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sexta-feira, 23 de março de 2012

Nietzsche e o falso ateísmo (by Matheus De Cesaro)



A principal idéia detectada na filosofia desenvolvida por Friedrich Nietzsche consiste na frase que irei destacar ao leitor no parágrafo abaixo:

“O cristianismo diz que tudo neste mundo é menos importante do que o que esta no mundo após a morte. Diz também que devemos nos afastar do que parece importante nesta vida e tentar transcendê-la. Mas ao fazer isso nós nos afastamos da própria vida, acreditando em uma visão cristã do homem que nos enfraquece, e devemos de alguma forma buscar superar esta idéia limitadora. Em suma, o homem é algo a ser superado.”

Juntamente com outros filósofos como, Platão, Immanuel Kant, Soren Kierkegaard, Albert Camus, Michel Foucault e também Jacques Derrida, Nietzsche é um dos grandes contribuintes no surgimento e fortalecimento do “existencialismo”. Ele nasce em 1844 na Prussia em um lar muito religioso, onde a grande maioria de seus familiares homens eram ministros luteranos e as mulheres tementes e fervorosas em oração ao Deus do cristianismo. Ainda quando criança ele perde seu pai e seu irmão e passa a ser criado somente pela mãe, avó e suas duas tias. Mas não quero aqui trazer a biografia deste homem, isso você encontra em seu livro Ecco Homo. Hoje quero trazer ao leitor uma idéia bem diferenciada do que estamos acostumados a ouvir sobre Nietzsche. Quero aqui estruturar ao leitor, de forma bem sucinta, a idéia de que o “ateísmo” de Nietzsche, supostamente desenvolvido pelos ateus e agnósticos modernos, não passa de uma mentira, uma bengala para se apoiar pela ausência de evidências na luta de comprovar a inexistência do Eterno, o Ser Criador, o Ser que nos capacita a nos superarmos e nos desenvolvermos em direção à vida em semelhança com Cristo, no agir, pensar e viver; ou o desenvolvimento do super-homem, como diversas vezes disse Nietzsche, de forma poética em seus escritos, fazendo referência ao desenvolvimento interno de nossa espiritualidade.

Observe a citação abaixo, encontrada no livro Gaia e Ciência, pág. 125:
“Já ouviu falar daquele louco que acendeu uma lanterna pela manhã, correu para a praça do mercado e pôs-se a gritar incessantemente: “Eu procuro Deus! Eu procuro Deus!”. Como muitos dos que não acreditavam em Deus estivessem justamente por ali naquele mesmo instante, ele provocou muitas risadas... “Onde esta Deus!” ele gritava. “Eu devo dizer-lhes: nós o matamos, você e eu”. Todos somos assassinos... Deus esta morto, Deus continua morto e nós o matamos”

Quando li este texto pela primeira vez, considerei uma afronta a minha imagem cultural e religiosa acerca do que Deus é e representa pelas concepções prontas do cristianismo, e automaticamente rotulei Nietzsche de ateu. Mas como bom curioso que sou, continuei a leitura e comecei a investigar e analisar a vida e obra deste homem. E por diversas vezes li e reli seus livros, e pasmem, nunca encontrei o desenvolvimento de uma idéia ou teoria que tentasse de alguma forma contrariar a existência de Deus! Em todas as suas obras ele nunca sequer mencionou a não existência de um Ser Superior, denominado por cada um de nós culturalmente e por conceito herdado, de “Deus”. A expressão que se refere a “morte de Deus”, em nenhum momento esta relacionada com a difusão de idéias anti-teístas, em nenhum momento esteve associada a intenção ou pretensão de disseminar o ateísmo, isso é uma idéia equivocada, rasa e superficial do que representa os escritos de Nietzsche em relação a espiritualidade. A morte de Deus, nesta expressão, e no contexto do livro Gaia e Ciência, assim como nos livros Anticristo e Assim Falou Zaratustra se refere nitidamente a uma crítica audaciosa, bem argumentada e violenta ao que na época representava a figura e imagem de um Ser Superior. Essa morte representava para Nietzsche o fim e o declínio da formulação do Deus que a metafísica clássica ocidental havia construído; era a morte do que por meio do misticismo religioso e do cristianismo havia se figurado em a imagem de Deus. Sua idéia desenvolvida no contexto de suas obras era de que, o Deus do cristianismo deveria morrer na consciência do ser humano como mantenedor do sistema tradicional, cultural e institucional de valores. Era um passo firme e convicto na busca do desenvolvimento não manipulado da espiritualidade do homem; era o inicio do ciclo do super-homem. Não se pode de forma alguma atribuir a Nietzsche uma idéia ateísta, o que vejo nele é um espírito revolucionário, alguém que não media palavras, esforços e fundamentos para desmontar e aniquilar os dogmas, a religião e seus afins, mesmo que para isso tivesse que se manifestar de forma que suas teses parecessem loucura. Um grande desbravador no que se refere a lutar contra a institucionalização da religião e sua corrupção. Ele era tão audacioso que certa vez ele disse que:

 “religiões são coisas do populacho, e eu tenho que lavar as mãos depois que tenho contato com religiosos”.

A morte de Deus não se resumia simplesmente a morte de uma deidade, como pseudos estudiosos insistem em afirmar. Nesta afirmação morrem todos os valores ditos elevados que herdamos. Não há como não perceber que nesta filosofia desenvolvida por Nietzsche, ele explora e desenvolve uma “revaloração de todos os valores”, uma tentativa ousada de questionar todas as maneiras habituais de pensar sobre ética e os sentidos e objetivos da vida. Ao fazer isso Nietzsche desenvolveu o que arriscou chamar de “filosofia da alegria”, que embora subverta tudo o que imaginamos de forma concreta acerca do bem e do mal, procura afirmar a vida. Desta forma ele defende que tudo que pensamos serem coisas “boas”, são de fato, formas de nos limitar a vida, ou a grosso modo, são maneiras de afastar as pessoas da vida.  E é este existencialismo explícito na vida e obra de Nietzsche que descarta a idéia de ateísmo defendida por pessoas que sequer, se deram ao trabalho de analisar de forma categórica quais eram as intenções e objetivos do autor. Um homem livre, que racionalmente e pelo estimulo da psique estruturou uma filosofia livre de prisões conceituais para defender a importância do desenvolvimento do homem em busca da sua auto-superação. Mesmo sem ter uma escrita, nos padrões filosóficos de sua época, ou seja, sem aquele tom sereno e analítico comum na filosofia do Mundo Moderno, ele conseguiu de forma majestosa expor e estruturar uma visão extraordinariamente desafiadora e consistente, e Sigmund Freud ao falar sobre ele disse: “o grau de introspecção alcançado por Nietzsche nunca foi atingido por ninguém”. Foi um homem que, mergulhado em seus instintos e sentimentos, compreendeu que a existência de um Ser Superior não estava e jamais estará enclausurada em uma cultura herdada e projetada, nem ao menos em um conjunto de dogmas e padrões estabelecidos de comportamento. Um exemplo típico da manifestação máxima de Deus, que não está no gotejar das escrituras, mas sim na forma empírica e individual de cada um, internamente manifestada pela busca e experiência. Isto é, na minha simples compreensão, o desenvolvimento do Super-Homem.

E para concluir a idéia, leia o fragmento abaixo escrito em o Anticristo pág. 09:
“Onde quer que a influência dos teólogos seja sentida, há uma transmutação de valores, os conceitos de “verdadeiro” e “falso” são forçados a inverter suas posições: tudo que é mais prejudicial à vida é nomeado “verdadeiro”, tudo que a exalta, a intensifica, a afirma, a justifica, e a torna triunfante é nomeado falso... Quando teólogos através da “consciência” dos príncipes (ou dos povos) estendem suas mãos ao poder, não há qualquer dúvida quanto a este aspecto fundamental: que o anseio, a vontade niilista, aspira o poder...”

Aqui mais uma vez Nietzsche de uma forma bem estruturada, esculacha os religiosos, fazendo esta crítica aos teólogos que julgavam ter a essência daquilo que era eterno sobre eles e que se resumia as escrituras. Nietzsche se posicionava a estes, chamando-os de “sacerdotes da morte”. Pois anunciavam um Deus metódico, finito e limitado a dogmas e preceitos pré-estabelecidos; o que, para Nietzsche era loucura, pois não acreditava que um Ser Superior estivesse como que preso a uma caixa. É como costumo em algumas situações dizer:

“realmente Deus se revela nas escrituras, mas isso é apenas um gotejar de sua natureza, a máxima da revelação da natureza divina se dá em nossas vidas, é particular, pessoal e intransferível; e está associada intimamente com a vida na terra e o convívio com os demais. Cristo exaltou este principio a todo momento e nisto conclui sua trajetória: o relacionamento com Deus e o próximo,um viver na terra sem prisões e concepções formadas, embaladas, pasteurizadas e distorcidas de nossa realidade humana”

Nietzsche foi um revolucionário na filosofia e também na teologia saudável; foi audacioso no combate a religiosidade, não temeu a rejeição da sociedade que, culturalmente e por herança, estavam presas ao dogma; e enfrentou, mas em nenhum momento na história elaborou, estruturou ou teve a pretensão de escrever uma única linha na tentativa de provar a não existência de Deus. Por isso para tristeza de alguns pseudos ateus e agnósticos, neste texto eu afirmo que o ateísmo de Nietzsche é falso. E se por insistência, queiram rotular Nietzsche de ateu por meio de sua vida e obra, quero declarar-me ateu graças a Deus.

“Há sempre o seu quê de loucura no amor, e há sempre o seu quê de razão na loucura”
(Friederich Nietzsche – Assim Falou Zaratustra pág. 59)

Matheus De Cesaro 
Licença Creative Commons
Nietzsche e o falso ateísmo de Matheus De Cesaro é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil.
Baseado no trabalho em invulneraveis.blogspot.com.br.

4 comentários:

Matheus De Cesaro disse...

É interessante que o ateísmo que defende suas idéias em Nietzsche, é um ateísmo pobre e equivocado, pois quando Nietzsche afirmava que "Deus estava morto", ele não se referia a um ser em essência, logo, essa expressão "matar a Deus" significava, noutras palavras, matar o “dogma”, o “conformismo”, a “superstição” e o “medo”, e não aceitar mais a imposição de regras cristalizadas, que impossibilitam a superação e a transcendência, além da auto-afirmação do ser humano, que luta incansavelmente para libertar-se elevar-se em sua saga existencializada. Partindo desta premissa, se a definição de Nietzsche como ateu, por não acreditar na religião é fato, não tenho como não me classificar desta forma, pois creio em um ser em essência e não em uma religião pobre, cega e nua.

Claudio Nascimento disse...

Não é essa a oração de Nietzsche:

ORAÇÃO AO DEUS DESCONHECIDO

Antes de prosseguir em meu caminho
e lançar o meu olhar para frente uma vez mais,
elevo, só, minhas mãos a Ti na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas de meu coração,
tenho dedicado altares festivos para que, em
Cada momento, Tua voz me pudesse chamar.
Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras:
“Ao Deus desconhecido”.
Sou, sou eu, embora até o presente tenha me associado aos sacrílegos.
Sou, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo.
Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servi-lo.
Eu quero Te conhecer, desconhecido.
Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida.
Tu, o incompreensível, mas meu semelhante,
quero Te conhecer, quero servir só a Ti.

Nietzsche

(Traduzida do alemão por Leonardo Boff)

Prof. Alex disse...

Falso ateísmo? O que seria? Você não define o termo.
Que você queira elaborar uma teologia sob uma base nietzscheana, siga em frente, mas não tente extrair uma espiritualidade onde ela não existe; Nietzsche não defende em seus escritos nenhum tipo de espiritualidade ou religiosidade, pelo contrário ele era bastante, se é que cabe o termo, materialista.
Não sei se Nietzsche era ateu e,se é verdade que seus escritos não promovem nenhum tipo de ateísmo, tampouco defendem alguma forma de teísmo ou sobrenaturalismo ou mesmo teologia.

Matheus De Cesaro disse...

Professor Alex, a questão não é formar uma teologia tendo como base a filosofia de Nietzsche e nem fazer uma ligação dele com o fator "espiritualidade", porém tudo isso é relativo se tratando de filosofia, pois a partir do momento que com liberdade conjecturamos em nossa mente com seus escritos, qualquer interpretação se torna relativa. Mas o que exatamente quis dizer com o texto, é que não há em sua obra um linha sequer estruturando uma ideia ateísta, e convenhamos que se , deus esta morto, logo ele existiu, logo houve uma existência e o ateísmo que alguns dizem ser promovido de forma poética e por metáforas por Nietzsche se torna uma afirmação falsa, e ao mesmo tempo relativa, pois se dá por meio de conjecturas. E ser materialista, não quer dizer que uma pessoa em algum momento não se preocupe ou se identifique com espiritualidade. Eu mesmo tendo uma educação de base cristã, mesmo tendo sido ensinado a não se apegar ao materialismo, me considero materialista, e isso não me afasta de em diversos momentos buscar desenvolver uma espiritualidade, o que defino como um certo ponto de equilibrio. E quanto ao nível de introspecção que Nietzsche se colocava? Será que nestes momentos ele conjecturava sobre fatores ligados ao materialismo? Ou em seu mergulho interno buscava de alguma forma desenvolver uma espiritualidade, o qualquer outra coisa que o afasta-se do materialismo? Enfim, meras conjecturas, conceitos e ideias, graças a Deus, todas refutáveis, quando desenvolvemos uma dialética saudável. Abraço.

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