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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A mulher siro-fenícia e sua nova proposta de fé




Texto publicado no livro "O Espírito sopra onde quer"
SOUZA Daniel (org.) São Leopoldo, CEBI, REJU, 2011.
O Espírito Sopra onde Quer. 


Texto Bíblico: Marcos 7.24-30

Objetivo: Conhecer e viver uma fé libertadora, além dos padrões, e ter a liberdade de se jogar, sem medo, a essa fé.

COM OS OLHOS NA VIDA...
Minha infância foi uma infância feliz. (...)
Não era preciso dizer os nomes dos deuses nem eu os sabia.
O sagrado aparecia, sem nome, no capim, nos pássaros, nos riachos, na chuva, nas árvores, nas nuvens, nos animais.
Isso me dava alegria!
Como no paraíso...


(Rubem Alves, “Se eu pudesse viver minha vida novamente”)

Há um tipo de religiosidade hoje, que nos oprime. Somos treinados no modo de viver a nossa fé. Aprendemos o(s) nome(s) de Deus, o que dizer ou o que não dizer a ele/a, como nos portar diante do sagrado, como sentir a espiritualidade. Aprendemos fórmulas, ritos, palavras mágicas para que nos encaixemos nessa relação com o divino. Não temos a chance de descobrir nossa espiritualidade, de perceber o início e o caminho de nossa fé. Não há um diálogo com o sagrado; há apenas a ordem de permanecer calada/o e colocar máscaras religiosas que nos fazem acreditar em uma pseudorreligiosidade sadia. Há respostas para tudo nesse tipo de religiosidade: o porquê dos males, a causa dos problemas, os passos para alcançar o sucesso. Mas quando essas respostas não são suficientes para o completo entendimento, a expressão “Deus sabe de todas as coisas”, é jogada em nosso rosto, como um sinal de que devemos nos calar e aceitar a realidade, sem questionar.

Religiosidades excludentes têm dado conta da nossa espiritualidade? Tais fórmulas religiosas são suficientes para nos ensinar essa relação com o divino? Será que essas respostas prontas, não dialogais, não fazem com que a nossa fé seja fraca e sem raízes? Como criar uma profunda relação com o divino, sem pensar, sem questionar, sem poder aprender com o outro a caminhada da fé?



COM OS OLHOS NA VIDA DO TEXTO...
A passagem da mulher siro-fenícia no caminho de Jesus, nos traz novas leituras sobre essa relação com o divino. Uma mulher estrangeira, humilhando-se aos pés de um profeta judeu, por causa de sua filha, que estava endemoniada. Ela sabia que as mensagens de Jesus não eram para o seu povo, que a cura que ele podia realizar não era destinada à sua filha. Mas contra toda a etiqueta, ela se jogou aos pés do profeta, e clamou por sua filha. Podemos aprender muito com essa mulher e sua fé, que foi lembrada nas narrativas do movimento de Jesus.

Ela ultrapassa o silêncio
Uma mãe desesperada, que não mediu esforços por amor à sua filha. Ela sabia que ali estava o profeta que poderia livrar a menina do mal. Passa por cima da etiqueta, quebra o silêncio, e joga-se aos pés de Jesus. Os discípulos pediram que Jesus a dispensasse, que a calasse, mas essa mulher não pode ser silenciada. Ela é determinada e quer ser ouvida, e é o que faz, levanta sua voz, e manifesta seu anseio.
Devemos ultrapassar o silêncio exigido dessa religiosidade instituída. Precisamos falar, pedir, levantar a voz, compartilhar nossas necessidades e buscar a realização dos nossos desejos, diante de Deus.

Ela dialoga com o mestre
Quando Jesus a ouve, dá uma resposta xenófoba[1] esperada, por causa de sua missão destinada unicamente aos judeus. Ele a dispensa, mostra que ela não é prioridade diante de tantas pessoas a serem atendidas e curadas por ele. A mensagem de Jesus era como uma pérola, que não podia ser desperdiçada e jogada aos porcos e cães (Mateus 7.6). Neste sentido, os pagãos eram caracterizados como esses animais impuros, e sua mensagem não poderia ser esbanjada com eles. Mas é aí que vem a surpresa: ela questiona, dialoga com o mestre. Mesmo que clamando por migalhas, ela reivindicou seu direito de ser ouvida e atendida. Sua reação foi tão inesperada, que Jesus se surpreende e muda seu discurso. Ele volta sua atenção para ela, valoriza sua atitude e atende ao seu pedido. Diferente dos outros diálogos, ela tem a última palavra, seu argumento prevalece sobre o de Jesus.

Ela ensina uma fé libertadora
A postura da mulher siro-fenícia é valorizada por Jesus. “Por causa desta resposta, você pode ir; o demônio já saiu de sua filha” (v. 29). A mensagem de Deus é abundante o suficiente para satisfazer não apenas os judeus, mas também os gentios. Ela entendeu isso, e nos ensinou uma fé que poucos haviam compreendido, nem mesmo os próprios discípulos. Sua liberdade em se expressar, sua liberdade ao não se calar, sua liberdade em clamar por ajuda, dialogar com o mestre e reivindicar sua cura, trouxe a libertação de sua fé. Essa fé não se encaixa nos padrões impostos. Essa fé vai além da etnia, do gênero, da posição social ou do próprio credo. Essa fé salvou sua filha, salvou sua relação com o divino, salvou a nossa própria concepção de diálogo com o sagrado, por ter sido registrada nos evangelhos. Sua fé traz a libertação da nossa própria.




COM O TEXTO OLHANDO A VIDA...
A mulher siro-fenícia nos ensina uma nova postura de fé. Intensa, transparente, saborosa, além das normativas. Ela nos ensina a viver uma fé inteligente, que dialoga com o diferente e nos leva em direção da cura de nossos preconceitos. Essa mulher ensinou Jesus a superar seu próprio preconceito[2]. E nos ensina a vencer o nosso.

Que, seguindo seu exemplo, não nos calemos diante da injustiça; que não nos conformemos com as imposições religiosas; que não tenhamos medo de viver uma fé intensa. Que a nossa fé nos liberte de nós mesmos, e nos leve em direção a uma nova relação com o divino.

Deus, Deusa, Deuses... precisamos aprender, como Jesus aprendeu com a mulher siro-fenícia, a dialogar. Sempre queremos impor, falar, mas não estamos dispostos/as a ouvir, a mudar nossa postura. E isso faz com que a nossa fé seja opressora. Esse diálogo inter-religioso é possível. Podemos compartilhar nossa fé com irmãos/ãs de outras confissões. Esta é a fé libertadora. Vamos dar as mãos, juntar nossas vozes, e unir nossas espiritualidades, caminhando juntos/as em direção ao sagrado.

[1] Aversão à(ao) estrangeira(o).
[2] Para um estudo sobre o assunto: FIORENZA, Elisabeth S. “O Movimento de Jesus como Movimento de Renovação dentro do Judaísmo”, in: “As origens cristãs a partir da Mulher – uma nova hermenêutica”. Paulinas, 1992.

SUGESTÕES DE LEITURA:
FIORENZA, Elisabeth S. “O Movimento de Jesus como Movimento de Renovação dentro do Judaísmo”, in: “As Origens Cristãs a partir da Mulher – uma nova hermenêutica”. Paulinas, 1992.
PEREIRA, Nancy Cardoso. Revista RIBLA: As mulheres e a violência sexista. Petrópolis: Vozes, 2002.
REILY, Duncan Alexander. Ministérios Femininos em Perspectiva Histórica. Campinas/São Bernardo do Campo: CEBEP/EDITEO, 1997. 


Licença Creative Commons
A mulher siro-fenícia e sua nova proposta de fé de Priscila Pereira é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Based on a work at feministanaofemista.blogspot.com.

Um comentário:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Excelente texto! E parabéns pela coragem em tocar num ponto tão perturbador dos evangelhos.

Não é por menos que muitos cristãos evitam comentar esta passagem já que ela desafia a concepção doutrinária de católicos e evangélicos sobre a perfeição do Messias.E aí, quando algum pastor resolve pregar sobre a mulher siro-fenícia, apenas a sua fé é retratada e aspectos interessantes da conduta de Jesus ficam ignorados.

No texto que escrevi ano passado em meu blogue "O dia em que Jesus se aperfeiçoou", coloquei:

"Quando nos fechamos dentro de uma concepção pronta e acabada em relação a qualquer assunto, corremos o sério risco de empobrecer a nossa visão de mundo e também deixarmos de exercitar a capacidade de reflexão dada pelo Criador. Assim, a fuga de termos paradoxais torna-se uma atitude imatura e estúpida da mente religiosa, além de ser uma conduta que jamais poderá responder às inquietações íntimas que trazemos. Logo, fugir de uma reflexão sobre o texto porque ele perturba as concepções sobre um messias divinizado e/ou perfeito não vale a pena."
(http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2011/09/o-dia-em-que-jesus-se-aperfeicoou.html)

Entretanto, a quebra do mito de que Jesus não foi um cara totalmente perfeito, no sen tido de não ter escorregado em aspecto algum, jamais me afastaria dele. Pelo contrário,a passagem nos mostra um Jesus em evolução e que não se recusa a crescer. O cara que venceu sua xenofobia e, com isto, transcendeu.

Acrescento também que, com base na humanidade limitada de Jesus, não temos que alimentar ambições loucas de santidade perfeccionista, mas sim andarmos com graça rumo ao nosso melhoramento ético e existencial, o qual deve ser feito com abertura. Isto significa estarmos disponíveis para mudanças de posições afim de acolhermos quem quer que se encontre no nosso caminho, independentemente da pessoa crer em Deus ou não da mesma maneira que nós. Pois só assim é que vamos de fato conseguir amparar o outro, sem impormos requisitos quanto à origem, classe social, ideologia política, posição moral, grau de instrução, poder aquisitivo, idade, profissão, sexo e até mesmo a orientação sexual.

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