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domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Salmo que uma Jó contemporânea escreveu (By Gondim)




Salmo do desespero
Ricardo Gondim


Certa mulher sofria de uma síndrome rara. Na flor da idade, dores, mal estar, debilitação, passaram a fazer parte do seu cotidiano. Na cabeceira do seu leito de hospital, enfermeiras encontraram um papel amassado. Abriram imaginando tratar-se de alguma receita médica ou talvez alguma correspondência recebida durante o tratamento. Para a surpresa de todos, era um Salmo desesperado:

Hoje quero escrever um Salmo em que derramo todo o meu rancor contra um Deus que nos faz esperar sem necessidade. Deus nos deixa sofrer sem precisão. Que Deus é esse que se revela conceitualmente, mas não se mostra em um prosaico remédio que cura uma doença banal? Que Deus é esse que se faz carne para revelar seu rosto amoroso, mas não se faz carne para revelar a vacina contra malária. Em meu Salmo, digo o que os cantores de Israel nunca tiveram coragem de dizer: fomos criados para a tragédia; nossa breve e estúpida existência não passou de um erro cósmico. No dia em que o sol explodir e a terra deixar de existir, o universo não sentirá nossa falta. Deus não sentirá falta da humanidade. Mas nós, desaparecidos e reduzidos a nada, retribuiremos nosso desprezo ao Divino. Nossa não-existência será um tapa na cara de Deus. Nós também não sentiremos sua falta. 

As enfermeiras choraram. Mas, nas lágrimas derramadas, jamais se entenderá a angústia de alguém que precisou escrever uma poesia tão dolorida.

Soli Deo Gloria

Amargurado em Crônicas e Poemas


Licença Creative Commons
Salmo do desespero de Ricardo Gondim é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Based on a work at www.ricardogondim.com.br.

2 comentários:

Marcio Mendes disse...

Queria entender uma coisa como fica sua última frase, diante do exposto em sua postagem?
Pra mim ficou sem concordância, não podemos discutir nem entender a soberania de DEUS.

Desenha pra mim!

Lôh disse...

Interessante essa postagem...
Uma boa analogia ao "bíblico" Jó...

Concordo com o Marcio Mendes em relação a não poder discutir nem entender a soberania de Deus, mas complemento o seguinte:
DEUS não tem nada a ver com o sofrimento dela e muito menos com as bençãos que outros recebem. Seria injusto da parte de Deus, abençoar alguns e deixar outros se darem mal. DEUS é o supremo espírito e não tem necessidade de ficar se envolvendo em questõezinhas materiais supérfluas ou doenças. O rancor dela teria mais sentido se fosse voltado para o homem, especialmente para aquele cria "Deus". Um Deus baseado no próprio ego humano, egoísta, que faz acepção de pessoas, abençoa materialmente só aqueles que o servem, amaldiçoa os que não o adoram e não perdoa aqueles que escolheram viver livres ao invés de presos a ordenanças mundanas que dizem ser divinas...

Sábio poema por parte do Ricardo Gondim... Acho que peguei a idéia do poema dele...

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