Após um período de descanso curtindo as férias de meus filhos, estou retomando as atividades do blog Mundo Da Anja e estarei retomando as atividades no blog Poemas e Contos Da Anja, mas ainda com menos intensidade, pois ainda estou curtindo as férias dos pequenos.
E já volto com este excelente (como sempre) texto do cronista João Marinho.
Leiam, comentem, pensem, discutam!
O PROBLEMA DA "EX-HOMOSSEXUALIDADE"
Pensei muito em voltar a escrever sobre o tema e em começar
fazendo uso de uma situação difícil que uma conhecida minha está passando – mas
não posso me furtar a apresentar a enganação que, baseadas em um livro arcaico
e em dogmas ultrapassados, tantas igrejas e tantos cristãos insistem em
defender: a ideia de que é possível ser “ex-gay”.
Este ano, publiquei, não sem um certo prazer, uma nota no
site A CAPA que informava que a Exodus International, uma das maiores
associações religiosas de “ex-gays” do mundo, reconheceu que a reversão da
orientação sexual não é possível e que, nesse sentido, a homossexualidade é uma
“cruz” que cabe ao “ex-gay” carregar e contra a qual lutar ao longo de sua
vida, no projeto de viver de acordo “com a vontade de Deus”, quer seja:
casando-se e tendo mulher e filhos. Não é o ideal, mas é um passo na direção
mais sábia.
Muitos aqui sabem que eu já fui um gay evangélico – já
tentei a via da oração por muitos anos, já fui um adolescente deprimido e em
crise por causa disso. Também já tive amigos que tentaram outras vias mais
“concretas”, até mesmo se internando em fazendas evangélicas que praticavam
verdadeiras atrocidades psicológicas. Outros entraram em “grupos de
aconselhamento” e outros ainda tentaram a via do exorcismo.
Graças a Deus (olhem a ironia), eu me livrei de tudo isso,
nunca cheguei a esses extremos e, liberto, hoje sou feliz com minha sexualidade
– mas de todos os que vi se declararem “ex-gays”, sempre foi essa a minha
percepção. Na verdade, eles nunca deixavam de ser gays, ou seja, de sentir
atração por homens. Recorrendo a expedientes de repressão psicológica ou de
matriz religiosa, deixavam de PRATICAR O SEXO com os homens e, em nome de suas
convicções, seguiam uma vida de COMPORTAMENTO heterossexual, tendo, porém, de
se policiarem contra o sexo gay como um alcoólatra em tratamento: “não se pode
dar o primeiro gole”.
A questão que se impõe é... Se um alcoólatra que não bebe
mais pode ser chamado de “ex-alcoólatra”, por que um gay que não transa mais
com homens não pode ser chamado de “ex-gay”? Em que pese o fato de que já vi
alcoólatras dizendo que não existe “ex-alcoólatra” – você sempre será um, ou
seja, terá aquele problema com o álcool, o que muda é se está sóbrio e abstêmio
ou não –, eu responderia que a questão é de conceito.
Por má informação, ou má-fé, boa parte da população não
compreende que o conceito de orientação sexual está ligado ao desejo, tomado em
sua acepção ampla e ao longo da vida. Orientação tem esse nome porque indica a
quem o desejo sexual, incluindo sua face afetiva, está ORIENTADO, dirigido,
direcionado, e é ISSO que define se a pessoa é hétero, homo, bi ou pan, não o
sexo da pessoa que está ao lado na cama.
Em suma, como costumo explicar, eu faço sexo com homens
porque sou gay – não sou gay porque faço sexo com homens. Da mesma forma, um
homem hétero faz sexo com mulheres por ser homem hétero, de antemão – não é
pelo fato de praticar essa modalidade de sexo que ele se torna hétero.
O ato sexual-genital é, portanto, o RESULTADO possível e provável
da orientação sexual, não sua causa: o desejo antecede o ato. Tendo isso em
vista, se o desejo da pessoa está orientado para o mesmo sexo, ela é
homossexual, ou gay – independentemente de concretizar esse desejo mediante
relações sexuais ou não. Gays (como héteros, bis e pans), portanto, podem ser
celibatários, abstêmios e até mesmo se relacionarem com pessoa de sexo diverso.
Também podem ser virgens – e isso é relevante, porque, se o que definisse a
orientação sexual fosse o ato, e não o desejo, qualquer pessoa que ainda não
tivesse transado não seria “nada”, não teria orientação sexual, o que é
efetivamente um absurdo.
Trazendo isso para o que estamos discutindo aqui, então, o
“ex-gay” não é “ex-“ porque o desejo pelo mesmo sexo fatalmente estará ainda,
ou sempre, como admitiu a Exodus, presente. Não é por ter uma mulher e filhos
com ela que, por isso, ele deixou de ser gay: basta apenas que o desejo pelo
mesmo sexo esteja lá, como parte integrante da personalidade – e a verdade nua
é crua é que, se você tem de lutar continuamente para não ceder a uma
determinada vontade, ou para reprimi-la, a lógica impõe a realidade de que essa
vontade EXISTE, em primeiro lugar.
A descoberta de que essa “vontade” está lá não costuma ser
um processo fácil, mesmo para aqueles que não são religiosos. Vivemos em uma
sociedade homofóbica, em que destoar do padrão “homem com mulher” equivale a
sofrer pressões e repreensões, enfrentar preconceitos – inclusive os nossos
próprios – e até mesmo atos de violência. Diante disso, não chega a ser
inesperado que o gay que recentemente se descobriu assim anseie “por se tornar
hétero”, porque, afinal, quem quer passar por sofrimentos?
A constatação dessa realidade faz com que muitos na igreja,
e fora dela, acreditem assim que possibilitar “tratamentos”, espirituais ou
não, para permitir à pessoa alcançar essa meta é uma demonstração de caridade e
piedade humana – e, alguns, nutridos desse ideal de compaixão, chegam a apoiar
teses como a do recente projeto de Decreto Legislativo que quer derrubar a
proibição de psicólogos oferecerem tratamentos objetivando a “cura da
homossexualidade”, em discussão no Congresso.
Existem, porém, outras três verdades nuas e cruas. Uma delas
é que a ciência – que deve pautar a ação do psicólogo enquanto profissional –
já tentou a via da “cura”, sem sucesso, conforme demonstram bastantes
evidências, que se acumulam de décadas atrás até hoje. A segunda é que esses
tratamentos, e incluo aqui os espirituais, costumam mais piorar do que melhorar
a psique das pessoas. Reprimir um desejo legítimo não acontece sem se pagar um
preço – e não é difícil imaginar quão pode ser difícil e tensa uma vida em que
o policiamento contra uma força tão legítima e primária é a regra.
A terceira verdade nua e crua é que basta arranhar a
superfície para saber que não é a homossexualidade o problema, mas a homofobia:
se a sociedade facilitasse a vida dos gays, em vez de os recriminar, se os pais
deixassem o amor por seus filhos falarem mais alto, quem negaria que, em vez de
tentarem “virar héteros”, tantos gays não tentariam viver uma vida plena e
harmônica com sua sexualidade, sem sofrerem perseguição por causa disso?
No entanto, quero aqui falar do segundo ponto, o preço por
viver uma vida reprimindo um desejo. Para isso, vou retomar o primeiro
parágrafo: por que é uma enganação que as igrejas e os cristãos defendam que é
possível ser “ex-gay”? Porque, além de ser, no mínimo, questionável falar em
“ex-“, diante dos conceitos esclarecidos até aqui, muitas vezes, esses mesmos
cristãos e suas igrejas não sabem, e nem mesmo fazem questão de saber, do preço
que pagam essas pessoas.
A história de uma conhecida minha, que me motivou a escrever
este artigo, não será revelada em detalhes, a fim de manter intacta sua
privacidade e seu sofrimento. Basta saber que, depois de ter se casado e ver
sua vida sexual com o marido com quem tivera filhos decrescer em qualidade por
um certo período de tempo, pelo qual ela culpava a si mesma, descobriu que seu marido
a traiu com outro rapaz. Os personagens são evangélicos.
Não se pode negar o sofrimento por que ela passou e tem
passado, embora tenha tido a grandeza de enxergar nisso uma libertação: não era
“culpa” dela, afinal – e, aqui, a tendência dos moralistas de plantão é
enxergar no ex-marido um pulha, que não soube honrar o casamento e destruiu a
família com as próprias mãos.
Uma análise mais aprofundada, no entanto, mostra que essa é
uma situação em que não existem verdadeiros vilões. Criado em uma família
evangélica e extremamente conservadora, o marido – de quem sempre desconfiei
graças a meu “gaydar” –, certamente não teve uma vida mais fácil, ainda mais
diante dos olhos de quem, como eu, descobriu na própria carne como é difícil se
perceber gay e ser evangélico.
Como terá sido a vida desse moço, obrigado a recusar a si
mesmo o benefício de procurar uma vida mais completa condizente com seu desejo,
em nome de estar fazendo o que “Deus queria”? E como deve estar sendo essa
situação, ao ter percebido que, pelo fato de o desejo, por tanto tempo
reprimido, ter cobrado a fatura que ele não conseguiu pagar, ter magoado tantas
pessoas ao mesmo tempo, inclusive a mulher que certamente amou (sim, porque há
muitos casos de gays que foram casados com mulheres que efetivamente amaram
suas esposas, até por existir, nos ensinam os gregos, mais de um tipo de amor)?
Agora, não haverá ninguém, especialmente em sua igreja, para
ver seu lado e apoiá-lo. Desprezado por todos, culpando a si próprio e sozinho,
ele ainda poderá enfrentar a ira evangélica e da família, se descobrirem a
realidade dos fatos, por ter cedido aos “desejos de Satanás”, quando Satã não
tem nada a ver com a história. O que há aqui, para quem, como eu, já está mais
do que escolado, são seres humanos às voltas com suas escolhas, algumas delas
indevidas frente ao desejo e sua própria natureza, e uma religião patentemente
insensível a essas demandas, que prefere o sofrimento calado de um homem para
manter as aparências e dogmas do que propiciar a esse ser humano uma
alternativa de harmonizar sua sexualidade e seu sentimento religioso. Será que
ele é mesmo o pulha?
Na minha concepção, se minha conhecida poderá se recuperar
com certa velocidade do baque – quem sabe, encontrando outro homem que a faça
feliz e a deseje sexualmente de verdade –, a situação do marido é bem mais
complicada, e, se ele não tiver ajuda para se libertar dos dogmas religiosos,
pode piorá-la, envolvendo-se em “tratamentos”. Quem sabe, caindo em intensa
depressão, não tente uma alternativa ainda mais “concreta”, que poderia atender
pelo nome de drogas ou suicídio...
Essa verdade nua e crua e FEIA é só uma das que se escondem
por trás das histórias dos “ex-gays”, mas, convenientemente, muitos pastores e
suas igrejas fazem questão de não abordá-la em seus cultos evangelísticos
transmitidos nas televisões de concessão pública. Quem conhece esse lado somos
nós, outros gays, que pouco temos voz, e estamos igualmente sozinhos,
procurando ajudar aqueles que passaram por martírios que, às vezes, nós também
já experimentamos.
Certamente, o marido será apresentado como um “falso
crente”, quando a única coisa falsa aqui é o dogma religioso e sua promessa de
“ex-homossexualidade”, ou ainda, a falsa promessa de que a felicidade real só
se encontra em um casamento hétero, “de acordo com a vontade de Deus”.
A história que acabo de relatar me fez lembrar de outra,
talvez o primeiro caso de “ex-gay” com quem tive contato, quando eu contava com
cerca de 18 anos. Francisco era o nome dele, gay efeminado que costumava ir a
certa praça em minha cidade “caçar”, como eu à época, companhias masculinas.
Soube por amigos em comum que Francisco se convertera à
CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL e, após se submeter a “aconselhamentos” e sessões
que beiravam o exorcismo, estava noivo de uma mulher da igreja. Tentei
argumentar com ele, mas diante de sua convicção inabalável, não me restou
alternativa a não ser me resignar – apenas para, cerca de nove meses depois,
reencontrar Francisco, já casado, novamente procurando companhias masculinas no
mesmo lugar.
Uma conversa foi bastante reveladora. Deprimido, ele
argumentou ter tentado de tudo, sem sucesso, e que “esse negócio de cura não
existia”. “Pois é”, respondi eu, “mas agora você envolveu outra pessoa, que
está em casa te esperando. Como é que fica?”. “Como é que fica”, pergunto eu,
se, numa dessas, ele sofresse uma violência, ou se, tomado de intenso e cego
desejo, descuidasse de sua proteção e pegasse algo e o transmitisse à mulher?
Novamente, veríamos o Francisco como o vilão, que enganou a
todos... Mas será que não foi ele o enganado? E será que não foram os fiéis da
igreja os enganados? Quem duvida de que Francisco foi apresentado como um caso
de “restauração pelo poder de Deus”, por “ter sido gay” e agora estar casado?
Talvez ele fizesse até uma ponta no programa de Silas Malafaia – e, no entanto,
novamente, somos nós, outros gays, que temos de lidar com esse lado escuro e
feio do que as igrejas gostam de mostrar em seus shows evangélicos.
Francisco e o ex-marido de minha conhecida não eram e não
são pessoas de má índole, como certamente não o são suas mulheres. Podem ter “errado”,
se considerarmos “erro” a “traição” sem levar em conta seus motivos – operação
ESTA que eu, particularmente, considero o verdadeiro erro –, mas eram humanos
devotos, convictos da ação do evangelho em suas vidas e de seguirem o desejo de
Deus.
Só nos resta perguntar que Deus é esse, que deseja e prefere
a mentira em vez da verdade, a aparência em vez da harmonia, a traição em vez
da cumplicidade, o dogma em vez da felicidade, o sofrimento em vez da
plenitude, como se a homossexualidade fosse um erro, em vez de uma via possível
para se estar bem consigo mesmo... Um Deus que prefere ver um “ex-gay” sofredor
e em uma luta inglória a um gay feliz, arrastando junto ao primeiro uma família
inteira. Se é esse o Deus que a igreja acredita, lamento: o meu não é assim – e
ainda me perguntam por que eu decidi abandonar os templos, enquanto outros
querem restaurar a “cura gay” psicológica via canetada no Congresso...