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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Por que Claudia Leitte, e não Edmundo? Afinal, que querem os gays?


Como ativista e jornalista LGBT, continuo considerando que a escolha de Claudia Leitte para madrinha da Parada Gay de Salvador é um equívoco. Das três, uma: ou o GGB (Grupo Gay da Bahia) tomou um chá alucinógeno, ou a diretoria é formada por fãs da loira - fãs daquele tipo que "tudo desculpa" em relação a seu ídolo -, ou criou um factoide para causar comoção e tão-somente divulgar a Parada. Torço para que seja a última hipótese.

Em entrevista a Léo Áquilla para o TV Fama, em 2008, para quem não se lembra, Leitte disse que "adora os homossexuais", mas preferia que seu filho "fosse macho". Ato contínuo, foi secundada pelo marido, que declarou que o filho seria "bem-criado". O curioso? Ainda tem gente - gays, inclusive - que não acha que a declaração foi infeliz!

Resta, porém, a pergunta: afinal, o que queriam os gays? Que ela dissesse que preferia ter um filho gay? E, diriam outros, não seria uma "discriminação" contra heterossexuais se ela assim o dissesse?

A resposta é não... Os gays não queriam que ela dissesse que preferia ter um filho homossexual. O que os gays queriam, e ainda querem, é ser amados por seus pais independentemente de sua orientação sexual. O que os gays queriam, e ainda querem, é que sua orientação sexual não seja, por si só, um elemento que cause decepção a seus pais, até o ponto que os pais gostariam que eles fossem de outro jeito, como se ser gay fosse, por si só, um "defeito".

Devo dizer que não me importa se Leitte é ou não homofóbica na sua vida particular, na sua vida profissional, na relação com seu staff ou com seus fãs nos shows, nem mesmo se seu bloco no Carnaval é aquele onde gays mais beijam ou não. Inclusive, considero ser impossível determinar que ela seja homofóbica ou não apenas por uma declaração que, de toda forma, pode ter sido totalmente espontânea e, quem sabe, até impensada.

O que importa, e aí já como profissional da comunicação social, é que sua declaração reforçou, simbolicamente, o machismo e a homofobia que tantos dissabores causam a gays já no seio da família. Somente quem é homossexual, travesti ou transexual sabe o sofrimento e as crises que nos são infligidos, ainda em tenra idade, por pais que "preferiam ter um filho macho" - e pelo medo de que eles descubram que somos homossexuais.

Somente quem é homossexual, travesti ou transexual sabe também que essa preferência quase nunca é tão-somente uma preocupação genuína dos pais ou das mães quanto ao fato de seus filhos sofrerem ou não preconceito por parte de terceiros, argumento que Luiz Mott, por sinal, tem usado para defender a escolha de Claudia Leitte por parte do GGB, mas a manifestação de um valor social inegavelmente de matriz homofóbica que os irmana a outros que veem a homossexualidade com desconforto e/ou algo indesejável... Como, enfim, algo indigno, um elemento passível de causar decepção.

Se Claudia Leitte tivesse respondido, frente à pergunta de Léo Áquilla, que se tivesse um filho gay, isso não importaria: ela o amaria de qualquer jeito, seria um exemplo e um modelo para tantos gays e seus pais, além de mostrar que existem pais e mães esclarecidos que, pelo amor, ultrapassam a barreira cultural imposta pela homofobia e amam seus filhos independentemente do que são - e não pais que amam com um "mas". Era isso, repito, que os gays queriam.

Ao não fazer isso, Claudia se irmanou aos pais do "mas": ama o filho, "mas" gostaria que ele fosse de outro jeito. Ama o filho, "mas" gostaria que ele fosse macho - e, muito provavelmente, não por simples preocupação com o filho, mas pelo conforto que isso traria para a própria Leitte, uma vez que sabemos que, mesmo quando o filho é patentemente feliz com sua homossexualidade, os pais do "mas" ainda preferiam que ele "fosse macho" e se casasse com uma mulher.

Exemplo muito diferente deu o ex-jogador e comentarista Edmundo (http://www.mundomais.com.br/exibemateria2.php?idmateria=2041 ), que declarou amar incondicionalmente seu filho, independentemente de sua condição sexual, uma mensagem, aí sim, muito mais condizente com o que queremos transmitir a nossos pais, ainda que Claudia Leitte tenha evoluído em suas opiniões, do que, de minha parte, até o momento, não vi qualquer sinal.

Portanto, não se trata, como se vê, de "rancor", como porta-vozes do GGB têm dito sobre nós outros, que discordamos da escolha da loira para madrinha. Trata-se da mensagem que estamos transmitindo à sociedade... Ou vamos fingir não é possível ver um Silas Malafaia fazer uso de todo esse imbróglio, a fim de argumentar que "nem os gays" querem ter filhos gays e usando a declaração de Claudia Leitte como "prova" de que a homossexualidade é algo sempre indesejável, até por parte daqueles que têm inúmeros fãs na comunidade homossexual?

Fica, portanto, a pergunta ao GGB... Por que optar pela madrinha do "eu amo, mas", e não pelo padrinho do amor incondicional? Por que optar por alguém que adora os homossexuais, desde que não sejam de sua família ou seus filhos, em vez de alguém que aprendeu a amar incondicionalmente, para além das diferenças sexuais? Por que Claudia Leitte, e não Edmundo? 

João Marinho


Via Gospel Gay
Outro texto relevante ao tema no link: Já que é pra falar a verdade. Eu não quero ter um filho gay!

Um comentário:

Priscila Anjo disse...

Perfeito o seu texto, querido!

Também não entendi essa escolha depois dessa declaração homofóbica e sexista dela.

Como você disse, os pais devem amar os filhos e ponto. Não só com relação à orientação sexual mas a todas as outras áreas na vida dos filhos.

Ótimo texto, João!
E bem-vindo ao nosso mundo tão plural, no Mundo da Anja!

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