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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Odores





Fé demais, fé de menos. Fé de tudo que é jeito. Fedor só.
Fé fede, perguntarão? Qual seu fedor, pois inodora se imagina.
A fé que fede é a fé no homem, a fé na arrogância de ser o objeto da fé.
Fede a fidesfobia. Fede a fideslogia. Fede a ciência tentando ser objeto de fé.
Fede a demolição da fé de quem a tem, como pilar-mestre de sua vida.
Fede a crueldade de tentar demoli-la. Isso é fé de quê?
Da iconoclastia inconseqüente?
Da verdade absoluta? Essa não está ao alcance humano. Já diziam os gregos, mora no fundo do poço.
Atire a primeira pedra em mim aquele que tiver fé de que detém a absoluta verdade.

Porque fé não é certeza comprovada, porém assumida. Fé é intrínseca a cada ser que tem fé em que quiser. Ou puder.
Na lógica, a fé fede por impostura. Pois fé não se impõe, não se explica, não se comprova. Não há evidências que se inconteste. Fé é insanidade e, ainda assim fé.
Fé não são igrejas, corporações e congregações. Fé não são milagres, dízimos e palavras. Fé não são livros, ditos e ritos.

Fé é fé. Nem demais, nem de menos, pois imponderável é. A fé.

Lições e ensinamentos, evidências e interpretações, tão únicas e individuais como cada ser, suportam e sedimentam a fé. Que não reside no cérebro, mas no todo do ser. E maior do que ele próprio. Mais um paradoxo.
Essa é inodora, não fisicamente sensorial.

O que interessa se A é assim e B assado? Isso prova o quê, além do assim de um e o assado do outro. Certos e errados existem somente nos julgamentos que fazemos, tão individuais como a própria fé. Manipuláveis julgamentos, na mesma qualidade dos que manipulam a fé, ou a falta dela, em interesse próprio. E não são poucos. Extremos que se atraem e se encontram, que se fundem na intolerância.
Dos piores livros, extraem-se lições também. Dos mais execráveis bandidos extraem-se aprendizados. E execráveis somos todos na vaidade e na corrida contra o vento.

Fé não se rotula, não se convence, não se determina, sob pena de se falar sobre o que não se sabe, pois a única que sabemos é a nossa própria fé. E sua ausência também é uma forma de fé. O limite da sabedoria é expor, se pudermos, a nossa fé. Sem a prepotência de sabê-la única, como se aplicável a seres plurais.

No respeito à diversidade há o respeito à fé alheia. Concordar integralmente com ela, impossível ou, ao menos, improvável. O respeito, sim, é possível, se admitido na diversidade dos próprios enigmas de cada uma das mentes.
Pois não há uma verdade universal, exceto a nossa própria.
E essa, sabemos, é vaidade e correr contra o vento, na expectativa de pará-lo.

FregaJr.


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Odores de FregaJr. é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Based on a work at omundodaanja.blogspot.com.

Um comentário:

Priscila Anjo disse...

Lindoooo!
Muito bom!

"Fé não se rotula, não se convence, não se determina, sob pena de se falar sobre o que não se sabe, pois a única que sabemos é a nossa própria fé. E sua ausência também é uma forma de fé."

Parabéns pela poesia em meio as críticas!

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