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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Deus renuncia o poder para se relacionar (By Sostenes Lima)



O ser absoluto é pleno, acabado, não tem fronteiras, não comporta restrições, não admite condições e nem contradições; não tem qualquer tipo de carências; depende senão de si mesmo para ser o que é; é essencialmente uma potência absoluta, já que não há outro ser que lhe possa perturbar, desafiar, condicionar o poder; tem todo o poder; é todo-poderoso.

Não conhecemos, em nosso mundo natural e social, nada que seja absoluto. Todos os seres e objetos que estão no horizonte humano esbarram na falta de plenitude, na limitação, nas contradições intrínsecas etc. Todos eles são relativos; e o são simplesmente porque existem. Para existir é preciso relacionar; e para relacionar é preciso partilhar. Quando há partilha, qualquer que seja, não há mais espaço para o absoluto, porque o absoluto é único.

Tudo que foi dito até aqui, pode ser resumido em três proposições básicas: 1) O ser absoluto, Deus, é único e todo-poderoso, logo não pode estabelecer relação com nada; 2) Existem seres e objetos no mundo natural e social que foram criados pelo ser absoluto; 3) Esses seres e objetos não podem ser absolutos, por serem criados e por partilharem existência entre si. Essas três proposições são bastante aceitas no campo da teologia clássica e dogmática. Uma grande questão teológica, que dividem deístas e teístas, vêm logo em seguida, não permitindo que o debate se encerre na simples afirmação de que Deus é o ser absoluto, todo-poderoso, que criou o universo no qual vivemos.  Temos de enfrentar a seguinte indagação: Esse ser absoluto mantém relação com esse universo criado?

Para os deístas a resposta é não. Logo, não há problema em reconhecer em Deus uma soberania absoluta, já que ele não estabelece qualquer relação com o universo. Deus é absolutamente soberano em si e para si mesmo. E quanto ao universo? Deus o criou com leis de autogestão. Deus não se mete e nem se interessa por nada que por aqui acontece. Tudo é por conta do próprio universo. Ele mesmo se mantém, se expande, se recria... O ser humano faz parte desse movimento, sendo uma de suas maiores forças.

Para os teístas a resposta é: Deus criou o universo e mantém uma relação profunda com ele, ao ponto de ter decidido viver por aqui. Se Deus se relaciona com o universo, logo temos de enfrentar o conflito entre o conceito soberania absoluta, que atribui a Deus todo poder, e o de relação com o universo, que atribui a Deus um interesse pelo universo e pelo ser humano, compartilhando com eles partes de si.

Há duas maneiras de pensar a relação de poder de Deus com o universo, aqui denominadas de teísmo determinista e o teísmo aberto. Vejamos primeiro como o teísmo determinista elabora a noção de soberania.  Nessa corrente, Deus é visto como criador, controlador e mantenedor do universo, dirigindo todas as ações que por aqui se realizam. Deus é absolutamente soberano. Embora os seres humanos se julguem livres, há na verdade um conjunto de providências e decretos, cujo teor – em sua maior parte – é desconhecido dos homens, que estabelece de antemão todos os passos do universo. O ser humano julga ter condições de decidir, escolher e autodeterminar, mas na verdade já está tudo decidido, provido e decretado. Há no teísmo determinista um claro conflito entre a noção de todo-poder e a noção de relação. A afirmação de que todo o universo está sob o controle Deus e a reivindicação de que Ele se relaciona com esse universo são incompatíveis entre si. Por um lado, não há relação sem concessão de poder, e por outro não há poder absoluto se houver concessão de poder. Relacionar não é outra coisa senão estabelecer fronteiras de identidade dentro de uma zona de interesse comum e de poderes partilhados. Quando há relação, tudo se torna relativo, isto é, tudo estará relacionado com duas ou mais instâncias de poder. Se há apenas uma instância de poder, então não há relação. Nesse sentido, a noção de soberania do teísmo determinista parece insustentável.

No teísmo aberto o conflito entre as noções de soberania e relação parece menos problemática. Segundo a visão do teísmo aberto, Deus criou o universo com leis de autogestão, colocou nele um ser com capacidade de autoderminação (o homem) e estabeleceu com ambos uma relação de profundo interesse. Isso quer dizer que há três instâncias de poder em equilíbrio: Deus, universo e homem. Como essas três instâncias interagem sem que nenhuma seja anulada? A chave para essa questão está no conceito de relação, vista aqui como o estabelecimento de um pacto inviolável de compartilhamento de poder dentro de uma zona de interesse comum. Deus estabeleceu com o universo e com o homem um pacto de relação, distribuindo-lhes parte de seu próprio poder, a fim de que pudessem se relacionar com Ele. A concessão de poder é o que garante a relação. Logo, as três partes envolvidas detém, cada uma, uma cota de poder. É claro que Deus não se desfez de todo o seu poder, tornando-se completamente refém do poder que concedeu ao universo e ao homem. Deus continua tendo poder sobre o universo e sobre o homem, mas não todo o poder. A relação só é possível na medida em que Deus, Universo e Homem têm poder, e agem dentro dos limites que o poder de cada um permite.

Portanto, o teísmo aberto afirma que Deus é relativamente soberano, não absolutamente soberano. Deus tem poder sobre o universo e sobre o ser humano, mas limitado. Isso quer dizer que Deus se autolimita diante das ações engendradas pelo poder que foi concedido ao ser humano e à natureza. Essa concepção explica melhor o problema do mal no universo. Nessa perspectiva, a maldade não é outra coisa senão os resultados das ações de poder do homem agindo sobre si mesmo e sobre o universo. Diante dessas ações, Deus tem que restringir suas próprias ações, a fim de não quebrar o pacto de relação.

Para mim, o teísmo aberto é a corrente que permite uma melhor conciliação entre as noções de soberania e relação. Suas teses podem ser resumidas nas seguintes proposições: (1) Deus, em si mesmo e para si mesmo, é absolutamente soberano; (2) Deus criou o universo e o ser humano, dotando este com capacidade de autodeterminação; (3) Deus quis se relacionar com sua criação; (4) Para isso, abriu mão de sua condição de poder absoluto, concedendo ao universo e ao ser humano parcelas de poder, condição fundamental para que houvesse essa relação.



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Deus renuncia o poder para se relacionar de Sostenes Lima é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Based on a work at www.sosteneslima.com.

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