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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A homossexualidade na visão budista. Uma reflexão.

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A religião sempre esteve presente nos debates sobre a sexualidade em geral e a homossexualidade em particular. Em relação à homossexualidade, devido a pregação contrária do cristianismo oficial e às perseguições dos fundamentalistas, a religião tem despertado sentimentos variados, indo da sensação de abandono à raiva.

Se a posição estabelecida por parte do cristianismo formal e das instituições religiosas, já foi, e continua sendo, objeto de críticas por parte do coletivo homoafetivo, e por parte de todos os que apóiam a causa, gostaria agora de ponderar, como budista, a visão do Dharma (Ensinamentos de Buda) sobre o assunto. Porém, , vamos ver algumas questões prévias:

1.- O objetivo do texto não é angariar simpatizantes para o Budismo. Aliás, o Budismo que eu sigo, de natureza mais filosófica do que religiosa, assemelha-se mais a um bebedouro de água, ao qual se aproxima quem tem sede, do que a um garçon que vai de mesa em mesa oferecendo o líquido.

2.- O Budismo filosófico não deve ser confundido com as sociedades orientais que o adotaram mais como uma religião formal do que como um experiência prática de vida, embora muitos dos ensinamentos budistas tenham sido absolvidos pela população, talvez numa proporção bem maior do que os do cristianismo pelos ditos cristãos. Faço esse comentário para alertar que sociedades budistas podem (e são) preconceituosas sobre vários assuntos, em maior ou menor grau, fato que não invalida as concepções filosóficas do Budismo.

3.- O Budismo é uma das poucas religiões ou filosofias que exortam a seus estudiosos ou seguidores a combater todo e qualquer tipo de sectarismo, de fundamentalismo e de condicionamento ideológico, de forma que o que se afirma dentro do sistema budista deve ser objeto de reflexão, crítica e vivência prática. Nas palavras de Buda:

“Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque esta escrito em seus livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas depois de muita análise e observação, se você vê que algo concorda com a razão, e que conduz ao bem e beneficio de todos, aceite-o e viva-o.”

Dito isso, esclarecemos que não há nos Ensinamentos budistas nenhum preceito que condene a homossexualidade, nem que proíba a “prática homossexual”. Na verdade, Buda se referia à sexualidade humana como um todo, sem especificar o seu caráter hétero, bi ou homossexual. Nos esclarece o professor Traleg Kyabgon:

(...) O terceiro preceito é abster-se de conduta sexual errônea. No budismo, o sexo não é visto como algo ruim ou anormal em si. Os budistas leigos podem ter prazer sexual e vidas sexuais normais, sem sentirem culpa ou medo de punição. Porém, tornar-se obsessivo por sexo, como todas as obsessões, pode causar enorme dano à própria pessoa e aos outros. De novo, o critério real é quanto dano está sendo causado, e não o ato em si. Assim, o preceito não deve ser interpretado como uma proibição do sexo, ou sua limitação para fins de procriação. Abster-se da conduta sexual errônea implica não se engajar em atividades sexuais que causem conflitos, ressentimento ou dor. Por exemplo, aventuras extra-conjugais que causam dor e sofrimento a nosso parceiro constituem conduta sexual errôneas, devendo ser evitadas. Mas os ensinamentos budistas deixam claro que o que é aceitável ou não em termos de atividades sexuais e de procriação varia de uma cultura para outra, e também de um indivíduo para outro, de modo que esses fatores devem ser levados em conta. Fundamentalmente, os ensinamentos se referem às atividades sexuais que causem dano, gerando dor, ressentimento, amargura e desapontamento”. (A Essência do Budismo – Uma introdução à filosofia budista e sua prática, Traleg Kyabgon, Mandarim, São Paulo - 2002)

Como vemos nesse comentário, Buda não se referiu à homossexualidade. Ele fala de conduta sexual errônea, e não de orientação sexual, muito menos ainda de “opção sexual”. Uma conduta é manifestada por qualquer pessoa, independentemente de sua orientação sexual. O texto também reconhece o aspecto cultural (ou histórico-sóciocultural) da expressão sexual, como também o papel da individualidade, na afirmação do que é ou não lícito em termos sexuais. De forma que não temos verdades absolutas, nem padrões divinos inquestionáveis e eternos sobre a sexualidade humana.

O Budismo aplica à sexualidade humana, como de resto a todos os outros comportamentos, e aos sentimentos e pensamentos, sua cosmoética: “abster-se de trazer sofrimentos pra si e para os outros seres”. Assim, uma vez que a homossexualidade, tal como a heterossexualidade, seja expressada sem que haja prejuízo para ninguém, ela será tão lícita, aceitável e, usando a terminologia búdica, meritosa, quanto a heterossexualidade.

Espero que tenha conseguido, com esta apresentação da visão budista sobre a sexualidade humana, ter dados elementos filosóficos que nos ajudem na compreensão e na aceitação do outro.


Licença Creative Commons
A homossexualidade na visão budista. Uma reflexão. de Alberto C. Maia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Based on a work at albertocesarcm.blogspot.com.

Um comentário:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Olá!

Bem interessante esta visão do budismo acerca da sexualidade, visto que ela busca mais focar na essência das coisas do que propriamente em mandamentos materializados pela tradição religiosa.

É certo que a tradição também pode ser vir de orientação como ocorre, por exemplo, no judaísmo ou no taoísmo, bem como no hinduísmo, sendo que neste há uma liberalidade maior. E, embora não conheça a fundo o budismo, penso que devem existir livros de ensinamentos acerca do sexo escritos quem sabe por vários mestres, ainda que sem condenar a homossexualidade ou um tipo de ato de sexual.

Dentro desta visão budista que colocou, poderíamos perguntar: a homossexualidade fará bem?

E a resposta seria de que só a própria pessoa sabe responder. E eu não estou na pele de nenhum gay ou lésbica para poder julgar. Só sei que, da mesma forma como sentiria repulsa a ter relações sexuais com alguém do mesmo sexo que eu, talvez o homossexual sinta o mesmo quanto a transar com pessoa do sexo oposto.

De certo modo, até este pensamento atribuído ao apóstolo Paulo poderia também deixar livre cada consciência semelhante ao budismo se não fosse o conjunto de regras impostas pela ortodoxia cristã:

"Todas as coisas me sao lícitas, mas nem todas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. Os alimentos são para o estômago, e o estômago, para os alimentos; mas Deus destruirá tanto estes como aquele. Porém o corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor para o corpo." (1Coríntios 6.12-13; ARA)

Após ganhar a fama de ser um relativista dentro do meio cristão e assumir a minha posição, encontro agora um Buda que também é relativista assim como eu (e acho que Jesus também foi). Porém, tenho muitas reservas quanto ao celibato dos momges budistas e dos padres católicos. A impressão que tenho é de que muitos budistas têm um tipo de compulsão pelo Nirvana e a busca desenfreada pelo desapego faz com que muitos deixem de celebrar a vida em todos os seus aspectos e momentos. Aí parece-me que tais monges acabam é fechando o chacra da sexualidade, sendo que pra mim o melhor me parece ser a abertura de todos os chacras.

Abraços.

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