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terça-feira, 13 de março de 2012

Por uma teologia aberta


Sostenes Lima

Vivemos num mundo aberto, com janelas e portas para todos os lados. O século XX nos garantiu uma série de conquistas, algumas boas e outras nem tanto, que abriram o mundo em definitivo. A instauração de um universo aberto e sem fronteiras constitui sem dúvida uma das grandes sagas da humanidade, perseguida há séculos e só definitivamente alcançada nos últimos trinta anos, depois de duas grandes revoluções: a da informação e a epistemológica.

As duas décadas de transição de século (anos 1991 a 2010) marcaram o estágio final da implantação de um novo paradigma de sociedade. Esse paradigma, denominado de sociedade da informação, veio na esteira de outros que coloriram (ou acinzentaram) a tela da história: sociedade industrial, sociedade mercantil, sociedade feudal etc. Não sou propriamente um entusiasta das novas tecnologias de informação e comunicação (TIC), mas é inegável que a revolução que se instaurou a partir delas foi fundamental para se consolidar a abertura do mundo. Devo alertar que não tenho intenção de analisar aqui as implicações dessa abertura, mas apenas constatá-la, e com o simplismo que o espaço deste artigo requer.

Desde a emergência da grande rede (world wide web) passamos a viver cotidianamente uma experiência social e cultural global. Desde então, não apenas teorizamos uma comunidade global, com fronteiras locais fluidas; nós a experimentamos. Nossos domínios socioculturais locais se encontram amplamente abertos a uma interlocução humana global, que se imiscuiu em nossa interlocução nacional. Um novo senso de agrupamento humano, global e supranacional, está sendo forjado nas novas gerações.

A implantação de um mundo aberto contou com outra frente de ação, além da que se processou no âmbito das tecnologias de informação e comunicação. O discurso científico também mudou sua concepção do mundo. Até o começo do século XX, o universo era lido e entendido majoritariamente sob a ótica da física clássica newtoniana. Era concebido, portanto, como uma grande máquina com engrenagens meticulosa e teleologicamente encaixadas, funcionando sob o comando de leis estáveis e universais. O mundo newtoniano era fechado. Essa concepção foi vigorosamente desafiada pela teoria da relatividade proposta por Henri Poincaré e desenvolvida por Albert Einstein. Não sou físico, portanto, não tenho condições e nem a pretensão de mostrar como se operou essa mudança epistemológica. Contento-me em dizer que os dois elementos (tempo e espaço), que sustentavam a concepção do universo como uma entidade mecânica e fechada, sofreram um golpe drástico. Simplificando ao máximo, podemos dizer que a teoria da relatividade nos convenceu de que não há medições universais e absolutas para tempo e espaço: tudo depende do ponto de referência. Eureca: o universo começou a se abrir para descrições e interpretações locais.

A mudança epistemológica que começou no âmbito da física se espalhou, vindo a se tornar plena e radical nos estudos epistêmicos.  Foram as epistemologias pós-modernas que, de fato, abriram as fronteiras do mundo cognoscível. Até então havia certo consenso em torno da pretensão de objetividade propalada pelo paradigma epistemológico positivista, oriundo das ciências naturais e imitado nas ciências sociais. Conferia-se cientificidade apenas à investigação que fosse capaz de construir um saber objetivo, supostamene isento de intervenção e participação subjetiva e/ou histórico-social. A partir dos anos de 1960, um grupo de intelectuais (não homogêneo, é claro) liderados por Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Michel Foucault entre outros, sob forte influência de Nietzsche e Heidegger, começou a questionar a validade de certos postulados epistêmicos,  tidos até então como absolutos. Desse movimento emerge um novo paradigma, cuja principal base epistêmica consiste na afirmação de que todo conhecimento científico, seja ele natural ou social, é sócio-historicamente construído. Logo, não há mais clima, no campo da filosofia da ciência, para a defesa de uma ciência alheia ao contexto em que opera. Não se pode mais acreditar que a ciência seja capaz de isolar objetos da realidade e analisá-los sem afetá-los, sem modificar o mundo e sem contar com a participação subjetiva do cientista. Sujeito e objeto são partes constituintes de um mesmo do mundo. Qualquer ação de um sobre o outro afeta ambos. Nas epistemologias pós-modernas, a separação radical entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível é amenizada, senão diluída.

O paradigma epistemológico emergente, termo utilizado por Boaventura de Sousa Santos,  consolidou no âmbito da(s) ciência(s) a visão de que o mundo está aberto. Qualquer manipulação científica da realidade altera lhe a estrutura. Toda vez que um cientista descreve um objeto, tanto o objeto quanto o cientista são alterados. Assim, toda pesquisa apresenta os resultados da análise de um estado natural e/ou social já superado. Portanto, qualquer afirmação científica sobre a realidade natural e social, com contornos fechados e com pretensão à conclusibilidade e objetividade, não passa de um mito, facilmente desmantelado por análises epistêmicas e discursivas.

A concepção de que o mundo é aberto tem implicações dramáticas para a teologia. Não é fácil admitir no campo teológico a fluidez e efemeridade da realidade, especialmente a realidade ulterior. Isso porque a teologia, especialmente a dogmática, é construída sobre fundamentos absolutos. A teologia precisa se reinventar para dar conta da abertura do mundo. Nem é preciso repetir toda ruptura paradigmática só é alcançada depois de um certo período de conflito. Thomas Kuhn nos mostrou isso com muita lucidez em  Estrutura das revoluções científicas. E a teologia começa a ver esse conflito estourar em  vários domínios e com diversas faces. Embora bastante resistente, a ciência teológica não tem conseguido exorcizar a influência do paradigma emergente em suas paragens. A visão de que tudo está fechado (Deus, homem, universo, futuro etc.) começa a sofrer duros golpes. Já há diversas formulações teológicas apontando para um Deus aberto, um universo aberto, um ser humano aberto, uma bíblia aberta, um futuro aberto, uma comunidade do reino de Deus aberta etc. etc.

Eu diria que é impossível continuar a pensar num mundo fechado quando há um apelo, quase irresistível, de experiências cotidianas sinalizando um mundo aberto. A teologia só se mostrará relevante num universo aberto se for capaz de dialogar com essa abertura; entendê-la e não negá-la. Os fechamentos teológicos (fundamentalismo) são cada vez mais resistidos; e a resistência não se dá mais apenas no nível da recusa intelectual. Têm surgido diversos movimentos político-sociais organizados para combater as manifestações e produções teológicas que se fundamentam em esquemas teológicos fechados. Parece não haver outra saída: ou abrimos a teologia ou ela se tornará completamente irrelevante, além de severamente combatida. É preciso abrir caminho para uma teologia aberta.

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