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sexta-feira, 30 de março de 2012

A libertação dos homens peixes




Andando à beira do mar da Galiléia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: “Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens”. No mesmo instante eles deixaram as suas redes e o seguiram. Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Eles estavam num barco com seu pai, Zebedeu, preparando suas redes. Jesus os chamou, e eles, deixando imediatamente seu pai e o barco, o seguiram. (Evangelho de Mateus 4.18-22; Nova Versão Internacional - NVI)


Se, nos dias de hoje, Jesus passasse por dois pescadores na Baía de Guanabara e os chamassem dizendo que faria deles “pescadores de homens”, a expressão talvez pegasse muito mal dentro da nossa cultura maliciosa. Seu convite não seria compreendido, pois apenas temos o conhecimento do significado desta imagem pela leitura textual dos Evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) de modo que, sem a Bíblia, pescar homens não faria muito sentido no Brasil.

Por várias vezes, tentei refletir por mim mesmo sobre aquele chamado para que Pedro e André se tornassem os pescadores de homens. Buscava obter um entendimento mais profundo da passagem bíblica em comento do que aquilo significasse, mas não chegava a nenhuma conclusão, suspeitando apenas de uns meses para cá que pescar homens talvez fosse algo relacionado ao linguajar dos judeus nos séculos I e II da nossa era.

De fato, se quisermos empreender uma exegese dos Evangelho, torna-se aconselhável estudar a Tanak, isto é, a Bíblia hebraica, a qual corresponde aos livros do Antigo Testamento cristão, visto que Jesus e os autores do Novo Testamento utilizavam-se de expressões comuns da tradição dos judeus presentes no cotidiano da época.

Lendo o livro “O Autêntico Evangelho de Jesus”, de Geza Vermes, pude então confirmar que, realmente, a locução “pescadores de homens” já era algo existente na cultura dos judeus, mas que fora empregada por Jesus de uma maneira brilhante para chamar alguns de seus primeiros seguidores.

De fato, os profetas Jeremias e Habacuque também fizeram uso dessa imagem verbal, como se pode observar nas seguintes passagens de juízo dirigidas aos israelitas por volta do século VI a.C:


“Mas agora mandarei chamar muitos pescadores”, declara o SENHOR, “e eles os pescarão. Depois disso mandarei chamar muitos caçadores, e eles os caçarão em cada monte e colina e nas fendas das rochas. (Jr 16.16; NVI)


Tornaste os homens como peixes do mar, como animais, que não são governados por ninguém. O inimigo puxa todos com anzóis, apanha-os em sua rede e nela os arrasta; então alegra-se e exulta. (Hc 1.14-15; NVI)


Curiosamente, os pescadores e os caçadores mencionados por Jeremias podem ser identificados como os inimigos de Israel (os caldeus) e aparecem como executores do julgamento de Deus contra a impiedade de seu povo, o qual é capturado como se fosse peixe.

Ainda segundo Geza Vermes, pode-se também encontrar uma metáfora semelhantes a do profeta nos manuscritos de Qumran em que o poeta hebreu “vê os filhos da iniquidade pegos na rede de pescadores ou capturados por caçadores”, confirmando que, numa época que antecedeu o surgimento do cristianismo e do judaísmo rabínico, a pesca de homens fazia mesmo parte do cotidiano da sociedade judaica na Palestina. Todavia, os rolos do Mar Morto já não se referem à nação israelita, mas sim aos homens que andam no caminho da perversidade, dando a entender que, no decorrer dos séculos, tal ideia dos escritos proféticos expandiu-se na cultura judaica até os tempos de Jesus.

De qualquer maneira, pode-se observar facilmente que as perturbadoras palavras de Jesus mencionadas nos Evangelhos deram um novo sentido à expressão “pescadores de homens” e não tenho dúvidas de que aquele chamado possa mesmo ter despertado o interesse de Simão Pedro e André quando eles receberam o convite para acompanharem o Messias.

Certamente aquele convite de Jesus era bem enigmático e a sua pessoa talvez não fosse desconhecida para Pedro e André. De acordo com a passagem de João 1.35-42, Jesus poderia ter sido apresentado a ambos como sendo o Messias, o “Cordeiro de Deus”, a partir do testemunho de João Batista numa ocasião que, provavelmente, fosse anterior ao episódio narrado em Mateus 4.18-22. Então, depois que João Batista já estava preso, o Senhor retornou para a Galileia (Mt 4.12) e, caminhando pelas margens do lago, encontra novamente Pedro e André.

O chamado de André, Pedro, Tiago e João podem ser comparados ao do profeta Eliseu quando Elias encontra-o arando o campo de sua família e conduzindo a décima segunda parelha de bois (uma coincidência com o número de apóstolos de Jesus e das doze tribos de Israel). Então Elias joga sobre Eliseu seu manto. Este deixou os bois e foi correndo atrás de Elias, atendendo ao chamado (1Rs 19.19-20).

Da mesma maneira, aqueles quatro pescadores da Galileia deixaram de lado suas redes e foram seguir o Messias, crendo que se tornariam “pescadores de homens”. Provavelmente, eles estavam desejando saber o sentido da expressão usada por Jesus e também ansiosos por conhecer o sentido da Vida.

Ainda assim, no que consistiria ser um "pescador de homens"?

A meu ver, a resposta é dada de maneira bem prática nos versículos seguintes que relatam resumidamente o início da obra de Jesus:


 Jesus foi por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo. Notícias sobre ele se espalharam por toda a Síria, e o povo lhe trouxe todos os que sofriam de vários males e tormentos: endemoniados, loucos e paralíticos; ele os curou. Grandes multidões o seguiam, vindas da Galiléia, Decápolis, Jerusalém, Judéia e da região do outro lado do Jordão. (Mt 4.23-25; NVI)


Em Marcos, a passagem que segue a vocação dos quatro primeiros discípulos é o ensino de Jesus com autoridade num dia de sábado na sinagoga de Cafarnaum, onde liberta um homem possesso de demônios (1.21-28) e, após o por do sol, tendo já livrado a sogra de Pedro de uma febre (vv. 29-31), efetuou diversas outras curas entre o povo (vv. 32-34).

Pelo poder do Espírito Santo, após seu batismo, Jesus cumpriu o começo do seu ministério com curas milagrosas e expulsando demônios, o que significou a confirmação de sua obra messiânica, a qual consiste na libertação dos homens das redes de Satanás. Ou seja, até a manifestação de Jesus, o povo desviado de Deus fora capturado pelos anzóis dos inimigos e agora estava sendo liberto por quem de fato em poder para libertar.

Numa metáfora, os caldeus e os povos invasores de Israel, anunciados pelos profetas como instrumentos do juízo divino, representam também o domínio espiritual do diabo sobre os homens. Porém, com a chegada do Messias e do Reino de Deus, o adversário é expulso, pois Jesus, com sua autoridade, dá ordens ao demônio que saia. A pesca, a partir de então, passa a ser a pescaria de Deus para a liberdade e salvação das pessoas.

Nos dias de hoje, muitos líderes religiosos dizem ser pescadores de homens, mas nem todos realmente são. Aliás, melhor dizendo, nenhuma religião pesca para libertar as pessoas e sim para oprimir, escravizar, iludir. Trata-se de uma maneira de homens dominarem outros homens.

Confesso que, dentro das igrejas, já ouvi pastores usando a expressão “pescar no aquário do vizinho” para externarem um sentimento de indignação e de reprovação pelo fato de outro líder religioso ter vindo tirar pessoas de seus currais eclesiásticos. Para eles, pescar consiste em aprisionar os homens dentro das suas instituições.

Jesus veio justamente libertar seu povo das garras do adversário, visto que, nos tempos de seus ministério, os homens estavam aprisionados pelas enfermidades, pelos demônios e também pela religiosidade, o que é muito pior. Logo, Deus não quer que sejamos peixes de aquário.

Que se quebrem os aquários!


Em Cristo,

Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz

Um comentário:

Steve Gleidson disse...

Olá sei que você segue o blog mente interrompida e sou grato por isso, estou pra lhe informar que ele passou por algumas mudanças e agora se chama http://meusdevaneiosemfoco.blogspot.com.br/. Abraço.

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