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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Sexo dos Anjos... Entrevista com Anja Arcanja



Escritora e poetisa amadora e teóloga. Autora do blog “O mundo Da Anja” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/), um blog que conta com diversas parcerias e articulistas, voltado a discutir religião, filosofia, teologia, ateísmo, homossexualidade, sexualidade humana, entre outros temas de relevância; e do blog “Poemas e contos eróticos da Anja” (http://anjaarcanja.wordpress.com/), um blog de cunho erótico. Escreve ainda para os blogs “confraria teológica Logos & Mythos”, "Vida Sofista" e   “Fragmentos Ativos”, além de ter textos publicados em vários blogs e sites.

Carlos Carvalho Cavalheiro - Nasceu em São Paulo em 09 de maio de 1972. Formado em História, Teologia e Pedagogia. Pós-graduado em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. Professor de História na rede pública municipal de Porto Feliz. Escritor e poeta, escreveu os livros: "A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba"; "Folclore em Sorocaba", "Salvadora!", "Decobrindo o Folclore", "Scenas da Escravidão", "Histórias que não se contam mais - vol 1", "A História do Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba", "Histórias que não se contam mais - vol. 2", "O Peregrino do Caminho do Sol", "Moda da História de Sorocaba", "Vadios e Imorais", "O Mistério Revelado", "Memória Operária", "Folia de Reis em Sorocaba".
Foi co-diretor, juntamente com Adilene Cavalheiro, do documentário "Cantos da Terra".
Produziu os cds "Cantadores - o folclore de Sorocaba de Sorocaba e região" e "Passarela da Saudade" (Diolindo e Almeida).


O Sexo dos Anjos... Entrevista com Anja Arcanja


1° TEMA: COITO ANAL
2° tema: ADULTÉRIO
3° tema: sexo e sexualidade
4° tema: Masturbação
5° TEMA HOMOSSEXUALIDADE



By Anja Arcanja e Carlos C. Cavalheiro*


Muito se diz dos "sexo dos anjos" no sentido de que não tendo esses seres sexualidade, não haveria o que se discutir. Utilizando desse mote, e do uso no nick Anja Arcanja pela teóloga Rozana Madalena F. Souza,conhecida escritora, poeta, blogueira e controvertida e polêmica articulista, pensou-se numa entrevista com temas relativos à sexualidade, discutidos sob a ótica religiosa/teológica. A série de perguntas segue uma dinâmica fixa: cada tema possui três perguntas e três respostas. As perguntas serão todas feitas porCarlos Carvalho Cavalheiro, historiador, teólogo, poeta e folclorista. As respostas serão todas dadas porAnja Arcanja.

Acompanhem conosco o andamento e o resultado deste inusitado trabalho.

Grato

Carlos C. Cavalheiro.


Algumas traduções bíblicas, como a de João Ferreira de Almeida, muito popular no Brasil, traz o trecho de 1 Tm 1:10, no rol de pecados e profanações, a sodomia. Também na primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 6, versículo 10, aparece o sodomita como um daqueles que não herdarão o reino dos céus. O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa define a sodomia como “coito anal entre indivíduos do sexomasculino ou entre um homem e uma mulher”. Podemos, então, afirmar que sob a ótica bíblica o coito ou relação sexual anal é pecado?
(Carlos Cavalheiro)

resposta anja:

Carlos, vou tentar responder sua pergunta de forma sucinta e objetiva, mas fugindo um pouco do que havia lhe proposto, isto porque você não especificou se tratar de relações apenas homoeróticas e sim de forma mais ampla e geral (tanto homo como hétero), mas isto é apenas por enquanto certo? Em chegando ao ponto de tratarmos apenas da questão homoafetiva, estarei abordando o tema de forma mais profunda, mas por enquanto, vamos começar assim, dando o pontapé inicial. Vamos lá?

Você cita o verso 10 do capitulo 1° da 1° carta a Timóteo que diz:
I Timóteo 1:10
10 - Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina,(…)

Mas deixa eu citar outro texto para que possamos entender um pouco mais do que se trata de fato:
I Corintios 6:9
9 - Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas,
10 - nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

Então aqui podemos observar uma sentença: não herdarão o reino do céu!
Bem, sua pergunta se refere a palavra sodomia ou sodomita, e se é pecado; pois bem, tomando por base a bíblia (mas especificamente a LEI MOSAICA), posso afirmar que sim! Sim, é pecado! Mas sendo pecado posso afirmar que todos que praticam tal ato estarão condenados e não herdarão o reino do céu? Sim! Posso dizer seguramente que todos que praticam tal ato, estão condenados, mas não só quem tais atos praticam, mas também os que praticam idolatria (seja ela qual for), adúlteros, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes, etc., ou seja, pela lei, todos estamos condenados, pois não há um justo sequer: Romanos 3:23
23 - Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus;

Então se TODOS pecaram e destituídos estão, isto inclui sodomitas e fofoqueiros, ladrões e beberrões, idólatras e devassos, chicos e Franciscos! Mas então qual a solução para este entrave? Se estamos TODOS desligados, o que haveria de nos RELIGAR? O SANGUE DE CRISTO!

O Sangue de Cristo é o Re-ligare, e por intermédio deste sangue, somos justificados a alcançamos o beneplácito, o favor divino. Deus ao olhar para seus eleitos, não vê suas atitudes, não vê sua orientação sexual, não vê nossas falhas e pecados, mas sim, vê apenas o precioso sangue de seu Filho, sangue este suficiente para que Deus não impute sobre os que Ele escolheu, a sua Justiça, mas sim seu beneplácito. “Pois a Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade por intermédio de Jesus Cristo”. (evangelho de João 1:17).  Este é o grande evento da Bíblia, toda a Bíblia aponta para este fato: a Verdade que se revelou em Cristo Jesus, Ele é a verdade. E por intermédio de seu Sangue, nos foi dada a graça e a lei se cumpriu em Cristo Jesus. Não necessitamos, portanto, estarmos sujeitos à letra da lei para nos achegarmos a Deus, não mais precisamos de sacrifícios. “porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras para que ninguém se glorie”. (Efésios 2:8,9). Nada podemos ou precisamos fazer para merecer a graça, pois graça é favor imerecido. Onde antes havia pecado, segundo a lei, hoje superabundou a graça. Deus vê todos na mesma condição, seja homo, seja hétero.  Mas o Sangue de Cristo nos purifica de todo pecado.

Bem, você poderá dizer que temos que procurar uma vida de “santidade e pureza” e que devemos nos abster de tais atos, porém eu replico: I Coríntios 11:6
6 - Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu.
(Não só este verso de 1Co-11 mas todo o capítulo)
Quem hoje segue este preceito a não ser em poucas igrejas? Este é o ponto! Devemos procurar ver e entender o contexto histórico-crítico e cultural e não apenas o contexto imediato em que foi escrita a Bíblia para termos de fato uma visão clara sobre a questão. Não podemos de forma alguma nos prender a textos sem nos basear no contexto para termos o pretexto de privar-nos em dar e receber prazer.
Lemos em Tito 1:15
15 - Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados.

O senhor criou nossos corpos e nenhuma parte deles é naturalmente imperfeita. Deus nos criou para que tenhamos vida em abundância e vivamos com prazer, sexo anal é apenas uma das maneiras de se chegar a este fim (seja numa relação homossexual ou heterossexual).

Não há mal nenhum em se praticar sexo anal, desde que haja respeito entre o casal (homo ou hétero) desde que haja o principal na relação: RESPEITO! Porque da condenação, já estamos livres.

RÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro]: Entendo perfeitamente o seu ponto de vista, mas gostaria de aprofundar o debate sobre alguns pontos, especialmente aqueles que divergem da teologia tradicional. Você citou o livro de Romanos para falar sobre o pecado que atinge a todos. Pois bem, Paulo em Romanos inicia o debate dizendo que todos estamos destituídos da glória e que seremos condenados, porque todos pecamos.  Esse discurso ele continua nos capítulos seguintes e vemos em Rm. 5.12 a repetição: “assim a morte passou a todos os homens por isso todos pecaram”. Seguindo a lógica do seu discurso, Paulo diz que o pecado entrou no mundo por um homem (Adão) e faz a analogia com Cristo, o homem pelo qual o pecado foi tirado do mundo. Diz ainda que a graça superabundou sobre o pecado. Mas no capítulo 6, Paulo inicia assim: “Que diremos pois? Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? “. Adiante, no versículo 6 do capítulo 6 do referido livro de Romanos, Paulo ensina que “o nosso velho homem foi com ele crucificado para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado”. Bom, sendo assim, e tendo dito o mesmo Paulo em outras oportunidades que a sodomia é pecado, não devemos entender que o homem que aceita Cristo como seu Salvador deva abandonar tal prática? Com relação a sermos salvos pela fé e pelo sangue redentor de Cristo, isto se coaduna com a teologia tradicional (basta se reportar ao mesmo livro de Romanos, 3:24 -27). Entretanto, um ponto básico da Hermenêutica diz que não devemos ver um assunto isoladamente, senão se comparada a tudo o que a Bíblia diz a esse respeito. Desse modo, Walter A. Henrichsen[1] afirma que uma doutrina não pode ser considerada bíblica a não ser que resuma e inclua tudo o que a Escritura diz sobre ela. Com relação a doutrina de salvação, num contexto mais amplo, veremos que a fé e o sangue de Cristo dependem de outros fatores, como aceitação e arrependimento do pecador. O arrependimento, por exemplo, foi a tônica do discurso de Pedro no dia de Pentecostes (At. 2:37 – 38). Portanto, reconhecendo que a sodomia é uma prática pecaminosa de acordo com a Lei – e a Lei revela o pecado ao pecador (Rm 7.7), parece-me que justamente para que ele se arrependa – não haveria a necessidade, para se obter a graça da salvação, o arrependimento dessa prática? Por fim, se não há necessidade agora de observarmos nenhum preceito em relação ao pecado, por que Deus providenciou a expiação pela morte redentora de Seu Filho? Se o pecado seria tolerado depois de Cristo, qual foi a função de sua morte?



[1] HENRICHSEN, Walter A. Princípios de interpretação da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1997.

Réplica anja

Carlos, muito pertinente sua pergunta e sua avaliação, trazendo a tônica, a doutrina arminiana, que diz que devemos ser dignos de merecer a graça, algo contraditório, uma vez que a graça, é favor imerecido, concorda? Sendo assim, começo minha réplica citando alguns versos que trazem à tona a doutrina calvinista, esta sim, com muito mais embasamento nas Escrituras:

Salmos 139:16
16 - Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia.
João 17:8,9
8 - Porque lhes dei as palavras que tu me deste; e eles as receberam, e têm verdadeiramente conhecido que saí de ti, e creram que me enviaste.
9 - Eu rogo por eles; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.
Lucas 18:7
7 - E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?
Romanos 8:33
33 - Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justifica.
Romanos 9:11
11 - Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama)
Romanos 11: 5,6 e 7
5 - Assim, pois, também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça.
6 - Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra.
7 - Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos.

Pois bem Carlos, note que citei vários versos procurando dar mais ênfase a carta aos Romanos, trazendo assim a tônica que nada podemos fazer para ser merecedores da graça e nem o arrependimento, somos capazes de ter se este não nos for dado por Deus: 
Atos 5:31
31 - Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados.
Ezequiel 36: 26,27
26 - E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.
Ezequiel 36:27
27 - E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis.

Ezequiel 11:19
19 - E lhes darei um só coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra, e lhes darei um coração de carne;

Tendo citado estes versos para mostrar nossa total incapacidade, pergunto, se Deus escreveu TODOS os meu dias em teu livro antes que nenhum deles existisse, como poderei fugir disto? Seria Deus tão injusto de por em meu coração um desejo em que, para estar em comunhão com Deus, devo abdicar de tal desejo?

NÃO!
Voltando um pouco mais, você me perguntaria: Mas você mesmo não me disse que sodomia é pecado? SIM! Pecado na lei mosaica, e para que serviu a lei? Simplesmente para mostrar nossa total incapacidade de cumprir os padrões pré-estabelecidos por deus, fazendo-se necessário,  o sacrifício vicário de Cristo.
Ou voltamos à Lei e a cumprimos na íntegra (sem tirar uma vírgula sequer), ou deixamos de fora toda a lei! Pois em se tentando cumprir a lei, falharmos numa vírgula sequer, seremos culpados por não termos cumprindo-a, entende? Então, como saber o que devemos cumprir e não devemos cumprir? Fácil! Tudo aquilo que me angustia a ponto de atrapalhar minha comunhão com deus, deve ser repensado, caso contrário, faça sexo anal, oral, homoerótico etc. e não carregue a menor culpa por isto.

TRÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – Entendo que pela ótica calvinista os seus argumentos são procedentes. Queria fazer apenas algumas colocações em relação ao que você afirmou e mostrar uma outra possibilidade de interpretação. Embora em alguns pontos do que eu afirmei possam estar em consonância com a doutrina arminianista, em essência não me norteio por ela. Concordo com o que disse em relação a graça é favor imerecido, ou seja, não a alcançamos por obras “para que ninguém se glorie” (Ef. 2:8 – 9). Mas pense bem: se está sendo distribuída de graça não significa que eu posso denegá-la? Caso contrário, somos máquinas ao bel prazer de um “deus” que determina tudo. E se esse “deus” determina tudo, por que não criou o homem sem a capacidade de pecar? Se o homem pecou é porque teve escolha de pecar. Agora, se Deus criou o homem para lhe dar tanto trabalho assim, a ponto de ter de providenciar a morte de Seu Filho para redimir essa humanidade que tanto pecava, não parece que tenha o atributo da inteligência suprema, não? Desse modo, penso que o que você defende seria um determinismo mecanicista teológico no qual o homem é uma marionete nas mãos de um “deus” pueril. Por outro lado, a doutrina do livre-arbítrio é muito mais coerente do que a da predestinação calvinista. Todos os versículos apontados por sua argumentação levam a um ponto só: a onisciência de Deus. Isso é ponto pacífico. Deus conhece a cada um de nós, o nosso coração (Is. 49:1; At. 13:22). E Deus faz planos a todos. Porém os homens podem seguir ou não os planos de Deus. Veja o que diz 1Sm. 13: 13: “Então disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente, e não guardaste o mandamento que o SENHOR teu Deus te ordenou; porque agora o SENHOR teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre”. Vemos claramente que Deus confirmaria o reinado de Saul sobre Israel se, e este condicional é essencial para o entendimento da passagem, o rei tivesse guardado o mandamento que o Senhor Deus te ordenou. Vemos o livre arbítrio, ou seja, a escolha e suas consequências em diversas passagens. Em Adão, por exemplo, que pecou porque desobedeceu ao preceito único estabelecido por Deus e por isso foi destituído das benesses do Paraíso. Davi, como já foi dito, era homem de coração de acordo com o próprio Deus, pecou e foi repreendido por Natã que proferiu a sentença de Deus: a espada não se apartará da casa de Davi (2Sm. 12:10). Por seus pecados, Davi não pôde construir o templo, o que foi feito por Salomão, homem que ainda no ventre da mãe, Deus o amou (2 Sm. 12:24). Mas mesmo Salomão recebeu a ira de Deus por ter se tornado idólatra e “desviado seu coração do Senhor Deus de Israel” (1 Reis 11:9). Jesus Cristo foi tentado e a tentação significa que Ele tinha escolha. Poderia escolher entre o bem e o mal. E o que dizer do caso de Ananias e Safira, bem como do mago Simão? Todos convertidos, “aceitos”, andando com os apóstolos (será que como apóstolos não sabiam que estes não eram “predestinados”?). Mas todos esses perderam a sua salvação, porque a salvação não é algo que não se possa perder. Veja o que diz Pedro: “guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a firmeza e caiam” (2Pe. 3:17). Diante de todo esse exposto, pergunto: Se o livre arbítrio não existe, como se coadunam todas as passagens aqui expostas que apontam para o contrário? O que diria da afirmação de Agostinho: “Sem o livre arbítrio, não haveria mérito ou demérito, glória nem vitupério, responsabilidade nem irresponsabilidade, virtude nem vício”? Você argumenta, também, que a sodomia era proibida somente no Antigo Testamento, mas os versículos que apontei são todos do Novo Testamento... Como, então, dizer que não são mais válidos? Não seria o mesmo que dizer que o homicídio agora é permitido? E o ponto principal, ou seja, a pergunta inicial: a advertência contra a sodomia no Novo Testamento não é suficiente para afirmar que sodomia sim é pecado ainda hoje?

TRÉPLICA ANJA

Bem Carlos, você tocou num ponto chave, pois muito embora minha resposta esteja baseada na doutrina calvinista (que particularmente eu perceba ter mais embasamento bíblico), também não me norteio por ela e para mostrar que não devemos nos basear por doutrinas feitas por homens e que enaltecem os dogmas e suprimem a vida. Se por um lado a doutrina calvinista nos dá a impressão de sermos marionetes nas mãos de um deus pueril, por outro a doutrina arminiana diz que deus determina (ou predestina) conforme sua presciência, ou seja, deus, de antemão, conhecendo o coração do homem, predestinou, mas a base de tal doutrina, seria as escolhas do homem, ao contrário da calvinista, que diz que deus escolheu e pronto! Nada podemos fazer para mudar os desígnios divinos. Eu pergunto: será mesmo?

A Bíblia não é um livro que se possa ler e ser interpretado de forma literal, e dogmas, sempre devem favorecer a vida, e não a suprimir!

Entende a magnitude disto? Ou temos livre arbítrio, ou de fato, não temos liberdade. E se cabe a resposta de que “se nós temos o livre arbítrio para escolher ou não a Deus, Deus tem o mesmo livre arbítrio para mandar quem Ele quiser para o inferno”. Eu replico perguntando que se, o amor de deus é sobremodo maior que o amor do homem (supostamente ama-me mais que meus pais me amam), jamais se viu um pai ou mãe renegar a seu filho, mesmo que este seja um bandido, ou uma pessoa de má índole (exceto em raríssimas exceções), e deus agiria diferente de nós como pai/mãe? É este o amor de deus?

Quanto a esta sua fala, Carlos: “Mas todos esses perderam a sua salvação, porque a salvação não é algo que não se possa perder”; temos aqui um problema, pois segundo o que dizem ter sido dito pelo próprio Jesus, vemos em João 6:37: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.

Mas sigamos em frente, e para isto, vamos voltar ao inicio, para que possamos seguir e vejamos o termo hebraico e grego para a palavra:

Na verdade na bíblia nem há o termo sodomia e sim sodomita.

Sodomita

Grego: Arsenokoitesum
Que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual

Hebraico: Qadesh
Prostituto de templo masculino

A palavra SODOMIA é encontrada no latim, e refere-se a todo e qualquer tipo de perversão sexual, seja hétero, seja homossexual, e entre eles o sexo anal.

Mas porque eu voltei ao início? Simplesmente para citar o que você, Carlos, diz: “Você argumenta, também, que a sodomia era proibida somente no Antigo Testamento, mas os versículos que apontei são todos do Novo Testamento... Como, então, dizer que não são mais válidos?”

Exato! A lei serviu apenas para mostrar que ninguém capaz de cumpri-la, e quanto aos textos que você cita serem encontrados no Novo Testamento, eu pergunto-lhe: sendo Paulo um fariseu, conhecedor de TODA a lei, não lhe parece que ele possa ter estado preso a tais conceitos ao escrever suas cartas?  Os escritores bíblicos não poderiam escrever presos a tais conceitos da época? Qual seria de fato a vontade de deus? Qual o motivo dele (Deus) ter em Jesus humanizado? Seria para nos ensinar como sermos divinos? Ou para nos mostrar como sermos de fato humanos? 

Se formos sempre fazer uma análise rasa dos textos bíblicos, e interpretá-los no sentido literal, teremos grandes problemas. Desde nossa alimentação, até as nossas vestimentas. E devemos sempre ter em mente que a Lei foi escrita para o povo Judeu. Qual foi a intenção de Deus ao passar estes estatutos e leis aos hebreus? O que significava este código de santidade passado ao povo judaico?

Este conjunto de leis e código de santidade para nada mais serviam a não ser para mostrar a total incapacidade e inabilidade em cumprir tal aliança firmada entre Deus e o povo escolhido, fazendo-se necessário, portanto, a Cruz, o sacrifício vicário de seu Filho Jesus. Estas leis e a aliança firmada com o povo judeu apontavam para Jesus, nada mais.
Paulo não tinha o ministério da incircuncisão? Por acaso ele obrigava os gentios a se circuncidarem? NÃO! 

Vejamos: Romanos 3:29,30
29 - É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, 30 - Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão.

Somente no judaísmo pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”.

E como então poderemos hoje querer aderir ao ministério da circuncisão e exigir que passemos a observar certos preceitos que foram entregues somente aos judeus, não sendo exigido aos gentios que observasse uma vírgula sequer desta lei? Entende onde quero chegar quando digo que “ou devemos cumprir toda a lei, ou então, pela graça que nos foi derramada por intermédio do sangue de Cristo, não cumprir nada”? Ou tudo, ou nada! Simples assim!

Façamos agora (e pra finalizar) uma análise dos termos hebraico e grego:
Lemos no original Grego: Arsenokoitesum que literalmente significa: que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual.

Mas no Antigo Testamento (todo escrito em hebraico e aramaico) lemos: Qadesh

Que significa: prostituto de templo masculino. (não interprete como sendo um costume apenas dos gentios, mas sim do povo Judeu, pois era costume entre os judeus, misturar o culto ao deus hebreu com diversas formas de cultos pagãs, o que mostra que a lei se referia apenas ao povo judeu).

Percebe a sensível diferença? PROSTITUTO DE TEMPLO! Pessoas que usavam a prostituição como forma de culto, e, portanto, eram tidas pelo deus hebreu como sendo abomináveis.

Mas não devemos deixar de lembrar que a palavra sodomia que se apresenta no latim apenas, e abre o leque para perversões sexuais, seja entre homossexuais, seja entre heterossexuais, e nada mais foi que um dos muitos erros não somente de tradução, mas de interpretação contidos na bíblia. Muitos mitos são construídos sobre pesados escombros, consequentemente, basta removê-los para que o alto edifício dos velhos e falsos conceitos caia por terra. O significado de sodomia que hoje lemos nos melhores dicionários não passa de produto de um equívoco que dura há séculos e insiste em permanecer de pé.

Finalizando, eu repito que deus humanizou para que fôssemos humanos, demasiadamente humanos e é pela igreja nos impor seus dogmas e religiosidade que descri do deus da igreja. E tenho comigo que, se existe um deus que conspire contra a liberdade humana, eu repudio este deus, ele é meu inimigo, e eu dele.

Muitos hoje me dão o rótulo de ateia, até mesmo eu  faço isto, mas não gosto de rótulos, de caixas e de algemas, sou livre, vivo livre, sendo humana. 

Anja_Arcanja®


2° tema: ADULTÉRIO


Segundo tema da entrevista: ADULTÉRIO

[Carlos Cavalheiro]

pergunta: Vamos falar agora em adultério. Sei que você tem feito muitos artigos falando dos conceitos de poliamor e de relação aberta dos casais. Por isso, gostaria de provocar a pergunta para esse lado a fim de saber se para você esses conceitos se coadunam com o texto bíblico. Então, vou evocar aqui alguns pensamentos predominantes na teologia mais tradicional para que possa orientar melhor a sua explanação. A princípio, parece-me, o adultério é visto sempre ligado ou relacionado a dois outros princípios, o da monogamia e o da fidelidade. O que quero dizer com isso é que sempre se pensa no adultério como sendo a infidelidade de uma das partes do casal - portanto, um casamento ou relação monogâmica - para com o outro. Muitos teólogos defendem a monogamia baseando-se em diversas passagens bíblicas, incluindo a criação humana (um homem e uma mulher). O que você pensa em relação a tudo isso?

Resposta anja

Carlos, devemos sempre fazer uma análise histórico-crítica das passagens bíblicas. E devo primeiramente, discordar de você quando diz que o adultério está relacionado ao princípio da monogamia, pois não está. O povo hebreu nunca foi monogâmico nem monoteísta, era uma nação  que adotava a poligamia e princípios politeístas, que foi mudando conforme fora sendo tratado (se é que posso dizer assim) pelo deus hebreu, mas isto apenas em sua forma de culto, pois jamais o homem hebreu abandonou a poligamia conjugal.
O adultério está muito mais ligado a infidelidade que a monogamia.  Senão vejamos, Abraão teve um filho com a com Agar, Ismael; o rei Davi (o homem segundo o coração de deus) teve várias esposas e algumas concubinas; seu filho, Salomão, teve 700 esposas e 300 concubinas, Jacó, duas esposas e por aí vai, então, a poligamia se analisada no sentido cultural, não é vista como adultério, mas o que é adultério? A infidelidade! Vejamos o que diz o Aulete sobre a palavra adultério: 
sm.
  1  Transgressão, nos aspectos moral e legal, da fidelidade conjugal (compromisso de exclusividade recíproca nas relações sexuais dos cônjuges) implícita ou explícita no contrato matrimonial
sm.
  2  P.ext.  Ato de ter relações sexuais com outra pessoa que não o seu próprio cônjuge.; INFIDELIDADE.
  3  Fig.  Junção espúria de elementos contraditórios: O adultério de luz e trevas.
 [F.: Do lat. adulterium, ii.]

Quero ater-me a 1° definição: “Transgressão, nos aspectos moral e legal, da fidelidade conjugal (compromisso de exclusividade recíproca nas relações sexuais dos cônjuges) implícita ou explícita no contrato matrimonial”

Agora vejam os que diz o Aulete sobre o termo aliança: 
sf.
  1  Anel de noivado ou de casamento, que é us. por noivo ou noiva, ou por marido ou esposa, para simbolizar o vínculo conjugal.
  2  Pacto ou acordo que define um compromisso entre pessoas ou grupos, uma união ou colaboração para certos propósitos.
  3  Restr.  União conjugal; casamento, matrimônio
  4  União, ligação estável ou harmoniosa entre elementos diversos.
  5  Rel.  Relação entre Deus e um povo, ou a humanidade, concebida como um acordo ou pacto, um compromisso mútuo.
  6  Antr.  Relação social entre famílias ou outros subgrupos sociais, definida de modo mais ou menos convencional pelo fato de haver casamento(s) entre seus membros.

 [F.: Do fr. alliance.]

Vamos nos ater a 2° definição: “Pacto ou acordo que define um compromisso entre pessoas ou grupos, uma união ou colaboração para certos propósitos.”
O QUE É UM CASAMENTO SENÃO UM PACTO, COMPROMISSO ENTRE PESSOAS?

Agora eu pergunto, se meu pacto, compromisso, aliança, permiti-me ou permiti-nos, termos encontros afetivos extraconjugais, em que estaria eu ou meu cônjuge sendo infiel ou estarmos em adultério? Quem nos acusará de quebra de pacto, aliança ou de compromisso?

Penso que a esta altura o leitor pode estar pensando que me baseio no antigo testamento para dar crédito as minhas palavras, e já digo que não, apenas citei o antigo testamento para mostrar que adultério não está intrinsicamente ligado a monogamia e sim a infidelidade.  E quando Jesus faz menção ao adultério no evangelho de Mateus cap 5 versos 27 e 28, ele se refere diretamente ao 10° mandamento e o faz exatamente dando o sentido de infidelidade e não de monogamia.

RÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – No entanto, no Evangelho de Mateus, capítulo 19, versículos 4 a 12, que em certas partes são repetição do que já havia sido escrito no capítulo 5, versículos 27 a 32, encontramos o seguinte contexto: Deus fez, desde o princípio, macho e fêmea dos seres humanos para que quando o homem se unisse à sua mulher se tornasse uma só carne. Mas o mais interessante é que o versículo 5 diz: “e serão os dois numa só carne”. E no versículo seguinte, continua dizendo: “Assim não são maisdois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem”. Bom, essa metáfora da relação sexual que caracteriza de fato a consumação do casamento, não estaria explicitando que, pelos propósitos divinos, o casamento deveria ser monogâmico (só dois, nessa relação), e que a inserção de outro nessa relação caracterizaria o adultério? Entendo que, do ponto de vista humano, se há um consenso entre o casal para a liberdade de manutenção de relação sexual com outros parceiros não caracterizaria, de fato, infidelidade. Mas me parece, pelo que podemos ler na Bíblia, que o casamento – a união matrimonial – tem um sentido e um propósito mais elevado do que simplesmente a satisfação sexual. Permita-me, somente para ampliarmos o debate, citar uma fonte extra-bíblica que traz um outro sentido para o casamento. Trata-se do depoimento do professor Joseph Campbell dado a Bill Moyers no livro “O Poder do Mito”[1]. Diz Campbell: 

“O mito lhe dirá o que é o casamento. É a reunião da díade separada. Originariamente, vocês eram um. Vocês agora são dois, no mundo, mas o casamento não é senão o reconhecimento da identidade espiritual. É diferente de um caso de amor, não tem nada a ver com isso. É outro plano mitológico de experiência. Quando as pessoas se casam porque pensam que se trata de um caso amoroso duradouro, divorciam-se logo, porque todos os casos de amor terminam em decepção. Mas o matrimônio é o reconhecimento de uma identidade espiritual”. 

Esse trecho, parece se coadunar com o texto bíblico quando Jesus diz que somos dois que nos tornamos um no casamento. Não estaria aí a explicação para os versículos 28 e 32 do capítulo 5 do Evangelho de Mateus, quando Jesus trata o casamento monogâmico de forma tão sagrada que afirma que somente de olhar outra mulher com cobiça já se comete adultério e, também, que quem se casa com quem se divorciou/desquitou, comete adultério?

Por outro lado, os exemplos citados do Antigo Testamento sobre homens que tiveram mais de uma mulher não são exemplos de ampla aceitação divina. Davi cometeu adultério e teve sobre si a ira de Deus e, mesmo depois de perdoado, ainda assim, Deus não permitiu que ele construísse o Templo sagrado. Abraão teve o filho Ismael com a escrava Agar, mas num acordo entre ele e sua esposa Sara. Ainda assim, Deus admoestou a falta de fé de Abraão e, embora não permitisse a morte de Ismael no deserto, não impediu que Agar e seu filho fossem expulsos do convívio do clã. E, o mais interessante, quando a Bíblia diz das 700 mulheres e 300 concubinas de Salomão, em 1 Reis, 11:3 – 6, é exatamente no momento em que diz da “queda” de Salomão, que suas “mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses”. Não seria um sinal de que Deus não é a favor das uniões poligâmicas, apesar de tê-las “tolerado” em alguns momentos da História?
____________________________________
[1] CAMPBELL, Joseph., MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990, p. 06.

RÉPLICA ANJA

Carlos, você descreve trechos do evangelho de Mateus que trata mais especificamente acerca do divórcio e não do adultério.  Observe o verso 3 : Mateus 19:3
3 - Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?

Na verdade, os fariseus tinham em mente era atacar a Jesus, por isto o indagavam-lhe. Existiam naquele tempo, duas escolas que divergiam quanto ao assunto relativo à mulher e ao divórcio. Os mais liberais, que eram seguidores das idéias do rabino Hillel, sustentavam que o homem podia repudiar a sua mulher por qualquer motivo. Os mais conservadores e ortodoxos seguidores do rabino Sammai, afirmavam que o homem só poderia deixar a mulher se encontrasse alguma coisa indecente nela. A intenção não era resolver a questão dessa divergência. A intenção era colocar Jesus numa posição desconfortável diante da lei, dos discípulos e da multidão. Perceba que naquele tempo era permitido ao homem ter mais de uma esposa, e a mulher, não era permitido nada, nenhum direito, nem contadas eram. o rabino Hillel sustentava que o homem poderia por qualquer motivo repudiar a mulher, ao contrário do rabino Sammai, este um pouco mais humano, procurava conceder a mulher um mínimo de segurança, e diante disto, entram em cena os fariseus e Jesus.

Estou de pleno acordo quando você diz que no casamento somos dois que nos tornamos um, pois eu sou uma com meu esposo, mediante o compromisso, o acordo, nossa aliança firmada no cartório na presença de um juiz de paz. Mas insisto, em que isto me impediria de termos firmado que nosso casamento nos dá a liberdade de termos um relacionamento extraconjugal? Seria eu uma com outro homem ao qual mantive um relacionamento afetivo? NÃO! Eu sou uma com meu cônjuge, é com ele que tenho minha aliança, é com ele que sou casada, é com ele que tenho uma identidade espiritual; e repito aqui o que disse na primeira resposta: se meu pacto, compromisso, aliança, permite-me ou permiti-nos, termos encontros afetivos extraconjugais, em que estaria eu ou meu cônjuge sendo infiel ou estarmos em adultério? Quem nos acusará de quebra de pacto, aliança ou de compromisso?

Voltando um pouco mais em relação ao texto de Mateus que você cita, devemos observar que a realidade do casamento hoje em dia, e a realidade no tempo de Jesus eram bem diferentes. E como disse que o texto trata da questão do divórcio, e Jesus deixa bem claro que só é permitido o divórcio em caso de adultério (fornicação), façamos a nós mesmos a seguinte pergunta: Uma mulher se casa, mas seu esposo, que antes do casamento se mostrava tão carinhoso, agora se mostra violento, beberrão, agride os filhos, espanca a mulher, mas, não a trai, ela então estará presa a este homem pelo resto da sua TRISTE vida? Ou pelo menos até que ele a mate? ÓBVIO QUE NÃO! E é por conta de interpretações errôneas que hoje vemos muitas mulheres rogando para que deus assassine seus esposos, pois não mais suportam viver uma vida miserável e serem espancadas. Fiz este breve comentário apenas para mostrar que os casamentos de hoje, são muito diferentes dos casamentos da época de Jesus, e o que foi escrito a dois mil anos atrás, deve ter uma análise histórico-crítica.

As citações de punições de deus aos polígamos do antigo testamento, são exatamente pelo adultério e não por ter mais de uma esposa. Davi, cobiçou a mulher de seu soldado, a tomou para si, fornicou com ela, a engravidou e matou seu marido. Mas está aí o sentido da punição, e não por ele ter outras esposas e algumas concubinas.  Salomão, adulterou contra deus, pois adorou a Astarote, a deusa dos sidônios, e a Milcom, o terrível deus dos amonitas. Ele chegou a construir um templo no Monte das Oliveiras, do outro lado do vale de Jerusalém, para o deus Camos, o deus imoral de Moabe, e outro para Moloque, o deus perverso dos amonitas.  É mais que sabido que o deus hebreu não permite que o seu povo adore outros deuses, e foi exatamente isto que Salomão fez, eis o motivo de sua queda.

E quanto a Abraão? Isto é um capítulo a parte: Sara sendo estéril não deixaria herdeiro. Abraão desposa uma escrava egípcia chamada Ágar com anuência e escolha da própria Sara. Sara engravida aos 90 anos do já ancião Abraão, algo inexplicável pela biologia. Desta concepção nasce Isaque, agora o verdadeiro herdeiro do trono hebreu. Ismael passou a ser filho “bastardo”, ou seja, filho de mãe escrava ou como se diz nos tempos modernos, fruto de “barriga de aluguel”. Desprezados por Sara e pelo filho adolescente Isaque, Sara, enciumada e temerosa de perder a posição de esposa do Rei, exige a expulsão de Ágar e de Ismael, sendo atendido o seu desejo pelo esposo, Abraão que, no entanto, provê o sustento financeiro de Agar e Ismael, garantindo um futuro estável para os dois e da descendência de  Ismael, surgem os árabes, que são inimigos do povo judeu, e até hoje brigam por territórios. Onde está a punição de deus a Abraão? Simplesmente não houve. Mais um motivo para que eu afirme que sendo consensual, não existe nada condenável no relacionamento aberto.


_Tréplica Carlos

[Carlos Carvalho Cavalheiro] 

– Porém, Deus não aceitou a relação do faraó com Sarai, mulher de Abraão, mesmo com o consenso do casal, conforme Gn. 12: 10 – 20. Abraão pediu para que sua mulher dissesse ser sua irmã, o que possibilitou ao faraó desposá-la. Mas Deus não aceitou tal situação. Não estaria aí um exemplo de que, mesmo com o consenso do casal, qualquer relação extraconjugal é vista como inadequada aos olhos de Deus? E, ainda, insisto: se Jesus disse que “olhar” para uma mulher desejando-a já seria adultério, o que falar em manter relações com essa mesma mulher?

Não há realmente o “rompimento” da unificação (“uma só carne”) num casamento quando há outra pessoa envolvida na relação, ainda que de forma consensual? Não seria esse o contexto de 1Co. 6:16 – 18?

Ademais, Jesus diz daqueles que são pedra de tropeço, no sentido de pessoas que atrapalham o desenvolvimento da fé de outras. Numa relação aberta, deveria haver consenso, então, entre todos os participantes e sabe-se que nem sempre há. Melhor explicando: muitas vezes um homem casado, com a conivência de sua esposa, mantém relações com outra mulher, por sua vez casada com outro homem, sendo que este último não tem conhecimento de tal ato. Por isso pergunto: somente a mulher infiel é responsável pela infidelidade? Mas e quanto ao seu parceiro, que sabe do desconhecimento do marido dela, não comete adultério? Não contribui para a infidelidade de outrem? Não peca?

Tréplica anja

Carlos, no caso, não poderíamos dizer de forma alguma que houve um consenso em assumir um relacionamento aberto, no relacionamento aberto, não existem mentiras, engodos, enganos. O que houve na verdade, foram duas coisas (isto no meu entendimento):

1° - o sentido de preservação da vida – Abrão temendo ser morto em terra estranha pelos egípcios que com certeza, cobiçariam sua esposa, fez a ela tal proposta.

2° - percebendo Abraão que passou a ter lucros com a situação, pode ter até pensado ter sido um bom negócio, sei que pode soar estranho, mas devemos lembrar que a mulher era moeda de troca naquela época.

Mas perceba que o mais interessante nisto tudo é que nem Abraão nem Sarai foram punidos por Deus e sim Faraó, que fora enganado por Abraão, e segundo a própria bíblia, nunca teve intensões de desposar Sarai se soubesse que ela era esposa de Abraão e não irmã. Não nos parece que Abraão devesse ser punido por ter mentido e enganado a Faraó e não ter fé suficiente de que deus o livraria de todo mal? Uma pergunta que sempre me fiz: porque fora punido Faraó e não Abrão? Não soa como sendo deus injusto, uma vez que o faraó não sabia que Sarai era esposa de Abraão? (quero votar a falar sobre o engano, mas farei no fim de minha tréplica, agora irei abordar o outro texto que você cita).

Quanto ao contexto da carta de Coríntios, é bem claro que trata-se de meretriz (prostituta), e já deixo claro aqui que tenho uma visão singular a respeito de pessoas que fazem sexo por dinheiro e não vejo nada condenável em tais pessoas, mas, não quero abordar agora este assunto, antes, voltemos ao contexto da carta aos Coríntios, que trata de prostituição, e como já venho dizendo, sempre devemos fazer uma análise histórico-crítica, o contexto cultural da época, para quem era endereçado o texto, quais eram os costumes locais, para saber o que qual era a intenção do autor ao redigir tal texto. Mas, fica claro que não se trata de relacionamento aberto também, pois se refere à prostituição.

Bem, já disse no começo e volto a repetir (uma vez que você insistiu, fazendo questão de frisar isto), Jesus ao falar que se comete adultério apenas com o “olhar desejoso”, fazia referencia direta ao 10° mandamento da Lei mosaica, uma lei impraticável, da qual estamos livres.

Mas algo interessante que você disse, e pra esta eu tiro o chapéu, pois, pra mim, este será o ponto crucial da entrevista é quando você questiona sobre padra de tropeço, e nesta fala, Jesus se refere a ele próprio, mas penso que você fazia referencia a carta de Paulo aos Coríntios neste verso:

I Corintios 8:9
9 - Mas vede que essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos.

E ainda: I Corintios 10:32
32 - Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus.
E em minha opinião o mais importante: I Corintios 10:31
31 - Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.
Gostaria de abrir um parêntese e replicar aqui algo que penso ser importante, pois a algum tempo atrás, escrevi um texto onde falo algo sobre a forma de louvar a deus:

Eu (nós como gênero humano), louvamos a Deus em nosso modo singular e plural de viver. Desfrutando de nossa humanidade intensamente. Gozando com limites os prazeres da vida. Amando a nosso próximo. Ajudando-o, respeitando-o, sendo um com meu esposo, sendo de fato uma mãe... Enfim, louvamos a Deus nas mínimas coisas e nos pequenos detalhes da vida! Até nos momentos mais difíceis louvamos a Deus sabendo como atravessar e transpor estes momentos. É assim que penso: devemos emprestar significados a cada momento da vida, cada abraço, cada beijo, cada relação sexual, (rsrs), em cada gesto, em cada, em cada... Fazendo de cada momento um momento único que não voltará de novo...

Mas voltando ao tema Carlos, gostaria de neste ponto falar que as coisas que fazemos entre quatro paredes, ou no secreto de nosso lar, de forma alguma precisa (ou deve) sair de lá, ou seja, ser externado. Pois é fato que tudo que de alguma forma, contradiz ao que para a maioria é comum, portanto, o correto, pode é claro, chocar a muitos; muitos neste ponto poderão questionar-me ao estar assumindo publicamente meu relacionamento aberto e, portanto, “escandalizando”, mas, deixei claro no começo da entrevista que hoje não mais pertenço a nenhuma igreja (como instituição) exatamente por não aceitar algemas e dogmas a mim impostos, sem que eu possa sequer questiona-los e por esta razão, decidi pular fora do barco chamado religião, e nadar no mar aberto e dizer aos que assim como eu, que podem ser livres sem, portanto, ter a necessidade de se exporem como eu, que faço exatamente para mostrar que podemos ter esta liberdade.

Para fechar, quero falar que, sim, existe uma necessidade recíproca de ambas as partes saberem, e digo que sou radicalmente contra a infidelidade, engano e todo tipo de engodo na relação. Como disse desde o começo, o respeito é a base de tudo.

Anja Arcanja



[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Há um tema que gostaria de refletir com você e que, seguramente, deveríamos ter iniciado com ele essa nossa entrevista. Trata-se de sexo e sexualidade segundo a Bíblia. Peço licença para discorrer um pouco sobre o que quero debater para que fique mais claro no momento em que fizer as perguntas pertinentes ao tema. Considero que a Bíblia, como livro sagrado – no sentido de ser diretriz para religiões – que é, tem de ser visto também como um código de conduta moral. 

Melhor explicando, a Bíblia, entre outras coisas, define uma ética e uma moral. Parece-me que em relação ao sexo e à sexualidade, a Bíblia possui alguns pilares que sustentam essa moral e que os mesmos servem de parâmetro a essa ética. Quero utilizar dos parâmetros estabelecidos por Norman L. Geisler, em seu livro Ética Cristã, no que tange ao tema proposto. Segundo Geisler, o sexo é intrinsecamente bom, poderoso (capaz de encher a Terra de pessoas, como em Gn. 1:28), mas precisa ser controlado por meio do casamento monogâmico (Gn. 2:24; Mt. 19:6). O sexo tem por função no casamento monogâmico seriam três: 1) “Levar a efeito a unidade íntima sem igual entre duas pessoas”, 2) “fornecer êxtase ou prazer para as pessoas envolvidas neste relacionamento sem igual”, 3) “levar a efeito uma multiplicidade de pessoas no mundo por meio de ter filhos. Respectivamente, as três funções básicas do sexo no casamento são a unificação, a recreação, e a procriação”.[1]  Portanto, resume Geisler, sabendo dos propósitos do sexo no casamento, há como compreender as proibições na Bíblia acerca de algumas práticas sobre as “relações extra-conjugais ilícitas” como o adultério, a fornicação, a prostituição e a sodomia (que o autor considera como sinônimo de homossexualidade). 

Para Geisler, há um princípio moral na Bíblia que diz que o sexo deve ser um relacionamento pessoal, único e permanente entre um homem e uma mulher.[2] Qual a sua opinião acerca do que foi explanado por Geisler?

Anja Arcanja:

Carlos veja bem, dizer que a bíblia é um livro sagrado – mas como você bem pontuou, no sentido de ser diretriz para as religiões – é também dizer que o alcorão é sagrado, o livro dos mórmons e assim sucessivamente. E penso eu que não existem livros sagrados e tenho como sagrado a vida do ser humano, esta sim, é um livro sagrado que vou escrevendo dia-a-dia, com meu vivar.

Gostaria também de lhe parabenizar por sempre buscar também fontes extras bíblicas (mesmo que tais fontes estejam erroneamente embasadas na bíblia) para embasar suas questões, e lamento não poder oferecer também esta ferramenta, pois os cristãos em geral, são monogâmicos, tentando basearem-se na bíblia como regra de conduta moral para afirmar que um casamento monogâmico é essencialmente necessário para estar em comunhão com deus e experimentarem a felicidade plena em seus relacionamentos, o que não é necessariamente, uma verdade absoluta. Temos alguns exemplos de relacionamentos abertos em que o amor, o respeito mútuo e os valores familiares são as bases e ressalto ainda o amor como pináculo. Mas algumas obras que eu poderia citar seriam:

Tête-à-Tête - Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre - HAZEL ROWLEY
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, com o subtítulo: A Arte da Excepcional Busca pela Felicidade - Walter van Rossum
Amor a Três - Barbara Foster, Michael Foster e Letha Hadady

O que é ética e moral? Pra mim moral é o conjunto de valores, de normas e de noções do que é certo ou errado, proibido e permitido, dentro de uma determinada sociedade, de uma cultura, ou seja: Valores herdados de costumes.  E ética, normas e regras que devem ser seguidos para que se estabeleça um comportamento moral exemplar.

Mas então, prosseguindo, será mesmo que devemos nos basear na bíblia como base de ética e moral?  Se fizermos uma leitura bem superficial descobriremos que ética e moral não fazem a cabeça de Deus.
Como já disse, moral são valores herdados e não são imutáveis, posso muito bem não pensar como meus avós sobre o que é moral, agindo de maneira diferente deles, sem, portanto, ser uma imoral.

Vamos a sua citação, o ilustre Norman L. Geisler, nascido em 1932, apologista, filósofo e calvinista, não poderia ele estar preso a sua época tal qual estamos a nossa? Ainda tendo por base que ele não era nada tolerante, prova disto foi ter lutado para que fossem expulsos da Sociedade Teológica Evangélica, Clark Pinnock e Greg Boyd, apenas por eles defenderem o teísmo aberto. Eu o refuto dizendo que a bíblia não me serve como base de conduta moral e ética e nela não encontro os padrões que anseio para minha felicidade. Você irá me perguntar: então devo jogar fora a bíblia? Não é óbvio que não! Mas se não soubermos fazer uma leitura histórico-crítica dela, ela de nada nos servirá, a não ser, para nossa própria condenação.

Mas eu sou forçada a concordar com ele sobre as três funções do sexo: 1) “Levar a efeito a unidade íntima sem igual entre duas pessoas”, 2) “fornecer êxtase ou prazer para as pessoas envolvidas neste relacionamento sem igual”, 3) “levar a efeito uma multiplicidade de pessoas no mundo por meio de ter filhos, apenas nesta última, sou rigorosa, sendo eu uma com meu esposo, tenho filhos dele, pois somos uma família, mas no restante, não vejo o porque ou em que uma relação aberta estaria fora dos padrões, pois meu relacionamento aberto preserva exatamente estes 3 princípios.

Carlos, penso estar havendo um engano sobre o significado do vocábulo sodomia ou da parte de Geisler, ou de sua parte, pois sodomia é, segundo todos os dicionários (inclusive bíblicos) a relação anal entre homossexuais e também entre heterossexuais  (entre homem e mulher) e sodomita, no dicionário bíblico, esta sim, faz alusão a homossexual, o que é um erro tanto de interpretação como de tradução.

Réplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Bem, desconheço qual o seu conceito sobre ética e moral. Se for o mesmo dos antigos gregos e romanos, podemos dizer que eram palavras distintas para o mesmo conceito e estava ligado a ideia de um caminho para encontrar a si mesmo. O conceito moderno difere moral de ética, sendo o primeiro, como você explicitou, as regras que são temporais e variam de acordo com os povos, as religiões, os costumes... Há uma moral cristã que diz que a monogamia é o correto. Há uma moral muçulmana que fala sobre a necessidade da poligamia para que não haja mulheres desamparadas. A ética é universal, no conceito atual, e atemporal, questionadora da moral e visa primordialmente o respeito ao outro. Mas o ponto crucial – e me parece mesmo que Geisler entende ética e moral cristãs como sinônimos – é se você considera que os pontos fundamentais propostos por ele em relação à sexualidade cristã são válidos. Ou seja, qual a sua opinião sobre o que Geisler se pronunciou? A palavra sodomia – assim como a sodomita – foi usada por ele como sinônimo de homossexualidade. Gostaria de debater esse assunto mais profundamente em outro tópico. Por isso, peço que aborde tal tema an passant, apenas para dizer sobre um dos pilares que constituem a sexualidade cristã sob a ótica de Geisler, qual seja, o pilar da heterossexualidade.

                Permita-me, no entanto, acrescer mais uma fonte extrabíblica – e mesmo discordante em partes – com a intenção única de ampliar o debate. O esoterismo gnóstico samaelino[3] diz que o adultério – no sentido da união sexual com outro parceiro que não o do matrimônio (marido / esposa) – contamina, pois “Sendo a mulher o elemento passivo, receptivo, é claro que recolhe e armazena os resultados do ato sexual de todos aqueles homens que adulterem com ela. Estes resultados são substâncias atômicas dos homens com os quais efetuou o ato sexual. Quando um homem mantém relações sexuais com uma mulher que tenha sido de outro homem, ou de outros homens, recolhe, então, as essências atômicas dos outros homens e com elas se auto-envenena”[4].  Adianto que Samael não estava falando de, apenas, o sêmen, mas de energias que são trocadas no ato sexual. Parece que nesse sentido se coaduna uma passagem bíblica, em Dt. 24.1 - 4: “Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e a mandará embora. Ou se o segundo marido morrer, o primeiro, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada” [grifo meu]. Usei a tradução da Nova Versão Internacional. Bem, Jesus diz que em verdade o divórcio foi tolerado por conta da dureza de coração dos homens, mas que o casamento é indissolúvel. Na sua opinião, seria essa “contaminação” a mesma ideia da troca de fluxos e energias sexuais, conforme descreveu Samael Aun Weor?  Nesse caso, o relacionamento aberto – inclusão de outros parceiros na relação que não sejam os do matrimônio – não estaria em desacordo com essa ética ou moral?

                Se a função de reprodução no relacionamento aberto não existe durante o relacionamento sexual com outros parceiros, não seria uma relação “incompleta”? Geisler argumenta que a relação homossexual seria errada porque “nenhum nascimento pode resultar dela”. Em suma: não estaria completa nos seus três aspectos. Assim, também com a relação fora do casamento em que não há a intenção da procriação.

                E, pela visão de uma ética universal, usar do próprio corpo para realizar apenas os desejos do seu prazer não implicaria em desrespeitar o outro – ainda que este esteja temporariamente de acordo com isso – pois não seria o mesmo que usá-lo no sentido de que não há ligação mais profunda do que apenas a satisfação sexual? Eis que não formaria “dois em um” com o outro parceiro que não o cônjuge, correto?

Réplica Anja

Sobre moral é ética:

Moral, como disse, pode ser gerada puramente pelo homem, pode se basear em suas paixões, afetos, emoções. O homem pode definir para si uma moral própria, mas ele não pode definir uma Ética própria, a Ética é puramente o que nós somos, o modo de ser, dos seres humanos. Assim, podemos dizer que Ética é a partitura da melodia humana, onde agimos de forma livre, soamos nossos instrumentos com mais ou menos volume, porém seguimos um comportamento em comum.

Sobre a moral religiosa, devemos considerar cada cultura e seus credos, pois aí entrariam os reais de conceitos de ética e moral; para um mórmon, a poligamia é aceita ética e moralmente, assim como para os mulçumanos e de outra forma, para os cristãos é antiético, além de ser imoral. Eu não diria ser imoral a poligamia, mas seria no mínimo, antiético, isto a meu ver.

Muitos poderão pensar que estou sendo contraditória, mas não estou, pois como venho falando desde o começo, trago a proposta do poliamor, do relacionamento aberto, o que é muito diferente de poligamia e poliandria. Poliamor é um tipo de relação em que cada pessoa tem a liberdade de manter mais do que um relacionamento ao mesmo tempo. Não segue a monogamia como modelo de felicidade, o que não implica, porém, a promiscuidade. Não se trata de procurar obsessivamente novas relações pelo fato de ter essa possibilidade em aberto, mas sim de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente.

Sobre estar alicerçada nos 3 pilares da heterossexualidade, segundo Geisler discordo do 3° ponto que ele levanta, a procriação e digo que, e uma relação sexual jamais pode estar embasada neste quesito como sendo um dos pilares para uma relação sexual plena e satisfatória. Óbvio que em uma relação estável hétero, o casal queira filhos, da mesma forma num relação estável homoafetiva, mas o fato de na relação homoafetiva não ser possível gerar filhos, não quer dizer de forma alguma que tal relacionamento não possa existir e vou ainda mais longe, ter filhos adotivos ou até mesmo biológicos. Eu não vejo de modo algum uma relação sem a “função procriar” ligada como uma relação incompleta, pois se assim fosse, estaríamos 99% das vezes em que fazemos sexo com nosso cônjuge, numa relação “incompleta”, e, portanto pecaminosa; a menos que não usássemos nenhum método contraceptivo.

De novo vejo apresentada a palavra adultério, uma vez que deixei claro ser contra o adultério e não é esta a proposta do relacionamento aberto e sim exatamente o contrário. Mas considerando a citação de Samael Aun Weor, que não apenas parece, mas sim está intrinsecamente ligada a passagem em Deuteronômio que você cita (pelo menos penso e quero crer que sim), mas veja o que existe em comum em tais citações? Ambas estão presas a uma visão machista da época em que viviam, mesmo separados por milênios. Sobre a fala de Jesus, afirmo que, Jesus referia-se a mulher ter algum direito, já que acontecia dos homens divorciarem de suas esposas por qualquer motivo e estas ficavam a mercê da própria sorte, bem como explicitei no tema anterior – adultério – e não podemos ligar a fala de Jesus aos casamentos de hoje, pois vivemos noutra época, com outra realidade cultural. 

Sobre sua última pergunta – muito pertinente por sinal – a verdade Carlos, é que somente acontece o fato que você cita – o desrespeito ao outro – nas  relações monogâmicas, não se espante, esta é a verdade nua e crua, pois no  relacionamento aberto normalmente as pessoas envolvidas estão envolvidas mais intimamente e não estão apenas em busca de prazer sexual e existe uma ligação sim, mas claro que pode acontecer uma flerte aqui ou acolá, o que não terminaria obrigatoriamente num motel.

Onde há respeito, aí há liberdade.

Tréplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Acho que essa é a tônica deste tema, afinal, ética tem a ver com respeito. Por esse motivo, gostaria de terminar este bloco de perguntas colocando situações em que supostamente esse respeito ao outro, ou seja, a ética, seria quebrada. Quero saber a sua opinião sobre tais situações. Seguindo a lógica exposta em seus argumentos, há parâmetros para uma ética cristã relacionada à sexualidade e ao sexo. Tanto assim que você se posiciona contra o adultério, por exemplo, por representar uma infidelidade ou traição, desrespeitando assim ao outro. No entanto, não ficou claro quais seriam os parâmetros do que você consideraria como ética nessa questão do sexo e da sexualidade. Por exemplo, as parafilias. Seriam éticas? Por quê? Como poderia dizer que a zoofilia, por exemplo, não feriria a ética e a pedofilia sim? A zoofilia não implicaria em forçar um animal a praticar sexo com um ser humano? Isso seria ético? A zoofilia consta como proibida em Lv 18.23; assim como a menofilia (v. 19), o incesto (vs. 6 – 18), e a homossexualidade masculina (v. 22). Claro que não quero que responda caso a caso, mas sim que de forma genérica diga: qualquer uma dessas práticas seria ética? Como separar o que é e o que não é ético?

Por outro lado, quando você diz que somente numa relação monogâmica acontece o desrespeito ao outro, não estaria generalizando? Acredita mesmo que todo casal monogâmico acaba por buscar prazer em relações extraconjugais? Será que todos nós temos impulsos sexuais que não poderiam ser controlados? Se assim for, o que podemos dizer dos que praticam a pedofilia? Como julgar tal comportamento se isso é um “impulso incontrolável”?

Por fim, quero propor a seguinte situação: Numa relação onde predomina o poliamor e a relação aberta, as outras pessoas envolvidas (como familiares em geral e, especialmente, filhos), levando em consideração o preconceito da sociedade em relação a essa prática, não devem ser levadas em consideração? Reformulo melhor a pergunta: se tal prática atinge outras pessoas que nos são caras, como os familiares, não seria antiético continuar a praticar eis que estaria desrespeitando outras pessoas emocionalmente envolvidas? Ou mesmo numa relação aberta em que um dos cônjuges acaba por sentir ciúme por determinado parceiro/a do outro cônjuge... O sofrimento do cônjuge com o ciúme não seria o motivo para não praticar o poliamor? Lembro-me da música de Raul Seixas, “A maçã”, no qual ele defende o poliamor ao mesmo tempo em que diz: “sofro, mas eu vou te libertar”, pois “o ciúme é só vaidade”. Ora, se há sofrimento da outra parte, isso não caracterizaria uma atitude antiética? O apóstolo Paulo, por exemplo, discursa sobre o fato de ele desistir de realizar coisas – mesmo que não sejam pecados – por amor ao próximo para que não sirva de pedra de tropeço (I Co. 8. 9 – 13). Não seria o fato de evitarmos dar vazão aos nossos impulsos, mesmo que seja pelo amor ao nosso próximo? Não seria essa a atitude ética?   

Tréplica anja


Carlos, sobre parafilias, podem ser vista como transtorno, uma disfunção sexual, e deve ser diagnosticada e tratada, embora as mais diversas fantasias podem também ser entendidas como parafilia, mas fantasias, comportamentos ou objetos são parafílicos apenas quando levam a sofrimento ou prejuízo clinicamente significativos à própria pessoa ou a outrem, como por exemplo pedofilia, masoquismo, sadismo (entre outras). Então, penso eu, não cabe dizer apenas se é ético, mas se trata de caso de tratamento médico. Aí você poderia me perguntar: mas pode existir pedofilia sem ser considerada uma patologia, e até crime? NÃO! Pois traz prejuízos a outrem, compreende? No caso de zoofilias, confesso que não sei muito a respeito, mas ao que parece (pelo pouco que já vi), o animal responde ao olfato, única explicação que encontro, é o uso de feromônios, mas não vejo como antiético, apesar de me causar repulsa, mas, sabemos também que animais são criados em péssimas condições, maltratados e cruelmente mortos para estar nos menus dos mais caros e bem frequentados restaurantes e isto não nos incomoda nem um pouco.

Sobre suas colocações sobre zoofilia, menofilia e a homossexualidade (e a bíblia não condena a homossexualidade como você diz, mas falemos sobre isto em hora mais oportuna) sobre as proibições no “livro da Lei”, estas leis eram apenas um código de santidade dado por deus exclusivamente para o povo hebreu, e será mesmo que hoje devemos ser regidos por tal lei? Tenho certeza que não, pois como já disse, foi escrito exclusivamente para o povo hebreu, e não para os gentios (estrangeiros). E nem todas estas práticas seriam éticas, como por incesto, que, vale ressaltar, sequer é considerado crime no Brasil, se os envolvidos forem maiores de idade, apenas há o impedimento nas justas núpcias.

Como separar o que é ético e o que não é? Ética é puramente o que nós somos. É o desejo de viver a vida, mas em harmonia e transparência com outras pessoas.

Sua pergunta sobre eu ter generalizado ao falar que somente em relações monogâmicas acontece o desrespeito ao outro, não quis de forma alguma generalizar e apenas fiz uso de hipérbole, pois de fato, existem relações monogâmicas onde o respeito impera, e onde há respeito, aí há liberdade, e todo impulso incontrolável, é uma disfunção, devendo ser diagnosticada e tratada, seja pedofilia ou qualquer outra parafilia.

Carlos, seu último parágrafo, foi muito importante e irei reponde-lo por tópicos:

Primeiro gostaria de falar sobre familiares. Veja bem, o que tem os familiares a ver com as escolhas que fazemos? (quando se trata de escolha, como no caso do poliamor, homossexualidade não entra aqui como sendo escolha). Pareço ter sido dura ou radical? Mas não! Vejamos: “deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (Gênesis 2:23-24). Óbvio que não estou dizendo que devemos “abandonar”, mas, como seres únicos que somos, não podemos abdicar de nossas escolhas em prol de familiares, mesmo que nossas escolhas não sejam do agrado, ou da vontade deles, pois cada um tem sua vida e é responsável pelas escolhas que faz.

E os filhos? Ora, filhos são o reflexo dos pais. Somos espelhos e eles apenas refletem o que veem em nós, ou seja, se vivo um relacionamento aberto, logo, a educação que dou a meus filhos, é baseada na vida que levo; não quero dizer com isto que, eles obrigatoriamente serão adeptos ao poliamor quando estiveram namorando e casarem-se, pois como disse acima, somos seres únicos no universo e temos de fazer nossas escolhas, ninguém poderá fazê-las por nós. Ainda levando em consideração o preconceito da sociedade e o possível constrangimento e até mesmo um abalo emocional, digo mais uma vez que o poliamor não é sinônimo de promiscuidade e uma vida devassa e libertina, ao contrário, tão somente é a liberdade de poder fazer e, escolher fazer ou não. Ao contrário de NÃO poder, e fazer, o que, se descoberto, causa muito mais constrangimento aos filhos, principalmente se tratando da mulher quando pega em adultério numa cultura machista como a nossa.

Em último lugar, em se tratando do cônjuge, como venho dizendo sempre, o respeito é o pilar de todo relacionamento aberto e, se o cônjuge sente-se inseguro, deve-se pensar se é mesmo, aliás, é imprescindível que, se desista de vez ou espere o amadurecimento do cônjuge (na verdade de ambos) para abrirem (ou não) a relação. Também não serei hipócrita de dizer que não existam relacionamentos “forçadamente” abertos, aonde um dos cônjuges, chega a propor separação em caso de recusa em se abrir o relacionamento e, por incrível que pareça, os homens são quem mais “forçam a barra”, insistindo na abertura da relação, mas não para eles terem relações com outras mulheres, e sim, suas esposas terem relações com outros homens enquanto eles “assistem” (ativa ou passivamente); se tal situação perdurar por muito tempo, estará fadada ao fracasso.

Para concluir, quero falar um pouco sobre o exemplo poético-musical que você trouxe. Lembre-se que todo poeta tem permissão divina para mentir, e se por ventura o Raul relatou um fato pessoal, enquadra-se no que citei acima e ele poderia  muito bem estar apenas “entusiasmado” lendo a biografia de Sartre e Simone. (rsrs)

Gostei muito das questões que você apresentou e espero tê-las respondido a contento.

Bjux,

Anja Arcanja



[1] GEISLER, Norman L. Ética Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 1997, p. 172.
[2] Idem, p. 175.
[3] Fundado no século XX por Samael Aun Weor, baseado em tradições antigas do gnosticismo e que tem na magia sexual um dos pontos de apoio para a auto-realização íntima do Ser.
[4] WEOR, Samael Aun. Matrimônio Perfeito. São Paulo: Movimento Gnóstico Cristão Universal do Brasil na Nova Ordem, 1992, p. 99.


Entrevista com a Anja: Tema - MASTURBAÇÃO










4° tema: Masturbação

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – Um dos temas relacionados à sexualidade e que ainda gera polêmica, por incrível que pareça, é a masturbação. Não encontro nada especificamente sobre esse assunto na Bíblia, para ser sincero. No entanto, tenho visto e lido muita argumentação baseada numa suposta exegese ou hermenêutica que busca, até de forma filosófica às vezes, procurar desmerecer a prática do autossexo. Para ser honesto, sou obrigado a buscar argumentações outras que não as minhas para fundamentar as perguntas sobre esse assunto. Claro que isso não é demérito, ao contrário.

Como a intenção dessa entrevista é discutir as várias visões sobre a sexualidade e o sexo, sobretudo em comparativo com o texto bíblico, de maneira alguma o empréstimo honesto de argumentos irá desmerecer a entrevista. Começo, então, buscando argumentos disponibilizados no site “got Questions? Org” (http://www.gotquestions.org/Portugues/masturbacao-pecado.html Acessado em 20 ago 2012), em resposta a pergunta:

“Masturbação – de acordo com a Bíblia é pecado?”:

“A Bíblia nunca menciona especificamente a masturbação ou afirma se a masturbação é ou não pecado. Entretanto, não há dúvidas de que na grande maioria das situações as ações que levam à masturbação são pecaminosas. A masturbação é, quase sempre, o resultado final de pensamentos sensuais, estimulação erótica e/ou imagens pornográficas. São com estes problemas que devemos lidar. Se abandonarmos e vencermos os pecados de luxúria e pornografia, o problema da masturbação vai se tornar algo de mínima importância”.

                Qual o seu comentário acerca dessa afirmação?

Anja Arcanja:

Carlos, A Bíblia de fato não menciona a masturbação, mas podemos encontrar embasamentos para dizer que ela não apoie, isto partindo de interpretações de alguns textos. Mas eu pergunto se estariam estas interpretações corretas? Veja o exemplo que você mesmo cita em que o autor do texto diz: “A masturbação é, quase sempre, o resultado final de pensamentos sensuais, estimulação erótica e/ou imagens pornográficas. […] definitivamente, devo dizer que a masturbação, de acordo com a Bíblia, é pecado.” (http://www.gotquestions.org/Portugues/masturbacao-pecado.html)

Eu discordo solenemente do que o autor diz, pois não vejo como pensamentos sensuais estimulação e/ou imagens pornográficas possam ser pecados a menos que, de alguma forma, tais práticas nos atrapalhem a manter um bom relacionamento com nosso próximo, o que pode ser um sinal de distúrbio, como já disse.

Sobre a masturbação em si, penso eu, que é uma excelente forma de nos conhecermos melhor (seja solteiro/a ou casado/a), e assim, podermos ter um melhor desempenho sexual, pois conhecendo nossos corpos, podemos dizer ao parceiro/a onde queremos ser tocados e quais são as partes de nossos corpos que mais nos excitam.

Pra mim, é uma prática saudável, além de ser prazerosa.

réplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Vou transcrever aqui os argumentos de Norman L. Geisler, no livro – já citado – “Ética Cristã”, no trecho em que ela trata do assunto da masturbação. Gostaria que você comentasse esse trecho:

“No que diz respeito à autossexualidade (i.e., a masturbação), é geralmente errada. A sublimação (drenar a energia sexual através do exercício) e as emissões noturnas são consideradas maneiras legítimas de queimar energia sexual excessiva. A masturbação é pecaminosa quando seu único motivo é o mero prazer biológico, quando é permitida tornar-se um hábito compulsivo, e/ou quando o hábito resulta de sentimento de inferioridade e causa sentimentos de culpa. A masturbação é pecaminosa quando é realizada em conexão com imagens pornográficas, porque, conforme disse Jesus, a concupiscência é uma questão dos interesses do coração (Mt. 5.28). A masturbação pode ser certa se for usada como um programa limitado e temporário de controle-próprio para evitar a concupiscência antes do casamento. Se a pessoa se comprometer plenamente a viver uma vida pura antes do casamento, talvez seja permissível ocasionalmente usar o estímulo autossexual para aliviar sua própria tensão. Enquanto não se tornar um hábito nem um meio de gratificar sua concupiscência, a masturbação não é necessariamente imoral” (GEISLER, 1997, p. 171).

Qual a sua opinião sobre os argumentos de Geisler?

Réplica Anja Arcanja

Como já disse Carlos, apenas considero ser “pecado” a partir do momento que tal prática comece a atrapalhar meu bom convívio em sociedade. Geisler diz que pode-se usar a masturbação como forma de controle para evitar a concupiscência antes do casamento, o que também não concordo, pois sou a favor do sexo antes do casamento, mas de forma alguma desejo que seja uma tônica, apenas penso que devemos respeitar a quem deseja fazer sexo antes de casado, mesmo que esteja congregando em alguma igreja.

Penso que Geisler foi contraditório em sua opinião, pois como a própria Bíblia diz, é sim sim ou não não, e neste caso específico, Geisler em sua opinião diz: sim, não; não, talvez; sim e não; o que pra mim demonstra dúvida e insegurança ao tratar de tal tema. A minha opinião é e sempre será sim, sou a favor, pois não é a própria Bíblia que diz em Tito 1:15: Todas as coisas são puras para os puros, mas nada é puro para os contaminados e infiéis; antes o seu entendimento e consciência estão contaminados?.

E cito algumas palavras do Pr. Jaime Kemp, fundador do ministério Vencedor por Cristo, conselheiro familiar, conferencista e autor de vários livros ligados a família: “A masturbação tem provocado confusão e conflitos entre os jovens. Sem a menor dúvida, é um assunto polêmico, motivo de debate nas comunidades cristãs. Equivocadamente alguns condenam o ato com veemência, definindo-o como pecado, sem chance de qualquer contestação ou mesmo diálogo. Outros preferem o meio termo, nem sim, nem não, e deixam a decisão sobre o que fazer para a responsabilidade de cada pessoa, colocando o tema sob a explicação da liberdade cristã. Ainda há outros que afirmam que ela é um presente preparado pelo Senhor para o alívio sexual do ser humano.” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/01/masturbacao-by-jaimer-kemp.html)

Apesar de pensar um pouco diferente dele, e como sempre gosto de ir além, penso que não apenas é um presente de deus para o alívio sexual do ser humano, mas também, como já disse, um aliado importante para o conhecimento do próprio corpo.

Tréplica

[Carlos Carvalho Cavalheiro]

– Jesus Cristo disse: “Mas eu lhes digo: quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la já cometeu adultério no seu coração.”, em Mateus 5.28. Considerando isso, se a masturbação for impulsionada pelo desejo de manter relações sexuais com uma mulher, ainda que em fantasia (como, por exemplo, em filmes pornográficos nos quais a concupiscência decorre de uma excitação pela imagem que se transforma numa fantasia, pois se sabe que são atores encenando e que dificilmente o espectador do filme poderia manter a mesma relação com a atriz, que pode ser até de outro país ou de uma realidade extemporânea a dele – em casos de filmes antigos, em que a imagem vista não condiz com a atual – se escorando, portanto, tal excitação estimulada em fantasias), isso não seria pecado? Entendo que há espaço aí para a argumentação: ora, o pecado não está nesse caso na masturbação e sim no desejo de possuir uma mulher que não a sua. Porém, se pensarmos assim, não contradiz o seu argumento quando refuta Geisler por ele situar a masturbação como pecado de forma relativa?

         Há quem afirme que em Levítico 15, quando se fala do fluxo do homem (semente da cópula), derramado de forma a ser desperdiçada, está se falando em polução noturna e masturbação. Em qualquer que seja o caso, o texto é contrário a isso. O que você pensa a respeito?

                Novamente, busco uma fonte extrabíblica no intuito de enriquecer o debate do assunto e, por isso, peço sua opinião também sobre a seguinte afirmativa de Samael Aun Weor, fundador do Movimento Gnóstico moderno: “…A adega energética do centro sexual também é saqueada pelos diferentes agregados psicológicos. A criança desde idades precoces começa com o vício da masturbação, perdendo elementos tão fundamentais para seu desenvolvimento como a lecitina, a colesterina e os fosfatos. Aí começa a via crucis do ser humano. A profunda ignorância na que vive a humanidade faz com que este centro seja o mais prejudicado...

Além de que tal expulsão inútil provoca, quando não se trata de usá-la para a reprodução da espécie, uma série de efeitos secundários como: um empobrecimento de certas substâncias vitais para o organismo; aumenta a dependência psicológica deste tipo de prática (a masturbação); provocará, em longo prazo, transtornos (naquele que a pratica por um longo tempo) que lhe produzirão problemas nas relações posteriores de casal e também isolamento, etc., como acabamos também de ler.
Longe do fanatismo, há que entender as palavras que dizemos aqui. Tudo é criticável e tudo é discutível, mas há uma realidade, e é que há três tipos de sexualidade: Geradora, De-generadora e Re-generadora. Se ficarmos sempre no mesmo tipo de sexualidade De-generadora, não podemos aspirar a uma regeneração física, psíquica ou espiritual. Isto há que sabê-lo. Cada um é livre de escolher, mas temos que ater-nos às consequências e agora, ainda que seja superficialmente, já as conhece, querido leitor. A qual sexualidade você se predispõe? O que é que você busca na vida: degenerar-se mais ou regenerar-se?”
                Qual o seu comentário sobre essa afirmação?

Tréplica Anja

Carlos, sobre esta (suposta) fala de Jesus, já explicitei se tratar do 10° mandamento e de nossa incapacidade em cumprir tais mandamentos divinos (que a propósito não foi exclusividade do povo hebreu, pois muitos séculos antes de Moisés “supostamente” receber das mãos de Deus as tábuas da Lei escrita em argila, o povo sumério já as tinha escrito em mesmíssimas tábuas de argila, tal qual Deus “supostamente” fez e entregou a Moisés) necessitando um sacrifício divino em favor da humanidade, e assim, perpetuam-se as estórias das divindades que precisam das orações dos humanos para sobreviver, e nós humanos, necessitamos do favor divino e cumprir rituais e penitencias para sermos “merecedores de tal favor”, mas, este é outro tema e não irei desviar o foco.  Mas em suma, os deuses apenas vivem por se alimentarem de nossas orações, louvores e mendicância e nós, não recebemos favor algum dos deuses, já que deuses apenas existem em nossa psique, e é nossa psique que os alimenta.

Agora, retornando ao tema, eu (como mulher) faço uma enorme diferença entre cobiçar (no sentido que intentar possuir) e fantasiar, e é esta diferença que ressalto. Quando se fala quem olhar para uma mulher e desejar possuí-la, entenda: aquele que quer para si (como esposa) a mulher de outro. O cobiçar aqui está além do campo “sonhar” e sim, se refere a querer mesmo. E não só a mulher, mas qualquer coisa que seja de meu próximo.

Sobre Levíticos cap 15, de novo recaímos na Lei escrita “exclusivamente” para o povo judeu para torna-lo “diferente” dos demais povos numa demonstração de eleição (exclusividade), sendo necessária a busca por santidade para que pelo povo hebreu, nascesse o salvador do mundo, ou melhor, mais um dos muitos salvadores do mundo.

Sobre a afirmação de Samael Aun Weor, é bem como minha vó que faleceu aos 97 anos dizia: “tudo que é demais sobra”, ou seja, em tudo que exagerarmos, teremos problemas, complicações e até, se houver uma predisposição, desenvolver um distúrbio. É assim não só com o sexo, mas em tudo na vida. E em geral, as coisas que mais nos dão prazer é o que mais devemos ter cuidado. Observe uma pessoa, por exemplo, que não consegue se controlar ao se alimentar, consequentemente terá problemas de obesidade e se não acordar para esta realidade a tempo, terá problemas ainda maiores, pois poderá chegar a uma obesidade mórbida. É assim também com a bebida e com tantas outras coisas que podem nos dar um prazer singular que, se não tivermos cuidado, moral e ética, estaremos ajudando a engordar as estatísticas dos que sofrem de algum distúrbio e em consequência disto, necessita um tratamento específico.

Os animais agem por puro instinto apenas para a preservação da espécie, e quanto a nós? Agimos assim também? Segundo Freud, a força que no impele a sempre buscar determinado prazer é a pulsão, e a busca pelo prazer, sendo ainda mais específica, é a pulsão sexual, pois na realidade, a sexualidade está muito além da genitalidade, pois, o homem é o único animal que busca o sexo por mero prazer, é o único que beija, busca diferentes posições, se toca, toca seu parceiro/a, ou seja, busca sempre alcançar um prazer que ainda não atingiu. É assim também com a comida, por exemplo, como sendo uma pulsão sexual, pois nos alimentamos com os olhos, com o cheiro e por fim, com o paladar; buscamos misturar sabores na busca sempre pelo sabor que mais nos agrada, mais se completa conosco. A psique humana está banhada dessa pulsão. E é isso que Freud chama de sexualidade, esse impulso constante que movimenta nosso organismo em busca de uma satisfação. Mas se não soubermos refreá-la… (pra quem sabe ler, um pingo é letra, coloquei três rsrs)

Sobre distúrbios, foi até bom tocar neste assunto, pois eu sofro de um transtorno bem incomum, não por excessos, mas desde minha adolescência, mas que se agravou logo após o casamento e só consegui ter diagnosticado há quase 4 anos e acredito que muitas mulheres assim como eu, sofrem caladas com o mesmo problema meu, trata-se do Transtorno da Excitação Genital Persistente, conhecido pela siglaTEGP http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/06/transtorno-da-excitacao-genital.html Acredito que este artigo pode ajudar a muitas mulheres a sentirem-se encorajadas a buscar ajuda.

Sobre o que eu disse a respeito dos deuses Carlos, não quero aqui pregar minha descrença, mas quero deixar claro que não podemos condenar pessoas por pensarem e agirem diferentes de nós. Tenho certeza que se muitos que hoje se dizem apologistas, exegetas entre outros, se forem de fato estudarem o que dizem ser, acabariam por descrer de deus, eu não quero aqui que digam que esta é a minha intensão, pois de fato não é, apenas quis trazer fatos que, tenho certeza, muitos desconhecem, mas, meu objetivo foi mostrar que podemos sim, ser religiosos (seja qual for o credo) e ter uma vida sexual livre de culpas.

Bjux querido…

Anja Arcanja

TEMA FINAL: HOMOSSEXUALIDADE

TEMA FINAL: HOMOSSEXUALIDADE

 No tema final abordamos a homossexualidade e ainda demos uma passada pincelada num tema tão ou mais importante que diz respeitoaos mitos, ficou longo, mas, compensa perder uns minutinhos e ler até o final.


[Carlos Carvalho Cavalheiro] Pergunta

– Você já discorreu aqui nesta entrevista algo sobre a homossexualidade segundo a Bíblia. O tema é bastante polêmico e quero deixar claro que a proposta não é atacar e nem defender nenhuma posição, mas sim entender como a Bíblia trata tal assunto. Já escrevi em meu blog um artigo em que faço a diferenciação entre o que a Bíblia diz do assunto – pelo meu entendimento – e se o cristão realmente tem o direito de julgar quem mantém um relacionamento homoafetivo.

                Como disse aqui, você também já falou sobre o assunto de forma tangencial, ao responder outras perguntas. Como este é o nosso último tema, quero abordá-lo de forma a analisar a questão sobre vários ângulos e, tendo como parâmetro aquilo que você já respondeu, elaborar perguntas mais aprofundadas. Começo falando um pouco do que está em Dt. 23.17 – 18. Realmente essa passagem não diz respeito a homossexualidade, mesmo João Ferreira de Almeida tendo traduzido a palavra qadesh por “sodomita”. Tal tradução decorre de um desconhecimento histórico e até esotérico dos cultos sexuais iniciáticos. Os qadeshim (plural de qadesh), que algumas bíblias traduzem como “prostitutos sexuais” eram, na verdade, sacerdotes de cultos antigos em que se realizava a chamada magia sexual, uma prática de transmutação de energias por meio da prática sexual sem derramamento de sêmen e com o objetivo de despertar a serpente kundalini. Por não haver o derramamento de sêmen, em alguns relatos os qadeshim eram tidos como “castrados”. Há uma similaridade aí entre o mito de Lilith que se apaixona por Samael (o Anjo da Morte), sendo este último castrado por Deus por revelar à sua amante (Lilith) o nome secreto de Deus. Os sacerdotes dos cultos sexuais iniciáticos, ou das civilizações serpentinas, realizavam em secreto a prática do que hoje se conhece por tantra ou sahaja maythuna. Não há conotação homossexual alguma nesses cultos. O que existe é desconhecimento dessas práticas que, aos olhos dos leigos, apresentou-se como “prostitutos cultuais” e, daí, como “sodomitas”, homossexuais passivos (por serem “castrados”).

                Nesse trecho de Deuteronômio, portanto, não há mesmo nenhuma citação explícita contra a homossexualidade, mas sim a disputa entre um culto politeísta e o culto monoteísta. Por outro lado, se analisarmos o livro de Romanos (epístola escrita pelo apóstolo Paulo entre 56 a 58 d.C.) parece que não há dúvidas da condenação da prática da homossexualidade no texto bíblico. O contexto histórico é o do governo de Nero, conhecido por um período de extravagâncias, imoralidades e tirania. Nero foi implacável perseguidor dos cristãos.

                Um fato que não é desconhecido – ao contrário, é bastante citado – foi o casamento de Nero com um homem, um liberto chamado Pitágoras, relatado por escritores como Tácitus e Dio Cassius. Nero teria sido o primeiro imperador romano a se casar publicamente com um homem.

                Na Roma de Nero, a sexualidade era tida, ainda, como demonstração de poder. Daí a prática habitual de relações homossexuais entre homens, especialmente de homens de poder e seus escravos. Era hábito, também, as mulheres serem sodomizadas na sua primeira noite de núpcias, como forma de demonstração de poder do homem sobre a mulher.

                Diante de todo esse contexto, em que a homossexualidade era tida como prática social, o apóstolo Paulo escreveu em Romanos: “[...] porque até as mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza. E, semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm; estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade [...]” (Rm 1.26 – 29).

                Honestamente, verifiquei outras traduções, mas com poucas diferenças, nenhuma delas essencialmente contradiz o que está explícito neste trecho. Sei que você já se declarou nesta entrevista como descrente do texto bíblico. Por outro lado, como você encara a advertência bíblica desta passagem, levando em consideração mesmo o contexto em que foi escrita, contra a homossexualidade? A Bíblia não condena a relação homossexual?

Anja Arcanja (resposta)

Carlos, antes de sua pregunta, achei super válida a sua explanação sobre os qadeshim, o que trouxe novas informações, inclusive, algo que não encontramos na bíblia, como por exemplo, o mito Lilith, Samael (que fazem parte das lendas assírio-judaica-babilônica), o culto dos qadeshim, enfim, você já vinha sempre trazendo sempre fontes extra bíblicas, e curiosamente, neste tema você não as apresenta, apenas cita, mas penso que foi de uma importância singular, pois ajudam a desmistificar a bíblia como sendo um livro sagrado (mesmo que para muitos, ela seja), coisa que de forma alguma, a bíblia é. O diferencial da bíblia e de outros livros tão míticos quanto ela, é que ela nos mostra a historia e a cultura além da crença (mítica e mística) do povo Judeu.

E de fato, como você pontuou, não encontramos no antigo e nem tão pouco no novo testamento uma condenação específica à homossexualidade, pois as palavras usadas em hebraico e grego, não se referiam ao homossexual vejamos:

As palavras em hebraico que frequentemente são traduzidos por homem, sodomita e abominação (que subtende-se como sendo algo intrinsicamente mal) em Dt:23.17 e 18, Levítico 18:22 e Levítico 20:13 é Toevah e, qadesh é usada para traduzir tanto homem como sodomita. Lembrando que, é toevah em seu sentido literal significa ritual não limpo, impuro, abominação;e quadesh =  separado, sacerdote

Mas então qual a palavra hebraica que no sentido literal significa homem? É iysh e nada tem haver com o original escrito em hebraico! Se o autor (ou melhor, o escritor) quisesse fazer referencia a simplesmente HOMOSSEXUALIDADE não usaria a palavra iysh, que tão somente significa homem, ou macho?

Ressalto ainda que a palavra qadeshaw, que é traduzida por meretriz ou prostituta, na verdade significa: templo de prostituição feminina, ou prostituta feminina de templo.

Já no novo testamento escrito em grego, encontramos as palavras malakoi, que significa literalmente sem força moral, mole, macio, e arsenokoites ou arsenokoitai, esta última somente aparece em escritos de Paulo e possivelmente ele a tenha criado e seja uma palavra composta de arseno, referindo a macho, ekoitai que era uma gíria para sexo. Alguns especularam que Paulo usa esse termo para referir-se aos clientes de prostitutos. Isso pode parecer estranho para nossa mente do século 21, mas devemos lembrar que no primeiro século, ambos, pagãos e judeus condenavam o prostituto, mas não condenavam o cliente. Assim, ele pode ter sido expandido para a perspectiva moral dessa época. Outros especialistas, afirmam que o arsenokoitai refere-se o parceiro ativo, o homem mais velho, na relação da pederastia, e que malakoio passivo, o garoto que se submetia ao papel feminino, desta forma os dois termos estariam relacionados. Porém, pode também aludir à prostituição cultual.

Mas se eu concordasse e respondesse a você que Paulo poderia estar mesmo condenando a homossexualidade, ainda assim, eu apresentaria algumas questões culturais que são condenadas (ou não) na bíblia (muitas por Paulo mesmo), e que hoje, a igreja desconsidera, como por exemplo: Comer camarão e ostras“Tudo o que vive na água e não possui barbatanas e escamas será proibido para vocês.” (Levítico 11:12); sobre os fluxos dos corpos (sêmen e menstruação):  "Quando de um homem sair o sêmen, banhará todo o seu corpo com água, e ficará impuro até à tarde... Quando um homem se deitar com uma mulher e lhe sair o sêmen, ambos terão que se banhar com água, e estarão impuros até à tarde. (Levítico 15:16 e 18.) "Quando uma mulher tiver fluxo de sangue que sai do corpo, a impureza da sua menstruação durará sete dias, e quem nela tocar ficará impuro até à tarde. Tudo sobre o que ela se deitar durante a sua menstruação ficará impuro, e tudo sobre o que ela se sentar ficará impuro. Todo aquele que tocar em sua cama lavará as suas roupas e se banhará com água, e ficará impuro até à tarde. Quem tocar em alguma coisa sobre a qual ela se sentar lavará as suas roupas e se banhará com água, e estará impuro até à tarde. Quer seja a cama, quer seja qualquer coisa sobre a qual ela esteve sentada, quando alguém nisso tocar estará impuro até à tarde.” (Levítico 15:19-23); Sobre escravos (quem hoje é a favor da escravidão?) “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo... Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma.”(Efésios 6:5, 9); E o que dizer de nós mulheres? Sobre a mulher: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio.” (1 Timóteo 2:11-13).

Existem inúmeros textos bíblicos que não mais são seguidos à risca até mesmo pelos mais conservadores e fundamentalistas, mas ainda hoje, ainda persiste sobre os homossexuais o preconceito imposto pela igreja e, seguem a risca (???) o que “está escrito”, mas deveria mesmo ser assim? Porque não poderia também ser revistos tais conceitos sobre a homossexualidade?

Vamos falar agora sobre a carta de Paulo escrita aos Romanos. Pois bem, naquela época, era comum aos romanos, as extravagancias, imoralidades, tirania, como você bem citou e ainda, Roma se destacava pelo seu grande panteão, o que a colocava como um dos povos mais idólatras da época. Uma das práticas comuns aos cultos romanos era a prostituição cultual. Ali, homens heterossexuais se envolviam em rituais homossexuais, o que justifica a expressão: deixaram a relação natural com a mulher. Ou seja, homens heterossexuais, trocaram uma conduta sexual que lhes era natural por outra, contrária à sua natureza, ou seja, uma prática homossexual, simplesmente como fonte de prazer e de expressão ritualística.

Quanto ao sexo entre mulheres, é muito provável que Paulo esteja fazendo referência a duas cerimônias comuns entre os romanos daquela época: o culto a Dona Dea – restrito às mulheres, inclusive com a prática de cópula com animais; e o culto a Baco, ou bacanais, em que o incesto era parte dos ritos de iniciação. O texto faz menção a relações contrárias à natureza praticadas em um contexto bastante específico: a adoração de ídolos e acentua a perversão sexual, como minha vó me ensinou, tudo que é demais sobra: imoralidade e perversão. E todas essas práticas eram contrárias à natureza segundo o pensamento judaico, para o qual a função principal do sexo era a procriação.

Digo ainda, que devemos fazer uma leitura a partir do verso 18 (18 - Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça) ao verso 32 para termos uma visão mais ampla e, para e uma boa hermenêutica, fazermos uma analise do contexto sociocultural.

Ainda sobre este tema Carlos, gostaria de propor a leitura dois links de meu blog:


E este em específico, onde eu debati com um amigo sobre deus e a homossexualidade:



[Carlos Carvalho Cavalheiro] (réplica)

– A sua resposta, Anja, me impele a tecer algumas considerações para esclarecer alguns pontos, mesmo correndo o risco de inverter os papéis e confundir o leitor que pode não ter mais a clareza de quem é o entrevistado e quem é o entrevistador. Ainda assim, sou forçado a fazer tais esclarecimentos porquanto da forma como foi colocada a sua resposta, em alguns momentos, dá a entender que meus posicionamentos tendem a convergir com os seus, ou seja, que o que falei corrobora o que você pensa e não é bem assim. Claro que, como deixei claro desde o início, a minha função aqui é apenas entrevistar, quer dizer, fazer perguntas com a intenção de conhecer quais as suas opiniões sobre determinados assuntos. Não cabe aqui o debate no sentido de eu defender uma ideia para ser contraposta à sua e vice-versa. Não é esta a intenção deste trabalho. Porém, não transcorreria esta entrevista de forma escorreita se eu não fizesse algumas considerações sobre a sua resposta, para, daí sim, retomar o rumo da entrevista. Feitas tais considerações, passo a transcorrer sobre alguns pontos da sua argumentação.
                Com relação a não citação de fontes, isso se deu por considerar desnecessário naquele momento, tendo em vista que estava esclarecendo apenas um fato – no caso, o “prostituto cultual”, muitas vezes confundido erroneamente com o homossexual – já citado por você como confusão de tradução. Isso para afirmar que não iria debater aquele ponto, pois você tinha razão em dizer que havia erro de tradução, embora, penso, não soubesse exatamente do que se tratava o sacerdote dos cultos sexuais iniciáticos das religiões de mistério. O conhecimento que tenho desse assunto é resultado de inúmeras fontes, cursos, estudos... Mas posso citar alguns livros em que se pode encontrar algo: “O Matrimônio Perfeito”, de Samael Aun Weor; “O Poder do Mito” de Joseph Campbell e Bill Moyers. Sobre a mitologia Cananeia e hebraica, há os livros da “Enciclopédia Judaica”. É uma boa referência, embora não seja a única. Cursos de Gnose ou da Filosofia comparada do Oriente e Ocidente (este último da Associação Nova Acrópole) também podem ajudar a entender esses assuntos.

Anja, você afirmou que “E de fato, como você pontuou, não encontramos no antigo e nem tão pouco no novo testamento uma condenação específica à homossexualidade”, dando a entender que eu disse não haver nenhuma condenação à homossexualidade na Bíblia. Não foi isso o que eu disse.  Isso não quer dizer que eu condene ou pregue contra a homossexualidade, pois entendo, segundo a própria Bíblia nos diz, que não cabe a nós, pecadores, julgar quem quer que seja. Ocorre que, se discutirmos o Antigo Testamento, sempre acabaremos na questão: isso foi escrito para os judeus, fazia parte da Lei e agora está ultrapassado para os cristãos. Por isso, o que eu propus é que deixássemos de lado as citações do Antigo Testamente e nos concentrássemos nas do Novo Testamento, uma vez que estas, sem dúvida, dizem respeito diretamente aos cristãos. Simples assim.

Em relação à Bíblia não ser sagrada por ser um livro mítico, gostaria de ampliar o debate acerca do conceito de mito. Não há nada que diga mais a respeito das verdades sagradas do que o próprio mito. Mas o que seria mito? Em nossa sociedade, fundada infelizmente sobre os valores – se é que podemos dizer em “valores” nesta sociedade – burgueses do capitalismo, onde o mais importante é o ter do que o ser; na qual toda a espiritualidade foi cambiada por produtos materiais – daí o sucesso da Teologia da Prosperidade e, ao mesmo tempo, o esfriamento do verdadeiro sentido da fé (curiosamente previsto na Bíblia há quase dois mil anos... Veja, por exemplo, 1Tm. 4.1 – 3; Jd 3; Mt. 24.12 - 13; 2Ts. 2.3; Mc.13.13; 2Pe. 3.3 – 7). Por isso, o sentido espiritual do mito se desfez e muitos o colocam hoje como sinônimo de “mentira”, “histórias da carochinha”, “fábulas”.

O mito é a representação simbólica da verdade, entendida não pelo racional, mas muito mais pela intuição. Assim como a poesia, por exemplo, ou uma obra artística. Segundo Neil Philip, “os mitos são mais do que histórias. Cada mito é uma mina de verdade humana. Os mitos e seus rituais frequentemente eram preciosos segredos”.[1] Joseph Campbell, sem dúvida um dos maiores estudiosos do mito, completa dizendo: “São histórias sobre a sabedoria de vida, realmente são. O que estamos aprendendo em nossas escolas não é sabedoria de vida. Estamos aprendendo tecnologias, estamos acumulando informações. Há curiosa relutância de parte da administração universitária em indicar os valores de vida de seus assuntos”.[2] Infelizmente, a nossa sociedade atual se vangloria de ser a sociedade da informação, mas informação sem aplicação prática não é conhecimento. Perdemos muito da essência das coisas, perdemos nossa identidade, não sabemos realmente quem somos... O mito nos coloca de volta no caminho do qual nos afastamos. Nas palavras de Campbell, “ele nos põe novamente em contato com a arquetipologia essencial de nossa vida espiritual. Ir a um ritual, dia após dia, nos mantém na trilha” (CAMPBELL, 1990, p. 103). Ou ainda: [O mito é a] “literatura do espírito” a qual deixamos de nos familiarizar hoje em dia em prol das “notícias do dia e [...] problemas do momento” (CAMPBELL, 1990, p. 3). E, ainda recorrendo a Campbell, aprendemos que os mitos “ensinam que você pode se voltar para dentro, e você começa a captar a mensagem dos símbolos”, pois, “o mito o ajuda a colocar sua mente em contato com essa experiência de estar vivo. Ele lhe diz o que a experiência é”. (CAMPBELL, 1990, p. 6).
Mitos, portanto, têm a função sagrada de nos religar (como a própria religião) ao espiritual, e são simbolismos que são entendidos pela nossa psique. Por isso, os mitos servem para que possamos “entrar em acordo com a grande sinfonia que é o mundo, para colocar a harmonia do nosso corpo em acordo com essa harmonia” (CAMPBELL, 1990, p. 57). Dessa forma, “os mitos são metáforas da potencialidade espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida animam a vida do mundo” (CAMPBELL, 1990, p. 24).

                Não se trata de acreditar ou não nas histórias, ou seja, nos mitos. Se buscarmos esse caminho, estamos usando do intelecto, do racional para tentar entender aquilo que é simbólico, metafórico e só pode ser entendido em outro nível, por exemplo, pela psique. É tão tolo quanto tentar “entender” uma poesia ou uma música clássica pelo racional... Perde-se a oportunidade de exercitar o seu emocional, de compreender por outros caminhos que não o da razão. Isso soa estranho porque o mundo burguês se fundamentou na razão – vide o Renascimento e, depois, o Iluminismo – só que é esse racional que fez com que este mundo entrasse em crise, pois o uso da razão em todos os aspectos da vida levou ao detrimento de valores como a generosidade, o amor, a justiça, a fraternidade, etc.

Então, dizer que a Bíblia não é sagrada por ser um livro de mitos pode se tornar ambíguo, pois os mitos dizem mesmo sobre o sagrado. Ademais, podemos sim dizer que a linguagem dos primeiros livros da bíblia era de tradição mitológica, o que não quer dizer que seja “mentirosa”, mas, tão somente, simbólica. Por exemplo, a criação do primeiro homem, Adão, nos diz sobre a composição do corpo humano, onde estão presentes os 4 elementos da natureza: Terra, Água, Fogo e Ar. Do barro (terra + água) foi formado, precisou do sol (fogo) para secar e, por fim, teve o ar aspirado em suas narinas.

                Essa linguagem mitológica está presente sim nos primeiros livros do Antigo Testamento por ser uma forma literária comum na época. No entanto, nos livros do Novo Testamento, tais alegorias e simbolismos não estão presentes. O teólogo Craig L. Blomberg, Doutor em Novo Testamento, uma das autoridades mais respeitadas no assunto biografia de Jesus, em citação registrada no livro “Em defesa de Cristo”, de Lee Strobel, diz que os textos dos evangelhos, por exemplo, não contém nada comparável à mitologia. Diz ele: “Pense no modo como os evangelhos foram escritos – de maneira sóbria e responsável, com detalhes incidentais apurados, com cuidado e precisão óbvios. Não encontramos neles os rebuscamentos exóticos e a presença evidente da mitologia que vemos em vários escritos antigos”.[3]Portanto, chegamos a dois pontos: 1) se compararmos a Bíblia com os mitos, ao contrário de isentá-la de seu sentido sagrado, apenas o reforçamos. 2) Não podemos dizer que, do ponto de vista literário, toda a Bíblia é de tradição mitológica.

Assim, qualquer uma das duas afirmações (e até as duas em conjunto) reforça o caráter sacro da Bíblia. E só fiz esse esclarecimento porquanto, da forma como você expôs o seu pensamento, deu margem à ilação de que eu concordaria com a sua afirmativa. Não posso concordar por conta do conceito que tenho sobre o mito, baseado no que estudei e que expus, em parte, nestas minhas colocações.

                Em outras oportunidades eu discorri, ainda que de forma superficial, sobre a exegese que acredito estar correta em relação ao que está no Antigo Testamento e o que é do Novo Testamento. Talvez eu não tenha conseguido ser claro nessas oportunidades e, então, há a sua insistência em dizer que existem condenações na Bíblia (Antigo Testamento), ou seja, na Lei, que não são seguidas hoje e que ou seguimos tudo ou não seguimos nada. Parece que é em essência o que você sempre diz. Perdão, se a interpreto equivocadamente. Quero, entretanto, convidá-la – e aos nossos leitores – para uma exegese (ainda que superficial) do livro de Hebreus. Por que escolhi esse livro? Porque diz respeito exatamente a isso: o que era ser judeu e o que é ser cristão (ou judeu convertido ao cristianismo). A intenção dessa exegese é evitar que continuemos “andando em círculos” na questão se o que diz a Bíblia no Antigo Testamento deve continuar sendo seguido ou não.

O livro se inicia fazendo uma distinção entre os dois tempos: o dos profetas que vieram para os judeus e o de Jesus, Filho de Deus, que veio aos judeus, foi rejeitado pelos seus e, por isso, pode ser aceito pelos demais (Cap. 1). Cristo é o Filho do Homem (expressão usada em Daniel), superior aos anjos e sumo sacerdote de uma NOVA ALIANÇA, eis que não é sacerdote pelos levitas (como era o caso dos judeus), mas pelo sacerdócio de Melquisedeque (Cap. 2, Cap. 5). Jesus é superior a Moisés, significando que a Antiga Aliança mosaica (ou a Lei e os Profetas) estava submissa a NOVA ALIANÇA de Jesus (Cap. 3 e 4). Cristo é superior a essa antiga aliança, portanto, não devemos entender nada desse antigo pacto como algo que devamos seguir enquanto cristãos. No entanto, temos uma nova aliança, a da graça em Jesus, pela qual temos um compromisso a seguir. Não se trata, então, de dizer: “Não importa o que eu faço, pois Jesus já me salvou pela graça da nova aliança”...

O capítulo 6 deixa claro que “deixando os rudimentos da doutrina de Cristo, prossigamos até a perfeição, não lançando de novo o fundamento do arrependimento de obras mortas e de fé em Deus”. E continua:

“Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada”. (vs. 7 e 8). A mesma metáfora usou Jesus em várias oportunidades, dizendo que aquilo que não presta (como o joio ou a figueira improdutiva) será cortado e queimado. Assim, se não houver frutos, a árvore será queimada. Não basta, desse modo, dizer que acreditamos, que falamos e fazemos milagres em nome de Jesus se realmente em nosso coração não tivermos fé Nele e fizermos aquilo que Ele nos ensinou (Mt. 7.21 – 27; Mt. 25. 31 – 46). Não existem, então, eleitos ou predestinados. O que há são os salvos que perseveraram até o fim (2Pe. 2). O antigo pacto (ou aliança) era transitório, mas o novo pacto, em Cristo Jesus, é eterno (Cap. 8). Cristo morreu para que pudéssemos ter direito ao novo testamento, ou ao novo pacto. “Porque um testamento tem força onde houve morte; ou terá ele algum valor enquanto o testador vive?” (9.17). A Lei era a sombra, um rascunho das coisas e bens futuros (Cap. 9 e 10). Mas para termos direito a esse bem futuro devemos perseverar na fé, pois somos salvos não por eleição, nem por carne ou sangue, mas pela fé (Cap. 10 e 11).

                E pela fé damos os frutos (Mt. 13; Tg. 2; Lc. 3.8; Mc. 11.12 -14; Mt. 25.14 – 30), mas teremos a salvação se permanecermos nessa fé e realizarmos o que Jesus nos ensinou, “deixando todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia” (Hb. 12.1), estando em disciplina, suportando a correção (12.7 – 8); permanecendo na caridade fraternal (13.1), mantendo o matrimônio e o leito sem mácula (13.4), pois os que se dão à prostituição e ao adultério serão julgados por Deus (13.4). Em suma, estamos salvos do pecado e da perdição desde que permaneçamos em Cristo e isso significa fazer a vontade de Deus, manifesta e revelada na Bíblia (1 Jo. 2.17; Mt.7.21). O que passou, então? Toda a ritualística do Antigo Testamento, que era apenas sombra (ou rascunho) do que viria depois. Assim, o sacrifício de animais representava simbolicamente o sacrifício expiatório de Jesus. Os preceitos externos em relação à comida, vestimentas, rituais... todos foram abolidos e serviram ao propósito inicial de manter o povo hebreu separado dos demais, na intenção de manter inalterada a Palavra e os propósitos de Deus. Mas isso ficou claro em Atos 10.14 -15, quando Deus esclarece a Pedro que as coisas externas – como proibição de ingestão de certas comidas – foram abolidas. Afinal, simbolicamente, o véu do Templo rasgou-se de cima para baixo, mostrando que o sistema religioso externo do judaísmo fora abolido (Lc. 23.45). O que permanece, então? Aqueles valores atemporais, ou seja, a ética, a justiça, o amor, a fraternidade, o respeito, a generosidade, etc. E a condenação a tudo o que é pecado, como a desobediência, a fornicação, o adultério, o homicídio, a corrupção, a prostituição, a idolatria, entre tantas outras coisas condenadas veementemente em todos os livros e epístolas do Novo Testamento.

                Assim, penso que a homossexualidade quando tratada por Paulo como abominável, não se trata de algo externo da Lei que foi abolida. Não é essa a hermenêutica que deve ser feita. A homossexualidade nunca foi aceita no Antigo Testamento, mas não era algo que pertencesse ao rol dos preceitos exteriores e ritualísticos. Ademais, o fato de ser citada como condenável no Novo Testamento reforça, a meu ver, que esse é um dos casos do que não foi abolido. Se não vejamos: o homicídio, condenado muitas vezes no Antigo Testamento, é, também, condenado no Novo (Ex. 20.13; Dt. 5.17; Mt. 5.21; Rm. 13.9; 1Pe. 4.15; Rm. 1.29).

                Assim, gostaria de, no afã de evitar debates infrutíferos, que nos concentrássemos no Novo Testamento apenas e deixássemos, ao menos por ora, as citações do Antigo Testamento que supostamente falam da homossexualidade. Retornando a questão levantada em Romanos, há sim a possibilidade, dentro do contexto do capítulo, que Paulo esteja falando dos rituais orgiásticos que eram comuns naquela Roma de Nero. No entanto, seriam esses rituais – se houvessem relações homossexuais – deturpações dos antigos rituais da magia sexual, já que essa prática era feita com casais heterossexuais? Por outro lado, se compararmos as outras epístolas de Paulo no tocante a seu ataque a formas religiosas distintas do cristianismo apostólico (como o gnosticismo, por exemplo), veremos uma veemência na sua apologética que não verificamos nesse trecho de Romanos. Isso não é indicativo de que ele não estava tratando de um ritual apenas, mas da prática da homossexualidade em si? Até mesmo porque ele utiliza o termo “paixões”, o que não era o escopo dos rituais de prática sexual.

Anja Arcanja: (réplica)

É Carlos, o mito é assim: ou aceita-se sem questionamentos, ou questiona-se e por isto, se faz presente esta ambiguidade. Porque se para uns não há nada que diga mais a respeito das verdades sagradas do que o próprio mito, para outros não. Pois, para um cristão, Zeus (entre tantos outros seres mitológicos) é apenas uma fábula, um conto da carochinha da mesma forma que para alguns não cristãos, o Deus hebreu está na mesma condição de Zeus, ou seja, um mito. Zeus, como sendo o fruto do inconsciente grego e Deus, como sendo o fruto do inconsciente judaico.  E é óbvio que concordo que a bíblia não é de toda apenas mitológica, mas nos conta a história, cultura e a fé de um povo, os hebreus. Ao querermos afirmar que a bíblia é um livro sacro e a palavra do Deus vivo, desprezamos outros livros (de outros crenças, de outros deuses) que devem ter o mesmo status. Não devemos e nem podemos ver a bíblia como sendo a palavra de Deus, pois, no conceito de vários teólogos, inclusive no meu, ela é apenas um pequeno gotejar da palavra de Deus. Digo isto baseada me meus estudos, na profunda e exaustiva pesquisa feita em vários livros teológicos e leituras suplementares.

Eu tenho comigo que, tanto Zeus como Deus (assim como todos os outros seres míticos), são frutos de nosso inconsciente, para uns, que os tem como verdade absoluta chega ao ponto de ser danoso, pois em prol de manter viva sua fé, se torna capaz de matar. E nestes casos o mito não nos religa com o sagrado, mas, nos conduz ao fanatismo, e mal sabem que Deus não se encontra no sagrado e sim, no profano, é aí que deus habita; em mim, em você.

Para muitos o mito é muito mais que a representação simbólica da verdade, mas, a própria e absoluta verdade, para tantos outros, a razão cientifica da modernidade tirou o assombro do mito. Mas e daí se para alguns o mito não é verdade, pois, buscam vê-lo com os olhos da razão, sendo assim, o mito é apenas uma narrativa simbólica e a forma usada para explicar os fenômenos naturais. O mito é verdade para os que os veem com os olhos da fé, com a alma, e é para estes que assim creem que escrevo; e tenho dedicado não só neste nosso bate papo, nesta nossa troca de ideias, mas, em alguns outros blogs, já que no meu, tento abranger aos dois grupos.

Pode parecer ilógico, mas, por ter conseguido desconstruir antigos conceitos e preconceitos que me foram apresentados e outros impostos, que posso escrever para os que creem e que, segundo antigos conceitos, são impedidos de ter uma comunhão com o sagrado, e também para os que, assim como eu, não creem.

Pois bem, foi muito interessante você ter apresentado uma breve hermenêutica do livro de hebreus, mas discordo de você quando diz que a seu ver “não é esta hermenêutica que deve ser feita” sobre a hermenêutica feita pela TI sobre as cartas paulinas o que diz respeito a homossexualidade.  Devemos sempre ter em mente Carlos, que não existe uma hermenêutica certa, ou melhor, que seja 100% corretaporque toda hermenêutica está presa à subjetividade de quem a interpreta.

Carlos, quando você ressalta que há uma insistência minha em dizer que existem condenações no antigo testamento que não são seguidas, é porque eu vejo que o antigo testamento serve de alicerce para os eventos e ensinamentos encontrados no novo testamento. Um é incompleto sem o outro e perceba que, eu não apenas cito no antigo testamento, mas começo nele, e termino com o novo testamento, isto progressivamente e sistematicamente, como deve realmente deve ser feito, e faço assim para mostrar que os textos que são usados para condenar a homossexualidade no antigo testamento, estão aí firmes e fortes e, e por quê? Exatamente porque o antigo testamento é o alicerce do novo. Cito as condenações do antigo testamento exatamente por serem usadas as citações do antigo testamento sobre a homossexualidade ser algo abominável e condenável, sendo assim, porque não observamos também todas as outras condenações? Entende? É algo ilógico, uma hermenêutica torta, tendenciosa e falaciosa. Porque separa-se o que deve ou não ser seguido, o que precisa ser guardado e o que deve ser dispensado.

Como eu disse, faço a análise progressiva e contínua começando no antigo e terminando no novo testamento, como citei na minha primeira resposta:

Sobre escravos (quem hoje é a favor da escravidão?) “Escravos, obedeçam a seus senhores terrenos com respeito e temor, com sinceridade de coração, como a Cristo... Vocês, senhores, tratem seus escravos da mesma forma.” (Efésios 6:5, 9); E o que dizer de nós mulheres? Sobre a mulher: “A mulher deve aprender em silêncio, com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem que tenha autoridade sobre o homem. Esteja, porém, em silêncio.” (1 Timóteo 2:11-13).

Quem hoje em dia observa um destes mandamentos descritos nas cartas paulinas? Ninguém! E porque somente a homossexualidade deve ainda estar no rol das abominações e condenações de deus? Seria mesmo da “vontade de deus” ou não seria apenas a vontade dos homens?

Sobre a carta aos romanos e não somente ela Carlos, é possível que Paulo estivesse fazendo referencia a práticas homossexuais da forma que conhecemos hoje? Sim! Mas Porém, pode também aludir à prostituição cultual. Isto é fato e eu não descarto nenhuma das hipóteses e porque não o faço? Exatamente porque a homossexualidade sempre foi vista como algo antinatural e eu seria hipócrita ao negar que os povos antigos não viam com maus olhos a homossexualidade. O que podemos fazer é estando despidos de toda a forma de conceitos e preconceitos, tentar analisar nos escritos de Paulo o que realmente o escritor quis passar, qual a mensagem, etc. mas também devemos ter em mente que, Paulo sendo humano como nós poderia estar preso aos conceitos da época e ao escrever, estar sim condenando a homossexualidade. Mas muitos poderão dizer: Paulo escreveu inspirado pelo Espírito Santo, e eu rebato: ele era humano como nós, sujeitos as mesmas paixões e pode sim ter deixado (e não somente ele, mas todos os escritores bíblicos) os conceitos da época entrarem em seus escritos, pois não é a própria bíblia diz que, o espírito está sujeito ao profeta?

E mais um detalhe que considero importante Carlos, é que não podemos depositar inteira confiança na vulgata (versão bíblica latina que chegou as nossas mãos ) pois Jerônimo perturbou-se sobremodo com as ordens que recebera do papa para extrair, substituir e alterar textos no que conhecemos hoje como uma versão fidedigna, como podemos observar no trecho citado abaixo das Obras de São Jerônimo:

Sobre Jerônimo o papa diz

"Dele disse o Papa Bento XVI: A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, a Septuaginta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada "Vulgata", o texto oficial da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto oficial da Igreja de língua latina.”.

Jerônimo sobre a sua tradução disse assim:

"Obrigas-me fazer de uma Obra antiga uma nova… da parte de quem deve por todos ser julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. Qual, de fato, o douto e mesmo o indouto que, desde que tiver nas mãos um exemplar, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? (Meclamitans esse sacrilegum qui audeam aliquid in verteribus libris addere, mutare, corrigere). Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas por si a aprovação dos maus". (Obras de São Jerônimo, edição dos Beneditinos, 1693, t. It. Col. 1425)."

Carlos, concluo dizendo que, por encontrarmos estas discrepâncias e múltiplas possíveis interpretações dos textos sagrados, possíveis adulterações e ainda, o que para mim, é o principal: sendo eu adepta à teologia inclusiva ou à teologia ortodoxa, estarei sendo separatista, pois no cristianismo sempre existem dois grupos distintos: salvos e não salvos, eleitos e preteridos (a doutrina calvinista me fornece arcabouço para crer que deus escolhe e elege os seus, e condena os demais), bons e maus, os que viverão em eterno gozo e os que viverão em eterno tormento; que prefiro manter-me alegremente afastada da bíblia e do deus bíblico, por não encontrar em suas páginas o suficiente para minha felicidade plena e dos que me são caros, pois seguindo a bíblia, posso dizer que uns são melhores que os outros, mesmo entre homossexuais, e para mim, isto não me serve de base para felicidade.

 [Carlos Carvalho Cavalheiro] (tréplica)

– Há uma questão que gostaria de levantar para que pudéssemos terminar essa nossa entrevista. Parece ser natural do ser humano buscar um parâmetro de conduta que incorra na construção do que chamamos de ética e moral. Com raras exceções – me parece que a pedofilia era uma delas – pareceu-me que você acredita que não há condenação nas diversas práticas sexuais. Não sei se absorvi direito tudo o que você falou, mas foi essa a impressão que tive. Em sua opinião, qual seria o interesse – religioso, político, social ou qualquer outro – da Bíblia em condenar a homossexualidade? Qual seria o motivo de tal condenação? Por que a criação desse parâmetro moral e ético?

Anja Arcanja (tréplica)

Carlos veja bem, diante tudo que escrevi, não podemos de forma alguma afirmar que a bíblia condena a homossexualidade, mas é óbvio que existem sim, margem para várias interpretações.

A idéia de condenação da homossexualidade vem de Philo de Alexandria, que foi um importante pesquisador do Judaísmo, e que viveu entre 20 AC ate 50 DC teve uma grande influência na interpretação bíblica. Em relação à sexualidade ele ensinou que uma das funções primárias de todo homem era a procriação e que toda e qualquer expressão sexual que não produzisse descendência legítima era “antinatural”.

Muito poderão indagar que tal condenação, encontra base no episódio da destruição de Sodoma e Gomorra, o que também é uma inverdade, uma vez que De acordo com Ezequiel 16: 49 podemos concluir que o verdadeiro pecado de Sodoma e Gomorra foi à falta de hospitalidade para com o próximo.

O próprio Jesus, conhecendo o contexto da história de Sodoma e Gomorra que era o de ter pecado por falta de hospitalidade para com o estrangeiro, ao enviar os seus obreiros para anunciarem a mensagem do Reino de Deus, sabiamente usou o exemplo de Sodoma e Gomorra como vemos no livro de Mateus:

“Ao entrares na casa, saudai-a. Se, porém, não o for, tornem para vós outros a vossa paz. Se alguém não voz receber, nem ouvir as vossas palavras, ao sair daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que menos rigor haverá para Sodoma e Gomorra, no dia do juízo, do que para aquela cidade”, (10:13-15).


E assim, persiste até os dias de hoje por pura tradição. E como é de costume, a igreja anda sempre de mãos dadas com o estado, o estado oprime e a igreja conforta falando exatamente o que os fiéis querem ouvir e desde a antiguidade a homossexualidade tem sido vista (erroneamente) como uma ameaça à família, basta ver algumas falas de pastores como o Silas Malafaia, onde ele diz: “pela preservação da espécie” e cita versos bíblicos completamente fora de seu contexto e porque ele e outros fazem isto? Exatamente porque dizem o que suas ovelhas querem ouvir e como o estado anda de mãos dadas com a igreja, apoia. Mas a luta dos LGBTTTS por terem reconhecidos seus direitos, tem mudado um pouco esta história e por isto a igreja tem se levantado ferozmente contra alguns políticos e principalmente contra a comunidade LGBTTTS.

Bom, é isto. Obrigada mais uma vez por ter me dado a oportunidade de poder expor o que penso nesta entrevista e, espero que ela possa ajudar a pessoas que assim como eu, são inquietas questionadoras e desejam encontrar alento e conforto em seus questionamentos.

Bjux

Anja Arcanja




[1] PHILIP, Neil. O Livro Ilustrado dos Mitos. São Paulo: Editora Marco Zero, 1996, p. 4.
[2] CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990.
[3] STROBEL, Lee. Em defesa de Cristo. São Paulo: Editora Vida Acadêmica, 2001.


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Escritora e poetisa amadora e teóloga. Autora do blog “O mundo Da Anja” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/), um blog que conta com diversas parcerias e articulistas, voltado a discutir religião, filosofia, teologia, ateísmo, homossexualidade, sexualidade humana, entre outros temas de relevância; e do blog “Poemas e contos eróticos da Anja” (http://anjaarcanja.wordpress.com/), um blog de cunho erótico. Escreve ainda para os blogs “confraria teológica Logos & Mythos”, "Vida Sofista" e   “Fragmentos Ativos”, além de ter textos publicados em vários blogs e sites.

Carlos Carvalho Cavalheiro - Nasceu em São Paulo em 09 de maio de 1972. Formado em História, Teologia e Pedagogia. Pós-graduado em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. Professor de História na rede pública municipal de Porto Feliz. Escritor e poeta, escreveu os livros: "A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba"; "Folclore em Sorocaba", "Salvadora!", "Decobrindo o Folclore", "Scenas da Escravidão", "Histórias que não se contam mais - vol 1", "A História do Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba", "Histórias que não se contam mais - vol. 2", "O Peregrino do Caminho do Sol", "Moda da História de Sorocaba", "Vadios e Imorais", "O Mistério Revelado", "Memória Operária", "Folia de Reis em Sorocaba".
Foi co-diretor, juntamente com Adilene Cavalheiro, do documentário "Cantos da Terra".
Produziu os cds "Cantadores - o folclore de Sorocaba de Sorocaba e região" e "Passarela da Saudade" (Diolindo e Almeida).

2 comentários:

Edmar Roberto Prandini disse...

Achei que vc lida bastante bem com diversos dos elementos da realidade hebraica. Tanto a noção da poligamia quanto da prostituição cultual eram elementos presentes no ambiente da época.

Você domina o método histórico-crítico, isso fica evidente

O que me parece consistir na sua objeção é no fato de que o redator possuísse a intencionalidade hermenêutica de construir um discurso de afirmação de fé a partir dos elementos narrados e de cuja intencionalidade você discorda
a pergunta é: como se pôde construir uma moral conservadora a partir de um texto que retrata os fatos na perspectiva de uma construção libertária?

Eu entendo que a intencionalidade dos redatores ao compilar os relatos foi construir uma visão libertária
e nesta perspectiva, divirjo da moralidade conservadora.

A questão teológica de fundo é que na perspectiva dos hagiógrafos,
a visão libertária ou emancipatória seria exatamente a expressão do desejo ou mandato divino àqueles quem com ele fizessem aliança.

Haveria ou não um Deus libertador?
ou esta visão libertária é apenas um movimento ideológico de um grupo que afirma basear-se em Deus como um argumento de autoridade injustificado

Resumindo:

a) a moralidade expressa nos textos bíblicos é conservadora ou libertária?

b) a figura divina expressa nos textos é de um Deus que quer a liberdade ou que a confisca;

c) O que afirmam a Deus como um libertador apenas o fazem para terem a seu favor um argumento de força, ou esse Deus existe mesmo?

Edmar Roberto Prandini disse...

Achei que vc lida bastante bem com diversos dos elementos da realidade hebraica. Tanto a noção da poligamia quanto da prostituição cultual eram elementos presentes no ambiente da época.

Você domina o método histórico-crítico, isso fica evidente.

O que me parece consistir na sua objeção é no fato de que o redator possuísse a intencionalidade hermenêutica de construir um discurso de afirmação de fé a partir dos elementos narrados e de cuja intencionalidade você discorda.

A pergunta é: como se pôde construir uma moral conservadora a partir de um texto que retrata os fatos na perspectiva de uma construção libertária.

Eu entendo que a intencionalidade dos redatores ao compilar os relatos foi construir uma visão libertária
e nesta perspectiva, divirjo da moralidade conservadora.

A questão teológica de fundo é que na perspectiva dos hagiógrafos,
a visão libertária ou emancipatória seria exatamente a expressão do desejo ou mandato divino àqueles quem com ele fizessem aliança
haveria ou não um Deus libertador?

Ou esta visão libertária é apenas um movimento ideológico de um grupo que afirma basear-se em Deus como um argumento de autoridade injustificado.

Resumindo:

a) a moralidade expressa nos textos bíblicos é conservadora ou libertária?

b) a figura divina expressa nos textos é de um Deus que quer a liberdade ou que a confisca;

c) O que afirmam a Deus como um libertador apenas o fazem para terem a seu favor um argumento de força, ou esse Deus existe mesmo?

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