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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

“Anula en mí mi masculinidade” (del Irmão Antoninus)



“Anula en mí mi masculinidade” 

Anula mi masculinidad, Señor, 

Y tórname mujer y frágil, 

Si por esta total transformación 

Puedo saber mejor de Ti. 

¿De qué vale el mi propio sexo 

Si un audaz instinto posesivo 

Sólo haría alejarTe de mí? 

Cuánta inutilidad habita mis ancas, 

Para instigar, instigar el feroz instinto de la vida, 

Cuando lo necesario es una inmovilidad silenciosa. 

“L’alma es femenina para Dios.” 

(del Irmão Antoninus)



“Anula em mim minha masculinidade” 

Anula minha masculinidade, 

Senhor E torna-me mulher e frágil, 

Se por esta total transformação 

Eu puder conhecer melhor a Ti. 

De que vale o meu próprio sexo 

Se o audaz instinto possessivo 

Só faria afastar-Te de mim? 

Quanta inutilidade habita meus quadris, 

Para instigar, instigar o feroz orgulho da vida, 

Quando necessário é uma imobilidade silenciosa. 

“A alma é feminina para Deus.”

domingo, 2 de dezembro de 2012

LILITH, O MITO( By Anja Arcanja)




 By Anja Arcanja

O Canto de Lilith (Romulo Narducci)


Sou do desejo a inspiração divina,
Dos homens o paraíso e o inferno.
Não há castelos, presídios ou mosteiros
Que eu não entre furtiva
E semeie o desejo pleno.

Penetro mentes em doces devaneios,
Invado corpos em frenesis supremos.
O oriente conclamou-me religião,
O ocidente devotou-me maldições.

Inspirei Sade em seu clastro,
Tentei Cristo e Sidarta.
Não há quem não resista ao meu abraço,
Não há quem não sinta o fio da adaga,
E aos conjurosos movimentos de meus quadris
Não se entregue ao meu beijo perdido.

Beije-me e terás a morte dos sentidos!


Lilith... um mito que precede o folclore judaico, pois é de origem Suméria, sendo a resplandecente "Rainha do Céu", seu nome, “Lil” sinônimo de “ar” ou ‘tormenta”. Segundo Engelhard, a figura feminina de Lilith está presente nas mitologias sumerianas, babilônicas, assíria, Cananéia, hebraica, árabe, persa e teutônica, mas, é rejeitada pela cultura e religião judaica sobremodo,  tradicional, machista e patriarcal (redundância intencional). Mas o mito ganhou força mesmo nas lendas folclóricas assírio, babilônica e  hebraica, habitando sempre os desertos e, na cultura hebraica, após abandonar a Adão fugiu para o deserto,  onde teve turbulentas aventuras eróticas com anjos caídos e se firmou como demônio. Lilith profanou o nome de Deus e, habitava nos desertos no em torno ao mar vermelho, onde também habitam os demônios e espíritos malignos, segundo a tradição hebraica, é um lugar maldito! Com sua sede de vingança, ceifava a vidas dos viajantes que passavam, mantendo com eles relações sexuais e após o coito, decepava-lhes o pênis apenas com a força da vagina. Reza a lenda que Lilith era capaz de gerar 100 filhos por dia! Incubus, quando masculinos e sucubus quando femininos. Eram demônios com poderes vampíricos e daí surgiram as lendas dos vampiros.  Nas lendas judaicas onde impera o machismo e o regime patriarcal, Lilith é sempre vista de forma negativa, enquanto Eva, é apresentada como dona de uma singular beleza e de qualidades impares e sempre, SUBMISSA.

São inúmeros e divergentes os relatos orais e escritos sobre o mito Lilith. Samael Aun Weor, fundador do Movimento Gnóstico Cristão Universal diz que Adão teria tido duas esposas originalmente: Lilit e Nahemah. Para Samael Aun Weor, “Lilith é a mãe dos abortos, da homossexualidade e, em geral, de toda classe de crimes contra a natureza. Nahemah é a mãe da beleza maligna, da paixão e do adultério”.  Por isso, ambas refletiriam o que os esotéricos gnósticos chamam de infrassexualidade, que é tratada pelos gnósticos, como toda a relação “contrária” a natureza humana, como por exemplo, PARAFILIAS, COMPULSÕES, FIXAÇÕES, PERVERSÕES, FETICHES, FANTASIAS e demais “desvios” em relação ao que se considera sexualidade "normal". É um demônio!

É impossível não fazer uma análise do mito de Lilith em relação ao surgimento da inquisição na Idade Média; pois estão intimamente ligados. No tribunal do Santo Ofício os inquisidores consideravam como bruxa toda mulher que demonstrasse algum tipo de rebeldia contra a ordem patriarcal. A rebeldia era o primeiro sinal de bruxaria. Se a mulher fosse ruiva ou albina, o inquisidor não tinha mais dúvida que estava realmente diante de uma bruxa. O julgamento era precedido de torturas e, durante o julgamento a mulher era torturada in extremis até confessar suas relações com o demônio. Quando esta confissão ocorria os inquisidores aumentavam as torturas até que a mulher confessasse que mantivera relações sexuais com o demônio. Estas supostas relações sexuais eram descritas com riquezas de detalhes eróticos o que transformava o tribunal do Santo Oficio numa orgia sadomasoquista. A punição de Lilith, por outro lado, reside no seu banimento da comunidade dos homens: no isolamento social e na solidão. Ela deve sofrer as consequências dos seus atos sozinha no deserto. Deve ainda atormentar com sua sensualidade e seu erotismo o sonho casto do santo, daquele que busca ter um coração puro. Nisto consiste a sua maldição. Ela agora não é apenas excluída, é temida. E pela força da sua sensualidade é também desejada. A relação de Lilith com o sexo oposto é marcada pela ambivalência: amor e ódio, atração e repulsão, medo e desejo, prazer e destruição.

Como disse Engelhard:

"Toda a experiência de angústia, que combina opressão, terror, pânico, ânsia, susto, respiração ofegante, frenesi, é a terrível presença de Lilith, que também provoca, com sua força sexual psíquica, orgasmos desenfreados, desejos promíscuos. Porém, logo em seguida, sobrevém grande melancolia, profundo mal estar, sensação de peso e profunda depressão, sentimento de insegurança e desconfiança, com choros súbitos e dores de cabeça, além de moleza nos membros inferiores."

Muitos veem no mito Lilith apenas a luxúria e desenfreado desejo sexual e de onde vem também o desejo pela homossexualidade e é a causa da repulsa pelos cristãos, que, sem ter conhecimento do que representa o mito, o demonizam e até hoje dão aos que, seja por força de um distúrbio ou que seja sua natureza, tem um apetite sexual exacerbado em comparação a maioria comum, estar sendo dominado pelo demônio Lilith, demônio que invade os sonhos masculinos causando-lhes polução noturna ou desejo de masturbação e nas mulheres, desenfreado desejo sexual ou bissexual (este também presente nos homens).

Mas não é apenas assim que Lilith deve ser vista, antes, ela representa o desejo de se compreender a diferença entre os mitos da criação de Gênesis, já que em sua primeira história Genesis 1: 26 - 28, homem e mulher são criados iguais e conjuntamente, enquanto na segunda história, em Gênesis 2: 20 - 25, a mulher é criada depois do homem e a partir de seu corpo. Talvez daí, Lilith, tendo sido feita da mesma matéria prima de Adão, sentindo-se (e sendo) igual a ele, não admitia apenas ser dominada na hora da cópula, mas queria dividir com Adão a tarefa não apenas de nomear a criação, mas quiçá também quisesse zelar do jardim, dividindo igualmente com o homem todas as tarefas; tanto as dele, como as dela e é esta lógica que hoje muitas mulheres veem em Lilith. A luta não por independência, mas por igualdade.

Priscila Pereira, ativista feminista, teóloga e mestrando em ciência da religião, assim descreve Lilith: 

“Lilith, que segundo o mito rabínico, foi a primeira esposa de Adão; a mulher que não foi criada da costela, mas da mesma estrutura e junto ao homem; aquela que tinha liberdade com o próprio corpo, com sua sexualidade, e por causa disso, foi expulsa e demonizada, para que servisse de exemplo às suas descendentes, e ficasse subentendido que a mulher vem do homem, deve se submeter e dar prazer, e não receber. A primeira feminista, que brigou contra os dogmas, conhecia o próprio corpo e teve coragem de sair de sua zona de conforto em busca de sua liberdade e igualdade.”

E é assim que eu, Rozana, também a vejo: o mito que anseia igualdade, a mulher que não se submete, mas também seria um demônio que atrai e afugenta os homens? É temida e desejada? Mas, a força masculina imposta por uma sociedade que provém de uma cultura historicamente patriarcal, sufocou o grito do mito Lilith e não apenas o sufocou, mas, o demonizou e deu-lhe o status de mãe de toda impureza e (homo) sexualidade tida pela sociedade (patriarcal) como sendo algo antinatural, impróprio, indesejado e que, portanto, devesse ser banida de nosso convívio, usando todo e qualquer meio necessário para banir do convívio da sociedade, este mal demoníaco que veio para assombrar não somente homens, mas também mulheres com seu desejo, volúpia e compulsão pelo prazer (seja ele sexual ou não).

Sou indomável, sou sexual, sou temida e não temo a ninguém; eu vou à busca do que quero e, conquisto. Eu sou Lilith! (Anja Arcanja).

"Desde o início da criação, foi somente um sonho" (Rabi Simon ben Laqish)





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LILITH, O MITO de Rozana Anja Arcanja é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivados 3.0 Brasil.
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Ler, e Escrever Hoje




By Matheus De Cesaro

“Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”

Arthur Schopenhauer – A Arte de Escrever





Lembro-me que quando tinha eu, uns 8 ou 9 anos, em um dia de natal, ter pego em mãos um caderno e um lápis, ter olhado para o meu falecido pai e ter dito, “vou escrever um livro”. Parece algo insignificante, se nos basearmos na idéia de que nunca tenha escrito um livro. Mas ali, naquele mesmo instante, se acendeu em mim, o gosto pela leitura e pela escrita, hábito que carrego comigo desde a infância até os dias de hoje. Mas, se tem uma obra, um artigo, algo que tenha me influenciado muito nesta belíssima relação com as letras, é a “Arte de Escrever” de Arthur Schopenhauer, onde ele expõe de forma crítica e muito contundente suas opiniões e pensamentos sobre o ato da escrita. Chamando a atenção para questões que na época, e também hoje são muito atuais e pertinentes. Ele sem papas na língua, o que lhe era comum, se opõe a literatura de consumo, e busca estabelecer uma distinção entre aqueles que em suas idéias seriam bons autores, e os que na verdade buscavam apenas cifras e o status que na época recebiam os escritores. Desta forma, ele não escapa de recriminar grande parte dos jornalistas do seu tempo, condena o hábito do abandono dos clássicos para se deter ao novo, as novas literaturas que surgiam aos montes, e acaba por concluir por meio de algumas considerações que nascia naquele período, o que ele denominou de “degradação da língua por meio de uma literatura decadente”.
Trazendo esta idéia para nossa realidade, e contextualizando com o nosso cotidiano, eu percebi uma semelhança muito grande em relação à forma como tratamos e conduzimos o que lemos e escrevemos.


Em meio à facilidade no acesso de informações que hoje possuímos, percebe-se na era atual uma desenfreada guerra pelo “pseudo saber”, pois de fato se busca conhecimento em excesso, sem a compreensão necessária do adquirido, no objetivo nefasto e decadente, de construir uma pseudo sabedoria, e então, por meio da aparência desenvolver uma suposta intelectualidade, que ao primeiro olhar nos permite ficar admirados, abismados, e até cheios de orgulho por estar diante de uma “mente brilhante”,  mas que, com o passar do tempo nos revela sua fraqueza e superficialidade. Desta forma surge uma gigante onda de literaturas enfadonhas, que apenas repetem informações que já são ecoadas de diversas formas, pelos mais variados autores. Mais do mesmo, com uma nova roupagem, para que então se esteja adequado para a venda. Não se tem foco na “instrução”, não se estimula o pensar, não se valoriza a mente humana, apenas vãs repetições. Como afirmou Schopenhauer,


“Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma, no entanto é essa maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.”


Partindo destas premissas extraídas da obra de Schopenhauer, fico a pensar e repensar a grande diferença entre estar informado e instruído para determinadas situações na vida. E não vejo nenhuma forma de não lembrar ou mencionar as academias, que a cada ano que passa forma milhares de pessoas nos mais variados ramos e segmentos, providos de muita informação, porém desprovidos de instrução. É claro que de forma alguma posso considerar as academias de ensino irrelevantes ou desnecessárias, isso faria de mim, um completo tolo, elas tem sim um papel importante na nossa formação, mas estar instruído depende muito mais de nós mesmos do que das academias. Certa feita li uma frase de Carlos Drummond de Andrade em um texto publicado em um artigo de uma revista, que me chamou muito a atenção, ela dizia:


"As academias coroam com igual zelo o talento e a ausência dele."


Desta forma, é fácil compreender o que estou a dizer em relação as academias de ensino.  São necessárias e essenciais, porém não são a garantia de que estejamos instruídos para compreender todas as informações que recebemos nos 4, 5 ou mais anos que estivemos nelas, isso depende única e exclusivamente de nós, do nosso talento, da nossa percepção.


Sempre me dediquei a leitura, e incentivei aos amigos e conhecidos que desenvolvessem este hábito. Mas hoje, faço diferente. Esforço-me para fazer com que todos compreendam que necessário é pensar sobre o que se lê, analisar o que se lê, exercitar a mente por meio das informações para que então, nossa mente esteja instruída. Muitas vezes não é o muito ler, e sim o pouco de forma pensada e analisada que fará a diferença, que nos levará a “instrução”. Como disse Nietzsche em Ecce Homo, Aforismo 8 de “Porque sou tão Inteligente?”.


“O erudito que no fundo “folheia” apena ainda livros, acaba por perder inteiramente a capacidade de pensar por si. Se não folheia, também não pensa. Responde a um estímulo (um pensamento lido), quando pensa em última análise, ainda simplesmente reage. O erudito despende toda a sua força em dizer sim e não, na critica do que já foi pensado, pessoalmente já não pensa... O erudito “um décadent”...  Eis o que vi com os meus olhos: Naturezas dotadas de ricas e livres tendências, já aos trinta anos se tinham tornado uma desgraça pela leitura, simples fósforos que, para produzirem faíscas (idéias) carecem de fricção.”


Entendo que, o melhor caminho hoje para à instrução, é a percepção de tudo que vamos acumulando em relação à informação. Um entendimento mais amplo do que existencialmente permeia e norteia nossas vidas. É como adquirir à capacidade de ler o dia-a-dia, a vida, as pessoas, a natureza, é como perceber que para aprender e estar instruído é necessário um pouco mais do que livros. Lin Yutang, um grande escritor chinês do inicio do século XX, em sua obra “A Importância de Viver”, se refere a essa questão usando a expressão “O Paradoxo da Leitura”. Ele diz,


“O sábio lê livros, mas lê também a vida. O universo é um grande livro e a vida é uma grande escola. Quanto mais leio mais ignorante fico. A escolha que hoje se depara a qualquer homem educado é entre a inocência que não lê e a ignorância que lê muito. É possível sustentar alguma aparência de exatidão que a imprensa de hoje mata a leitura e a leitura mata o pensamento”


Agora, fico a imaginar...


Se Schopenhauer já no século XIX, e Lin no século XX sem a facilidade que hoje temos no acesso as informações e com todas as dificuldades que se tinham para ter em mãos obras significativas do período já detectavam essa onda de decadência na arte da escrita e da leitura de forma tão concreta, o que diriam hoje em relação aos pensadores e escritores do nosso tempo, que tendo a disposição o Google, Wikpédia, e tantas outras formas de rapidamente acumular informações não conseguem deixar de serem apenas medíocres escritores a repetir o passado?


Posso estar parecendo um tanto quanto crítico... E se realmente essa for à aparência, tenho por certo que alcancei meu objetivo. Precisamos orientar a nossa geração, e as novas gerações a estimularem o pensamento, a buscarem extrair, ruminar, fazer sair água da pedra. Precisamos fazer renascer a “Arte de Escrever”. E para isso, talvez seja necessário aprender a ler, de forma ordenada, pois o contrário disso não alimenta, apenas entorpece-nos, nos tornando incapazes de refletir, e, por conseguinte, de produzir. Não que esteja sendo radical, mas a leitura quando desordenada nos escraviza às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das idéias que nos limitamos a contemplar na simples condição de espectadores, uma espécie de embriaguez que imobiliza e desafina nossa inteligência. Talvez A. D. Sertilinges em “A Vida Intelectual” tenha sintetizado isso de forma muito clara quando afirma,


“Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o
trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas."


Desta forma compreendo que o que de fato importa, não é a quantidade, o número de informações que se acumule, mas primeiramente a qualidade e a forma como se digeri tudo isso. Pois não é o material que nos falta ao pensamento, e sim os pensamentos, em relação a quantidade de materiais que absorvemos todos os dias. O máximo que podemos ter mantendo um hábito de leitura desordenada, seria uma forte e desagradável indigestão de informações e conhecimentos.


Foi desta forma, ruminado durante tempos, analisando e tendo cuidado de não manipular os escritos que pude compreender a mensagem de Schopenhauer, que radicalmente disse,


“Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe outras obras como elas são”


Mas em suma, para finalizar este artigo, quero enfatizar, deixar claro ao leitor que, o que o  objetivo em montar essa crítica, é reavivar em todos o desejo pela leitura, o pensar e a escrita, incendiar o espírito poeta que muitas vezes adormece entre a confusão de nossos sentimentos e o excesso de informações. Pois não há quem nos faça a vida ser mais leve, quem nos leve a perceber a realidade dos sentimentos mais comuns da vida, do que  um poeta entregue ao seu ofício, o de inspirar e fazer inspirar, o de pensar e fazer pensar, não devemos ser escravos da letra, e sim fazer com que elas associadas ao nossos pensamentos produzam vida ao serem lidas.

"Os poetas têm de ser pessoas médias, 
nem deuses, nem vendedores de livros."

Horácio

http://filoboteco.blogspot.com.br/2012/11/ler-e-escrever-hoje.html

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Dia da Consciência Humana – Uma contrapartida ao Dia da Consciência Negra



By Matheus De Cesaro





Iniciarei com a pergunta que muitos talvez temam fazer:

“Porque o dia da consciência negra?”

Seria a consciência da luta por direitos iguais em relação a quaisquer outras raças, ou simplesmente um isolamento, uma criação de um grupo privilegiado, lutando somente pelos seus próprios interesses? Uma forma de conquistar sem esforços o que para todos é uma luta constante?

Não sei quanto a vocês leitores, mas eu percebo que os negros, na sua grande maioria estão defendendo uma posição separatista em todos os aspectos, sejam eles sociais ou profissionais.  Unem-se na formação de guetos, e lutam com todas as forças por privilégios e tratamentos diferenciados, parecendo desta forma exigirem uma recompensa, uma retratação de todos os anos que foram humilhados, pisados, tratados como animais no período da escravidão.  Tenho consciência de que os negros foram sim massacrados, explorados, marginalizados e sofreram as maiores barbáries que se possa imaginar. Por isso é inadmissível que uma pessoa em seu perfeito juízo não repudie toda e qualquer prática e forma de escravidão.  Mas toda essa história de sofrimento não pode resultar em uma classe de pessoas favorecidas porque lá no passado seus antepassados foram explorados, escravizados e sofreram por elas.

Se assim fosse, deveríamos ter no Brasil, o dia da consciência indígena, o dia da consciência judaica, e de tantos outros imigrantes que chegaram ao Brasil escurraçados de seus países, completamente desculturizados, e não por escolha, mas sim porque a vida lhes submeteu a tal processo derivado  de mentes doentias e tiranas. Deveriam todos estes exigirem cotas em universidades, em concursos públicos, porque também possuem um histórico de sofrimento dos seus antepassados? Deveriam estes também estar exigindo seus direitos a reparos devido as circunstâncias históricas de seus povos?

Hoje em dia é muito comum surgirem grupos em defesa de idéias que visualizam preconceito em tudo, idéias que limitam o ser humano e que são tendenciosas a criação de uma possível “síndrome de inferioridade” que fica camuflada nesta suposta luta por “direitos iguais”. É justo  e aceitável que aqui no Brasil, seja honrado e lembrado do “Zumbi dos Palmares”, pois trata-se de um personagem histórico e de relevância grandiosa na história da conquista de liberdade pelos escravos negros do século XVII,  e também figura de destaque na construção história deste país, talvez até mais importante que muitos que levam maior honra.

Mas com ênfase, sou contrário a qualquer idéia que se adicione um pensamento de “seleção racial”, como “Dia do Orgulho Negro” ou “Dia da Consciência Negra”. Pois penso, que ninguém deve ter orgulho de ser negro, branco, pardo, amarelo, brasileiro, ou seja lá o que for. Temos é que ter orgulho, de sermos valentes e capazes, de por nós mesmos conquistar nosso espaço em meio a uma sociedade materialista, desumana e seletiva. Já vivemos, independente de diferença racial, em um mundo  extremamente competitivo e seletivo.  Porque então criar idéias que elevem “a” ou “b”, os beneficiando em relação as demais raças? Direitos iguais não seria exatamente condições iguais a todos?

É necessário compreender que não é só o negro que sofre injustiça, que sofre com desigualdade social neste país.  A mesma escola que o branco frequenta é acessível ao negro, ao amarelo, ao índio, os mesmo hospitais, as mesmas faculdades, os mesmos bares, os mesmos clubes recreativos, as mesmas leis. É essencial perceber que os grandes problemas que hoje enfrentamos estão distantes de serem problemas raciais, e sim, são problemas sociais e políticos, dos quais todos estão obrigados a se submeter e enfrentar.

Por isso, mesmo temendo a represália, mesmo sabendo que não serei compreendido por muitos eu quero aqui deixar o meu grito de protesto, pela igualdade das raças, pela justiça social, pelo fim da exploração de qualquer ser humano, pelo negro, pelo branco, pelo amarelo, pelo índio, pelo homem, pela mulher, pelo brasileiro, pelo estrangeiro, enfim pelo ser humano!

“Chega de orgulho disso ou daquilo, chega de consciência deste ou daquele, a minha luta, a minha guerra, o meu sonho, o meu ideal, o mais coerente é o dia da CONSCIÊNCIA HUMANA”

Postagem original: http://filoboteco.blogspot.com.br/2012/11/dia-da-consciencia-humana-uma.html



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A descoberta das origens do HIV





By João Marinho


Em homenagem ao Dia Mundial de Luta contra a Aids, 1º de dezembro


Kinshasa, Congo Belga, 1908. Como é tradição no país, um homem vai a um mercado local e compra uma deliciosa mistura para o almoço, muito apreciada na região: carne de macaco.


Depois do banquete, o homem manda seus filhos brincarem na vizinhança e tem uma “tarde quente de sexo” com sua esposa. À noite, com a desculpa de que vai sair com amigos, ele encontra seu amante na aldeia próxima.


O homem não sabe, mas o hábito de comer carne de macaco instalou um novo vírus em seu organismo, que será desconhecido pela ciência nos próximos 70 anos e que iria matá-lo, sua esposa e seu amante: o HIV.


A cena anterior é fictícia, mas podia ser verdade. O HIV, nós sabemos o que é. Ele se tornou conhecido em 1981, quando os Estados Unidos enfrentaram o surto de um tipo raro de câncer – o sarcoma de Kaposi – e de uma misteriosa condição de saúde, caracterizada pela progressiva destruição dos glóbulos brancos do sangue. Pouco tempo depois, ficou claro que os usuários de drogas e os homens gays eram os mais atingidos pela nova doença. Eles eram tão afetados que a nova doença recebeu o nome de GRID (em inglês, deficiência imunológica relacionada aos gays).


Entre 1983 e 1984, dois grupos de cientistas, um liderado pelo Dr. Luc Montagnier, na França, e outro chefiado pelo Dr. Robert Gallo, nos Estados Unidos, isolaram e identificaram o agente viral que causava a doença.


Por um tempo, acreditou-se que o Dr. Gallo era o único ou primeiro descobridor do HIV. A polêmica começou no início dos anos 80, quando, depois de ter isolado o vírus e desenvolvido um teste para detectá-lo nos pacientes, o governo dos Estados Unidos convidou-o a anunciar a descoberta sem o grupo francês, que já tinha escrito um artigo sobre o agente .


Hoje, sabemos que a equipe do Dr. Montagnier foi a primeira a publicar um artigo sobre o isolamento do vírus – e que o Dr. Gallo tinha recebido algumas amostras contaminadas com o vírus “francês”, que estava sendo estudado. Atualmente, reconhece-se que tanto Luc Montaigner quanto Robert Gallo são os descobridores – e também o Dr. Jay Levy, que, concomitantemente, tinha isolado o vírus na Universidade da Califórnia, mas permaneceu fora da polêmica.


Não obstante, o anterior HTLV-III, que havia sido nomeado assim pelo Dr. Gallo, tornou-se o HIV (em inglês, vírus da imunodeficiência humana). A doença, por sua vez, foi rebatizada como aids (em inglês, síndrome da imunodeficiência adquirida) e mostrou que não era “relacionada aos gays”, afinal: ela se propaga através de fluidos sexuais, sangue e leite materno.


Se você leu este artigo até agora, a história do quarto ao oitavo parágrafos é certamente bem conhecida por você – mas o que dizer de Kinshasa, 1908, carne de macaco e HIV? Por que começamos por aí? Na verdade, há uma grande lacuna na história do HIV para a maioria das pessoas, o que as levou a acreditar que a aids é uma doença muito nova, que nasceu nos anos 80 e surge devido a comportamentos sexuais libertários – e, por isso, um tipo de punição criada por Deus, de acordo com algumas visões religiosas.


Na verdade, entre 2007 e 2008, um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Michael Worobey, da Universidade do Arizona em Tucson, publicou dois artigos que relataram a descoberta da história prévia do HIV – e da aids.


Hoje em dia, a tese mais aceita sobre a origem do HIV é um vírus semelhante que ataca mais de 30 espécies de primatas africanos: o SIV (vírus da imunodeficiência símia). As duas principais cepas do HIV – o HIV-1, que causa a doença pandêmica em todo o mundo; e o HIV-2, que sobrevive principalmente na África – nasceram de uma mutação do SIV que existia em dois grupos de chimpanzés. Isso foi provado por análise genética de ambos os vírus, HIV e SIV. Acredita-se que a migração do SIV para os seres humanos e a mutação que originou o HIV tenham vindo do hábito milenar de comer carne de macaco na África Central.


O primeiro artigo da equipe de pesquisadores da Universidade do Arizona foi publicado em 2007 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Usando análise genética de pessoas infectadas nos primeiros anos, eles traçaram a rota do HIV pelo mundo.


Depois que nasceu na África Central, o HIV se espalhou pelo continente e foi transmitido para os haitianos que estavam na África convidados por governos para trabalhar, devido ao desenvolvimento urbano das cidades africanas. Acredita-se que o vírus tenha viajado para o Haiti em 1966 e entrado nos Estados Unidos em 1969, devido à imigração haitiana. Dos Estados Unidos, a expansão continuou pelo globo.


O segundo artigo foi publicado em 2008 na revista Nature. Nessa pesquisa, o Dr. Worobey e seus colegas analisaram as duas amostras mais antigas de sangue contendo HIV: uma é de 1959 e pertence a um homem que morreu em Kinshasa, ex-Congo Belga e atual República Democrática do Congo; a outra pertence a uma mulher da mesma cidade. A data da amostra: 1960.


O Dr. Worobey e seus pesquisadores descobriram que ambos os vírus se originaram de um mesmo hospedeiro humano, que se acredita ter vivido entre 1884 e 1924. Eles até arriscaram uma data para o nascimento do HIV: 1908. É quando nossa história começa.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Teologia, ciência ou metafísica?




By Júlio Fontana

RESUMO:

Tem-se discutido muito nos dias atuais sobre a cientificidade da teologia. Este artigo pretende definir o estatuto epistemológico da teologia, tomando como critério demarcador aquele proposto pelo filósofo Karl Popper em sua contribuição para o volume The Philosophy of Ru-dolf Carnap, publicado em 1964 na Biblioteca dos Filósofos Vivos (ed. P. A. Schilpp). O empreendimento tem como objetivo também, caso a teologia, segundo o critério demarcador utilizado aqui, não seja considerada digna de ser chamada de ciência, buscar conceder racionalidade à teologia.

PALAVRAS-CHAVES: teologia – epistemologia – Karl Popper.


Tem-se discutido muito sobre a cientificidade [1] da teologia. Há um grupo de bons teólogos que estão levantando a ideia de que a teologia é uma ciência. Outros, porém, acreditam que a teologia jamais poderá ser enquadrada como ciência. Tendo em vista essa discussão, devo considerar o estatuto epistemológico da teologia.

Primeiramente, devemos saber o que é ciência e o que é teologia. Farei isso contrastando ciência e pseudociência, e teologia e ciência da religião. Não irei tentar aqui construir definições precisas nem de ciência e muito menos de teologia. Pretendo apenas formar uma base para iniciar a nossa discussão.

1.1. O que é ciência?

A nova concepção de ciência, como tomarei aqui neste artigo, é dada pelo filósofo Karl Raimund Popper. Neste ponto da nossa exposição é importante conhecermos o critério de demarcação [2] de Popper para distinguir a ciência da pseudociência,[3] e consequentemente, a ciência da metafísica (inclui-se nesta última a teologia). [4]

Na concepção tradicional, aquilo que distingue a ciência da não-ciência é a utilização do método indutivo. [5] Como diz Popper, “a ciência se caracterizava pela sua base na observação e pelo método indutivo, enquanto a pseudociência e a metafísica se caracterizam pelo método especulativo ou, como disse Francis Bacon, pelo fato de funcionar com ‘antecipações mentais’ – algo muito semelhante às hipóteses.” [6]

Popper discorda desta concepção tradicional de ciência. Ele explica que a moderna teoria física – especialmente a teoria de Einstein – é altamente abstrata e especulativa; afasta-se muito do que se poderia denominar sua “base de observação”. O mesmo acontecia com a teoria de Newton. De modo geral, as melhores teorias físicas pareciam sempre com o que Bacon tinha qualificado como “antecipações mentais”, sem lhes dar muita importância. De outro lado, muitas crenças supersticiosas e procedimentos práticos, encontradiços em almanaques populares e livros de “interpretação de sonhos”, tinham muito a ver com a observação, baseando-se muitas vezes em algo parecido com a indução. [7]Adiciona-se a isso o fato de que o filósofo David Hume no século XVIII já mostrara a falácia da indução. Popper, concordando com Hume, apenas corrigindo alguns erros desse filósofo, [8] mostra que a indução não pode ser tomada como critério demarcador entre ciência e não-ciência.

Havia, portanto, a clara necessidade de se chegar a um critério diferente de demarcação. Popper propôs como critério demarcador a refutabilidade do sistema teórico. De acordo com essa concepção um sistema só deve ser considerado científico se faz afirmativas que podem chocar-se com observações; [9] de fato, as teorias são testadas pelas tentativas de provocar esses choques – isto é, pelos esforços para refutá-las. [10] Portanto, testabilidade vem a ser o mesmo que refutabilidade, e pode ser adotada como critério de demarcação. [11]

Diante disso, o nosso filósofo mostra que teorias como a marxista enquanto eram testáveis ou refutáveis eram científicas, entretanto, algumas de suas formulações anteriores (como, por exemplo, na análise de Marx sobre o caráter da “revolução social vindoura”) foram refutadas, os seguidores de Marx em vez de aceitarem as refutações, reinterpretaram a teoria e a evidência para fazê-la concordar entre si. Salvaram assim a teoria da refutação, mas ao preço de adotar um artifício que a tornou de toda irrefutável. Provocaram assim, segundo Popper, uma “distorção convencionalista”, [12] destruindo-lhe as anunciadas pretensões a um padrão científico.

As teorias da psicanálise de Freud e da psicologia individual de Adolf Adler pertencem a outra categoria, por serem simplesmente não “testáveis” e irrefutáveis. Não se podia conceber um tipo de comportamento humano capaz de contradizê-las. [13] Isso não significa que as teorias de Freud e Adler estejam erradas, no entanto, elas não podem reivindicar status de ciência.

Vimos, portanto, que a concepção de ciência de Popper considera a abordagem crítica sua característica mais importante. Para avaliar uma teoria, o cientista deve indagar se pode ser criticada – se se expõe a críticas de todos os tipos e, em caso afirmativo, se resiste a essas críticas. [14]

1.2. O que é teologia?

Mostramos no item anterior como entendemos ciência, contrastando com a pseudociência por meio do critério de demarcação popperiano. Neste item, seguirei a mesma estratégia. Mostrarei o que entendo por teologia a partir da demarcação entre teologia e ciência da religião. [15]

Teologia e ciência da religião têm mantido relações nem sempre harmônicas desde que a última se impôs na academia. Após perder sua antiga ancilla(filosofia), a teologia vê-se agora desafiada a disputar espaço no espectro multidisciplinar da ciência da religião. Porém, o maior desafio da teologia é o de não ser “fagocitada” pela ciência da religião, se tornando somente mais uma disciplina componente desta. Para evitar esta “fagocitose”, é necessário elaborar um critério de demarcação que faça uma distinção nítida entre essas duas áreas do saber religioso.

O cientista da religião Hans-Jürgen Greschat elaborou um critério de demarcação o qual passaremos a descrever daqui por diante. [16]

A distinção principal segundo Greschat é que “os teólogos são especialistas religiosos” [17] enquanto “os cientistas da religião são especialistas em religião”.[18] Portanto, a característica de ser religioso é fundamental para os teólogos enquanto para os cientistas da religião não existe essa obrigatoriedade. Jared Wicks, por exemplo, diz que “o teólogo é, antes de tudo, um crente que participa da visão e da esperança transmitidas pela fé da Igreja, o que implica uma relação especial com os livros da Escritura reunidos na Bíblia.” [19] O cientista da religião, no entanto, poder ser um agnóstico e até mesmo um ateu. Às vezes, essa ausência de crença é até vista como um ponto positivo, pois o pesquisador acaba adquirindo o atributo da imparcialidade. [20]

Partindo dessa distinção principal, Greschat passa a apontar outras diferenças existentes entre teologia e ciência da religião.

Em primeiro lugar, ele diz que “os teólogos investigam a religião a qual pertencem, os cientistas da religião geralmente se ocupam de outra que não a própria.” [21] Concordo plenamente com Greschat. Wicks, por exemplo, diz que “em sua melhor forma, a teologia é uma percepção e expressão renovada da palavra de Deus na Igreja, para o enriquecimento dos pastores e do povo de determinada região cultural, na visão de fé e na santidade de vida.” [22]Percebe-se, portanto que a teologia é um discurso realizado segundo um movimento centrífugo, isto é do centro para fora, dos teólogos para a comunidade de crentes. Isso é facilmente verificado explicitando-se os destinatários da teologia produzida pelos teólogos. Wicks diz que “as intuições e as propostas teológicas de compreensão naturalmente são apresentadas à comunidade de cuja fé, culto e serviço o teólogo se alimenta e mantém.” [23] Portanto, a teologia fala à comunidade de fé, enquanto os cientistas da religião falam ao público em geral. [24]

Greschat fala ainda que o teólogo visa “proteger e enriquecer sua tradição religiosa”; [25] os cientistas da religião “não prestam serviço institucional, como os teólogos. Não são comandados por nenhum bispo, nem obrigados a dar satisfação a nenhuma instância superior”. [26] Essa afirmação de Greschar também é correta. Como observou Evangelista Vilanova, até bem pouco tempo atrás, os teólogos exerciam “a função de peritos qualificados para ajudar os hierarcas a enunciar e a ensinar as verdades dogmáticas e as diretrizes doutrinais, proporcionando desta forma uma justificação ideológica às posturas assim impostas. O poder instrumentalizava o saber até o ponto em que o saber (teológico) encontrava sua força, não em si mesmo, mas na autoridade do sistema eclesiástico.” [27] Pode-se levantar a objeção de que muitos teólogos já não fazem mais esse tipo de serviço à Igreja. Entretanto, afirmo que esses teólogos jamais atacaram o núcleo de suas respectivas teologias. Eles atacam, aproveitando um conceito lakatosiano, somente o “cinturão protetor” dos sistemas teológicos os quais estão comprometidos.
Continua Greschat dizendo que, os cientistas da religião gozam de um arco potencialmente ilimitado na hora de escolher a religião à qual se dedicarão, só podendo ser constrangidos pela própria incompetência. [28] Os teólogos, em vez disso, se dispõem a conhecer em profundidade apenas a sua religião, só abrindo-se às outras em caso de necessidade. Nesse ponto, parece que Greschat está recomendando aos cientistas da religião que se tornem especialistas em uma única religião. Caso seja essa sua intenção, devo discordar veementemente. [29]Quanto a sua crítica de que os teólogos dispõem a conhecer somente sua própria religião, devo concordar com Greschat. O teólogo tem como destinatário direto sua própria comunidade de fé. Quando ele investiga uma outra religião, qualquer que seja ela, normalmente é para mostrar semelhanças ou contrastes. Quando aponta as semelhanças entre a sua religião e uma outra qualquer, o faz visando o diálogo que tem por finalidade o proselitismo. Quando aponta os contrastes, visa mostrar a superioridade de sua religião. Essa demonstração de superioridade tem por fim “reforçar” a fé, isto é, justificar a opção de fé daquela comunidade. [30]

Greschat observa que os teólogos estudam uma religião alheia a partir da própria fé, tomando a própria religião como referência. Com seus critérios, avaliarão se os demais sistemas são “mais próximos” ou “mais distantes” de sua própria tradição. [31] Diferentemente ocorre com os cientistas da religião. Não é oportuno para eles avaliar outra fé com base na própria. Diz Greschat que “eles têm a liberdade de pesquisar uma crença alheia sem preconceitos”. [32]

Por fim, Greschat assevera que serão “os fiéis de uma determinada crença (...) a informar se entendemos adequadamente essa mesma fé”. Não consultar os adeptos da religião pesquisada depõe contra a validade das descrições que fizermos dela. Os teólogos, em vez disso, fazem seu discernimento partindo da própria fé e consideram falso o que se afastar dessa norma decisiva. [33] Nesse ponto, concordo em parte com Greschat. Os teólogos fazem teologia de “cima para baixo”, como apontaram os teólogos da libertação, entretanto, creio que a teologia sempre visa os adeptos da religião para a qual serve.

Acho que é possível, a partir dos contrastes que foram realizados aqui entre teologia e ciência da religião, iniciarmos a nossa discussão acerca do estatuto epistemológico da teologia. Vimos que a teologia é um empreendimento dogmático que se distancia muito dos parâmetros de racionalidade que contemplamos, por exemplo, nas ciências empíricas. Sua atividade principal, podemos dizer, é hermenêutica, isto é, a teologia, como diz o teólogo John Mac-quarrie, “pode ser definida como o estudo que, por meio da participação e da reflexão a respeito de uma crença religiosa, busca expressar o conteúdo dessa fé por meio da linguagem mais clara e mais coerente possível.” [34]

1.3. A teologia é ciência ou metafísica?

Diante do critério demarcador de Popper, só podemos concluir que a teologia, como tal, não permite a testabilidade de suas teorias, portanto, não pode ser considerada uma ciência. [35] No entanto, muitos teólogos de ponta discordam desta conclusão.

O teólogo alemão Wolfhart Pannenberg, por exemplo, diz que a verdade do cristianismo está intimamente ligada à afirmação de que a teologia é uma ciência. A partir dessa constatação, Pannenberg introduz na teologia a metodologia da ciência popperiana. [36] Primeiro, ele diz que as teorias científicas são hipóteses sempre abertas à revisão. [37] Entretanto, rejeita a ideia de que uma teoria, para ser “científica”, deve poder ser refutada por meio de indícios. Em vez disso, argumenta que as teorias das ciências naturais e humanas devem ser julgadas pelos critérios de coerênciaparcimônia e precisãoA teoria mais adequada, para Pannenberg, não é simplesmente a que se presta à refutação, mas a que pode dar conta de teorias rivais e incorporá-las[38]

As correções que Pannenberg propõe para a metodologia popperina são as mesmas sugeridas por Lakatos. [39] Posso dizer, porém, que a metodologia popperiana engloba todos os critérios sugeridos por Pannenberg. [40]

A filósofa Nancey Murphy, por sua vez, recomenda a metodologia dos programas de pesquisa de Imre Lakatos como uma descrição mais precisa e, por fim, mais profícua de como funcionam as teorias científicas, incluindo aqui a teologia. [41]Segundo Lakatos, as teorias científicas são compostas de uma ideia central, como a famosa equação de Isaac Newton, “F=m.a”, ou sua teoria da gravidade. Esse âmago é rodeado por um “cinturão” ou “anel” de hipóteses auxiliares para explicar como aplicar a teoria a situações específicas, digamos, aplicar a lei de Newton ao movimento dos planetas. [42] Segundo Lakatos, devíamos julgar o progresso ou a degeneração relativos dos programas de pesquisa por sua capacidade de prever e corroborar fatos novos. Murphy oferece uma modificação crucial de “fato novo” de Lakatos, de modo que seu método só pode ser usado na teologia para nos ajudar a decidir quais programas teológicos são empiricamente progressivos.

O filósofo Philip Clayton também insta a que os teólogos usem a metodologia de Lakatos. Clayton vê a “explicação” como o conceito-chave que abarca as ciências naturais, as ciências sociais e a teologia. Segundo este conceito, as explicações teológicas não são testadas apenas por sua avaliação em confronto com a experiência e o conhecimento combinados de uma comunidade. Tais teorias não são “completamente objetivas” nem “puramente subjetivas”, mas são “intersubjetivas”, e ele afirma que as teorias científicas também são intersubjetivas. A metodologia popperiana concorda com a descrição feita por Clayton das doutrinas teológicas, mas não é pelo fato de elas serem intersubjetivas que podem ser consideradas como científicas. A intersubjetividade aliada à submissão honesta à crítica dão racionalidade às doutrinas teológicas e também filosóficas.

Pannenberg, Murphy e Clayton, [43] todos eles, consideram as doutrinas teológicas como teorias científicas e tentam transplantar para a teologia metodologias propostas para as ciências naturais. Creio que esse tipo de transplante traz mais problemas do que soluções. Serão feitas exigências às doutrinas teológicas que elas não poderão cumprir. Tudo isto por uma busca desenfreada por um status que a ciência conquistou na modernidade. O status de ser a única possuidora da verdade. Status este que anda perdendo crédito atualmente.

O mais importante, porém, é que Popper, com o seu critério demarcador não pretende distinguir o discurso quanto à sua significação. Longe dele afirmar que o discurso metafísico não possui sentido. [44] Popper, aliás, chama a atenção para a constatação de que “a ciência frequentemente comete erros, ao passo que a pseudociência pode encontrar acidentalmente a verdade.” [45] Ou seja, mesmo a metafísica não possuindo o status de ciência, ela está em busca da verdade assim como a ciência. [46]

Na verdade, o que esse teólogos precisam reconhecer é que, a teologia, como tem sido feita até hoje, possui comportamento semelhante às teorias psicanalistas de Freud e Adler, bem como das estórias de Homero. Essas teorias descrevem fatos, mas à maneira de mitos.

Todavia, isso não quer dizer que Popper desconsidere a importância dos mitos. Ele chegou a perceber inclusive que alguns desses mitos podem desenvolver-se e tornar-se “testáveis”. Ele mostra que a maior parte das teorias científicas teve sua origem em mitos. O sistema de Copérnico, por exemplo, inspirou-se na adoração neoplatônica da luz solar, que precisa ocupar o “centro” do universo devido à sua nobreza. Isso mostra como os mitos podem desenvolver componentes testáveis, tornando-se, no curso da sua discussão, importantes e fecundos para a ciência.

Tornar as doutrinas teológicas em teorias científicas somente para estas gozarem do status científico, um status, inclusive em vias de falência, não é algo adequado. Discordo de Eliane de Azevêdo que afirma que “as religiões têm também a função de explicar o mundo e de fazê-lo de forma cientificamente aceitável.” [47]Devemos assumir que teologia não é ciência.

Se a teologia não é ciência, então o que ela é? Ela é metafísica, [48] assim como a filosofia. E como podemos dar um grau de racionalidade à teologia semelhante ao da filosofia? [49]


Tudo aquilo que falei anteriormente sobre o caráter racional da filosofia vale também para a teologia. [50] Irei repetir aqui a minha análise original.

Popper mostra em sua Lógica da Pesquisa Científica que “as classes de falseadores potenciais de todos enunciados tautológicos e metafísicos são vazios.” [51] Então como é possível dizer que uma doutrina teológica é preferencial a uma outra? Como podemos selecionar a melhor [52] doutrina [53] teológica?

Uma das doutrinas centrais para qualquer sistema teológico é o criacionismo[54]Esta doutrina possui como sua rival a doutrina teológica do evolucionismo teísta , a qual aceita largamente contribuições darwinistas.

O criacionismo cristão afirma que Deus criou o universo inteiro do nada (creatio ex nihilo). Inclusive, a partir de uma exegese literal dos primeiros dois capítulos do livro de Gênesis, os defensores dessa doutrina acreditam que não ocorram macroevoluções, isto é, não ocorrem transformações de uma espécie em outra.[55] Por isso, é inadmissível a teoria de que o homem e o macaco sejam oriundos de um mesmo ancestral. [56] Os criacionistas, aqueles mais esclarecidos, aceitam as microevoluções, isto é, os pequenos desenvolvimentos dentro de uma mesma espécie. Por exemplo, as microevoluções que ocorrem em moscas e mosquitos que se tornam imunes a inseticidas.

A doutrina teológica que se opõe a ela é o evolucionismo teísta. Essa doutrina sustenta que os organismos vivos apareceram pelo processo da evolução que Darwin propôs, mas que Deus guiou esse processo de forma que o resultado foi exatamente o que ele queria que fosse (creatio continua). [57] Muitos que sustentam esse evolucionismo teísta propõem que Deus interveio no processo em alguns pontos cruciais, normalmente, 1) na criação da matéria no início, 2) na criação da forma mais simples de vida, e 3) na criação do homem. Mas com a exceção possível desses pontos de intervenção, os evolucionistas teístas sustentam que a evolução seguiu os processos agora descobertos pelos cientistas e que esse foi o método que Deus decidiu usar ao permitir que todas as outras formas de vida da terra se desenvolvessem. Eles creem que a mutação casual das coisas vivas levou à evolução das formas mais elevadas de vida porque os que possuíam uma “vantagem de adaptação” (uma mutação que os permitia ser mais bem adaptados para sobreviver em seu ambiente) viviam, enquanto os outros não. [58] Vamos então ao nosso problema: “se todas as doutrinas teológicas são irrefutáveis, como podemos escolher a melhor doutrina?”
Já vimos que a refutabilidade não pode ser arrogada como critério de demarcação como fez Popper entre ciência e pseudociência, já que todas as doutrinas teológicas gozam do atributo da irrefutabilidade. Então qual critério utilizar a fim de selecionar uma doutrina teológica em detrimento de outra?

Popper cita o exemplo da proposição: “Há uma fórmula latina que, se pronunciada da maneira correta, cura qualquer doença”.

Temos aí uma proposição irrefutável, mas que poucos considerariam verdadeira. Ela é irrefutável porque seria obviamente impossível experimentar todas as fórmulas latinas concebíveis, combinadas com todas as formas possíveis de pronunciá-las. Portanto, restará sempre a possibilidade lógica de que haja de fato alguma fórmula latina mágica, com o poder de curar todas as doenças.

Popper, ainda assim, crê que teríamos uma justificativa para acreditar na falsidade dessa afirmação existencial irrefutável. Não podemos, de fato, provar que é falsa; mas tudo o que conhecemos a respeito das doenças nos indica que não pode ser verdadeira. Em outras palavras: embora não nos seja possível demonstrar sua falsidade, a conjectura de que não existe tal fórmula mágica é muito mais razoável do que a conjectura irrefutável de que essa fórmula existe.[59]

A solução que Popper propõe é que “toda teoria racional, seja científica ou filosófica, [60] é racional na medida em que procura resolver determinados problemas. Uma teoria só será compreensível e razoável em relação a uma certa situação-problema; só poderá ser discutida racionalmente discutindo-se essa relação.” [61]

Segundo Popper, se considerarmos uma teoria como solução proposta para certo conjunto de problemas, ela se prestará imediatamente à discussão crítica, mesmo que seja não-empírica e irrefutável. Com efeito, poderemos formular perguntas tais como: resolve o problema em questão? Resolve-o melhor do que outras teorias? Terá apenas modificado o problema? A solução proposta é simples? É fértil? Contraditará teorias teológicas necessárias para resolver outros problemas?

Então como faremos nossa escolha dentre as doutrinas teológicas [62] aqui apresentadas?

Em primeiro lugar, deve-se saber que a doutrina da criação cristã já se confrontou com outras doutrinas teológicas (ou filosóficas) rivais e neste embate saiu vitoriosa.

O problema metafísico que mais havia preocupado os antigos era o da derivação do Múltiplo do Uno. Parmênides resolvia o problema negando qualquer forma de devir, os pluralistas falavam de “reunião” ou “combinação” de elementos eternos, Platão falava de um demiurgo que organizara a matéria preexistente,[63] Aristóteles falava da atração de um Motor Imóvel e os estoicos propunham uma forma de monismo panteísta. Como sabemos, todas essas soluções para o problema de como o Múltiplo derivava do Uno apresentavam aporias. [64]

A doutrina cristã da criação (creatio ex nihilo) se desenvolveu gradualmente a fim de resolver as aporias geradas pelas soluções filosóficas, no que, em grande parte, foi bem sucedida. Giovanni Reale diz que a concepção da criação a partir “do nada” corta pela base a maior parte das aporias que, desde Parmênides, haviam afligido a ontologia grega. Todas as coisas têm origem do “nada”, sem distinção. Deus cria livremente, ou seja, como um ato de vontade, por causa do bem. Ele produz as coisas como “dom” gratuito. [65]
O criacionismo, portanto, impor-se-ia como a solução por excelência do antigo problema de como e por que os múltiplos derivam do Uno e o finito deriva do infinito.

Entretanto, no século XIX, Charles Darwin publica duas obras que mudariam o modo de ver o antigo problema grego. [66] Ele trazia a público teorias puramente naturalistas sobre a origem e a evolução do homem. Comenta McGrath que “aos olhos de muitos, o darwinismo não apenas tornara redundantes as abordagens cristãs acerca da criação, ele também as tornara insustentáveis.” [67] Destarte, a doutrina cristã da criação foi mais uma vez convocada a enfrentar uma doutrina rival. [68]

Ocorre que a doutrina cristã da criação, antes mesmo do aparecimento da doutrina evolucionista, já apresentava alguns problemas. Irei mostrar três problemas apresentados pela doutrina cristã da criação de ordens completamente diferentes.

O primeiro é de natureza metafísica: a doutrina cristã da criação possuía uma visão demasiado estática da realidade. Como explica o teólogo Alfonso García Rúbio, a doutrina cristã da criação “nascida e desenvolvida na ambiência do mundo cultural grego-romano, com sua visão do ser e da realidade de tipo predominantemente estática, só podia encarar com profunda desconfiança a visão dinâmico-evolutiva da vida e da realidade toda do universo, originária das ciências naturais.” [69] Afirma ainda que “não é de estranhar que a visão histórico-dinâmico-evolutiva de homem e de universo encontrasse forte resistência por parte de uma teologia tão imbricada nas mediações do mundo cultural antigo, certamente pré-científico.” [70]

O segundo problema é de natureza científica: o registro fóssil é uma narrativa evolutiva. Estratos com mais de 600 milhões de anos contêm apenas restos de formas unicelulares de vida e alguns outros organismos simples. O período pré-cambriano, há cerca de 600 a 500 milhões de anos, é rico em invertebrados, inclusive as trilobitas, aparentados com os insetos de hoje. A vida surgiu em terra há cerca de 420 milhões de anos, e florestas extensas, de 300 milhões de anos atrás, deixaram os depósitos de carvão de hoje. Os dinossauros surgiram há cerca de 220 milhões de anos e dominaram a terra por cerca de 150 milhões de anos. Os mamíferos difundiram-se e diversificaram-se rapidamente após a extinção dos dinossauros. Os primeiros membros do gênero Homo entraram em cena há talvez três milhões de anos. Isso sugere, portanto, que um processo radical de mudança tenha ocorrido, isto é, a evolução ocorreu.

O terceiro problema é de natureza exegética: a teologia cristã deve se iniciar a partir do Novo Testamento. O teólogo Emil Brunner diz que infelizmente a unicidade da doutrina cristã da Criação e do Criador está continuamente sendo obscurecida em razão dos teólogos estarem relutantes para começar seus trabalhos com o Novo Testamento; quando desejam lidar com a Criação tendem a começar pelo Antigo Testamento, embora nunca façam isso quando estão falando do Redentor. Explica ele que a ênfase em se elaborar a doutrina da criação partindo de Gênesis levou teólogos a abandonar a regra a qual eles sempre seguiram, a saber, que a base de todos os artigos de fé cristãos é a Palavra Encarnada, Jesus Cristo. Assim, quando nos dispormos a estudar o sujeito da Criação na Bíblia devemos começar com o primeiro capítulo do Evangelho de João, e alguns outros textos do Novo Testamento, e não com o primeiro capítulo de Gênesis. [71] Diz ainda que no prólogo do Evangelho de João a Criação é mencionada de uma maneira que não encontramos em parte alguma na Bíblia; aqui está claro que quando um fiel em Cristo fala da Criação, ele quer dizer algo diferente da “exposição” por que existe um mundo, ou por que as coisas existem. Conclui afirmando que, mesmo a mais inteligente exposição da história da criação no Antigo Testamento a qual é oferecida como a base da doutrina cristã, apresenta o homem moderno com numerosas dificuldades, as quais não podem se removidas pela mais arrojada tentativa de alegorizarão da narrativa. [72]

A doutrina evolucionista também possui problemas, entretanto, a meu ver, podem ser resolvidos mais facilmente do que os apresentados pela doutrina cristã da criação. Vou destacar três pontos positivos, também de ordens diferentes, característicos do evolucionismo. Em primeiro lugar está o fato de que a visão evolucionista foi aceita quase unanimamente nos meios científicos, e já marcou profundamente a civilização moderna bem como as culturas por ela influenciadas.[73] Diante disso, conclui Garcia Rúbio que “tornou-se extremamente urgente repensar a expressão tradicional da fé em Deus criador”. [74] John Haught concorda e afirma que “quaisquer ideias que tenhamos sobre Deus, após a vida e o trabalho de Charles Darwin, dificilmente serão as mesmas que antes. A ciência evolucionista mudou de modo dramático nosso entendimento do mundo; portanto, qualquer ideia que possamos ter de um Deus que cria e zela por este mundo deve levar em conta o que Darwin e seus seguidores nos disseram a respeito.” [75]

Em segundo lugar, o evolucionismo explica as macroevoluções das quais o criacionismo cristão não dá conta. Resolve também o problema da idade da terra, que segundo os literalistas, teria entre 10.000 e 20.000 anos. Eles levantam objeções aos processos de datação científicos do presente, questionando a confiabilidade da datação radiométrica e das suposições a respeito da velocidade de deterioração de certos elementos. Chegam, às vezes, a afirmar que as tremendas forças naturais desencadeadas pelo dilúvio no tempo de Noé (Gn 6-9) alteraram significativamente a face da terra, exercendo pressões extremamente altas sobre ela e depositando fósseis em camadas de sedimento incrivelmente grossas sobre toda a superfície da terra.

Por fim, a partir da metafísica processual witheheadiana, como desenvolvida por Ian Barbour e John Haught, Deus é uma fonte imanente de ordem e novidade na natureza, atuando dentro de cada sistema físico e biológico como uma causa de cima para baixo. Deus é contínua e preeminentemente ativo na natureza, embora Deus não determine, de maneira todo-poderosa, tudo o que acontece no mundo. Deus, portanto, está ativo na evolução, influenciando por meio do amor persuasivo, mas não os contrariando unilateralmente. Segundo os teólogos Charles Birch e John Cobb, Deus é imanente ao mundo como o “princípio doador de vida” a “a exemplificação suprema e perfeita do modelo ecológico de vida”. Além disso, a vida tem propósito, não apenas “continuidade cega, mas demonstrando “a meta cósmica do valor.” [76]

Diante de todas as considerações que foram realizadas aqui acerca da doutrina cristã da criação e da doutrina do evolucionismo teísta, concluo, segundo o critério de racionalidade proposto por Popper, que essa última resolve mais problemas do que sua concorrente, ou seja, é melhor do que a outra.

Antes de passar para a conclusão gostaria de ressaltar que mostrei o confronto entre a doutrina cristã da criação e a doutrina do evolucionismo teísta como exemplo de utilização do critério de racionalidade proposto por Karl Popper porque esse embate é bastante conhecido e creio que todos possuam conhecimento básico para acompanhar a discussão. Todavia, a minha posição, na qual sigo fielmente a Popper, é de que não há um confronto real entre a doutrina cristã da criação e a teoria da evolução.

Em primeiro lugar devo explicar que o darwinismo não é uma teoria científica, mas sim uma teoria filosófica. Como Popper disse, “o darwinismo não é uma teoria científica passível de prova, mas um programa de pesquisa metafísico – um possível sistema de referência para teorias científicas comprováveis.” [77]

Em segundo lugar pretendo limitar o alcance do darwinismo. Ele não possui como objeto explicar a origem da vida. Como Popper ressaltou em sua Autobiografia:

“Penso que a vida é tão estreitamente improvável que nada pode ‘explicar’ por que ela apareceu; e a explicação estatística tem de operar, em última instância, com altíssimas probabilidades.” [78]

A partir dessas duas importantes constatações, posso concluir com Popper, que o conflito entre a doutrina cristã da criação e o darwinismo (ou evolucionismo) é somente aparente, é “uma tempestade em uma vitoriana chávena de chá”. [79]

Vimos, neste artigo que, adotando o critério demarcador proposto pelo filósofo Karl Popper, a teologia não pode ser considerada uma ciência. Entretanto, não se pode afirmar a partir daí que as doutrinas teológicas carecem de sentido. Longe de Popper afirmar tal coisa. Popper vê justamente nos mitos a origem das teorias científicas, portanto, não se pode desprezar o seu valor.

Mesmo que não considerada uma ciência, a teologia possui um grau de racionalidade, que, segundo Popper, não se encontra na origem das doutrinas teológicas, mas na escolha que se faz dentre suas rivais. Deveríamos examinar os problemas levantados e aqueles que são resolvidos por todas as doutrinas teológicas e somente depois disso escolher dentre elas aquelas mais aptas segundo este critério de racionalidade.

Esse critério de racionalidade proposto por Karl Popper é totalmente coerente com a epistemologia mais em voga hoje, a pós-fundacionista. O foco migrou do contexto da descoberta para o contexto de validação das teorias (ou doutrinas), assim como Popper propôs para a ciência.

O critério de racionalidade na escolha entre doutrinas teológicas rivais proposto aqui evita argumentos circulares que são muito característicos na teologia. [80]Entretanto, ele não é suficiente. O critério que apresentei aqui de escolhas de doutrinas teológicas é limitado porque, segundo a tipologia do teólogo George Lindbeck, tratei somente das doutrinas do tipo proposicional-cognitiva, isto é, aquelas cujos enunciados representam “afirmações verdadeiras sobre realidades objetivas”. [81] O objetivo desses enunciados doutrinais é o conhecimento da natureza de Deus, expresso em proposições absolutas, ou seja, que são verdadeiras sem se referir a tempo e espaço. [82] Há ainda os enunciados simbólicos [83] e os imperativos éticos. Esses não seguem o critério de racionalidade proposto aqui.


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Esse artigo foi o resultado de uma comunicação científica proferida no I Simpósio Internacional de Teologia ocorrido em maio de 2008.

Segundo Mario Bunge, cientificidade é a propriedade de ser científico. Há diversos critérios de cientificidade. Uma condição necessária para que um item (hipótese, teoria ou método) seja científico é que seja ao mesmo tempo conceitualmente preciso e suscetível a teste empírico. (BUNGE, 2006, p. 57)

Lakatos em seu artigo “Ciência e pseudociência” ressalta a importância da elaboração de um critério de demaracação entre ciência e pseudociência. Ele diz: “A demarcação entre ciência e pseudociência não é um mero problema de filosofia de salão: é de vital relevância social e política.” (LAKATOS, 1998, p. 11 (1978)) Popper, quanto a isso, diz que “o significado da demarcação se é sequer que algum há, não haveria ser sobres-timado. Apesar disto, defendo que o problema da demarcação tem elevado significado. Tem-no não porque haja algum mérito intrínseco em classificar teorias, mas sim porque uns quantos e genuínos importantes pro-blemas estão intimamente ligados a ele; na verdade são todos os problemas da lógica da ciência.” (POPPER, 1987, p. 179) É importante ressaltar a importância da elaboração de um critério de demaracação entre ciência e pseudociência porque muitos filósofos negam tal valoração. Um filósofo brasileiro que nega esse status ao critério de demarcação é L. H. de A. Dutra. (Cf. DUTRA, 1998, pp. 25-30)

Deve-se distinguir pseudociência e metafísica. A meu ver, pseudociência é um saber que reivindica o status de ciência mas não cumpre as exigências do critério de demarcação para tal, como o são as teorias psicanalíticas e o marxismo. Metafísica é um saber cujas teorias não apresentam a característica da testabilidade, isto é, suas teorias não se confrontam com a realidade.

Alister McGrath afirmou que “a preocupação particular de Popper era livrar a ciência da metafísica. Ele achava que havia descoberto a maneira de acabar com as afirmações metafísicas exigindo que elas se subme-tessem ao teste da falseabilidade.” (MCGRATH, 2005, p. 103 – itálicos meus) O uso dos termos “livrar” e “acabar” mostra que a exegese de McGrath é tendenciosa. Ele poderia ter usado o termo “distinguir” no lugar do termo “acabar” que é muito mais próximo ao que Popper realmente usa, o termo “demarcar”. McGrath usou o termo “livrar” a fim de colocar Popper junto aos positivistas, conforme pode ser inferido de sua segun-da frase. Inclusive Popper fala no primeiro volume de seu Pós-Escrito: “... não pode haver uma demarcação clara entre ciência e metafísica.” (POPPER, 1987, p. 179)

Popper, neste ponto específico, não está desprezando a importância da indução para a ciência. Entretanto, em outras partes de sua exposição, o nosso filósofo pretende rejeitar radicalmente a indução. Creio que esse foi um dos equívocos cometidos por Popper, pois esta rejeição radical da indução é incoerente com o próprio racionalismo crítico. É o próprio Popper que afirma: “Não há ‘fontes últimas’ do conhecimento. Toda fonte, todas as sugestões são bem-vindas; e todas as fontes e sugestões estão abertas ao exame crítico”. (POPPER, 1980, p. 55)

Idem, p. 283.

Como é o caso da Astrologia.

POPPER, 1999, pp. 13-40; POPPER, 1980, pp. 72-88; FONTANA, 2007, pp. 55-62.

Falarei sobre a tese de Duhem-Quine mais adiante.

Popper fala de experimentos cruciais no segundo tomo de sua obra “A sociedade aberta e seus inimigos”. (POPPER, 1998, p. 274) Deve-se enfatizar que Popper, em suas obras de cunho metodológico, jamais fala em refutações cruciais. As refutações, segundo ele, podem ser revistas a qualquer tempo. (Cf. POPPER, 2006, p. 52)

POPPER, 1980, p. 284.

Idem, p. 67.

Idem, p. 65.

O físico Stephen Hawking concorda com a concepção de ciência proposta por Popper. Hawking descreve a natureza da teoria científica da seguinte forma: “qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de ser apenas uma hipótese: nunca é possível prová-la. Não importa quantas vezes os resultados dos experimentos estejam de acordo com alguma teoria, você nunca poderá ter certeza de que, na próxima vez, o resultado não a contradirá. Por outro lado, você pode desacreditar uma teoria encontrando uma única observação que seja discordante de suas previsões.” (HAWKING, 2005, p. 23)

Há uma grande discussão sobre se o termo “ciência” deve ser usado no singular ou no plural quando referente a ciência da religião.

O critério de demarcação de Greschat recebeu algumas críticas do teólogo Afonso M. L. Soares. (USARSKI, 2007, pp. 281-306)

GRESCHAT, 2005, p. 155.

Idem, ibid.

WICKS, 2004, p. 39.

Rubem Alves critica magistralmente a reivindicação de imparcialidade (ou neutralidade) feita por alguns cientistas sociais (extensível aos cientistas da religião). (ALVES, 2005, pp. 19-31)

GRESCHAT, 2005, p. 155.

WICKS, 2004, p. 87.

WICKS, 2004, p. 119.

O teólogo católico David Tracy sustentou recentemente o caráter público de todo o discurso teológico. Nesse sentido foi também Jügen Moltmann.

Idem, ibid.

Idem, ibid.

VILANOVA, 1998, p. 18.

Cf. GRESCHAT, 2005, p. 155s.

Cf. GRESCHAT, 2005, p. 156. Neste ponto em específico não achei a crítica de Afonso Soares muito ade-quada, pois, ele diz que o cientista da religião também sofre limitações em seu campo de estudo porque ele “não pode ser um especialista sério se continuamente escolhe novos objetos para aprofundar”. (Cf. USARSKI, 2007, pp. 281-306) O cientista da religião, segundo o meu ponto de vista, não precisa ser um especialista em qualquer religião, mas, pelo contrário, deve ter posse de uma visão geral de todas as manifestações religiosas a fim de, a partir daí, tecer suas teorizações. O cientista da religião deve ser um generalista.

Essa atividade é chamada pelos teólogos, com exceção de Paul Tillich, de apologética.

Cf. GRESCHAT, 2005, p. 156.

GRESCHAT, 2005, p. 156.

Cf. GRESCHAT, 2005, p. 157.

MACQUARRIE apud MCGRATH, 2005, p. 176.

Concorda Tillich ao afirmar: “Tentativas de elaborar uma teologia como uma ‘ciência’ empírico-indutiva ou metafísico-dedutiva, ou como uma combinação de ambas, evidenciaram amplamente que não conseguem ter êxito.” (Cf. TILLICH, 2005, p. 26) O caso é diferente quando passamos à ciência da religião. Como observa o sociólogo da religião Rodney Stark, “a forma de nossa teoria é dedutiva”. Mais adiante ele diz: “deve ser possível deduzir de uma teoria alguns enunciados acerca de eventos empíricos que poderiam, em princípio, mostrar-se incorretos.” (STARK, 2007, pp. 52-59) Stark aproveita muitos elementos da metodologia da ciência de Karl Popper para elaborar sua teoria geral da religião.

Destarte, todas as vezes que Pannenberg se refere a “ciência” está inclusa a teologia.

Cf. POPPER, 2006, p. 34. Concordo com Pannenberg quanto ao fato de que todas as doutrinas teológicas assim como todas as teorias científicas estarem abertas à revisão. Tillich concorda conosco. Ele diz que “se alguém afirmar que concorda completamente com determinada doutrina, por exemplo, a do nascimento virgi-nal, será desonesto ou deixou de pensar. Como ninguém pode deixar de pensar, tem necessariamente que duvidar.” (Cf. TILLICH, 2004, p. 23)

Pannenberg não demonstra profundo conhecimento da metodologia popperiana. Popper em sua Lógica da Pesquisa explica que, de acordo com a sua metodologia, isto é, o método de submeter criticamente à prova as teorias, e de selecioná-las conforme os resultados obtidos, acompanha sempre as seguintes linhas: “a partir de uma idéia nova, formulada conjecturalmente e ainda não justificada de algum modo – antecipação, hipótese, sistema teórico ou análogo – podem-se tirar conclusões por meio de dedução lógica. Essas conclusões, são em seguida comparadas entre si e com outros enunciados pertinentes, de modo a descobrir-se que relações lógicas (equivalência, dedutibilidade, compatibilidade ou incompatibilidade) existem no caso.” Diz ainda: “Podere-mos, se quisermos, distinguir quatro diferentes linhas ao longo das quais se pode submeter a prova uma teoria. Há, em primeiro lugar, a comparação lógica das conclusões umas às outras, com o que se põe à prova a coe-rência interna do sistema. Há, em segundo lugar, a investigação da forma lógica da teoria, com o objetivo de determinar se ela apresenta o caráter de uma teoria empírica ou científica, ou se é, por exemplo, tautológica. Em terceiro lugar, vem a comparação com outras teorias, com o objetivo sobretudo de determinar se a teoria representará um avanço de ordem científica, no caso de passar satisfatoriamente as várias provas. Finalmente, há a comprovação da teoria por meio de aplicações empíricas das conclusões que dela se possam deduzir.” (POPPER, 2006, p. 33)

Cf. LAKATOS, 1999, p.164. A metodologia lakatosiana é mais abrangente do que a popperiana, aceitando como científicas as teorias da psicanálise e o marxismo, até então rejeitados como pseudociência por Popper.

O físico Ian Barbour ofereceu quatro critérios pelos quais as teorias são escolhidas: 1) devem estar em con-cordância com dados conhecidos; 2) devem ser compatíveis com outras teorias aceitas; 3) devem ter abran-gência progressivamente mais ampla; e 4) devem ser produtivas levando a novas discernimentos a aplicações. Nem é preciso falar que Ian Barbour buscou em Popper seus critérios de prova de teorias. (BARBOUR, 2004, pp. 21-57)

Ela adota a metodologia de Lakatos por não compreender adequadamente a metodologia de Karl Popper. Ela crê, assim como Alister McGrath, que a tese de Duhem-Quine cria insuperáveis problemas para a metodologia popperiana. Esta tese aponta corretamente para o fato de que nenhuma hipótese fundamental é testada isoladamente; ela é sempre tomada em conjunção com pressupostos auxiliares e com descrições de condições iniciais. Portanto, se deparássemos com a refutação de um sistema científico, não saberíamos o que efetiva-mente foi falseado, certamente não teríamos razão para supor que a falha resida em nossa hipótese central, isto é, na proposição que nos proposemos a testar. Corretamente observa Elie G. Zahar que “essa objeção ao crité-rio de demarcação de Popper, embora esteja em parte justificada, não me parece causar muito dano.” (O’HEAR, 1997, p. 58) Não estou querendo afirmar que eu não acho válida a adoção da metodologia da ciên-cia proposta por Lakatos. Devo reconhecer que a sua metodologia cobriu muitos pontos que a metodologia da ciência de Popper deixou para trás. Porém, acredito que a sua metodologia é um prolongamento daquela pro-posta por Popper.

Cf. LAKATOS, 1998, p. 16.

Poderia ter mostrado outras formas como teólogos utilizaram metodologias elaboradas por filósofos da ciência para descrever a teologia. Fiquei restrito aquelas formas diretamente ligadas à metodologia popperiana. Todavia, um projeto bastante interessante foi proposto pelo filósofo James A. Marcum. Ele tenta descrecer a teologia segundo o modelo reticulado de racionalidade científica proposto pelo filósofo da ciência Larry Laudan. (MARCUM, 2007, pp. 34-58)

Anthony Flew, por exemplo, em seu estudo “Teologia e falsificação” se equivocou ao adotar o critério de falsificabilidade de Karl Popper para provar que as afirmações religiosas, por não serem falsificáveis, não poderiam conter sentido. (Cf. MCGRATH, 2005, p. 102) McGrath comete o mesmo equívoco dizendo: “embora as preocupações originais de Popper parecessem querer eliminar a metafísica das afirmações ‘significativas’, sua atenção concentrou-se na crítica às ‘pseudociências’.” (MCGRATH, 2005, p. 100) Popper aponta este equívoco dizendo que sua posição tem sido descrita com freqüência como uma simples proposta para adotar a refutabilidade como critério de significação (em vez de demarcação), ou para excluir as afirmativas existenciais de nossa linguagem – pelo menos, da linguagem científica. (Cf. POPPER, 1980, p. 286)

POPPER, 1980, p. 63.

Robert John Russell e Kirk Wetter-McNelly afirmam que “a ciência em sua melhor forma e a teologia em sua melhor forma buscam a verdade. Tanto a ciência como a teologia são autocríticas quando ficam aquém da verdade. Ambas são limitadas e persistentes diante do mistério” (PETERS; BENNETT (orgs), 2003, p. 16)

Idem, p. 26.

Uma teologia que afirme ser ciência é pseudociência.

Wentzel van Huyssteen também explora as similaridades e diferenças entre a racionalidade científica e teológica e antecipa uma racionalidade pós-fundacionista que, segundo ele, evita os problemas da objetividade fundamental e do relativismo não-fundacional. De acordo com Huyssteen, a racionalidade pós-fundacionista é “uma epistemologia falibilista, que abraça honestamente o papel da experiência tradicional, do comprometi-mento pessoal, da interpretação e da natureza provisória de todas as nossas reivindicações de conhecimento.” (HUYSSTEEN, 1997, p. 228)

FONTANA, 2008, pp. 15-27.

POPPER, 2006 b, p. 125.

William Newton-Smith afirmou que a racionalidade científica é composta por dois componentes: os objetivos dos cientistas e os principios de comparação que eles usam para escolher entre teorias competitivas.

De acordo com Alister McGrath, “‘dogma’ designa especificamente o que é declarado pela Igreja como sendo a verdade revelada e também parte do ensinamento universal” enquanto “doutrina é essencialmente a expressão que prevalece da fé da comunidade cristã em relação ao conteúdo da revelação”. (MCGRATH, 1990, pp. 9; 11)

O teólogo Wayne A. Grudem afirma que “a Bíblia claramente requer que creiamos que Deus criou o universo do nada. (...) Isso significa que, antes de Deus ter começado a criar o universo, nada mais existia exceto o próprio Deus.” (GRUDEM, 2001, p. 131)

O cruzamento de rabanete com repolho (“rabapolho”), é estéril quando cruzado com membros de suas gera-ções progenitoras, portanto, no sentido técnico, é uma nova espécie.

Aproveito para alertar que Charles Darwin jamais disse que o homem evoluiu do macaco.

O pan-em-teísmo de Tillich se enquadra nesta doutrina teológica da criação.

Cf. GRUDEM, 2001, p. 141.

Cf. POPPER, 1980, p. 222.

Entram aquí também as doutrinas teológicas.

POPPER, 1980, p. 225.

A demarcação entre filosofia e teologia não é nem um pouco nítida. Por isso creio que possamos colocá-las no mesmo patamar epistemológico. Destarte, podemos compará-las entre si.

Os platônicos foram os filósofos que chegaram às posições menos distantes do criacionismo. Não se concebia Deus como aquele que havia criado o mundo. Antes, Deus deveria ser considerado como um arquiteto, responsável pela organização da matéria preexistente. A matéria já se encontrava presente no universo e não precisou ser criada; no entanto, era necessário que lhe fosse atribuída uma forma e uma estrutura definidas. Portanto, Deus era considerado como aquele que dera forma ao universo a partir da matéria já existente.

Aristóteles define “aporia” como a “apresentação de duas opiniões contrárias e igualmente racionais em resposta a uma mesma questão”. Estou utilizando o termo aqui no sentido dos modernos, isto é, como dificuldade lógica de onde se não pode sair. (LALANDE, 1999, p.79)

REALE, 2005, p. 379.

São elas: A origem das espécies (1859) e A origem do homem (1871).

MCGRATH, 2005, p. 358.

Como observou McGrath, “a perspectiva evolucionista de Darwin sobre a origem e a evolução do ser humano provocou uma grande reação teológica por parte dos teólogos protestantes e católicos romanos.” (MCGRATH, 2005, p. 358)

RUBIO, 2006, p. 367.

Idem, ibid.

Cf. BRUNNER, 2006, p. 19s.

BRUNNER, 2006, p. 20.

O evolucionismo já faz parte de nossa cosmovisão.

RUBIO, 2006, p. 370.

HAUGHT, 2002, p. 09.

PETERS; BENNETT (orgs), 2003, p. 95.

POPPER, 1977, 177.

Idem, p. 178.

POPPER, 1980a, p. 82s. Concorda Battista Mondin que diz: “… entre criação e evolução não existe nenhum conflito, nenhuma incompatibilidade. A criação, de fato, se refere à origem primeira, radical, absoluta, por sua vez, a evolução se refere aos processos sucessivos que ocorrem no interior de um universo já existente.” (MONDIN, 2005, p. 360)

O teólogo Wayne Grudem ao defender a doutrina cristã da criação justifica da seguinte forma: “se negássemos a criação ex nihilo, teríamos de dizer que algum tipo de matéria já existia e que ela, como Deus, é eterna. Essa idéia desafiaria a independência e a soberania de Deus, bem como o fato de que a adoração é devida a ele somente.” (GRUDEM, 2001, p. 132 – itálico meu) Segundo o argumento de Grudem, a negação da doutrina da criação ex nihilo iria contra a independência de Deus, contra a soberania de Deus e a adoração devida a Deus. Esses, segundo ele, são atributos incomunicáveis de Deus. Mas como ele chegou a esses atributos?

LINDBECK, 1984, p. 16.

Lindbeck arrola mais dois tipos de doutrinas teológicas. O segundo tipo de doutrina consiste em enunciados que são “símbolos não informativos e não discursivos de sentimentos interiores, atitudes e orientações exis-tenciais”. (Idem, p. 24) Seu objetivo é o conhecimento da natureza de Deus, expressa em termos estéticos e que tratam da experiência individual de Deus. Esses enunciados doutrinais se originam de um núcleo comum da experiência religiosa, o qual precede sua expressão formal. O terceiro tipo de doutrina é representado pelos enunciados lingüístico-culturais. O objetivo desses enunciados é conhecer a natureza de Deus, expressa em “regras autoritativas da comunidade”. As regras da doutrina regulam a vida das comunidades de fé. Tais re-gras, ao contrário dos símbolos, são invariáveis quanto ao conteúdo. E, ao contrário das proposições, essas regras são empregadas para atender às exigências de determinados contextos culturais. (Idem, p. 18)

Já tratei dos enunciados simbólicos em outro trabalho. (FONTANA, 2007, pp. 1-15)


Via: http://www.metodista.br/ppc/correlatio/correlatio14/teologia-ciencia-ou-metafisica/
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