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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

COMO CONVIVER COM O FUNDAMENTALISMO?





Esta é uma pergunta pedagógica e ao mesmo tempo política. Como dizem os filósofos, não se há de sorrir nem de chorar. Mas de procurar entender. Todos os fundamentalismos, não obstante seus vários matizes, possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego em face da lógica do arco-íris (sic!), onde a pluralidade das cores convive com a únidade do mesmo arco-íris. No fundamentalismo, cada verdade se encontra indissoluvelmente concatenada a outra. Questionada uma, desaba todo o edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista militante, a morte é doce, pois transporta o mártir diretamente para o seio materno de "Deus", enquanto a vida é vivida como cumprimento de uma missão divina: converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.

Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e ao uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalistas.

Por detrás do fundamentalismo político vigora uma experiência dolorosa de humilhação e de prolongado sofrimento. Procura-se infligir a mesma coisa ao outro, o que é manifestamente contraditório à regra de ouro testemunhada por todas as religiões da humanidade: "Não faças ao outro o que não queres que te façam a ti."

Trazer o fundamentalista à realidade concreta, cheia de contradições, claro-escuros e nuances, pode introduzir nele a dúvida e a insegurança. Estas possuem uma função altamente terapêutica. Têm a capacidade de abrir uma brecha para a luz no muro das convicções cerradas e excludentes. Dialogar com eles até a exaustão, negociar até o limite da razoabilidade, talvez leve o fundamentalista a reconhecer o outro, seu direito de existir e a contribuição que poderá dar para uma convergência mínima na diversidade. No diálogo deve-se enfatizar mais os pontos comuns do que os pontos divergentes. Todos, finalmente, devem servir à humanidade e alimentar a chama sagrada que arde dentro de cada um e que perpassa a história.

Estamos em uma encruzilhada da história humana. Ou se criarão relações multipolares de poder, equitativas e inclusivas, com pesados investimentos na qualidade total da vida para que todos possam comer, morar com mínima dignidade e apropriar-se de cultura com a qual possam se comunicar com seus semelhantes, preservando a integridade e beleza da natureza, ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas para isso existem se sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que acúmulo de bens materiais. Então os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos e filhas da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.

Leonardo BOFF. "FUNDAMENTALISMO - A globalização e o futuro da humanidade". Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2002 ISBN 85-7542-007-0 pp. 47-49

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