Pesquise artigos do blog:

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Apostila teológica de Antropologia

ANTROPOLOGIA
 

INTRODUÇÃO


    1. A Natureza da Antropologia

    A Antropologia é a ciência do homem; e como tal trata de questões relacionadas com o homem primitivo, da distinção das raças e dos fatores que entram no desenvolvimento e progresso do homem.  No sentido teológico, entretanto, o termo limita-se ao estudo do homem nos seus aspectos moral e religioso, com ênfase particular no estado do homem antes da queda.


    2. A Doutrina do Homem na Dogmática

    Não se deve confundir a Antropologia, dentro da Teologia, com a Antropologia Geral ou ciência da humanidade, que tem os homens como objeto de estudo.  Estas, porém, se ocupam com a história da humanidade, da estrutura filosófica e das características psíquicas do homem em geral, das raças e seu desenvolvimento etnológico, lingüístico, cultural, religioso, etc.  A Antropologia Teológica procura unicamente o que a Bíblia diz a respeito do homem e da relação entre ele e Deus.


I - A ORIGEM DO HOMEM


    1.1. O Relato Bíblico da Origem do Homem

    Há um duplo relato da criação do homem: um em Gn 1.26,27 e outro em Gn 2.7,21-23.  A alta crítica[1] é de opinião que o escritor de Gênesis juntou duas narrativas da criação: a primeira, de Gn 1.1-2.3 e a segunda, de Gn 2.4-24, e que as duas são independentes e contraditórias. 

    A ortodoxia explica dizendo que a primeira narrativa relata a criação de tudo na ordem que ocorreu; já a segunda agrupa as coisas em sua relação com o homem na obra criadora de Deus, e indica claramente que tudo que precedeu serviu para preparar uma adequada habilitação para o homem como “rei” da criação. 

    Há alguma particularidade nas quais a criação do homem sobressai, em distinção da dos seres vivos:

         1.1.1. A Criação do Homem foi Precedida por um Solene Conselho Divino:   Gn 1.26 geralmente tem sido interpretado pela Igreja com base na existência trinitária de Deus.  Porém, alguns eruditos o consideram como plural de majestade; outros como plural de comunicação, no qual Deus inclui os anjos juntamente com Ele; e ainda outros, como plural de auto-exortação.  Contra-argumentando: a primeira é muito improvável, visto que, o plural de majestade originou-se em data muito posterior; a segunda é impossível, porque implicaria que os anjos foram co-criadores com Deus, e que o homem foi criado à imagem dos anjos também, o que é uma idéia antibíblica; a terceira é uma pressuposição inteiramente gratuita, à qual não se pode atribuir nenhuma razão.

         1.1.2. A Criação do Homem como um Ato Imediato de Deus:  Algumas expressões utilizadas na narrativa anterior a da criação do homem indicam criação mediata, nalgum sentido da palavra, mas a obra de Deus na criação do homem não foi mediada em nenhum sentido da palavra.  Ele fez uso de material preexistente na formação do corpo humano, mas já na criação da alma, isto foi excluído.

         1.1.3. Em Distinção das Criaturas Inferiores, o homem foi Criado conforme um tipo divino:  No que diz respeito aos peixes, às aves e aos animais lemos que Deus os criou segundo à sua espécie, numa forma típica da deles próprios.  O homem, porém, não foi criado assim, e muito menos segundo o tipo de uma criatura inferior.  Na narrativa da criação, a criação do homem sobressai como uma coisa distintamente característica.

         1.1.4. Distinção entre dois Elementos na Natureza Humana:  Gn 2.7 faz uma clara distinção entre a origem do corpo e a da alma.  O corpo foi formado do pó da terra: Deus, usando material preexistente.  Mas a alma foi a produção de uma nova substância.  Com simples palavras afirma-se a dupla natureza do homem, e o que elas nos ensinam é corroborado por outras passagens da Escritura como Ec 12.7; Mt 10.28; Lc 8.55; 2 Co 5.1-8; Fp 1.22-24; Hb 12.9 - neste contexto a “alma vivente” significa “ser vivo”.

         1.1.5. O Homem é Colocado numa Posição Exaltada:  O homem é descrito como alguém que está no ápice de todas as ordens criadas e recebeu domínio sobre todas as criaturas inferiores.  Foi seu dever e privilégio tornar toda a natureza e todos os seres criados, que foram colocados sob o seu governo, subservientes à sua vontade e ao seu propósito, para que ele e todos os seus gloriosos domínios magnificassem o onipotente Criador e Senhor do universo, Gn 1.28; Sl 8.4-9.


       


    1.2. A Origem do Homem e a Unidade da Raça

         1.3.1. Testemunho Escriturístico da Unidade da Raça:  A Escritura ensina que a humanidade toda descende de um único par.  Este é o sentido óbvio dos capítulos iniciais de Gênesis, os quais mostram claramente que as gerações seguintes até ao tempo do Dilúvio, estiveram em ininterrupta relação genética com o primeiro casal.  De sorte que, a raça humana constitui, não somente uma unidade no sentido de que todos os homens compartilham a mesma natureza humana, mas também uma unidade genética ou genealógica.  Isso é ensinado também por Paulo em At 17.26.

         1.3.2. Testemunho da Ciência em Favor da Unidade da Raça: 

                   a) O argumento da História:  As tradições apontam decisivamente para uma origem e uma linhagem comuns na Ásia Central.  A história das migrações do homem tende a mostrar que houve uma distribuição partindo de um único centro.

                   b) O argumento da Filologia:  As línguas indo-germânicas[2]têm em suas raízes um idioma primitivo comum, um velho remanescente do qual ainda existe no sânscrito[3] e há prova que o antigo idioma egípcio é o elo de ligação entre a língua indo-européia e a semítica.
                    c) O argumento da Psicologia:  A  alma  é  a  parte  mais importante da natureza constitucional do homem, e a psicologia revela claramente o fato de que as almas dos homens, quaisquer que sejam as tribos ou nações a que pertençam, são essencialmente idênticas.  Têm em comum os mesmos apetites, instintos e paixões animais, as mesmas tendências e capacidades.

                   d) O argumento das Ciências Naturais ou Fisiologia:  As diferenças que existem entre as várias famílias da humanidade são consideradas simplesmente como variedades dessa espécie única.  As ciências não asseveram positivamente que a raça humana descende de um único par, mas, não obstante, demonstra que pode muito bem ter sido este o caso, e que provavelmente é.


II - A NATUREZA DO HOMEM

    2.1. Elementos Constitutivos da Natureza Humana

    Entende-se que o homem consiste de duas partes distintas, e de duas somente, a saber, corpo e alma - a este pensamento chamamosdicotomia.  Em contrapartida surgiu outro pensamento que a natureza humana consiste de três partes: corpo, alma e espírito - pensamento denominado de tricotomia.  O conceito do homem tripartido originou-se na filosofia grega, que entendia a relação mútua entre o corpo e o espírito do homem segundo a analogia da mútua relação entre o universo material e Deus.  Pensava-se que, com estes só podiam ter comunhão um com o outro por meio de uma terceira substância ou intermediário, assim aqueles só podiam entrar em relações mútuas vitais por meio de um terceiro elemento, intermediário, a saber, a alma.

    A forma mais conhecida de tricotomia é a que toma o corpo como a parte material da natureza humana, a alma como o princípio da vida animal e o espírito como o elemento humano racional, imortal e relacionado com Deus.  Esta concepção foi apoiada pelos Pais da Igreja, mas depois que Apolinário aplicou-a de maneira ofensiva à perfeita humanidade de Cristo, foi ficando cada gradativamente desacreditada.

    Durante a Idade Média tornou-se objeto de crença comum e a Reforma não trouxe mudança alguma; já durante o século XIX foi revivida numa outra forma por certos teólogos alemães e ingleses, mas não encontrou muito apoio no mundo teológico.  Os recentes advogados dessa teoria não concordam quanto à natureza da psique, nem quanto à sua relação com os outros elementos da natureza humana.

    De um lado a Bíblia nos ensina a ver a natureza do homem como uma unidade, e não como uma dualidade consistente de dois elementos diferentes; embora reconheça a complexa natureza humana, ela nunca a expõe como redundando num duplo sujeito no homem.  Cada ato do homem é visto como um ato do homem todo.  Não é a alma, e sim, o homem que peca; não é o corpo, e sim, o homem que morre; e não é meramente a alma, e sim, o homem, corpo e alma, que é redimido por Cristo.  Gn 2.7 é a primeira passagem a indicar a complexa natureza do homem.  Quando Deus formou o corpo do homem, formou-o de modo que pelo sopro do Seu Espírito Santo, o homem se tornou imediatamente “alma vivente”, Jo 33.4; 32.8.  A palavra “alma” em Gn denota um homem completo e ao mesmo tempo de dual natureza.

    A antítese - alma e corpo - mesmo em seu sentido neotestamentário, não se acha no VT.  Laidlaw, diz: “A antítese é entre o inferior e o superior, o terreno e o celeste, o animal e o divino.  Não se trata tanto de dois elementos, mas de dois fatores que se unem com uma resultante única e harmoniosa  - o homem passou a ser alma vivente - várias palavras são empregadas no VT para indicar o elemento inferior do homem ou partes dele, como “carne”, “pó”, “ossos”, “entranhas” e “rins”, e também expressões como em Jo 4:19,  “casas de barro”.  Há outras expressões que indicam os membros superiores, como “espírito”, “alma”, “coração” e “mente”, passando do VT para o NT encontramos expressões como “corpo e alma”, “carne e espírito”. 

    As palavras gregas correspondentes foram, sem dúvida, moldadas pelo pensamento filosófico grego, mas passaram para o NT por intermédio da Septuaginta e, portanto, retiveram a sua ênfase veterotestamentária.

    Os tricotomistas procuram suporte no fato de que a Bíblia, como a vêem, reconhece duas partes constitutivas da natureza humana em acréscimo ao elemento inferior ou material/corpo, a alma (hebr.nephesh; gr. psique) e o espírito (hebr. ruah; gr. pneuma).  Mas o fato de serem empregados esses termos com grande freqüência na Escritura não dá base para a conclusão de que designam partes componentes, em vez de aspectos diferentes da natureza humana.  Um cuidadoso estudo das Escrituras mostra claramente que ela emprega as palavras umas pelas outras, em permuta recíproca.  Ambos os termos indicam o elemento superior ou espiritual.

    Ruah-pneuma, bem como nephesh-psyquê, são empregados com referência à criação animal inferior, Ec 3.21; Ap 6.3.  A palavra psiqueé empregada até com referência a Jeová, Is 42.1; Jr 9.9; Am 6.8 (no texto hebr.); Hb 10.38.  Os mortos desencarnados são chamados“psyqai”, Ap 6.9; 20.4.  Os mais elevados exercícios da religião são atribuídos à psique, Mc 12.30; Lc 1.46; Hb 6.18; Tg 1.21.  Perder apsique é perder tudo.
   
    Observamos um paralelismo em Lc 1.46,47; a fórmula escriturística para designar o homem é, nalgumas passagens, “corpo e alma”, Mt 6.25; 10.28; e noutras, “corpo e espírito”, Ec 12.7; 1 Co 5.3,5.  Às vezes, a morte é descrita como a entrega do espírito, Sl 31.5; Lc 23.46; At 7.59.  Além disso, tanto “alma” como “espírito” são empregados paradesignar o elemento imaterial do homem, 1 Pe 3.19; Hb 12.23; Ap 6.9; 20.4.  Duas palavras parecem estar em conflito com a usual descrição dicotômica da Escritura - 1 Ts 5.23 e Hb 4.12.  Deve-se notar que: A) É boa regra de exegese que as afirmações excepcionais sejam interpretadas à luz da analogia da Escritura, ou seja, da apresentação usual da Escritura.  Em vista deste fato, alguns tricotomistas admitem que estas passagens não provam necessariamente a posição deles;B) A simples menção dos termos “espírito” e “alma” ao lado do outro não prova que segundo a Escritura, são duas substâncias distintas, como também Mt 22.37 não prova que Jesus considerava o coração, a alma e o entendimento como três substâncias distintas; C)  Em 1 Ts 5.23 o apóstolo deseja simplesmente fortalecer a afirmação: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo”.

    Noutros lugares da Escritura diz que o homem consiste de duas partes, Rm 8.10; 1 Co 5.5; 7;34; 2 Co 7.21; Ef  2.3; Cl 2.5;  D)  Hb 4.12 não deve ser entendido no sentido de que a Palavra de Deus,“penetrando no íntimo do homem, faz separação entre a sua alma e o seu espírito” o que naturalmente implicaria em que são duas substâncias diferentes - mas simplesmente no sentido de uma declaração de que ela produz uma separação entre os pensamentos e as intenções do coração.


    2.2. A Origem da Alma Humana

         2.2.1. O conceito histórico sobre a origem da alma:   Platão cria na preexistência e na transmigração da alma (dentro do assunto da origem e existência da mesma).  Na Igreja Primitiva a doutrina da preexistência da alma limitava-se praticamente à escola alexandrina.  Orígenes foi o principal representante dessa idéia e a combinava com a noção de uma queda pretemporal.  Logo apareceram dois outros conceitos e se provaram muito mais populares nos círculos cristãos:  o criacionismo e o traducionismo.

         2.2.2. Preexistencialismo:  Alguns teólogos, dentre os quais Orígenes, Scotus Erígena e Júlio Müeller, defendiam a teoria de que as almas dos homens existiam num estado anterior, e que certas ocorrências naquele primeiro estado explicam a condição em que essas almas se acham agora.

         2.2.3. Traducionismo:  Neste, as almas dos homens são reproduzidas juntamente com os corpos pela geração natural e, portanto, são transmitidas pelos pais aos filhos.  Na Igreja Primitiva, Tertuliano, Rufino, Apolinário e Gregório de Nissa eram traducionistas.  Este conceito é bem aceito na Igreja Luterana.

                   a) Argumentos Favoráveis ao Traducionismo:  1) Alega-se que é favorecido pela descrição bíblica segundo a qual: (a) Deus uma única vez soprou nas narinas do homem o fôlego de vida e deixou que este reproduzisse a espécie, Gn 1.28, 2.7; (b) a criação da alma de Eva estava incluída na de Adão (1 Co 11.8) e nada se diz acerca da criação de sua alma, Gn 2.23; (c) Deus cessou a obra de criação depois de haver feito o homem, Gn 2.2; (d)  Os descendentes estão nos lombos dos seus pais, Gn 46.26; Hb 7.9; Jo 3.6; Rm 1.3; At 17.26. 
2)  Tem apoio da analogia da vida vegetal e animal devido a um aumento de número partindo de um tronco paterno. 
3)  A teoria tem apoio na herança de peculiaridades físicas e mentais que os filhos têm dos pais.
4)  Ela parece oferecer a melhor base para a explicação da herança da depravação moral e espiritual, que é assunto da alma e não do corpo.

                   b) Objeções ao Traducionismo:  1)  É contrária à doutrina filosófica da simplicidade da alma.  A alma é uma substância puramente espiritual que não admite divisão (pode-se ainda questionar de quem a alma é proveniente: do pai, da mãe ou dos dois?  Se dos dois, não seria ela um composto?);
2)  Para evitar problemas com o “composto”, deve-se recorrer a uma das 3 teorias seguintes: (a) a alma da criança teve uma existência anterior; (b)  a alma está potencialmente preexistente no homem, na mulher ou nos dois, o que é materialismo; (c) a alma é produzida, criada, de algum modo, pelos pais - o que faz deles criadores;
3)  Traz um enorme problema para a Cristologia, visto que Cristo é descendente de Maria - logo herdou “parte” da alma dela e, portanto, também com isso, o pecado.

 
       2.2.4. Criacionismo:  Cada alma individual deve ser considerada como uma imediata criação de Deus, devendo a sua origem a um ato criador direto, cuja ocasião não pode se determinar com precisão.  Não significa, necessariamente, que a alma é criada primeiro, separadamente do corpo, corrompendo-se depois pelo contato com o corpo, o que pareceria pressupor que o pecado é algo físico.

                   a) Argumentos Favoráveis ao Criacionismo:  1)  É mais coerente com as descrições gerais da Escritura, que o traducionismo - o relato da criação, como já visto, mostra distinção entre a criação do corpo e da alma;
 2)  É mais coerente com a natureza da alma humana (imaterial e espiritual), portanto, indivisível - isto é expressamente reconhecido pelo criacionismo;
 3)  Evita os perigos do traducionismo na Cristologia, fazendo maior justiça à descrição escriturística da pessoa de Cristo - que foi homem totalmente, mas sem pecado.

                   b) Objeções ao Criacionismo:  1)  Segundo Strong, “se essa teoria admite que a alma era possuída originalmente de tendências depravadas, faz Deus o autor diretamente do mal moral; se ela sustenta que a alma foi criada pura, faz de Deus indiretamente autor do mal moral, ensinando que ele introduz essa alma pura num corpo que inevitavelmente a corromperia”;
 2)  Ensina que os pais terrenos geram somente o corpo do filho e, portanto, não explica o aparecimento das características morais e mentais dos pais nos filhos;
 3)  Não está em harmonia com a relação atual de Deus com o mundo e com a Sua maneira de agir nele, visto ignorar que Deus presentemente age por meio de causas secundárias e cessou sua obra criadora.

    A Bíblia não faz nenhuma afirmação direta a respeito da origem da alma do homem, exceto no caso de Adão.  Porém, alguma forma de criacionismo merece preferência: 1) Não encontra a mesma insuperável dificuldade filosófica do traducionismo; 2)  Evita os erros cristológicos que o traducionismo envolve.



III - O HOMEM COMO A IMAGEM DE DEUS

3.1. Conceitos Históricos

     Segundo a Bíblia, o homem foi criado à “imagem” e “semelhança de Deus e, portanto, tem relação com Deus.  O que vem a ser então imagem/semelhança?

     a) Primeiros Pais da Igreja:  a imagem consistia de características racionais e morais do homem e em sua capacidade para santidade; alguns tinham tendência para crer que também significasse características corporais.

1) Irineu e Tertuliano: Diferenciaram imagem de semelhança. 
     Imagem = características corporais.
     Semelhança = características espirituais Þ natureza espiritual do homem.

2) Clemente de Alexandria e Orígenes: Divagaram em seu conceito.  Rejeitaram a idéia de uma analogia corporal.
       Imagem = indica características do homem como tal.
       Semelhança = qualidades essenciais ao homem, mas que podem ser culti-
                              vadas ou perdidas.

3) Pelágio: A imagem consistia apenas em que o homem foi dotado de razão para que pudesse conhecer a Deus; de livre arbítrio para que fosse capaz de escolher o bem e praticá-lo; e do necessário para governar a criação inferior.


     b) Escolásticos: De um modo geral concebia-se que a imagem incluía as faculdades intelectuais da razão e da liberdade; e semelhança consistia da justiça/retidão original.


    c) Reformadores:  Rejeitaram a distinção entre imagem e semelhança.  Consideravam a justiça original como incluída na imagem de Deus e como pertencente à própria natureza do homem em sua condição originária.  Havia diferença de opinião entre Lutero e Calvino.

1) Lutero: Não buscava a imagem de Deus em nenhum dos dons naturais do homem, tais como suas faculdades racionais e morais, mas sim exclusivamente na justiça original e considerava a imagem inteiramente perdida devido ao pecado.

2) Calvino:  A imagem de Deus abrange tudo aquilo em que a natureza sobrepuja a de todas as espécies de animais.  Indica-se com esta expressão (imagem de Deus) a integridade com que Adão foi dotado quando seu intelecto era límpido, suas emoções estavam subordinadas à razão, todos os seus sentidos eram regulados devidamente.  Incluía tanto os dotes naturais como qualidades espirituais designadas como justiça original, i.é., real conhecimento, justiça e santidade.


3.2. Dados bíblicos a respeito da Imagem de Deus no Homem

     Ensinamentos escriturísticos dão base para algumas afirmações:

a) Imagem e semelhança são empregadas como sinônimos:  Em Gn 1.26 são empregadas as duas; já no v.27 somente uma delas, portanto, suficiente para expressar a idéia completa.

-- Em Gn 5.1 só ocorre “semelhança”; no v.3 ocorre as duas novamente.
-- Em Gn 9.6 só ocorre “imagem”.

* No NT

-- 1 Co 11.7 temos “imagem” e “glória”.
-- Cl 3.10 temos só “imagem”.
-- Tg 3.9 temos só “semelhança”.

Isto implica em que o homem foi também criado à semelhança de Deus, e que esta semelhança não é algo de que ele foi revestido mais tarde.

* Idéia Geral: “semelhança” foi acrescentada à palavra “imagem” para expressar a idéia de que a imagem era uma imagem muito semelhante, perfeita.  Deus é o original do qual o homem é feito uma só cópia.  Significa, portanto, que o homem não só leva a imagem de Deus, mas é sua própria imagem, 1 Co 11.7; 15.49.



b) A imagem inclui a justiça original (verdadeiro conhecimento, justiça e santidade):  Deus fez o homem muito bem (bom), Gn 1.31, e reto, Ec 7.29.  O NT fala do homem sendo refeito em Cristo, i.é, sendo levado de volta a uma condição anterior; de verdadeiro conhecimento, Cl 3.10, e justiça e santidade, Ef 4.24.  Elementos perdidos por causa do pecado, mas reconquistados em Cristo.

c) A imagem de Deus inclui também elementos pertencentes à constituição natural do homem: 

-- Que pertencem ao homem como tal: faculdades intelectuais; sentimentos naturais e liberdade moral;
-- Como ser criado à imagem de Deus, o homem tem uma natureza racional e moral que não perdeu com o pecado - se tivesse perdido deixaria de ser homem.
-- Esta parte da imagem de Deus foi corrompida pelo pecado, mas ainda permanece no homem, mesmo depois da queda.  E mesmo depois da queda o homem é apresentado como a imagem de Deus, Gn 9.6; 1 Co 11.7; Tg 3.9.

d) A imagem inclui espiritualidade:

-- Deus é espírito, e é natural esperar que este elemento de espiritualidade se ache no homem como a imagem de Deus.
-- Gn 2.7 (fôlego de vida) é a própria existência do homem.  A alma está unida e adaptada a um corpo, mas pode, se necessário, existir sem o corpo.
-- Em vista disso podemos falar do homem como ser espiritual.  Aparentemente pode-se dizer que o corpo também constitui uma parte da imagem de Deus, visto que o homem não é completo sem o corpo, Gn 9.6; Mt 10.28.

e) A imagem inclui imortalidade: 

-- O homem também é imortal, nalgum sentido da palavra - é óbvio que isso não é essência de sua natureza.
-- Em Deus, imortalidade é essencial Þ de sua própria natureza, modo de existência.
-- No homem, imortalidade é uma dádiva, é derivada de Deus.
-- O homem foi criado imortal, não só no sentido de que sua alma foi dotada de existência interminável, mas também no sentido de que ele não levava dentro de si as sementes da morte física.
-- A ameaça da morte foi feita como punição do pecado, Gn 1.27.
-- A morte deve ser considerada como salário do pecado, Rm 6.23.



[1] Refere-se à crítica bíblica. Diz-se “alta” tendo em vista que seu foco de estudo são os problemas de composição, incluindo-se o autor, a data, o lugar e as circunstâncias em que foi escrito o material bíblico em questão – conhecida modernamente como “crítica histórica”. (por outro lado, temos a chamada “baixa crítica”, que se refere à moderna “crítica textual”).
[2] Uma subfamília das línguas indo-européias. É formada por dois grupos de dialetos: o alto alemão (que inclui o alemão literário normativo) e o baixo alemão. É falada na Alemanha, Áustria, Suíça, Liechtenstein, Luxemburgo e nas regiões de Alsácia-Lorena e Alto Adige (Itália). As línguas Indo-européias são a maior família de línguas do mundo. É formada pelas subfamílias albanesa, armênia, báltica, celta, eslava, germânica, grega, indo-iraniana, itálica (incluindo as línguas românicas), e as duas subfamílias hoje desaparecidas: anatólica, que inclui a língua dos hititas, e tocariana. Atualmente, mais de 500 milhões de pessoas falam uma língua da família indo-européia.
A partir da segunda metade do século XVIII, a lingüística comparada e a chamada “neogramática” acumularam dados para demonstrar que este conjunto de línguas, aparentemente tão diversas, pertenciam a uma única família. Os documentos do sânscrito e do grego clássico (a mais antiga das línguas indo-européias, excetuando a dos hititas, que não tinha sido decifrada até então) apresentam as formas características próprias das línguas indo-européias, prova da existência de uma língua-mãe comum.Enciclopédia Encarta 2000.
[3] Língua clássica, litúrgica e literária dos hindus. Pertence ao ramo indiano da subfamília de ínguas indo-iranianas, dentro da família indo-européia. Atualmente, as castas elevadas a aprendem e cultivam e o clero a utiliza como língua culta e literária. Significa “língua da perfeição”. Enciclopédia Encarta 2000.

BIBLIOGRAFIA PARA PESQUISA


ANGUS, Joseph. História, Doutrina e Interpretação da Bíblia. Rio de Janeiro: Casa Publi-
       cadora Batista, vol. I, 1953, 303 p.

BERKHOF, L.  Teologia Sistemática.  Campinas: Luz para o Caminho Publicações, 1990.

__________ Manual de Doutrina Cristã. Campinas: Luz para o Caminho, 1985, 332 p.

BERKOWER, G. C.  A Pessoa de Cristo.  Rio de Janeiro: Juerp/Aste, 1983, 279 p.

BORCHERT, Otto. O Jesus Histórico. São Paulo: Edições Vida Nova, 1985, 358 p.

BRAATEN, Carl E. & JENSEN, Robert W., ed., Dogmática Cristã.Vols. I e II. São Leopoldo: Sinodal, 1990.

COOK, Francisco S. A Vida de Jesus Cristo. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1990,  344 p.

CULBERTSON, H. & WILLEY, P.T.  Introdução à Teologia Cristã.São Paulo: Casa Nazarena de Publicações, 1990.

DAGG, John L. Manual de Teologia. São José dos Campos: Editora Fiel, 1989, 301 p.

DODD, C. H. O Fundador do Cristianismo. São Paulo: Edições Paulinas, 1977, 195 p.

ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo: Edições Vida Nova,  1998, 540 p.

FIGUEIREDO, Onézio. Cristologia em Lições. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1988, 194 p.

GEORGE, Timothy. Teologia dos Reformadores. São Paulo: Edições Vida Nova, 1994,  339 p.

GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999, 1046 p.

HAGGLUND, Bengt.  História da Teologia. Porto Alegre: Concórdia, 2ª ed., 1981, 370 p.

HOOFT, W. A. Visserit. A Realeza de Jesus Cristo. São Paulo: Imprensa Metodista, 159 p.

HORDEN, William. Teologia Protestante ao Alcance de Todos. Rio de Janeiro: Juerp, 2ª ed., 1979, 270 p.

HORRELL, J.S.  Apostila de Teologia Sistemática da Faculdade Teológica Batista de São  Paulo, 1990.

LANGSTON, A.B.  Esboço de Teologia Sistemática.  Rio de Janeiro: Juerp, 1986.

MCDOWELL, Josh & Larson. Jesus – uma defesa bíblica de sua divindade. São Paulo: Editora Candeia, 2ª ed., 1994, 128 p.

MCDOWELL, Josh. As Evidências da Ressurreição de Cristo. São Paulo: Editora Candeia, 3ª ed., 1994, 235 p.

MILNE, Bruce. Estudando as Doutrinas da Bíblia. São Paulo: ABU Editora, 3ª ed., 1993, 293 p.

PINK, A. W. Os Atributos de Deus. São Paulo: PES, 1990, 96 p.

SEVERA, Zacarias de Aguiar. Manual de Teologia Sistemática.Curitiba: A. D. Santos Editora, 1999, 490 p.

TEIXEIRA, Alfredo Borges.  Dogmática Evangélica. 334 p.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...