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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Baixem as armas, sacerdotes. Baixem o tom, profetas. Ateus e agnósticos, optem pela brandura. Dialoguemos.

Gorjeios e grunhidos
Ricardo Gondim

Acabei de ver “A pele que habito” de Pedro Almodóvar com o estômago revirado. Identifiquei-me com o vilão da história. Eu me via como a encarnação da personagem fictícia. Quantas vezes tentei fazer os outros ficarem parecidos com um modelo de minha mente. Nesse anseio, alucinei. Eu já cheguei a considerar-me  capaz de mudar quem eu quisesse – mal sabia que eu só queria fabricar objetos de prazer e de ódio.
Transformei minhas alucinações em certezas. Fiz da vocação um instrumento de domínio. Pior, tentei tornar-me capataz de um Deus que moldaria o mundo ao meu padrão.
Recordo uma fábula de Rubem Alves. “Certa feita, os urubus tomaram o poder na floresta e impuseram seu estilo de vida a todos os animais. Sua culinária, sua moda, sua estética e mesmo suas preferências musicais tornaram-se o padrão de referência para todos. Os pintassilgos, muito cordatos, esforçavam-se sobremaneira para corresponder às exigências dos urubus. Entretanto, os pobres pintassilgos não conseguiam se acostumar ao cardápio de carniça que deveria substituir sua dieta de frutas, tampouco conseguiam andar como os urubus, reproduzir-lhes os requebros e os grunhidos que os urubus chamavam de música. Observando os desajeitados pintassilgos, os urubus concluíram sumariamente: ´Não adianta. Um pintassilgo sempre será um urubu de segunda categoria’”.
A beleza de qualquer floresta depende da diversidade. Os urubus são necessários, mas o mundo constrangido aos seus modos ficaria soturno, feio, grotesco. A beleza da vida está no respeito à identidade do outro. A grandeza de qualquer pessoa ou grupo reside em sua capacidade de coexistir com o diferente, sem a tentação de esmagar os que não dançam o dois-pralá-dois-pracá de desde sempre.
Nas relações assimétricas, ou os fortes abrem mão do poder ou eles esmagam os fracos. O bom convívio passa pela Lei Áurea de todos os credos: “Trate o próximo como você gostaria de ser tratado”. Força bruta não muda nada – sequer muda alguém. Estupidez entrincheira opostos, acirra preconceitos, exarceba ódios.
Tertuliano, um dos primeiros pensadores cristãos, dizia: “Deus, quando dá o poder… assim com o mesmo poder delega nele a imitação de sua paciência”. Ou seja, quem se enxerga comissionado por Deus a representá-lo, deve, obrigatoriamente, sentir-se impulsionado a manifestar a paciência divina e não a brutalidade. Será que Tertuliano ruminava a frase de Paulo: “Não sabes que é a bondade de Deus que leva o homem ao arrependimento”? (Romanos 2.4).
Uma teocracia evangélica se degradaria, rapidamente, em um reino de urubus. O sonho de consolidar o cristianismo como um Sacro Império deve manter-se sepultado nos escombros dos tempos medievais.
Baixem as armas, sacerdotes. Baixem o tom, profetas. Ateus e agnósticos, optem pela brandura. Dialoguemos. A humanidade cansou-se de guerras. Prefiramos ouvir a multicolorida sinfonia de Bach à cadência monótona dos hinos marciais. Temos tanta injustiça para enfrentar, tantos miseráveis para socorrer, tantos indefesos para cuidar. Não criemos mais uma guerra porque achamos nosso gorjeio, o mais afinado.

Soli Deo Gloria


Licença Creative Commons
GORJEIOS E GRUNHIDOS de Ricardo Gondim é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Based on a work at www.ricardogondim.com.br.

3 comentários:

Afonso Figueiredo disse...
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Afonso Figueiredo disse...

A verdade é que ninguém "sabe" se Deus existe e que muita gente, tanto entre os crentes como entre os ateus, está disposta a reconhecer esta ignorância insuperável, que é sina da humanidade e que constitui o charme sutil, às vezes inebriante da metafísica.
Algumas pessoas, dentre os crentes, me objetarão que não são ignorantes. Deus lhes deu, de uma vez por todas, a verdade. Para que necessitam de provas, de argumentos, de razões? A Revelação lhes basta. E lançam-se de corpo e alma ao Livro, que aprendem de cor ou comentam interminavelmente... O que responder a eles, senão que uma revelação só vale para quem nela crê e, portanto, não poderia fundar a fé que a valida sem cair num círculo vicioso. E, além do mais, que revelação? A Bíblia? Com ou sem o Novo Testamento? O Corão? Os Vedas? O Avesta? Por que não as sensaborias dos raelianos? São incontáveis as religiões. Como escolher, como conciliá-las? Seus discípulos se opõem há séculos, inclusive quando reivindicam a mesma revelação (os católicos contra os ortodoxos, depois contra os cátaros ou os protestantes, os xiitas contra os sunitas...)
Quantos mortos em nome do mesmo Livro! Quantos massacres em nome de um mesmo Deus. É prova suficiente da ignorância em que todos se encontram. Ninguém se mata por causa da Matemática, nem de nenhuma ciência, nem mesmo por causa de uma verdade de fato, quando ela é bem estabelecida. As pessoas só se matam pelo que ignoram ou pelo que são incapazes de provar. As guerras de religião constituem, por isso, um formidável argumento contra todo dogmatismo religioso. Elas mostram não apenas os perigos que este acarreta, com tanto ódio e tantas atrocidades, mas também sua fraqueza: se uma dessas religiões tivesse alguma prova a apresentar, não necessitaria de exterminar os outros. "É dar às suas conjecturas um valor exagerado, assar um homem vivo por causa delas", dizia Montaigne. Mas ninguém acenderia fogueiras por uma verdade que pudesse demonstrar.
Com o que toda Inquisição, toda Cruzada, toda guerra santa dão razão, não obstante o que pensem seus partidários, à própria dúvida que eles combatem. Isso confirma, pelo horror, que, em se tratando de Deus, ninguém dispõe de um saber verdadeiro. É o que nos destina às guerras de religião ou à tolerância, conforme prevaleça a paixão ou a lucidez.

Renato Suhett,Anglicano Reformado! disse...

Gostei muito desta matéria,pois remete ao princípio do princípio de tudo: humildade,...sentimento tão estranho e ,concomitante,traiçoeiro,que,as vezes,nos faz até sentir o inefável"orgulho de tão humilde ser"...rsrsRicardo,irmão,Deus abençoe,Anja querida,valeu por postar,sempre ,matérias que fazem pensar...Aliás..."me orgulho muito de ser amigo seu"...rsrsrABRAÇO E A TODOS, SEJA DEUS COM VOSSO ESPÍRITO!!

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