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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Robinson Cavalcanti - Ressonâncias de uma utopia possível




Ler "A utopia possível” foi muito marcante para mim. Eu tinha entre 18 e 19 anos e estava no segundo ano do seminário. Eu já estava num processo de reconstrução, de refundação de uma série de conceitos que tinham moldado minha vida até aquele momento. O que essa leitura fez foi potencializar a mudança. Junto com outros livros, “A Utopia possível” me fez enxergar um novo horizonte para a experiência de fé. Os textos de Cavalcanti me abriram muitas janelas para a vida e para transcendência; me ajudaram a romper com um passado religioso opressor.

Nasci e cresci numa redoma bastante fundamentalista, reacionária, sectarista, supersticiosa, de extrema direita política e avessa ao conhecimento científico. Não me dava muito bem com esse mundo, mas, devido a um temperamento amistoso, não consegui ser rebelde. Me faltou ímpeto e sobrou medo.

Eu tinha medo de tudo, mas principalmente de um Deus ágil em vingar servos que se amotinam. E olha que esse Deus metia medo mesmo! Ele tinha, a seu serviço, um grupo de comparsas que fazia parte do trabalho sujo. Bastava um pequeno escorregão para que ele autorizasse a convocação de um conselho do mal, chamado de “reunião de ministério”, para dar jeito na vida dos rebeldes. Esse grupo de anciãos, bastante parecido com aquele que Jesus confrontou por diversas vezes, era responsável por interpretar os cânones do direito divino e estabelecer a pena necessária para corrigir (ou simplesmente punir de forma exemplar) os infratores.  Todo mundo tinha medo da tal “reunião de ministério”. Ali Deus manifestava, de forma concreta, seu desejo vingança; ali a honra de um Deus ofendido era severamente reparada.

Mas o Deus aterrador que me ‘livrou’ da rebeldia ainda tinha outro expediente de coação mais potente. Ele era o mentor e executor de todos os infortúnios e tragédias. “Ai de quem cair nas mãos de Deus”, diziam os pregadores. Eu tinha muito medo das mãos desse Deus grego, inconstante, vingativo, passional e, apenas ligeiramente, amoroso. Me lembro de uma vez que ousei desobedecê-lo. Não resisti e fui jogar bola. Minutos depois, estava eu lá no chão com o pé inchado, sentindo uma dor enorme, mas insignificante, se comparada à dor da culpa que me assombrava. Pensava comigo: “É um sinal de Deus. Ele está me dizendo pra eu não fazer mais isso. Se eu insistir, a coisa pode ficar pior”. Sai decidido a nunca mais nem me aproximar de um jogo de futebol para não ser nem tentado. Hoje desejo jogar futebol, mas sofro com a impossibilidade de fazê-lo. Não aprendi fazer coisas simples com uma bola, como por exemplo dar um passe certo. Para não envergonhar, nem aborrecer meus amigos, prefiro nem jogar.

Esse mundo, extremamente opressor, conseguiu aparar minhas asas, colocar cercas em volta de mim durante toda a infância e parte da adolescência. Simplesmente fui enredado. Opressão e o obscurantismo religioso, se mantidos e alimentados, podem deformar a vida, o caráter, a pessoa. Felizmente, o dia da liberdade estava à espreita. No final da adolescência, me vi em condições de começar uma jornada, árdua mas fundamental, de desidealização e esvaziamento dos poderes que tanto me assombravam. Fui para o seminário. Lá continuava a operar uma série de forças opressoras, mas sem o mesmo poder de antes.

Foi no seminário que entrei em contato com o mundo dos livros. A história nos mostra o quanto eles foram fundamentais para deflagração de praticamente todas as revoluções modernas. Os livros nos libertam (eles podem nos aprisionar também, eu sei!). Li alguns livros que supostamente dariam argumentos e fundamentos mais sólidos para aquela visão de mundo que cercou a minha infância. Achei todos muito chatos, superficiais, ridículos. Então comecei a ler outros livros, que não chegavam a ser proscritos, mas eram completamente alheios ao mundo da minha infância. Foi aí que comecei a ler alguns autores que falavam da necessidade de uma incursão social da fé. Fiquei fascinado. Entre eles estava, obviamente, Robinson Cavalcanti. Li avidamente “A utopia possível” e “Cristianismo e política”. De repente me descobri um petista entusiasta. Meu primeiro voto para presidente, em 1998, foi para Lula, com entusiasmo e militância. Poucas pessoas, do meu entorno igrejal e familiar, entendiam isso; afinal, eu estava no meio de assembleianos. Não é novidade para ninguém que os assembleianos só vieram a votar em Lula a partir da campanha de 2002, e com muita suspeita. Um assembleiano de verdade, da gema, só votava em Fernando Collor e Fernando Henrique.

São muitas as marcas de Robinson Cavalcanti em mim. Voltei a ler alguns artigos de “A utopia possível” hoje. Me surpreendi com semelhança de nossas ideias. Me apropriei de tal modo de algumas teses de Cavalcanti que já não me lembro mais da fonte. Penso que influenciar é exatamente isso. É fazer com que o outro seja tão envolvido por uma ideia alheia ao ponto de não mais se lembrar de que a ideia é alheia. Ser influenciado é ser surpreendido por uma amnesia; é se esquecer da origem do saber; é permitir que as vozes alheias se fundem de modo tão entranhado com a minha, ao ponto de faz nascer uma nova voz mestiça, mas com identidade própria. Devo muito a Robinson Cavalcanti. Já sinto saudades, mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente. Em mim, seu desejo de uma utopia possível ressoou com muito ímpeto.

Sostenes Lima

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