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sábado, 21 de maio de 2011

Anatomia do Homem Ausente (Convertido à verdadeira fé por PAULO BRABO)

Este, senhoras e senhores, será um breve estudo da anatomia do Homem Ausente.
Do lado de toda mulher sozinha há um homem ausente. Não, ele não está ali, porque ele não está ali. Ninguém pode vê-lo, porque ele está ausente. Mas ele está ali, porque ele está ausente. Não sei se vocês já pensaram na importância disso, nas conseqüências cósmicas dessa humilde ocorrência, mas do lado de toda mulher sozinha há um homem ausente.
Ninguém nunca viu o homem ausente, por isso ninguém sabe dizer como ele é. Ninguém pode dizer se ele é alto, baixo, gordo, magro, se é bonito, se é feio, nem o que o homem ausente está fazendo. Ele simplesmente está ali, ou melhor, ele não está ali.
A própria mulher sozinha — e o homem ausente está do lado dela — não sabe dizer como ele é. Ela nunca o viu, mas sabe que ele está ali. Ela sente, ela pressente, o coração se aperta e o intestino dá voltas, pela simples presença do homem ausente.
Existe um obstáculo quase intransponível no estudo do homem ausente. Ele é tímido. Essencialmente tímido. Do lado de toda mulher sozinha há um homem ausente, mas ele não pode ser estudado, digamos assim, por uma equipe de cientistas. Ele rejeita qualquer companhia, qualquer multidão, que não seja a mulher sozinha. Basta que chegue alguém — qualquer pessoa, homem ou mulher — e o homem ausente não está mais ali. Já pensaram nisso? Quando o cientista chega junto da mulher sozinha, o homem ausente puff — vai embora. Fica o homem presente, o cientista, mas, do homem ausente, nada. Nenhum traço. Nenhuma molécula, nenhuma radiação.
É por isso que é assim, sozinha, que eu quero lhes descrever a anatomia do meu homem ausente. Está certo, ninguém nunca viu o seu homem ausente, nem eu, eu admito. Mas isso não quer dizer que eu não o conheça. Não quer dizer que eu não saiba nada sobre ele.
Eu sei sim. É muito pessoal o que vou dizer agora, mas eu sei.
Quando ele está comigo, eu sei de que lado da sala ele está. Eu sei se ele está brabo comigo, sei quando ele está feliz. Quando todas as portas se fecham e eu estou chorando sozinha, eu sinto quando ele pega na minha mão. Daí eu paro de chorar e aperto a mão dele assim. Só isso.
Ás vezes ele me abraça por trás e coloca o queixo assim junto do meu pescoço, só pra me lembrar que ele está ali.
Ele já me levou ao alto das montanhas, à solidão dos campos, ao abandono das ruínas. Nós somos o casal dos recantos solitários. Uma vez nós nadamos nus num rio que descia da serra.
É. Ás vezes eu acho que conheço até o cheiro dele. Ele é meu irmão, meu pai, meu anjo, protetor.
Ás vezes ele é duro comigo. Quando ele está bem ele é compreensivo e me ouve por horas a fio. Nesses dias ele é o meu analista. Quando ele está brabo eu pergunto e ele não me responde. Daí eu penso, pelo menos ele está ali.
Anatomicamente falando ele é um homem completo. Ele tem cabelo, tem barba, braços, pernas, órgãos sexuais, músculos, sangue. Não pensem com isso que ele é de carne osso como todo mundo, ou que alguma vez eu tenha me sentido atraída por ele. Não, não é nada disso. Eu já dormi abraçada nas pernas dele, mas é uma coisa pura, de irmão.
Nem sei se ele é bonito, e na verdade não importa.
Não, ele não é bonito, não. Eu vejo ele cansado e forte, ao mesmo tempo jovem e experiente, autêntico, apaixonado e carinhoso, e há nisso tudo uma graça mais tocante do que a beleza. Uma fragilidade que só um homem — não, só um homem ausente — pode ter.
Ele ás vezes me galanteia, me diz coisas, me promete coisas que ninguém nunca prometeu. Ele diz que gosta de estar comigo, que nunca vai me abandonar, essas coisas.
Bom, eu não sou uma mulher sozinha muito tempo a cada dia. A verdade é que eu não tenho muito tempo pra o meu homem ausente. Às vezes, em meio a essa vida cheia, na multidão, nas filas do banco, nas corridas do supermercado, até com o meu marido, eu sinto falta do homem ausente.
Eu sinto falta das caminhadas solitárias e de tudo o que a gente conversava e fazia juntos. Sinto falta das estradas, das praias, dos livros, até das lágrimas e da tristeza, quando ele vinha e me consolava.
Vou confessar uma coisa pra vocês. Às vezes eu tenho vontade de largar tudo pra estar com ele de novo. Largar a família, o marido, os filhos, tudo, só pra estar de novo com o meu homem ausente. Nem que fosse só um pouquinho.
Não, não é infidelidade, não, e nem haveria como. É amizade. É uma amizade minha comigo mesma, e eu sinto falta dele. De todas as pessoas que me influenciaram nessa vida, ninguém é como o homem ausente. Só ele sempre não está comigo quando eu preciso dele.
Não vá embora, não, homem ausente. Sem você eu não seria quem eu sou.

Olívia Grilo Marci

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