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domingo, 18 de março de 2012

Ambiguidades da memória (by Sostenes Lima)



Ambiguidades da memória


Revisitar o passado é uma atividade cheia de ambiguidades. A memória nos coloca diante de alegrias, lugares, pessoas, cheiros, sabores e formas encantadas. Mas também nos leva a encarar outra vez abismos, monstros e dores que, com o passar do tempo, se tornaram cada vez mais danados e medonhos. De vez em quando temos de revisitar a memória, não apenas para degustar o que se encantou, mas também para experimentar o sabor amargo e indigesto daquilo que se deteriorou. Só mesmo uma jornada com desejo de mudança pode nos garantir a reinvenção do passado, harmonizando e aconchegando os desprazeres e prazeres da memória.

Como é bom lembrar de certos cheiros que, embora tenham se desmanchado como nuvens, se encontram cristalizados como pedaços de pedra na memória. Esses cheiros são irrepetíveis; a memória os condensou numa fórmula irreplicável.

Como é bom lembrar de lugares que, embora tenham sido reconstruídos a cada ano transcorrido, estão  intactamente conservados na memória: uma casa, um quarto, um curral, um trieiro, uma ribanceira, uma rua sem pavimentação, uma rua calçada com blocos de concreto na forma hexagonal, uma igreja, um quintal. São tantos lugares... Eles foram todos suplantados pela história, mas a memória tratou de conservá-los para eu poder revisitá-los sempre que a saudade bate à porta.

Quando, depois de adultos, voltamos a algum lugar de nossa infância, frequentemente somos tomados por um sentimento de estranheza, de perda, de traição, de vazio. Não sei descrever com clareza esse sentimento. É difícil captar algumas nuances de sua estrutura. Penso que ele é um grito de resistência da memória. Quando confrontada por um não-lugar, um lugar que não é seu lugar, a memória me diz: “Não permita que eu seja desfeita, corrompida ou substituída; não troque o lugar encantado que está em mim por este lugar frio, retalhado e artificial que que está diante dos seus olhos”.

Lembrar também pode ser uma dança desengonçada com a dor. A memória também tem seus lugares, pessoas e experiências medonhas.  Como dói lembrar... Neste momento, não estou querendo me lembrar daquilo que dói lembrar.

Sostenes Lima

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