cometa mais pecados. Como dizia São Domingos Sávio, "é preferível morrer a cometer um pecado mortal". Além disso, a pena capital, é uma excelente oportunidade para que o criminoso se arrependa de seus crimes e ofereça sua vida como pagamento de seus pecados. O criminoso, no corredor da morte, tem uma rara oportunidade de salvar-se, bastando arrepender-se e confessar a um sacerdote antes da execução.


8a. objeção: Não se pode abreviar a vida porque existe a possibilidade de uma graça futura ou de um arrependimento futuro.


Resposta: Ora, para Deus não existe tempo. Se tal pessoa deveria receber uma graça no futuro, Deus "anteciparia" tal graça. Por outro lado, a Justiça não pode trabalhar com meras "hipóteses" ou "suposições". Na argumentação de São Tomás, o perigo de um criminoso para a sociedade é maior do que a chance dele se converter, e por isso deve ser eliminado. Seria uma questão de análise, de bom senso, e de segurança.

9a. objeção:  Jesus Cristo foi contra a pena de morte

Resposta: Jesus Cristo é Deus. Deus é o autor mediato da Bíblia. Se a pena de morte fosse errada, não haveria previsão na Sagrada Escritura. No Novo Testamento há várias passagens pró pena de morte: S. João XIX, 10-11: "Então disse-lhe Pilatos: Não me falas? Não sabes que tenho poder para te crucificar, e que tenho poder para te soltar? Respondeu Jesus: Tu não terias poder algum sobre mim se te não fosse dado do alto...". Ou seja, Deus deu a Pilatos, autoridade constituída, o direito de aplicar a pena de morte. É claro que com Nosso Senhor, Pilatos usou mal esse direito. E no Apocalipse: Apoc XIII, 10: "Quem matar à espada importa que seja morto à espada".


10ª objeção: As pessoas que defendem a pena de morte assim o fazem porque não serão elas as executadas. Se um filho dessas mesmas pessoas estivesse no corredor da morte seriam as primeiras a protestarem contra a pena capital. 

Resposta: Se esse raciocínio fosse verdadeiro, teríamos de acabar com todas as penas, porque quem comete um crime não quer ser condenado, mesmo que tenha defendido a pena para esse crime. O argumento equivale a dizer: "As pessoas que defendem a pena de cárcere forçado assim o fazem porque não serão elas as prisioneiras. Se um filho dessas mesmas pessoas estivesse preso seriam as primeiras a protestarem contra a prisão".


11a. objeção: Quem é contra o aborto, não pode ser a favor da pena de morte.

Resposta: Raciocínio torto esse, totalmente "non sense". Somos a favor de punir bandidos sem o menor escrúpulo, e não inocentes que nunca fizeram nada. Esse raciocínio é o equivalente a dizer o seguinte: "quem é contra prender uma criança durante dez anos numa cela, não pode ser a favor de prender um criminoso por dez anos numa cadeia". A tese contrária é verdadeira "Quem é a favor do aborto não pode ser contra a pena de morte". Se alguém defende o assassinato de uma criança inocente, não poderá ser contra a execução de um bandido. Infelizmente, hoje em dia, há várias pessoas que são favoráveis ao assassinato intra-uterino (aborto) e são contra a pena de morte. É o cúmulo do "non sense". 


12ª. objeção: Se no passado ela poderia estar certa, a pena de morte hoje em dia não tem mais cabimento. A tendência do mundo é de acabar com ela, não podemos impedir a evolução das coisas. A pena de morte não é compatível com um mundo civilizado.

Resposta: De acordo com esse raciocínio as tendências do mundo moderno são todas excelentes e inatacáveis. Entretanto, hoje a tendência é de que os partidos neo nazistas cresçam. Então, esses partidos estariam certos? A tendência é o déficit público aumentar. Então, o deficit é bom? A tendência é o trânsito aumentar, a criminalidade aumentar."Tendências" não significam nada, podem ser ruins ou boas. Não existe "evolução" para a verdade. É justamente hoje em dia que precisamos mais da pena de morte, porque há mais crimes. Civilizado é um mundo com baixa criminalidade e não um mundo em que se mata por questões insignificantes e sem valor.

 13ª. objeção: As penas devem ser educativas, para recuperar o criminoso, e não para vingar.

Resposta: Toda a pena é vindicativa. A recuperação do criminoso está em segundo plano. O primeiro dever do Estado é proteger a sociedade, e não recuperar o indivíduo. O todo vale mais que a parte. Ademais, a pena de morte é extremamente educativa para todo mundo.


 14ª objeção: A maioria das pessoas é contra a pena de morte.


Resposta: Não é verdade. A maioria das pessoas é a favor da pena capital. Nos EUA em torno de 75%, no Brasil deve ser também. Bastaria um plebiscito para confirmar esse dado.

15ª. objeção: Não se pode punir os criminosos com a pena capital porque a culpa é da sociedade. A pobreza é que causa a criminalidade. São traumas psicológicos que causam o crime.


Resposta: Então, a Igreja estaria errada quando ensina que existe o livre arbítrio e, por causa dele, podemos escolher entre o bem e o mal. Os crimes existem em função da maldade humana que escolhe o mal em vez do bem. Se a sociedade fosse a culpada, não poderia haver Direito, não poderia haver nenhum tipo de repressão. O próprio Direito Civil seria inútil, pois, todo o inadimplente poderia alegar que não pagou por culpa da sociedade, e o credor não poderia cobrá-lo. O mesmo aconteceria com os "traumas psicológicos". Dizer que a pobreza causa a criminalidade é dizer que todo pobre é ladrão. Ou seja, é uma frase preconceituosa. Se fosse assim, a Índia, um dos países mais pobres do mundo, seria o mais violento. Entretanto, é um país com baixa criminalidade.


Qual deveria então ser a posição dos religiosos no Brasil? Deveriam seguir piamente as escrituras que lhe servem de base?

Como disse, proponho ao leitor aqui a reflexão, não defendendo nenhuma das partes, mas a favor de que seja discutido o assunto.

Texto fornecido pelo amigo Celso Luis Ferreira

"O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis."
Platão

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Deus não existe!



By Edson Moura


Procure entender o pensamento de um existencialista ateu. Ele tenta dizer que Deus não existe e que existe apenas um ser cuja existência precede a essência, a saber...o homem. Como diria Dostoievsk: “Se Deus não existisse tudo seria permitido”. O homem “abandonado” e “sozinho” no mundo, sem um criador no qual possa se amparar é o seu próprio criador.

O homem é o que é. Ele se constrói a partir do nada e por isso vive de angústias, de náuseas, como diria Sartre. “Tentando ser”, o homem depara-se com o desejo de ser Deus e com a angústia de jamais poder sê-lo. A ideia de Deus para o homem é de onipotência e onisciência, e o desejo de sê-lo representa ser e compreender tudo, não sofrer limites e condicionamentos, realizar-se em todos os sentidos possíveis.

Mas Deus não resolve nada. Esta é a base de todo ateísmo sartreano. Ele julgava que Deus não ajudava ou colaborava com as realizações ou problemas humanos, porque toda e qualquer experiência que o homem realiza, seja ela boa ou má, quer o leve ao prazer...à angústia ou até mesmo à náusea, é de sua inteira responsabilidade. O homem é só e, como tal, é responsável por tudo o que fizer, pois o nada de onde vem o persegue por toda a “eternidade”.

Em determinado momento da minha vida eu tive a necessidade de Deus, ele me foi dado, e eu o recebi sem compreender na verdade o que procurava. Mas este Deus por não ter raízes em meu coração, vegetou em mim durante um período de tempo...mas logo morreu.

Posso comparar “fé” com “necessidade”, pois na minha concepção, são termos similares. O homem sente a necessidade de encontrar um sentido para vida, pois, nascido sem razão ou com um propósito pré-determinado, descobre-se como angústia. Essa necessidade se reflete na crença.

Ter fé em Deus é o mesmo que alienar-se diante de sua própria liberdade. O absurdo do mundo é absoluto devido a sua constante possibilidade. Tudo é gratuito. A vida humana não possui sentido e, para superar esta faceta da existência, o homem inventa Deus. Entretanto, cabe ao homem dar sentido a sua própria vida.

Ora, acreditar que a vida humana tem um sentido dado por Deus, não passa de uma grande ilusão. A única coisa que a vida dá ao homem é a sua liberdade de poder escolher fazer dela o que bem quiser. Se Deus não existe, cabe ao homem decidir, sozinho, o melhor caminho para suas escolhas, que conseqüentemente determinarão sua vida e sua essência.

Também critico o conceito de Deus que é propagado, pois o descrevem como uma entidade inteligível, mas que não pode ser compreendida. A única prova que temos da existência de Deus é a fé, e isso eu também critico. Pelo menos uma evidência, deveria ser critério fundamental de inteligibilidade, mas como não há provas ou evidências, acredito ser impossível aceitar a existência de Deus.

O conceito de Deus criado pelo homem une todos os desejos que o homem deseja para si. O que o homem chama de Deus, nada mais é do que a sua aspiração, o seu próprio projeto supremo de vida, todas as idéias que o homem deseja para si e que sabe que jamais conquistará, porque por mais livre e capaz que seja, ele possui limites impostos pela natureza.

A religião, assim como a superstição, anula a liberdade humana. O povo, sob o comando de Deus, é servil e escravo...sem vontade e amedrontado. Para que de fato o homem possa “viver”, Deus precisa desaparecer. “Se Deus existe, o homem é um nada, mas se o homem existe...então...Deus não existe”.

Se o homem se considera livre, e pretende manter essa sua liberdade, ele deve escapar e se distanciar de Deus. O homem deve escolher a si mesmo e, conseqüentemente, amar a humanidade em oposição ao amor de Deus. Se Deus não existe não há imposição de valores, não há firmamento nem moral por fundamento. Cabe ao home “re-significar” a ética a cada instante, “re-significar” cada valor sem refugiar-se em justificativas ou desculpas, pois está sozinho no mundo junto com outros seres tão mortais quanto ele.

O homem só desenvolve uma relação consigo mesmo quando elimina Deus de sua vida, pois passa a ter uma relação direta com o mundo, e não com “algo transcendental”. É como disse Fauerbach: “Deus não cria o homem, é o homem que cria Deus”. A fé religiosa representa as próprias qualidades e aspirações do homem que, ao sentir-se fracassado, aliena-se e constrói uma divindade superior.

Edson Moura

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O PROBLEMA DA "EX-HOMOSSEXUALIDADE" (By João Marinho)




Após um período de descanso curtindo as férias de meus filhos, estou retomando as atividades do blog Mundo Da Anja e estarei retomando as atividades no blog Poemas e Contos Da Anja, mas ainda com menos intensidade, pois ainda estou curtindo as férias dos pequenos.

E já volto com este excelente (como sempre) texto do cronista João Marinho. 

Leiam, comentem, pensem, discutam!


O PROBLEMA DA "EX-HOMOSSEXUALIDADE"

Pensei muito em voltar a escrever sobre o tema e em começar fazendo uso de uma situação difícil que uma conhecida minha está passando – mas não posso me furtar a apresentar a enganação que, baseadas em um livro arcaico e em dogmas ultrapassados, tantas igrejas e tantos cristãos insistem em defender: a ideia de que é possível ser “ex-gay”.

Este ano, publiquei, não sem um certo prazer, uma nota no site A CAPA que informava que a Exodus International, uma das maiores associações religiosas de “ex-gays” do mundo, reconheceu que a reversão da orientação sexual não é possível e que, nesse sentido, a homossexualidade é uma “cruz” que cabe ao “ex-gay” carregar e contra a qual lutar ao longo de sua vida, no projeto de viver de acordo “com a vontade de Deus”, quer seja: casando-se e tendo mulher e filhos. Não é o ideal, mas é um passo na direção mais sábia.

Muitos aqui sabem que eu já fui um gay evangélico – já tentei a via da oração por muitos anos, já fui um adolescente deprimido e em crise por causa disso. Também já tive amigos que tentaram outras vias mais “concretas”, até mesmo se internando em fazendas evangélicas que praticavam verdadeiras atrocidades psicológicas. Outros entraram em “grupos de aconselhamento” e outros ainda tentaram a via do exorcismo.

Graças a Deus (olhem a ironia), eu me livrei de tudo isso, nunca cheguei a esses extremos e, liberto, hoje sou feliz com minha sexualidade – mas de todos os que vi se declararem “ex-gays”, sempre foi essa a minha percepção. Na verdade, eles nunca deixavam de ser gays, ou seja, de sentir atração por homens. Recorrendo a expedientes de repressão psicológica ou de matriz religiosa, deixavam de PRATICAR O SEXO com os homens e, em nome de suas convicções, seguiam uma vida de COMPORTAMENTO heterossexual, tendo, porém, de se policiarem contra o sexo gay como um alcoólatra em tratamento: “não se pode dar o primeiro gole”.

A questão que se impõe é... Se um alcoólatra que não bebe mais pode ser chamado de “ex-alcoólatra”, por que um gay que não transa mais com homens não pode ser chamado de “ex-gay”? Em que pese o fato de que já vi alcoólatras dizendo que não existe “ex-alcoólatra” – você sempre será um, ou seja, terá aquele problema com o álcool, o que muda é se está sóbrio e abstêmio ou não –, eu responderia que a questão é de conceito.

Por má informação, ou má-fé, boa parte da população não compreende que o conceito de orientação sexual está ligado ao desejo, tomado em sua acepção ampla e ao longo da vida. Orientação tem esse nome porque indica a quem o desejo sexual, incluindo sua face afetiva, está ORIENTADO, dirigido, direcionado, e é ISSO que define se a pessoa é hétero, homo, bi ou pan, não o sexo da pessoa que está ao lado na cama.

Em suma, como costumo explicar, eu faço sexo com homens porque sou gay – não sou gay porque faço sexo com homens. Da mesma forma, um homem hétero faz sexo com mulheres por ser homem hétero, de antemão – não é pelo fato de praticar essa modalidade de sexo que ele se torna hétero.

O ato sexual-genital é, portanto, o RESULTADO possível e provável da orientação sexual, não sua causa: o desejo antecede o ato. Tendo isso em vista, se o desejo da pessoa está orientado para o mesmo sexo, ela é homossexual, ou gay – independentemente de concretizar esse desejo mediante relações sexuais ou não. Gays (como héteros, bis e pans), portanto, podem ser celibatários, abstêmios e até mesmo se relacionarem com pessoa de sexo diverso. Também podem ser virgens – e isso é relevante, porque, se o que definisse a orientação sexual fosse o ato, e não o desejo, qualquer pessoa que ainda não tivesse transado não seria “nada”, não teria orientação sexual, o que é efetivamente um absurdo.

Trazendo isso para o que estamos discutindo aqui, então, o “ex-gay” não é “ex-“ porque o desejo pelo mesmo sexo fatalmente estará ainda, ou sempre, como admitiu a Exodus, presente. Não é por ter uma mulher e filhos com ela que, por isso, ele deixou de ser gay: basta apenas que o desejo pelo mesmo sexo esteja lá, como parte integrante da personalidade – e a verdade nua é crua é que, se você tem de lutar continuamente para não ceder a uma determinada vontade, ou para reprimi-la, a lógica impõe a realidade de que essa vontade EXISTE, em primeiro lugar.

A descoberta de que essa “vontade” está lá não costuma ser um processo fácil, mesmo para aqueles que não são religiosos. Vivemos em uma sociedade homofóbica, em que destoar do padrão “homem com mulher” equivale a sofrer pressões e repreensões, enfrentar preconceitos – inclusive os nossos próprios – e até mesmo atos de violência. Diante disso, não chega a ser inesperado que o gay que recentemente se descobriu assim anseie “por se tornar hétero”, porque, afinal, quem quer passar por sofrimentos?

A constatação dessa realidade faz com que muitos na igreja, e fora dela, acreditem assim que possibilitar “tratamentos”, espirituais ou não, para permitir à pessoa alcançar essa meta é uma demonstração de caridade e piedade humana – e, alguns, nutridos desse ideal de compaixão, chegam a apoiar teses como a do recente projeto de Decreto Legislativo que quer derrubar a proibição de psicólogos oferecerem tratamentos objetivando a “cura da homossexualidade”, em discussão no Congresso.

Existem, porém, outras três verdades nuas e cruas. Uma delas é que a ciência – que deve pautar a ação do psicólogo enquanto profissional – já tentou a via da “cura”, sem sucesso, conforme demonstram bastantes evidências, que se acumulam de décadas atrás até hoje. A segunda é que esses tratamentos, e incluo aqui os espirituais, costumam mais piorar do que melhorar a psique das pessoas. Reprimir um desejo legítimo não acontece sem se pagar um preço – e não é difícil imaginar quão pode ser difícil e tensa uma vida em que o policiamento contra uma força tão legítima e primária é a regra.

A terceira verdade nua e crua é que basta arranhar a superfície para saber que não é a homossexualidade o problema, mas a homofobia: se a sociedade facilitasse a vida dos gays, em vez de os recriminar, se os pais deixassem o amor por seus filhos falarem mais alto, quem negaria que, em vez de tentarem “virar héteros”, tantos gays não tentariam viver uma vida plena e harmônica com sua sexualidade, sem sofrerem perseguição por causa disso?

No entanto, quero aqui falar do segundo ponto, o preço por viver uma vida reprimindo um desejo. Para isso, vou retomar o primeiro parágrafo: por que é uma enganação que as igrejas e os cristãos defendam que é possível ser “ex-gay”? Porque, além de ser, no mínimo, questionável falar em “ex-“, diante dos conceitos esclarecidos até aqui, muitas vezes, esses mesmos cristãos e suas igrejas não sabem, e nem mesmo fazem questão de saber, do preço que pagam essas pessoas.

A história de uma conhecida minha, que me motivou a escrever este artigo, não será revelada em detalhes, a fim de manter intacta sua privacidade e seu sofrimento. Basta saber que, depois de ter se casado e ver sua vida sexual com o marido com quem tivera filhos decrescer em qualidade por um certo período de tempo, pelo qual ela culpava a si mesma, descobriu que seu marido a traiu com outro rapaz. Os personagens são evangélicos.
Não se pode negar o sofrimento por que ela passou e tem passado, embora tenha tido a grandeza de enxergar nisso uma libertação: não era “culpa” dela, afinal – e, aqui, a tendência dos moralistas de plantão é enxergar no ex-marido um pulha, que não soube honrar o casamento e destruiu a família com as próprias mãos.

Uma análise mais aprofundada, no entanto, mostra que essa é uma situação em que não existem verdadeiros vilões. Criado em uma família evangélica e extremamente conservadora, o marido – de quem sempre desconfiei graças a meu “gaydar” –, certamente não teve uma vida mais fácil, ainda mais diante dos olhos de quem, como eu, descobriu na própria carne como é difícil se perceber gay e ser evangélico.

Como terá sido a vida desse moço, obrigado a recusar a si mesmo o benefício de procurar uma vida mais completa condizente com seu desejo, em nome de estar fazendo o que “Deus queria”? E como deve estar sendo essa situação, ao ter percebido que, pelo fato de o desejo, por tanto tempo reprimido, ter cobrado a fatura que ele não conseguiu pagar, ter magoado tantas pessoas ao mesmo tempo, inclusive a mulher que certamente amou (sim, porque há muitos casos de gays que foram casados com mulheres que efetivamente amaram suas esposas, até por existir, nos ensinam os gregos, mais de um tipo de amor)?

Agora, não haverá ninguém, especialmente em sua igreja, para ver seu lado e apoiá-lo. Desprezado por todos, culpando a si próprio e sozinho, ele ainda poderá enfrentar a ira evangélica e da família, se descobrirem a realidade dos fatos, por ter cedido aos “desejos de Satanás”, quando Satã não tem nada a ver com a história. O que há aqui, para quem, como eu, já está mais do que escolado, são seres humanos às voltas com suas escolhas, algumas delas indevidas frente ao desejo e sua própria natureza, e uma religião patentemente insensível a essas demandas, que prefere o sofrimento calado de um homem para manter as aparências e dogmas do que propiciar a esse ser humano uma alternativa de harmonizar sua sexualidade e seu sentimento religioso. Será que ele é mesmo o pulha?

Na minha concepção, se minha conhecida poderá se recuperar com certa velocidade do baque – quem sabe, encontrando outro homem que a faça feliz e a deseje sexualmente de verdade –, a situação do marido é bem mais complicada, e, se ele não tiver ajuda para se libertar dos dogmas religiosos, pode piorá-la, envolvendo-se em “tratamentos”. Quem sabe, caindo em intensa depressão, não tente uma alternativa ainda mais “concreta”, que poderia atender pelo nome de drogas ou suicídio...

Essa verdade nua e crua e FEIA é só uma das que se escondem por trás das histórias dos “ex-gays”, mas, convenientemente, muitos pastores e suas igrejas fazem questão de não abordá-la em seus cultos evangelísticos transmitidos nas televisões de concessão pública. Quem conhece esse lado somos nós, outros gays, que pouco temos voz, e estamos igualmente sozinhos, procurando ajudar aqueles que passaram por martírios que, às vezes, nós também já experimentamos.

Certamente, o marido será apresentado como um “falso crente”, quando a única coisa falsa aqui é o dogma religioso e sua promessa de “ex-homossexualidade”, ou ainda, a falsa promessa de que a felicidade real só se encontra em um casamento hétero, “de acordo com a vontade de Deus”.

A história que acabo de relatar me fez lembrar de outra, talvez o primeiro caso de “ex-gay” com quem tive contato, quando eu contava com cerca de 18 anos. Francisco era o nome dele, gay efeminado que costumava ir a certa praça em minha cidade “caçar”, como eu à época, companhias masculinas.

Soube por amigos em comum que Francisco se convertera à CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL e, após se submeter a “aconselhamentos” e sessões que beiravam o exorcismo, estava noivo de uma mulher da igreja. Tentei argumentar com ele, mas diante de sua convicção inabalável, não me restou alternativa a não ser me resignar – apenas para, cerca de nove meses depois, reencontrar Francisco, já casado, novamente procurando companhias masculinas no mesmo lugar.

Uma conversa foi bastante reveladora. Deprimido, ele argumentou ter tentado de tudo, sem sucesso, e que “esse negócio de cura não existia”. “Pois é”, respondi eu, “mas agora você envolveu outra pessoa, que está em casa te esperando. Como é que fica?”. “Como é que fica”, pergunto eu, se, numa dessas, ele sofresse uma violência, ou se, tomado de intenso e cego desejo, descuidasse de sua proteção e pegasse algo e o transmitisse à mulher?

Novamente, veríamos o Francisco como o vilão, que enganou a todos... Mas será que não foi ele o enganado? E será que não foram os fiéis da igreja os enganados? Quem duvida de que Francisco foi apresentado como um caso de “restauração pelo poder de Deus”, por “ter sido gay” e agora estar casado? Talvez ele fizesse até uma ponta no programa de Silas Malafaia – e, no entanto, novamente, somos nós, outros gays, que temos de lidar com esse lado escuro e feio do que as igrejas gostam de mostrar em seus shows evangélicos.

Francisco e o ex-marido de minha conhecida não eram e não são pessoas de má índole, como certamente não o são suas mulheres. Podem ter “errado”, se considerarmos “erro” a “traição” sem levar em conta seus motivos – operação ESTA que eu, particularmente, considero o verdadeiro erro –, mas eram humanos devotos, convictos da ação do evangelho em suas vidas e de seguirem o desejo de Deus.

Só nos resta perguntar que Deus é esse, que deseja e prefere a mentira em vez da verdade, a aparência em vez da harmonia, a traição em vez da cumplicidade, o dogma em vez da felicidade, o sofrimento em vez da plenitude, como se a homossexualidade fosse um erro, em vez de uma via possível para se estar bem consigo mesmo... Um Deus que prefere ver um “ex-gay” sofredor e em uma luta inglória a um gay feliz, arrastando junto ao primeiro uma família inteira. Se é esse o Deus que a igreja acredita, lamento: o meu não é assim – e ainda me perguntam por que eu decidi abandonar os templos, enquanto outros querem restaurar a “cura gay” psicológica via canetada no Congresso...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

“Anula en mí mi masculinidade” (del Irmão Antoninus)



“Anula en mí mi masculinidade” 

Anula mi masculinidad, Señor, 

Y tórname mujer y frágil, 

Si por esta total transformación 

Puedo saber mejor de Ti. 

¿De qué vale el mi propio sexo 

Si un audaz instinto posesivo 

Sólo haría alejarTe de mí? 

Cuánta inutilidad habita mis ancas, 

Para instigar, instigar el feroz instinto de la vida, 

Cuando lo necesario es una inmovilidad silenciosa. 

“L’alma es femenina para Dios.” 

(del Irmão Antoninus)



“Anula em mim minha masculinidade” 

Anula minha masculinidade, 

Senhor E torna-me mulher e frágil, 

Se por esta total transformação 

Eu puder conhecer melhor a Ti. 

De que vale o meu próprio sexo 

Se o audaz instinto possessivo 

Só faria afastar-Te de mim? 

Quanta inutilidade habita meus quadris, 

Para instigar, instigar o feroz orgulho da vida, 

Quando necessário é uma imobilidade silenciosa. 

“A alma é feminina para Deus.”

domingo, 2 de dezembro de 2012

LILITH, O MITO( By Anja Arcanja)




 By Anja Arcanja

O Canto de Lilith (Romulo Narducci)


Sou do desejo a inspiração divina,
Dos homens o paraíso e o inferno.
Não há castelos, presídios ou mosteiros
Que eu não entre furtiva
E semeie o desejo pleno.

Penetro mentes em doces devaneios,
Invado corpos em frenesis supremos.
O oriente conclamou-me religião,
O ocidente devotou-me maldições.

Inspirei Sade em seu clastro,
Tentei Cristo e Sidarta.
Não há quem não resista ao meu abraço,
Não há quem não sinta o fio da adaga,
E aos conjurosos movimentos de meus quadris
Não se entregue ao meu beijo perdido.

Beije-me e terás a morte dos sentidos!


Lilith... um mito que precede o folclore judaico, pois é de origem Suméria, sendo a resplandecente "Rainha do Céu", seu nome, “Lil” sinônimo de “ar” ou ‘tormenta”. Segundo Engelhard, a figura feminina de Lilith está presente nas mitologias sumerianas, babilônicas, assíria, Cananéia, hebraica, árabe, persa e teutônica, mas, é rejeitada pela cultura e religião judaica sobremodo,  tradicional, machista e patriarcal (redundância intencional). Mas o mito ganhou força mesmo nas lendas folclóricas assírio, babilônica e  hebraica, habitando sempre os desertos e, na cultura hebraica, após abandonar a Adão fugiu para o deserto,  onde teve turbulentas aventuras eróticas com anjos caídos e se firmou como demônio. Lilith profanou o nome de Deus e, habitava nos desertos no em torno ao mar vermelho, onde também habitam os demônios e espíritos malignos, segundo a tradição hebraica, é um lugar maldito! Com sua sede de vingança, ceifava a vidas dos viajantes que passavam, mantendo com eles relações sexuais e após o coito, decepava-lhes o pênis apenas com a força da vagina. Reza a lenda que Lilith era capaz de gerar 100 filhos por dia! Incubus, quando masculinos e sucubus quando femininos. Eram demônios com poderes vampíricos e daí surgiram as lendas dos vampiros.  Nas lendas judaicas onde impera o machismo e o regime patriarcal, Lilith é sempre vista de forma negativa, enquanto Eva, é apresentada como dona de uma singular beleza e de qualidades impares e sempre, SUBMISSA.

São inúmeros e divergentes os relatos orais e escritos sobre o mito Lilith. Samael Aun Weor, fundador do Movimento Gnóstico Cristão Universal diz que Adão teria tido duas esposas originalmente: Lilit e Nahemah. Para Samael Aun Weor, “Lilith é a mãe dos abortos, da homossexualidade e, em geral, de toda classe de crimes contra a natureza. Nahemah é a mãe da beleza maligna, da paixão e do adultério”.  Por isso, ambas refletiriam o que os esotéricos gnósticos chamam de infrassexualidade, que é tratada pelos gnósticos, como toda a relação “contrária” a natureza humana, como por exemplo, PARAFILIAS, COMPULSÕES, FIXAÇÕES, PERVERSÕES, FETICHES, FANTASIAS e demais “desvios” em relação ao que se considera sexualidade "normal". É um demônio!

É impossível não fazer uma análise do mito de Lilith em relação ao surgimento da inquisição na Idade Média; pois estão intimamente ligados. No tribunal do Santo Ofício os inquisidores consideravam como bruxa toda mulher que demonstrasse algum tipo de rebeldia contra a ordem patriarcal. A rebeldia era o primeiro sinal de bruxaria. Se a mulher fosse ruiva ou albina, o inquisidor não tinha mais dúvida que estava realmente diante de uma bruxa. O julgamento era precedido de torturas e, durante o julgamento a mulher era torturada in extremis até confessar suas relações com o demônio. Quando esta confissão ocorria os inquisidores aumentavam as torturas até que a mulher confessasse que mantivera relações sexuais com o demônio. Estas supostas relações sexuais eram descritas com riquezas de detalhes eróticos o que transformava o tribunal do Santo Oficio numa orgia sadomasoquista. A punição de Lilith, por outro lado, reside no seu banimento da comunidade dos homens: no isolamento social e na solidão. Ela deve sofrer as consequências dos seus atos sozinha no deserto. Deve ainda atormentar com sua sensualidade e seu erotismo o sonho casto do santo, daquele que busca ter um coração puro. Nisto consiste a sua maldição. Ela agora não é apenas excluída, é temida. E pela força da sua sensualidade é também desejada. A relação de Lilith com o sexo oposto é marcada pela ambivalência: amor e ódio, atração e repulsão, medo e desejo, prazer e destruição.

Como disse Engelhard:

"Toda a experiência de angústia, que combina opressão, terror, pânico, ânsia, susto, respiração ofegante, frenesi, é a terrível presença de Lilith, que também provoca, com sua força sexual psíquica, orgasmos desenfreados, desejos promíscuos. Porém, logo em seguida, sobrevém grande melancolia, profundo mal estar, sensação de peso e profunda depressão, sentimento de insegurança e desconfiança, com choros súbitos e dores de cabeça, além de moleza nos membros inferiores."

Muitos veem no mito Lilith apenas a luxúria e desenfreado desejo sexual e de onde vem também o desejo pela homossexualidade e é a causa da repulsa pelos cristãos, que, sem ter conhecimento do que representa o mito, o demonizam e até hoje dão aos que, seja por força de um distúrbio ou que seja sua natureza, tem um apetite sexual exacerbado em comparação a maioria comum, estar sendo dominado pelo demônio Lilith, demônio que invade os sonhos masculinos causando-lhes polução noturna ou desejo de masturbação e nas mulheres, desenfreado desejo sexual ou bissexual (este também presente nos homens).

Mas não é apenas assim que Lilith deve ser vista, antes, ela representa o desejo de se compreender a diferença entre os mitos da criação de Gênesis, já que em sua primeira história Genesis 1: 26 - 28, homem e mulher são criados iguais e conjuntamente, enquanto na segunda história, em Gênesis 2: 20 - 25, a mulher é criada depois do homem e a partir de seu corpo. Talvez daí, Lilith, tendo sido feita da mesma matéria prima de Adão, sentindo-se (e sendo) igual a ele, não admitia apenas ser dominada na hora da cópula, mas queria dividir com Adão a tarefa não apenas de nomear a criação, mas quiçá também quisesse zelar do jardim, dividindo igualmente com o homem todas as tarefas; tanto as dele, como as dela e é esta lógica que hoje muitas mulheres veem em Lilith. A luta não por independência, mas por igualdade.

Priscila Pereira, ativista feminista, teóloga e mestrando em ciência da religião, assim descreve Lilith: 

“Lilith, que segundo o mito rabínico, foi a primeira esposa de Adão; a mulher que não foi criada da costela, mas da mesma estrutura e junto ao homem; aquela que tinha liberdade com o próprio corpo, com sua sexualidade, e por causa disso, foi expulsa e demonizada, para que servisse de exemplo às suas descendentes, e ficasse subentendido que a mulher vem do homem, deve se submeter e dar prazer, e não receber. A primeira feminista, que brigou contra os dogmas, conhecia o próprio corpo e teve coragem de sair de sua zona de conforto em busca de sua liberdade e igualdade.”

E é assim que eu, Rozana, também a vejo: o mito que anseia igualdade, a mulher que não se submete, mas também seria um demônio que atrai e afugenta os homens? É temida e desejada? Mas, a força masculina imposta por uma sociedade que provém de uma cultura historicamente patriarcal, sufocou o grito do mito Lilith e não apenas o sufocou, mas, o demonizou e deu-lhe o status de mãe de toda impureza e (homo) sexualidade tida pela sociedade (patriarcal) como sendo algo antinatural, impróprio, indesejado e que, portanto, devesse ser banida de nosso convívio, usando todo e qualquer meio necessário para banir do convívio da sociedade, este mal demoníaco que veio para assombrar não somente homens, mas também mulheres com seu desejo, volúpia e compulsão pelo prazer (seja ele sexual ou não).

Sou indomável, sou sexual, sou temida e não temo a ninguém; eu vou à busca do que quero e, conquisto. Eu sou Lilith! (Anja Arcanja).

"Desde o início da criação, foi somente um sonho" (Rabi Simon ben Laqish)





Licença Creative Commons
LILITH, O MITO de Rozana Anja Arcanja é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.
Baseado no trabalho em http://omundodaanja.blogspot.com.br.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em http://omundodaanja.blogspot.com.br.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ler, e Escrever Hoje




By Matheus De Cesaro

“Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”

Arthur Schopenhauer – A Arte de Escrever





Lembro-me que quando tinha eu, uns 8 ou 9 anos, em um dia de natal, ter pego em mãos um caderno e um lápis, ter olhado para o meu falecido pai e ter dito, “vou escrever um livro”. Parece algo insignificante, se nos basearmos na idéia de que nunca tenha escrito um livro. Mas ali, naquele mesmo instante, se acendeu em mim, o gosto pela leitura e pela escrita, hábito que carrego comigo desde a infância até os dias de hoje. Mas, se tem uma obra, um artigo, algo que tenha me influenciado muito nesta belíssima relação com as letras, é a “Arte de Escrever” de Arthur Schopenhauer, onde ele expõe de forma crítica e muito contundente suas opiniões e pensamentos sobre o ato da escrita. Chamando a atenção para questões que na época, e também hoje são muito atuais e pertinentes. Ele sem papas na língua, o que lhe era comum, se opõe a literatura de consumo, e busca estabelecer uma distinção entre aqueles que em suas idéias seriam bons autores, e os que na verdade buscavam apenas cifras e o status que na época recebiam os escritores. Desta forma, ele não escapa de recriminar grande parte dos jornalistas do seu tempo, condena o hábito do abandono dos clássicos para se deter ao novo, as novas literaturas que surgiam aos montes, e acaba por concluir por meio de algumas considerações que nascia naquele período, o que ele denominou de “degradação da língua por meio de uma literatura decadente”.
Trazendo esta idéia para nossa realidade, e contextualizando com o nosso cotidiano, eu percebi uma semelhança muito grande em relação à forma como tratamos e conduzimos o que lemos e escrevemos.


Em meio à facilidade no acesso de informações que hoje possuímos, percebe-se na era atual uma desenfreada guerra pelo “pseudo saber”, pois de fato se busca conhecimento em excesso, sem a compreensão necessária do adquirido, no objetivo nefasto e decadente, de construir uma pseudo sabedoria, e então, por meio da aparência desenvolver uma suposta intelectualidade, que ao primeiro olhar nos permite ficar admirados, abismados, e até cheios de orgulho por estar diante de uma “mente brilhante”,  mas que, com o passar do tempo nos revela sua fraqueza e superficialidade. Desta forma surge uma gigante onda de literaturas enfadonhas, que apenas repetem informações que já são ecoadas de diversas formas, pelos mais variados autores. Mais do mesmo, com uma nova roupagem, para que então se esteja adequado para a venda. Não se tem foco na “instrução”, não se estimula o pensar, não se valoriza a mente humana, apenas vãs repetições. Como afirmou Schopenhauer,


“Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto é essa maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.”


Partindo destas premissas extraídas da obra de Schopenhauer, fico a pensar e repensar a grande diferença entre estar informado e instruído para determinadas situações na vida. E não vejo nenhuma forma de não lembrar ou mencionar as academias, que a cada ano que passa forma milhares de pessoas nos mais variados ramos e segmentos, providos de muita informação, porém desprovidos de instrução. É claro que de forma alguma posso considerar as academias de ensino irrelevantes ou desnecessárias, isso faria de mim, um completo tolo, elas tem sim um papel importante na nossa formação, mas estar instruído depende muito mais de nós mesmos do que das academias. Certa feita li uma frase de Carlos Drummond de Andrade em um texto publicado em um artigo de uma revista, que me chamou muito a atenção, ela dizia:


"As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele."


Desta forma, é fácil compreender o que estou a dizer em relação as academias de ensino.  São necessárias e essenciais, porém não são a garantia de que estejamos instruídos para compreender todas as informações que recebemos nos 4, 5 ou mais anos que estivemos nelas, isso depende única e exclusivamente de nós, do nosso talento, da nossa percepção.


Sempre me dediquei a leitura, e incentivei aos amigos e conhecidos que desenvolvessem este hábito. Mas hoje, faço diferente. Esforço-me para fazer com que todos compreendam que necessário é pensar sobre o que se lê, analisar o que se lê, exercitar a mente por meio das informações para que então, nossa mente esteja instruída. Muitas vezes não é o muito ler, e sim o pouco de forma pensada e analisada que fará a diferença, que nos levará a “instrução”. Como disse Nietzsche em Ecce Homo, Aforismo 8 de “Porque sou tão Inteligente?”.


“O erudito que no fundo “folheia” apena ainda livros, acaba por perder inteiramente a capacidade de pensar por si. Se não folheia, também não pensa. Responde a um estímulo (um pensamento lido), quando pensa em última análise, ainda simplesmente reage. O erudito despende toda a sua força em dizer sim e não, na critica do que já foi pensado, pessoalmente já não pensa... O erudito “um décadent”...  Eis o que vi com os meus olhos: Naturezas dotadas de ricas e livres tendências, já aos trinta anos se tinham tornado uma desgraça pela leitura, simples fósforos que, para produzirem faíscas (idéias) carecem de fricção.”


Entendo que, o melhor caminho hoje para à instrução, é a percepção de tudo que vamos acumulando em relação à informação. Um entendimento mais amplo do que existencialmente permeia e norteia nossas vidas. É como adquirir à capacidade de ler o dia-a-dia, a vida, as pessoas, a natureza, é como perceber que para aprender e estar instruído é necessário um pouco mais do que livros. Lin Yutang, um grande escritor chinês do inicio do século XX, em sua obra “A Importância de Viver”, se refere a essa questão usando a expressão “O Paradoxo da Leitura”. Ele diz,


“O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola. Quanto mais leio mais ignorante fico. A escolha que hoje se depara a qualquer homem educado é entre a inocência que não lê e a ignorância que lê muito. É possível sustentar alguma aparência de exatidão que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento”


Agora, fico a imaginar...


Se Schopenhauer já no século XIX, e Lin no século XX sem a facilidade que hoje temos no acesso as informações e com todas as dificuldades que se tinham para ter em mãos obras significativas do período já detectavam essa onda de decadência na arte da escrita e da leitura de forma tão concreta, o que diriam hoje em relação aos pensadores e escritores do nosso tempo, que tendo a disposição o Google, Wikpédia, e tantas outras formas de rapidamente acumular informações não conseguem deixar de serem apenas medíocres escritores a repetir o passado?


Posso estar parecendo um tanto quanto crítico... E se realmente essa for à aparência, tenho por certo que alcancei meu objetivo. Precisamos orientar a nossa geração, e as novas gerações a estimularem o pensamento, a buscarem extrair, ruminar, fazer sair água da pedra. Precisamos fazer renascer a “Arte de Escrever”. E para isso, talvez seja necessário aprender a ler, de forma ordenada, pois o contrário disso não alimenta, apenas entorpece-nos, nos tornando incapazes de refletir, e, por conseguinte, de produzir. Não que esteja sendo radical, mas a leitura quando desordenada nos escraviza às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das idéias que nos limitamos a contemplar na simples condição de espectadores, uma espécie de embriaguez que imobiliza e desafina nossa inteligência. Talvez A. D. Sertilinges em “A Vida Intelectual” tenha sintetizado isso de forma muito clara quando afirma,


“Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o
trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas."


Desta forma compreendo que o que de fato importa, não é a quantidade, o número de informações que se acumule, mas primeiramente a qualidade e a forma como se digeri tudo isso. Pois não é o material que nos falta ao pensamento, e sim os pensamentos, em relação a quantidade de materiais que absorvemos todos os dias. O máximo que podemos ter mantendo um hábito de leitura desordenada, seria uma forte e desagradável indigestão de informações e conhecimentos.


Foi desta forma, ruminado durante tempos, analisando e tendo cuidado de não manipular os escritos que pude compreender a mensagem de Schopenhauer, que radicalmente disse,


“Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”


Mas em suma, para finalizar este artigo, quero enfatizar, deixar claro ao leitor que, o que o  objetivo em montar essa crítica, é reavivar em todos o desejo pela leitura, o pensar e a escrita, incendiar o espírito poeta que muitas vezes adormece entre a confusão de nossos sentimentos e o excesso de informações. Pois não há quem nos faça a vida ser mais leve, quem nos leve a perceber a realidade dos sentimentos mais comuns da vida, do que  um poeta entregue ao seu ofício, o de inspirar e fazer inspirar, o de pensar e fazer pensar, não devemos ser escravos da letra, e sim fazer com que elas associadas ao nossos pensamentos produzam vida ao serem lidas.

"Os poetas têm de ser pessoas médias, 
nem deuses, nem vendedores de livros."

Horácio

http://filoboteco.blogspot.com.br/2012/11/ler-e-escrever-hoje.html
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...