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sábado, 28 de janeiro de 2012

Homossexualidade: duas leituras da Bíblia - Parte I


A LEITURA FUNDAMENTALISTA E A LEITURA HISTÓRICO-CRÍTICA DA BÍBLIA
(By Afonso C. Figueiredo)


Em meu artigo fiz menção a dois paradigmas de leitura da Bíblia: a leitura literalista, identificada como a abordagem dos fundamentalistas, e a leitura ou método histórico-crítico. As pessoas discutem apaixonadamente a respeito do que a Bíblia realmente ensina. Tudo depende de como se lê a Bíblia. Há diferentes maneiras de se ler a Bíblia; é o que designo diversos paradigmas de leitura. Gostaria de aprofundar um pouco este tema.

A leitura/interpretação literal da Bíblia afirma entender o texto unicamente conforme o que ele diz. Esta é a abordagem fundamentalista. Seus adeptos afirmam não interpretar o texto, mas simplesmente lê-lo como ele é. Em outras palavras, os adeptos da leitura fundamentalista da Bíblia, partindo do princípio de que a Bíblia, sendo Palavra de Deus inspirada e isenta de erro, afirmam que ela deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes.

Mas por “interpretação literal” entendem uma interpretação primária, literalista, isto é, uma leitura que exclui todo esforço de compreensão da Bíblia que leve em conta seu desenvolvimento. Ela se opõe assim à utilização do método histórico-crítico, como a qualquer outro método científico, para a interpretação da Escritura. 


Ela também ignora os condicionamentos históricos, ou seja, as circunstâncias históricas e sócio-culturais que condicionam toda a compreensão que o homem tem de si e do mundo que o rodeia, em determinada época e em determinada sociedade: tanto aqueles em que os autores bíblicos viviam como aquele em que nós, leitores modernos da Bíblia estamos inseridos.

Entretanto, é mais do que claro que até mesmo o fundamentalismo segue uma regra de interpretação. Esta regra, simples e fácil, diz que a significação do texto é dada no presente por quem o lê.
A leitura histórico-crítica parte de outro princípio. Diz que o significado do texto é dado por aquele que o escreveu no passado. Para afirmar qual é o ensinamento dado pelo texto bíblico é necessário, em primeiro lugar, compreendê-lo em sua situação original, em outras palavras, a partir da situação histórica, dos condicionamentos sócio-culturais em que seu autor estava imerso e do qual participava.

Com efeito, Deus na Sagrada Escritura falou por meio de homens e à maneira humana. Disso se conclui que o intérprete da Sagrada Escritura, para saber o que Ele quis comunicar-nos, deve investigar com atenção o que os escritores sagrados quiseram exprimir, para compreender o que aprouve a Deus manifestar por meio das palavras deles.
A verdade é proposta e expressa de modos diferentes, segundo se trata de textos históricos, ou de textos proféticos ou poéticos ou ainda de outros modos de expressão, como por exemplo, o tão complexo estilo apocalíptico.

Importa, pois, que o intérprete busque o sentido que o hagiógrafo pretendeu exprimir, e, de fato exprimiu em determinadas circunstâncias, segundo as condições do seu tempo e da sua cultura, usando os gêneros literários então em voga. Para entender retamente o que o autor sagrado quis afirmar por escrito, deve partir dos modos peculiares de sentir, dizer ou narrar em uso nos tempos do hagiógrafo e que na mesma época costumavam-se empregar nos intercâmbios humanos.

Para se comunicar, a Palavra de Deus se enraizou na vida de grupos humanos e ela traçou para si mesma um caminho através dos condicionamentos sócio-culturais em que os autores sagrados estavam imersos, e dos quais participavam. Resulta disso que as Ciências Humanas – em particular a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia – podem contribuir para uma compreensão melhor de certos aspectos dos textos. Um bom número de exegetas tirou recentemente proveito desse gênero de pesquisas.

Quando Wolfgang Goethe, em 1819, escreveu suas “Noten und Abhandlungen zu besseren Verständnis des Westöslichen Divans” e as fez preceder dos seguintes versos:
“...
Wer den Dichter will verstehen [Quem o poeta quer compreender]
Muss in Dichters Lande gehen” [Deve à sua terra ir]

deu, de modo inconsciente, uma diretriz indispensável também para o leitor/intérprete da Bíblia. -

“In Dichters Lande gehen” não significa apenas transportar-se em espírito à história e à cultura dos povos primitivos; este verso quer, antes de tudo, dizer que um texto antigo de milênios só pode ser “retamente” interpretado se o intérprete conhecer o “Sitz im leben” (contexto vital), a visão que os povos antigos tinham da vida, do mundo, enfim sua maneira de pensar e de conceber a religião.

Não é apenas uma distância temporal de milênios o que nos separa do mundo do Oriente Antigo e das personagens e fatos bíblicos. Muito maior é a distância configurada pelas diferenças da cultura que nos separa do modo de pensar e de exprimir-se dos hebreus, dos autores sagrados da Bíblia.

(Aguardemos para breve a parte II)

Anja_Arcanja

Um comentário:

Claudio Nascimento disse...

Muito boa essa perspectiva, ainda mais que mostra que nossa realidade e a realidade antiga tem contrastes históricos bem definidos.
E mesmo assim, pode ser que a interpretação de hoje não foi a mesma do sec I.

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