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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

INTOLERANCIA - O julgamento do pastor Estêvão


O julgamento do pastor Estêvão
By Rodrigo

Era um domingo muito tenso na reunião da Igreja. Ao invés de estarem todos se confraternizando e louvando a Deus, os membros da congregação compareceram ali para acompanhar passivamente o conselho eclesiástico decidir pela expulsão do pastor Estêvão.

O pastor Estêvão era um homem muito popular e querido pelos evangélicos, católicos e até por pessoas da cidade que não seguiam a nenhuma religião. Promovia diversas atividades sociais, bem como organizava protestos contra os políticos corruptos, o que incomodava bastante os interesses dos poderosos e dos líderes eclesiásticos locais. Contudo, nada podia ser dito contra a sua reta conduta. Ele apenas era visto com desconfiança por sua posição teológica liberal pelos que tinham mais apego doutrinário à ortodoxia. Só que, desta vez, o ousado pastor tinha deixado perplexos os crentes conservadores daquele lugar. Na semana anterior à reunião, Estêvão fora denunciado ao bispo presidente do conselho por ter celebrado uma união homo-afetiva entre duas lésbicas.

Para que o estatuto da igreja fosse cumprido, uma assembleia geral precisou ser convocada e o pastor Estêvão teria que ser ouvido. E foi o que prontamente fizeram os principais conselheiros porque aquela era a grande chance que tinham para afastar da liderança o irmão herege e perturbador do sistema econômico e social.

Levantando-se no meio de todos, após ter cumprimentado os irmãos com a "paz do Senhor" e explicado porque estavam todos reunidos ali, o bispo Ananias passou a inquirir o réu:

- “É verdade isto que andam falando a seu respeito? Tem quinze minutos para se defender”

A esta pergunta respondeu o pastor Estêvão, deixando sua cadeira e tomando o microfone:

- “Meus queridos irmãos e irmãs. Por favor, sejam capazes de me ouvir. Como ensino aos meus alunos do seminário, o glorioso Deus inspirou os autores da Bíblia afim de orientarem o povo de Israel na sua caminhada histórica. Porém, todos eles foram homens de carne e osso, iguais a mim e a vocês, cujos corações sentiram-se motivados para escrever coisas que, conforme seus valores, consideravam serem as corretas. E deste modo, de acordo com a necessidade do povo, ensinaram preceitos direcionados à realidade social da época, fazendo tudo com sensibilidade, mas sempre dentro de seus valores culturais e pessoais. Ao terem testemunhado diante da nação israelita, seus discursos foram atualizados em conformidade com o novo contexto histórico da época dos escribas redatores dos textos bíblicos nas gerações seguintes. E foi desta maneira que surgiram os escritos das partes da Bíblia que a cristandade chama de Antigo Testamento e o mesmo se aplica ao Novo Testamento.”

Até aí muitos ouviam aquelas palavras com alguma admiração. Outros, porém mais versados na doutrina religiosa, levantavam desconfiança em seus corações. Só que a grande maioria mal conseguia acompanhar o que estava sendo discursado. Mas assim mesmo o pastor Estêvão prosseguiu:

- “Um dia, veio ao mundo um homem chamado Jesus da descendência do rei Davi e do patriarca Abraão, como muitos outros judeus na sua época. Ele começou sua atividade ministerial andando entre os pobres e pregava sobre o Reino de Deus e a prática do amor. Em volta dele, juntaram-se pessoas de todos os tipos: ladrões, prostitutas, coletores de impostos, leprosos e toda a ralé do Galil. E creio que até muitos homossexuais deveriam segui-lo também, apesar deste detalhe não ter ficado registrado nos evangelhos oficiais e nem nos apócrifos. Porém, o que importava era que Jesus não condenava a ninguém pelo seu modo de ser ou falhas de caráter. Ele aceitava o outro incondicionalmente! Certa vez absolveu uma mulher adúltera que iria ser apedrejada dizendo aos seus acusadores que atirasse a primeira pedra quem nunca pecou. Em outro episódio, quando seus discípulos foram acusados por alguns religiosos de profanarem o sábado, Jesus lembrou aqueles fariseus provincianos do que Davi fizera na vez em que seu bando precisava urgentemente de comida, pelo que fora ao sacerdote Abiatar pedir que fossem dados os pães exclusivos do santuário para a satisfação de uma necessidade vital. E isto Jesus disse-lhes para mostrar que o direito à vida está acima de qualquer lei porque antes de tudo é preciso cuidar da sobrevivência e do bem estar do seu próximo.”

Neste momento, em que membros do conselho eclesiástico estavam prontos para contra-argumentarem e pedirem uma parte na palavra, o pastor Estêvão, ao perceber que novamente iria encarar uma discussão teológica inútil, resolveu propositalmente radicalizar o seu discurso:

- “Agora ouçam, ó homens egolátricos, insensíveis para ouvir e meditar nas coisas espirituais, vocês sempre resistem ao vento evolutivo da história. Assim como aqueles fariseus medíocres e invejosos do interior da Galileia teriam perseguido a Jesus, vocês fazem a mesma coisa. Pois como vou negar a um homossexual nascido nesta condição o direito de ter um relacionamento afetivo com alguém com quem possa se relacionar intimamente? Que poder tem uma meia dúzia de versículos de uma Bíblia escrita por homens para impedir duas pessoas do mesmo sexo de serem felizes da única maneira que elas conseguem ser? Mas se os evangelhos contam que os religiosos da época de Jesus teriam tramado suas ciladas contra ele, vocês que se consideram detentores das tradições cristãs e pensam serem donos de Deus estão praticando o mesmo pecado. Vocês cujos ancestrais espirituais receberam as boas novas pelo testemunho apostólico e não guardaram a sua essência!”

Quando ouviram isto, os conselheiros da igreja ficaram furiosos, taparam os ouvidos e começaram a ranger os dentes contra o pastor Estêvão, clamando:

- “Herege! Herege!”

Já outros chamavam-no de “ateu”, “pecador”, “pederasta” e até de “pedófilo”. Porém, mesmo em meio aos gritos furiosos e irracionais das pessoas presentes, eis que, naquele momento, o pastor Estêvão ainda conseguiu dizer suas últimas palavras usando o microfone da igreja:

- “Quando olho para o céu, sinto como se Jesus, sentado do lado do Pai, estivesse de pé encorajando-me a continuar levando estas boas-novas da inclusão e ministrando a Santa Ceia aos nossos irmãos gays e lésbicas.”

Com a aprovação do bispo, um jovem chamado Saulo, estudante do seminário teológico e que tinha um blogue sobre apologética cristã na internet, resolveu intervir, desligando primeiramente o microfone que estava nas mãos do pastor Estêvão.

Virgem, reprimido sexualmente, sem nunca ter namorado e se considerando zeloso das tradições dos evangélicos, o rapaz fazia de tudo para agradar o bispo que também era o reitor da faculdade. Ambicionava algum dia ocupar o lugar de Estêvão de depois de Ananias, após se formar.

Sem nenhum respeito pelo pastor e professor, Saulo chegou por detrás do seu mestre, agarrou-o com violência e o colocou à força pra fora do templo:

- “Seu blasfemo e enganador! Fora da casa de Deus! É por causa de falsos irmãos como você que o nome de Cristo é ridicularizado entre os ímpios. Saia daqui!”

Seguindo Saulo, muios conselheiros ali presentes continuaram clamando contra o pastor Estêvão. Uns tentaram até exorcisá-lo. E, quando chegaram na porta da igreja, ele foi empurrado escada abaixo. Porém, ainda disse:

- "Senhor, perdoa-os porque esses homens não compreendem o que estão fazendo."

Ainda naquele dia, Saulo liderou uma manifestação de evangélicos e católicos fundamentalistas pelas ruas da cidade afim de protestarem contra o homossexualismo e o casamento gay. E, no meio dos religiosos, estavam também uns neonazistas e muitos machistas homofóbicos infiltrados.

Quanto ao pastor Estêvão ele foi tratado como se estivesse morto pela comunidade eclesiástica local. Os evangélicos moradores da cidade passaram a não mais convidá-lo para entrar nas suas casas. 
Nenhum outro pastor permitiu mais que Estêvão pregasse em púlpito e houve até gente que deixou de cumprimentá-lo na rua virando a cara, além de que a faculdade teológica dispensou-o de suas funções. Contudo, alguns homens e mulheres verdadeiramente piedosos aproximaram-se de sua pessoa e juntos lamentaram por causa da ignorância do povo.

Artigos e crônicas de Rodrigo sob o link Crônicas de Rodrigo da Luz

Licença Creative Commons
O julgamento do pastor Estevão de RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Based on a work at doutorrodrigoluz.blogspot.com.

4 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Olá, amiga!

Fico grato pela divulgação do meu texto em seu blogue.

Desejo que vidas possam ser edificadas com estas reflexões.

Grande abraço!

Anja_Arcanja disse...

Grata eu querido!

É o que desejo, edificar vidas através de crônicas como as suas!

Bejux

Anja!!!

Anônimo disse...

Muito interessante o texto e a mensagem. Repete atualizando as discussões relatadas de Jesus com os homens da lei, homens do formalismo e que tanto foram vergastados pelas palavras de Cristo.
Por outro lado, fico eu pensando nas diferenças contextuais.
Ao tempo de Cristo, a autoridade civil também era a religiosa. Hoje, não mais. A mensagem que seguiam era segregacionista, hoje não mais e graças à Paulo, o epilético.
Que razão, então, leva pessoas a buscarem bênçãos ou homologações em clubes - chamados igrejas - que sabidamente não admitem seu comportamento em seus estatutos? Que necessidade mórbida eu vejo em buscar nas mãos de homens a sanção daquilo que Deus já sancionou e está disponível para si?
O que leva pessoas de bem, bem intencionadas, a conviverem hipocritamente como pregadores de doutrinas que não concordam? Seu salário? Seu status?
Amam-se, vivam seu amor. Não precisam de homologações de homens para o que foi sancionado por Deus.
(FregaJr)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Caros amigos,

Fico feliz que tenham gostado do texto que escrevi.

Os comentários do FregaJr. interessam-me. Inclusive no que diz respeito às igrejas.

Bem, eu entendo que as igrejas atrapalham bastante. Principalmente quando elas se enrijessem. Porém, elas não deixam de ser estruturas que muitas vezes realizam. Principalmente quando encontramos o povo na sua lamentável escuridão. Aí, por mais que seja infantil alguém terceirizar suas escolhas existenciais em relação a um padre ou pastor, penso que, em muitos casos, há uma pequena melhora da condição do sujeito.

Todavia, quando alcançamos um nível de consciência capaz de nos elevar em relação à condição anterior, permanecer em determinadas igrejas torna-se uma perda de tempo. E aí, mesmo pra quem já tinha uma atuação ministerial no grupo religioso, chega à conclusão de que há maneiras mais eficientes de se trabalhar para a edificação do outro e que a estrutura eclesiástica chega a ser um impecilho para o autoconhecimento.

Posso dizer, por experiência própria, que a incompatibilidade ministerial acabou sendo o principal motivo de ter me afastado das duas últimas igrejas nas quais me congreguei. Numa, que era neopentecostal, passei a achar tudo aquilo bem alienante. Depois dela, fui pra outra igreja do ramo batista que atua bem na área social, criticando governos e lutando pelo bem estar social. Isto até certo ponto levouy-me a estabelecer uma identificação com eles. Só que aí a incompatibilidade começou a pegar na questão da tarefa do esclarecimento já que eu não aceitava a leitura de textos bíblicos a luz de dogmas não explicados, pelo que não demorou para que fosse mal visto como relativista, coisa que hoje assumo que sou.

Resumindo, quero expressar que copreendo o fato de muitos ainda viverem na dependência psicológica de igrejas, assim como respeito uma criança em só querer andar de bicicleta com duas rodinhas a mais.

Abraços.

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