Pesquise artigos do blog:

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Da esperança (By Gondim)





(texto que li na noite histórica com a presença de Rubem Alves na Betesda)




Ricardo Gondim


Esperança já foi criticada como armadilha; ao prometer um futuro melhor, enganaria os incautos. Amaziada com a utopia, adiaria as iniciativas transformadoras do presente. Os corojosos, já se acreditou, não precisam de suas juras futeis, e só os covardes se valem de seus acenos.

Esperança se tornou substantivo que se desgastou por uso excessivo; na boca de demagogos, palavra piedosa que não comunica coisa alguma.

Porém, Esperança permanece o alento que resta aos pobres. Quem aguarda novos céus e nova terra levanta a cabeça. Por sua causa, na Páscoa, os judeus se cumprimentaram em guetos imundos: “No próximo ano, em Jerusalém”. Inspirados na Esperança, escravos negros cantaram nos velórios: “Free at last, free at last!”.

Esperança é irmã mais frágil da fé. Sua fragilidade vem da insustentabilidade. Esperança não nasce de certezas. O chão da Esperança, inseguro como areia movediça, será sempre improvável. Nas Escrituras, lê-se que “a Esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo?” (Romanos 8.24).

Mesmo incerta e incapaz de fazer promessas absolutas, Esperança alimenta o herói em sua gesta heróica. Animado pelo impossível, ele desenvolve sensibilidades que adensam os sonhos da Cidade futura, onde paz e justiça se beijarão.

Esperança espera, mas jamais obedece a mecânica do tempo. Nela, não existem cronogramas, relógios e planejamentos estratégicos. Enquanto flui, Esperança não se obriga senão que satisfará os que se engajarem pela vida. O galardão da Esperança resume-se a fazer da excelência um fim em si mesmo, jamais um meio.

A cor da Esperança dizem ser verde. Então, eis o tom que anima o vencido a continuar resoluto. Só ela ressuscita audácia em corações arruinados. Esperança, ao devolver alegria ao desiludido, lambuzado de cinza, nunca se contenta com uma só tonalidade. Ela é dona de todas as cores, na esperança mora um arco íris.
Esperança exorciza mau agouro, cala pessimistas e revoga os decretos do Destino. Esperança não sobrevive de quimeras; não procura construir castelos nas nuvens; não doura pílulas; não promove viagens alucinógenas. Todo esperançoso se torna companheiro de valentes, de intrépidos, de aventureiros. Neles, pulsa o coração de um batalhador, de onde surge a poesia mais inspiradora.

Esperança se move de trás para frente. Réstias de sua luz emanam desde o futuro longínquo para iluminar o presente. Esperança é a  força derradeira que anima o velho e o brilho que anima os olhos da mãe quando embala o filho.

Abraão, Moisés, Don Quixote, Martin Luther King Jr., e o Eródoto, meu pai, foram homens que navegaram nas águas da Esperança; oceano que conhecemos tão pouco, mas que sem ele não sobreviveríamos.

Soli Deo Gloria

Licença Creative Commons
Da esperança de Ricardo gondim é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Based on a work at www.ricardogondim.com.br.

Um comentário:

Claudio Nascimento disse...

Gondin, obrigado, seu discurso sobre a esperança é vivificador.
Já vi muitos defenderem a favor desesperança por isso seu discurso veio na hora certa.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...