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sábado, 27 de agosto de 2011

JESUS NA BOCA DO INFERNO (By Olavo Saldanha)


O moralismo é um fardo para a vida. Ele outorga a homens o poder inerente a Deus de legislar as relações transcendentais, punindo os que, exteriormente, não se submetem ao seu regime doutrinário infame.

Para mostrar a beleza de Deus na sua criação, independente da sua postura religiosa, é que montei esta série de artigos sobre a presença de Deus no homem que está fora do conceito de igreja criado pelos religiosos.

Da Igreja instituída sabe o religioso, ele domina seu conceito de fé, é visível e corrompida. Da Igreja de Deus, invisível, sabe Deus, e faculta a liberdade de ser do homem, este ser fraco e dependente, porém, nunca policiado, nunca subjugado, ferido ou incompreendido.

Deus manifesta-se em todos os seres, sem privilégios. Por isso quando um religioso diz que um ser não é digno de estar no meio da sua “igreja”, sem saber, ele pega o rejeitado e o entrega a Deus, e Deus ao rejeitado ama, e o religioso fica à mercê da sua loucura e do seu mundinho paralelo, fútil e bestializado.

Gregório de Matos Guerra é um desses homens, livre pensador, porém preso à Cristo. Foi considerado por Glauber Rocha "gênio da raça". Seus versos virulentos e ferinos nunca economizaram o lombo dos poderosos e do clero, mesmo vivendo em plena era da inquisição. Foi um poeta maldito e execrado pelos moralistas.

Apesar de nascido em 1636 e morrido em 1695, no Recife, ele continua atualíssimo. Apontava com tanta propriedade as corrupções do clero e da política, que, lendo hoje seus escritos, podíamos jurar, não fosse a forma seiscentista da escrita, que estávamos diante de um escritor contemporâneo.

Gregorio de Matos era de uma família rica e teve cinco irmãos, os mais conhecidos foram o Padre Eusebio de Matos, famoso orador sacro e o nosso poeta.

Escreveu sobre os religiosos porque conheceu o universo sacerdotal quando se tornou padre. Aquele mundo não era para ele, jogou a batina às baratas, e, aconselhado por um amigo a viver de acordo com a Igreja, respondeu: "que não podia votar a Deus o que era impossível cumprir, dado ao seu temperamento e fragilidade de sua natureza.”

Foi um milagre a Inquisição nunca tê-lo pego, pois, seus alvos favoritos eram as freiras, os padres e o Papa. Em 1685, o poder eclesiástico da Bahia denuncia os seus costumes livres ao tribunal da Inquisição, acusando-o, por exemplo, de difamar Jesus Cristo e de não mostrar reverência, tirando o barrete da cabeça ao passar por uma procissão. Chegou a ser proibido de fazer versos.

Desta capacidade de denunciar os abusos ganhou o apelido de “Boca do Inferno”. Todavia, da “Boca do Inferno” não só saíu denuncias, mas também versos sublimes e cheios de ternura, e o alvo de muitos deles foi Jesus.

A poesia de Gregório de Matos sobre Jesus está entre as mais perfeitas, que descrevem com mais clareza e honestidade a relação do homem e Deus. Jesus, portanto, se posta com soberania na “Boca do Inferno”. Vejamos alguns versos:

A vós correndo vou, braços sagrados
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que para receber-me, estais abertos
E, por não castigar-me, estais fechados.


A vós, divinos olhos, eclipsados
de tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos
E, por não condenar-me, estais fechados.


A vós, pregados pés, por não deixar-me
A vós, sangue vertido, para ungirr-me
A vós, cabeça baixa, para chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me
A vós, cravos preciosos, quero atar-me
Para ficar unido, atado e firme.


Na maior parte de seus poemas religiosos, o poeta se ajoelha diante de Deus, com um forte sentimento de culpa por haver pecado, e promete redimir-se. Trata-se de uma imagem constante em Gregório.


Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.


Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.


Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,


Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.
...
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso , constante , firme , e inteiro.


Nesse lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.


Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.


Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar.
...

Ofendi-vos, meu Deus, bem é verdade,
É verdade, meu Deus, que hei deliqüido,
Deliqüido vos tenho, e ofendido, ofendido vos tem
             minha maldade.


Maldade, que encaminha à vaidade,
Vaidade, que todo me há vencido;
Vencido quero ver-me, e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.


Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, daí-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz


Luz, que claro, me mostra a salvação,
A salvação pretendo em tais abraços,
Misericórdia, Amor, Jesus, Jesus

***

O todo sem parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo todo


Em todo sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.


O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.


Não se sabendo parte deste todo, Um braço que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo


http://caminhodagraca-natal.blogspot.com


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