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quarta-feira, 28 de março de 2012

Sobre o Arquétipo Feminino ― “Maria Mãe de Deus”



Por Levi B. Santos  

Disse certa vez, Carl Jung, sobre o rico imaginário religioso: “A certeza interior do parentesco da psique com Deus baseia-se numa experiência arquetípica comprovada, em todas as épocas, pelas pessoas religiosas e criativas”.


Bernard Lewis, em seu livro: “O que Deu Errado no Oriente Médio” (página 79), afirma que “na tradição islâmica, a Trindade, cujo culto o Islã condena como uma blasfêmia quase politeísta, era formada por DeusJesus e Maria

Parece que no Cristianismo e Judaísmo que dominam a cultura ocidental, o lado feminino foi esquecido ou reprimido, tanto é que, nos seus dogmas não há lugar para a deusa mãe. Essas duas principais religiões de nossa cultura se concentram mais no masculino: Deus-PaiDeus-Filho. Porém, é na vertente católica que surge a figura da “mulher santa”, como que para manter o equilíbrio entre os arquétipos masculino e feminino do mundo interior psíquico.

Jung sustentava que a ausência da figura arquetípica feminina no dogma religioso deixava a simbologia da psique capenga. Segundo ele, reprimir o feminino seria o mesmo que ferir a ALMA.

David E. Elkins, em “Além da Religião” (página 56) faz uma alusão muito curiosa sobre a mulher, em contraposição ao arquétipo patriarcal. Diz ele: “A Alma é associada às sombras, à lua e as coisas da noite”.

Carl Jung falava da alma como aquela ‘noite primitiva do cosmos’, antes que houvesse um ego consciente. Em nossa cultura tendemos associar as sombras com o mal. Mas assombras são também associadas à força, à substância, ao mistério e ao princípio feminino. Por exemplo, a Madona Negra, uma imagem que sobreviveu ao catolicismo, é muito reverenciada como possuidora de um grande poder espiritual. O místico São João da Cruzdisse que, ‘revelações e experiências espirituais acontecem à noite. Jung, falava do arquétipo da SOMBRA, sabendo de seu perigo tanto como fonte de paixão como de poder. Poetas e outros artistas descobriram que a criatividade autêntica geralmente provém do lado sombrio da alma’.

É sabido que as mulheres da Grécia Antiga prestavam oferendas às deusas a guisa de proteção. O Matriarcado, que precedeu ao Patriarcado, tinha o arquétipo da “Grande Mãe”em lugar de maior destaque.

Resquícios desse arquétipo matriarcal primitivo da civilização helênica mantém suas ressonâncias na religião católica: O movimento de renovação carismática, apesar de ter muitas características do pentecostalismo, por exemplo, enaltece e roga a virgem Maria.

Maria retratada pelos pintores da antiguidade, assim como as imagens que ornam os templos católicos, configura-se numa mãe dócil e graciosa aconchegando o seu pequenino“menino-deus” nos braços. O fiel, inconscientemente, mitiga o seu desamparo e se sente confortado ao se vê refletido naquele bebê, como que re-experimentando a sensação do tempo em que se percebia como a própria extensão materna que lhe fornecia a seiva da vida, ― o leite.

 Há quem diga que foi logo após a queda do império romano, que a igreja primitiva helenizouMaria, “mãe de Jesus, colocando-a no pedestal que antes era o da deusa Diana deÉfeso.

Joseph Campbell, em seu livro ― ‘As Máscaras de Deus’, (página 63) diz que “na‘cidade-templo’ da Ásia Menor, Éfeso (430 dC), teria se declarado que a virgem Mariafora verdadeiramente o berço de Deus, a grande deusa, a mãe de todas as coisas, representada por Àrtemis (Diana) com inúmeros seios. De acordo com a tradição grega, a Deusa dissera: ‘Eu sou a mãe sem consorte, a Mãe Original; todos são meus filhos, por isso ninguém jamais ousou aproximar-se de mim.’ ”

A humanidade na pré-história ―, dizem alguns historiadores ― passou por uma fase em que o feminino e o materno reinavam com toda sua força de atração simbólica, sexual e materna. Para o antropólogo suíço, Bachofen (1815 -1887)a figura de uma mãe bondosa e protetora da época do Matriarcado, pode ter impregnado o inconsciente do “homus religiosus”. O lado feminino e meigo, como ressonância desse tempo, pode ser percebido na oração da “Ave Maria” recitada solenemente nas escolas, igrejas, festas religiosas e em velórios:

“Ave Maria cheia de graça
Bendita sois vós entre as mulheres
E bendito é o fruto do vosso ventre
Jesus.
Santa Maria Mãe de Deus
Rogai por nós pecadores
Agora e na hora de nossa morte.  Amém”

Goethe foi um que também, sucumbiu à sublimidade desse arquétipo, ao escrever o poema:“O Eterno Feminino”:

‘Todo o efêmero
é apenas uma aparência.
O inacessível
aqui se torna acontecimento.
O indescritível
aqui é feito.
O ‘Eterno-Feminino’
para o alto nos arrasta.”

Edward F. Edinger, em seu livro “O Arquétipo Cristão”, a respeito do mito da “Virgem Maria”, diz algo emblemático: “A virgindade de Maria configura-se como importante parte do simbolismo. Parece haver uma conexão arquetípica entre a virgindade e a capacidade de lidar com o “Fogo Sagrado” (energia transpessoal). Na Roma Antiga as virgens vestais eram as guardiãs da chama sagrada. Entre os incas peruanos mulheres virgens mantinham no templo um fogo santo”.

Adam Mclean, em seu livro “A Deusa Tríplice: Em Busca do Feminino Arquetípico”(página 7), diz algo significativo para nossa reflexão:


“A Deusa é um arquétipo eterno da psique humana, embora a desprezamos e reprimamos ou neguemos exteriormente a sua existência. Desde os primórdios de nossa civilização ela se revela a nós em desenhos  rupestres e em esculturas primitivas, nas grandes mitologias, manifestando-se na nossa cultura atual sob os mais diversos disfarces. Ela faz parte do tecido de nosso ser, com o qual toda a humanidade tem de se relacionar interiormente se desejarmos ter em nossas almas um equilíbrio de base. Ela é parte tão essencial da humanidade que, mesmo se, nos próximos séculos nos tornarmos filhos do Cosmo, deixando a Terra para trás em sua viagem para as estrelas, sem dúvida a encontraremos nas escuras profundezas do espaço”.

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