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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A farsa do martírio dos cristãos



 No martírio dos cristãos está estampado o sentimento anti-romano. Possivelmente  embora não passe de uma suposição  noventa por cento da população de Roma, no ano 100, era formada de não italianos de origem escrava [gregos na grande maioria]. Os romanos do principado constituíam uma raça nova e cosmopolita, diferente da composição étnica dos italianos [...]. (GRANT, p. 123) Esses orgulhosos descendentes de escravos gregos (anatolianos na maioria) não adotaram o latim. Impuseram a língua dos antepassados naquela nova sociedade na qual o ressentimento decorria. Contudo, devemos distinguir escravos, ex-escravos e descendentes dos gregos livres, que desde a república acorriam a Roma em busca de boa remuneração para instruir romanos.

Os romanos de origem (que já no final do primeiro século eram poucos na capital), as autoridades em especial, como no caso de Nero, foram retratadas como criaturas de uma perversidade inqualificável a se deleitarem com um grotesco requinte de tortura nas execuções de cristãos. Conta-se que Nero teria mandado besuntar os pobres coitados dos cristãos de óleo e lhes ateado fogo, para que iluminassem como tochas vivas o jardim do insano imperador.

Em 186 [a.e c.], por iniciativa do Senado, a polícia reprimiu grupos que praticavam os mistérios de Dionísio ou as Bacanais, que progrediam rapidamente no sul da Itália, penetrando em Roma. A essa prática combatida é atribuído um dos grandes males da sociedade romana, que já se iniciava naquela época. Desconhecem-se quando o culto de Dionísio passou da Trácia para a Grécia, possivelmente antes dos tempos históricos. Encontrou a resistência da racionalidade urbana grega, mas a vida no campo é dura e precisa de compensações. Inicialmente, continha elementos bárbaros, como cortar animais em pedaços e comê-los crus. Mulheres de diversas idades, em grupos, passavam a noite na colina, inteiramente nuas, entregues à dança, sob o efeito da embriaguez. O êxito do culto de Dionísio, na Grécia, se deve a uma ânsia por uma maneira de viver mais instintiva e apaixonada do que sancionada pela moral corrente. Baco, ou Dionísio, era, por fim, a promessa da união do elemento terreno com o elemento divino. (RUSSEL, 1957, p. 17, 18, 19, 20, 21)

 [...] quantas infamantes devassidões perpetraram com extorsões e assassínios; quantos conluios se tramaram para a subversão, não somente dos costumes, mas da sociedade e do Estado. Então, por mais de cinco anos, desenrolaram-se as investigações, as denúncias, os interrogatórios relacionados com a questão. Desencadeia-se a repressão: cerca de 7.000 pessoas são presas e um número bastante grande condenado à morte por uma justiça expedita.   (AYMARD; AUBOYER, 1974, p. 203)

Ficamos nós com a informação de que a justiça romana era expedita (prática e ligeira) no cumprimento das suas determinações: surras de varas para as penas mais leves; o machado (símbolo da polícia romana) para as penas capitais; crucificação para os crimes políticos. Ora, se era esse o costume, por que em toda história de Roma somente os cristãos foram vítimas de um sadismo grotesco e difícil de acreditar?
As notícias sobre as perseguições se devem principalmente a escritores eclesiásticos, sobretudo apologetas, e são em geral peças de retórica. Escasseiam os dados concretos. As anotações que seriam feitas sobre cada processo judiciário são um fantasma que paira sobre a hagiografia cristã: as Atas dos mártires é o argumento que desde Prudêncio justifica a vacuidade das notícias teriam sido destruídas por ordem de Diocleciano. Em qualquer caso, é sumamente escassa a documentação digna de algum crédito. (SÁEZ)

Os narradores dessas torturas, gregos natos ou de origem, objetivavam mostrar que as dores dos mártires ultrapassavam em muito às dores dos infelizes do circo. Uma dor que só valoriza aquele cujo padecimento não foi suficiente para que renegasse a própria fé. O que seriam as dores do cotidiano diante daquelas dores suportadas pelos mártires e pelo próprio Cristo, quando na outra vida a recompensa esperava por todos os crentes?

Antigas histórias gregas estão por trás da agonia literária dos mártires cristãos e do próprio Cristo. Sendo assim, encontraram eco facilmente em uma população ressentida. A idéia era provocar indignação e desprezo pelos bárbaros pagãos (romanos) e não contra o governo, pois os cristãos já faziam parte dele. O desprezo dos gregos pelos latinos perdurou por muito tempo nessa história, mas não ficou sem resposta. Os latinos sempre foram tidos e havidos pelos helenos e alguns helenizados como a ralé que mais escravizou no mundo. Se bem que os gregos, em momento algum da história dispensaram o serviço de escravos. Mas, enquanto não doeu na pele deles, tudo bem.

Os métodos de propaganda e convencimento utilizados pelo cristianismo eram sofisticados e requeria uma visão de largo escopo das mágoas e necessidades dos povos que compunham o Império Romano. Os cristãos foram muito competentes no trato com as classes baixas, médias e altas. Daí o sincretismo necessário e bem ao gosto urbano da época (primeiros séculos). Aquilo que a urbe consagrasse, o resto imitava. A cultura helênica permeava de longa data a tudo e a todos. Foi essa uma parte importantíssima da receita do sucesso e da rápida propagação do cristianismo depois que chegou ao governo.

Encontrei um interessantíssimo artigo de autoria do professor Oscar Cavalia Sáez, na revista Antropologia em primeira mão / Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, Universidade Federal de Santa Catarina. —, n.1 (1995). — Florianópolis: UFSC / Programa de Pós Graduação em Antropologia Social, 1995 a respeito do suposto martírio dos cristãos. Divirtam-se com esta leitura leve (só rindo mesmo) que, inclusive, oferece boas informações para consultas em suas notas.


Por mais que tentem distorcer a história, se apoiando na versão grega ou oficial (Novo Testamento), não há como se apagar esses vestígios. Passaram despercebidos porque não se procurava por eles. Passou-se muito tempo olhando para o lado errado (judeu) por pura indução na educação e no ensino. O pior é que ainda tem gente insistindo em estudar a bíblia para ver se descobre alguma “coisa nova”. A partir de agora, olhando para o lado certo (grego), tudo começa a fazer mais sentido. Quando começamos a descobrir gregos por trás de tudo o que diz respeito ao cristianismo, não há o que duvidar. Aquilo que chamam de influência grega é na verdade a própria origem, oculta há tanto tempo pela exposição.

Discordo do professor Sáez quanto à negação da interpolação no texto de Tácito, porque a intenção desta interpolação era dar “base histórica” à versão oficial do cristianismo no século I. Quanto a Constantino, que não adotou Cristo depois de uma batalha, discordo também. Trata-se de uma anedota reconhecida pela Igreja, inclusive nem há certeza de que ele tenha sido batizado no leito de morte. Causa-me espanto que estudiosos argutos tenham deixado passar a gritante incompatibilidade entre o desinteresse de Constantino pela fé cristã e a sua prestimosidade quase subserviente aos continuadores daquela crença. Isto merecia um estudo a parte e não um rótulo precário de “espertalhão”, dado por Engels.

O professor Saéz parece acatar a interpretação de Engels, que precisava sustentar a suposta origem proletária do cristianismo no primeiro século, e que a nova religião teria sido mais tarde manipulada pelo “espertalhão” Constantino. Na verdade, Constantino não teria sido tão esperto assim, pois o cristianismo era inexpressivo na ocasião e exigia grandes investimentos para se tornar viável como instrumento de poder. Estivesse Engels correto em sua conclusão, o lógico seria Constantino fazer-se batizar logo no início do seu governo, numa cerimônia estupenda que ressoasse por todo império, chegando ao trono como o piíssimo imperador bem-amado de Deus, à frente do verdadeiro Israel da Nova Aliança.
Se não foi assim, é claro que Constantino (que desprezava Roma) fazia parte de um plano maior, pois os cristãos há muito se relacionavam com os seus pais (que não eram latinos), na Ásia Menor. Quando Constantino chegou ao poder os cristãos já estavam bem posicionados pelo império, aguardando os recursos do governo, liberados prontamente pelo novo chefe do governo.  

Porém, admitir isto, seria admitir que o cristianismo tivesse sua origem nas classes médias e altas (como teve o socialismo científico de Marx e Engels) e não nas classes baixas (como conta a lenda cristã). Pois, era do interesse de Engels que assim aparentasse e o da Igreja também. Quem, de fato, poderia ter causado estragos ao cristianismo, ficou de fora (Bruno Bauer) e até hoje não se fala nele. Minha discordância está somente aí.

Referências
AYMARD, André; AUBOYER, Jeannine. História geral das civilizações. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 1974. 
GRANT, Michael. História das civilizações: o mundo de Roma. Lisboa: Arcádia, 1977.
RUSSEL, Bertrand. História da filosofia ocidental. São Paulo: Companhia Editorial São Paulo, 1957.

3 comentários:

Lôh disse...

Vou só salientar uma coisa:
Religiosos que se identificavam como "cristãos" só veio a ter muito tempo depois da Diáspora.

De 100 A.C. até a Diáspora ocorreu um forte movimento messiânico entre os judeus. Continuavam judeus e acreditam nos messias que surgiam.

Os 4 evangelhos (que foram fruto de um sorteio) possuem contradições históricas que mostram que eles poderiam estar se referindo a Messias diferentes (mas que os editores bíblicos fizeram questão de associar uma pessoa em comum.)

E é como seu texto mostra, a influência grega é muito grande, afinal, através de Paulo, eles tiveram acesso a crença messiânica. É muito fácil perceber a filosofia grega introduzida nessa nova crença que veio a se tornar o cristianismo que vocês conhecem hoje.

É só ir ligando os pontos... A verdade está fragmentada. Quem busca, encontra.

Fica na paz, Anja. Suas postagens são 10!

LOPES disse...

Quando os persas mandaram os judeus de volta para jerusalém, criava assim, uma cidade teocrática, onde o sumo sacerdote era o príncipe. Coincidentemente, temos ai, os nomes persas, Zorobabel e Mitríades, além do fogo sagrado. Os judeus viveram em paz com os Persas. Mas quando os gregos profanaram templo, colocando imagens pagãs, ai começa o reboliço.

Aparece os assideus, futuros fariseus, que iria subdividir-se em zelotas. O Lôh está correto, a crença nos moldes cristãos [a crença na ressurreição] já existia no ano 100 a. c. Mas, foi com o inicio das revoltas judaicas que esse crença ganhou força. Os primeiros cristãos, foram os zelotas, e não os nazarenos como eu pensava. Na verdade, foram os zelotas que foram chamados de cristãos.

Os mártíres, eram mártires zelotas, que acreditaram, no messias. Foi crença na ressurreição, que fez com que permanecem fieis na sua crença, e encarassem a morte. O resto, foi tudo manipulado, e o zelotismo se transformou no neo-mitrísmo, ou seja, cristãos...

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Conforme eu havia comentado este ótimo texto do Ivani no blogue do site Irreligiosos, há quem entenda que Nero teria martirizado cristãos e não judeus. Mas acho que o mundo um dia aidna saberá sobre a mentira tão bem contada acerca de Nero ter torturado cristãos já que, em seu reinado, nem deveria haver cristianismo ainda.

Concordo que o cristianismo tenha surgido entre as classes média e alta. Porém, também considero a existência de movimentos messiânicos judaicos e de pesquisadoes do Judaísmo que estavam construindo uma vertente esotérica a exemplo dos evangelhos de Tomé e de Filipe, a seita dos ebionitas, etc. E acho que alguns desses movimentos podem ter sido anteriores ao cristianismo.

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