Pesquise artigos do blog:

segunda-feira, 30 de abril de 2012

O clamor do pobre (by Gondim)




Ricardo Gondim

Tolstói iniciou Anna Karenina com uma das mais espetaculares afirmações da literatura: ”Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. A felicidade é indistinta, mas a tristeza carrega particularidades específicas. Ao longe, os cenários são belos; próximos, expõem detritos horrorosos. De perto, o lixo fede. Narrativas universalizantes foram incapazes de retratar dramas pessoais – vivenciados na dura realidade cotidiana.

Filosofia e teologia se especializaram em grandes narrativas para lidar com o sofrimento. Esqueceram as pequenas realidades. No microcosmo, gente com nome, história e laços de amor geme. Oprimidos em inúmeros cativeiros, os judeus cantavam: “Quem são homens e mulheres para que Te lembre deles? Onde Te escondeste, ó Senhor?”.

Voltaire afirmou que se há vida em outros mundos, a terra é o manicômio do universo. Segundo a ONU, dois milhões morrem de fome a cada dia – eu disse: cada dia.  Estima-se que só na Europa, 500 mil mulheres sejam traficadas a cada ano – a maioria para exploração sexual. (as brasileiras engrossam as estatísticas no Velho Continente e somam 75 mil, o equivalente a 15% das vítimas). O que fazer com a cólera no Haiti, a malária na África, a guerra civil no Sudão, a perseguição religiosa no Afeganistão, o consumismo e a indiferença na Europa e os homicídios do México ao Brasil?

O palácio dos horrores baixou a ponte. Cavaleiros do Apocalipse entram em cena a galope. De tão barata a vida, milhões e milhões de famílias, à sua maneira, experimentam o inferno.

A prece mais religiosa para esta geração deve ser: “Deus, por que não invades logo o monturo que se transformou este planeta? Por que o Senhor não acaba com o ato desse teatro macabro? A peça já se arrasta além do necessário. O preço que cobras por teres nos criado imperfeitos não está alto demais?”.

Que volte o hino do negro spiritual: “Não se te dá que morramos? Como podes assim dormir?”.

Se existe outro mundo possível, onde se esconde? Por que os mínimos sinais de um reino alternativo sempre foram imprecisos? Por que o bem se perdeu em instituições adoecidas? Nada explica a ganância ser maior que a fome de justiça.

Além da indiferença do universo, anônimos sofrem com a burocracia estatal – burocracia fria. Oligarquias se reinventam para manter o poder nas mãos dos mesmos. Estruturas se satanizam. Instituições legitimam processos de alienação. O mal se multiplica com facilidade. O bem consome a vida dos poucos que se atrevem concretizá-lo.

A história segue. Ruma ao grande abismo. T. S. Eliot perguntou: “Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”.  Insana, a humanidade se debate sem sequer buscar antídoto para o veneno que a destrói.

Quantos se dispõem quebrar o sistema que abandona crianças à miséria? Mulheres violentadas e idosos abandonados continuarão sem terem quem os vingue?  A coerência que justifica o mal será desfeita quando?

Milhões se entorpecem. Tateiam em busca de respostas nos lugares errados. Consumismo junto com as indústrias do esportismo e do “celebrismo” servem para perpetuar a ilusão de que no fim tudo vai dar certo. Estupidez. Quinquilharias tecnológicas salvam e alienam. Erudição ilustra e ilude. Enquanto a mão esquerda escreve poesia, a destra declara guerra.

Vaidosa, a atual geração se considera pouco menor do que os anjos. Só não vê a própria cara desfigurada – monstro de iniquidade.

Os caminhos humanos não apontam para um progresso inexorável; não desembocam, necessariamente, em estrada alguma. Nada garante que o rio da história alcance o oceano do sentido.

O planeta terra parou de brilhar; há muito não embeleza o universo. A eternidade não guardará registro do tempo fugaz dos humanos por aqui. As perguntas que a racionalidade fez foram insuficientes para chegar à verdade. A pouca solidariedade partilhada malogrou em redimir o ódio. Livros da história produziram melancolia por um passado de ouro, apenas. A clemência da geração que sucedeu ao holocausto se revelou impotente para evitar outros genocídios. A ciência não conseguiu reverter o inconsciente coletivo, que ainda viabilizará novas chacinas.

O Nazareno acertou: em todos os dias cabe um mal próprio.  Sendo assim, séculos não aliviarão a tragédia da geração atual. Não por acaso os pobres, conscientes de seu sofrimento, devem voltar a clamar: “Maranata – não te demores, Senhor”.

Soli Deo Gloria

PRINCÍPIO PATERNO versus PRINCÍPIO MATERNO






Por  Levi B. Santos


De uns tempos para cá tenho sempre recorrido à Psicanálise para tentar compreender as raízes dos afetos de que somos portadores. Não há como negar que a figura do pai ou tutor e da mãe foram as primeiras e grandes fontes formadoras do mundo dos nossos sentimentos e, consequentemente, da nossa maneira de ser.

Não há como deixar de admitir a estreita conexão existente entre as figuras paterna/materna e os princípios morais de uma cultura.

A voz da consciência que nos manda cumprir o nosso dever é uma ressonância da autoridade paterna. Mas, não podemos deixar de perceber que a voz da consciência que nos manda perdoar e amar, é uma ressonância do instinto materno.

Erich Fromm, contemporâneo de Freud, soube como ninguém, transmitir de forma calorosamente humana e inteligível as suas profundas análises a respeito do Homem em face dos seus afetos paradoxais; diz tudo numa linguagem bem popular, senão vejamos:

“O pai que temos dentro de nós, nos diz: ‘Deves fazer isto’, e não deves fazer aquilo’. Se erramos nos repreende, e se acertamos nos elogia. Mas enquanto o pai que temos em nós nos fala dessa maneira, a mãe que temos em nós nos fala uma linguagem diferente. É como se ela estivesse dizendo: ‘teu pai está muito certo ao te repreender, mas não o leves muito a sério; faças o que fizeres és o meu filho, eu te amo e te perdôo; nada do que tenhas feito pode interferir no teu direito à vida e à felicidade.” (Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Erich Fromm – página 58)

O homem na sua infância histórica está arraigado a mãe, arraigado a Natureza, a “grande mãe Terra”. É surpreendente que o homem, por mais adulto que seja, anela não romper os seus laços com a natureza. Deixou a órbita protetora da mãe para o desamparo do existir. Porém, nesse adulto maduro não desaparece por completo a nostalgia de uma situação que ele experimentou primariamente e não se lembra mais. Na fantasia ou nos sonhos, a morte é a volta ao seio materno, à Terra–Deusa-Mãe. Daí dizer-se que a relação “Mãe- Filho” é paradoxal e trágica: a fim de crescer a criança tem de tornar-se cada vez mais independente dela. Ao se tornar adulto o amor à mãe é interditado pela figura paterna, naquilo que se convencionou como TABU do INCESTO. A ameaça para quem violasse esse interdito era a CASTRAÇÃO (vide Complexo de Édipo).

J. J. Bachofen (1815 ― 1887), antropólogo suíço e maior teórico sobre o matriarcado pré-histórico, dissecou com clareza tanto o aspecto negativo como o positivo da fixação humana à figura da mãe. O aspecto positivo da Mãe para ele é no sentido de afirmação da vida, liberdade, igualdade que impregna a estrutura matriarcal. Em outras palavras, a mãe ama seus filhos não porque um seja melhor do que o outro, mas porque são seus filhos e, nessa qualidade, todos são iguais e têm o mesmo direito ao amor e ao carinho. Oaspecto negativo, segundo Bachofen, é este, bastante cruel: “Por está atado a Natureza, ao sangue e ao solo, o homem é impedido de desenvolver a sua individualidade e a sua razão”.

O afeto materno, ou a estrutura matriarcal introjetada no inconsciente está presente em muitas narrativas religiosas: A Vênus de Willendorf, a Deusa-Mãe de Monhego-Daro, Ísis, Istar, Réia, Cibele, Hator, a Deusa Serpente de Nipur, a Deusa indiana Cali — esta, criadora e destruidora da vida.

O homem quando julga seu semelhante, o faz pela consciência paterna. Quando o ama e o perdoa, o faz pela consciência materna. Será que o homem está condenado a carregar, enquanto viver, essa cruz que simboliza a nossa ambivalência, essas duas traves de sentidos contrários?

arquétipo feminino está muito vivo no catolicismo. Não custa lembrar aqui, que o Vaticano foi construído sobre o Monte Vaticanus ― antigo santuário consagrado à veneração da “Deusa-Mãe”.

Os gnósticos acreditam que o Espírito Santo é o Divino Feminino, e que na Trindade “Pai-Filho-Espírito Santo”, o “E. Santo” deveria ser substituído pela imagem da Mãe, para o dogma ser preciso e perfeito. Essa síntese era a que Freud reivindicava como solução para o velho antagonismo “masculino-feminino” da psique humana.

Erich Fromm, em a “Análise do Homem”, diz algo interessante para que se possa entender o peso do princípio paterno e materno no conceito “Deus” da tradição Judaico-cristã:

“O Deus que manda o dilúvio porque todos são fracos, exceto Noé, representa a consciência paterna. O Deus que fala a Jonas com compaixão por aquela grande cidade em que vivem mais de seis vintenas de milhares de pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, fala com a voz da Mãe que a tudo perdoa sempre.”

Não foi à toa, que os evangelistas para retratar um Jesus querendo de modo profundamente sentimental apaziguar a todos, recorreram à imagem de uma galinhajuntando seus pintinhos debaixo das asas.

O Protestantismo, especificamente o Calvinismo, ao invés de tentar equilibrar esses dois princípios, incentivou a aversão do lado feminino, ao polarizar o espírito patriarcal em detrimento do outro. Resultado: a religião ocidental, em prol da imagem de um pai severo e cruel —, ressuscitou o feudalismo psíquico que, ainda hoje, de forma aparentemente sutil, continua a fazer muitas vítimas.

E por falar em princípio paterno e materno em religião, aqui ficam duas perguntas:

Por que a maioria das seitas protestantes considera a Igreja Católica como a grande meretriz de que fala o Apocalipse de João?

Será que essa aversão calviniana se deve a aderência do Catolicismo ao pólo feminino, na medida em que coloca Maria como símbolo daquela que acolhe e protege a criança (o fiel) em seu seio ― a intercessora?

Não sei se essa síntese traria equilíbrio a “gregos” e “troianos”: A de admitir que na figura mítica de Jesus, estariam fundidos o “Deus-Pai” e a “Deusa-Mãe”.

domingo, 29 de abril de 2012

O bilhete (by Gondim)




Ricardo Gondim
O telefone acordou-me mais cedo. Soava com um alarme estridente. Pressenti péssimas notícias. Estendi a mão sem saber ao certo se queria silenciá-lo ou atender quem interrompia meu breve sono.
-         Alô?
-         Frederico, você precisa vir à UTI agora mesmo. Catarina quer falar com você.
-         Já estou indo.
Rodei as cobertas como um toureiro e, acrobata, saltei da cama. Sequer tomei banho. Com os movimentos circulares da escova enchi a boca de espuma. Lavei o rosto, preparando-me para fazer a barba e mal avaliei as novas rugas que se aprofundaram com a noite mal dormida. Fixei o olhar no espelho que me parecia uma tela projetando o dia em que Catarina e eu nos conhecemos.
Deus, não faz tanto tempo! Aconteceu no Seminário de Atualização Literária da Fundação Olavo Bilac. Como detesto serões literários, queria manter-me acordado. Creio que demonstrava meu tédio com tantas leituras e palestras chatas. Catarina me observava. De repente, voltou o rosto para trás, espalhando seus cabelos negros e cacheados para censurar-me; quase rebentando numa gargalhada:
-         Você é sério demais, vai ficar velho antes do tempo.
Tomei um susto com sua coragem de falar assim para um homem sem conhecê-lo. Mas todos os amigos de Catarina já comentavam, há tempos, sua espirituosidade. Ela sempre encarava momentos constrangedores com bom humor. Não hesitei encara-la e encantei-me com sua altura, ombros largos, seios pequenos, pernas fortes e cintura não tão fina. Catarina tinha uma beleza sem polimentos, algo tosca. Seus dentes alvíssimos pareciam maiores que o normal e seus lábios carnudos conferiam-lhe a sensualidade das sertanejas. Ela parecia uma personagem tirada dos filmes de cangaceiro.
-         Não sou tão sério como você pensa.
Respondi mais sério ainda.
-         Essa sua mania de franzir a testa e só olhar, sem falar nada, vão fazer de você um velho prematuro.
Insistiu.
-         Vamos tomar um café na livraria?
-         Só se você prometer tomar café mesmo e não esquecer de mim, folheando livros.
Começou assim e assim passamos a nos amar; sempre dentro de livrarias. Entre prateleiras e sob o olhar de Heidegger e Sartre, que nos espiavam do dorso de seus tomos, nos beijamos pela primeira vez. Ah, como tremi ao sentir seu corpo por inteiro. Abraçou-me enlaçando meu pescoço com seus braços fortes.
Senti-me vassalo de seus carinhos. Os tamancos altos nos tornavam quase da mesma altura.
Passei a conversar com o espelho.
-         Porque nos apaixonamos tão depressa? Somos tão diferentes.
Notei que meus cabelos cor de ferrugem, olhos azuis e pele tão clara fizeram de mim um nórdico ao lado de Catarina.
Ela era arquiteta e eu acostumado a só dialogar com outros professores de filosofia. Nossos universos eram diferentes. Enxergávamos o mundo por nesgas bem distintas.
Catarina ensinou-me a rir. Desde a faculdade achei que viver bem exigia uma mente taciturna, sóbria e sempre muito grave. Acreditei que filosofar é um combate perene. Repeti tantas vezes que a arma dos pensadores é a razão, jamais o riso dos frívolos ou dos que encaram a vida sem disciplina. Quantas vezes pontifiquei do alto de minha estúpida soberba:
-         Catarina, as virtudes exigem moderação.
-         Bobo, precisamos rir, brincar, dançar e cantar muito.
Suas respostas a princípio me agrediam; uma zombaria. Catarina decididamente não se levava a sério e por isso eu a amei.
Perguntei para o homem que me espreitava de dentro do espelho:
-         Ela está chamando por mim, será que quer falar sobre Deus? Será que finalmente vamos conversar sério sobre ele?
Sei que Catarina é agnóstica. Mesmo naqueles dias em que eu andava encantado com o teísmo de Tomás de Aquino, jamais conseguimos nos aprofundar sobre a existência de Deus. Nossos diálogos tornavam-se pesados. Eu sentia que lhe incomodava. Meus arrazoamentos sobre o desígnio do universo, nunca lhe encantaram. Ela nem prestava atenção quando argumentava que a principal indagação filosófica sobre a eternidade nasce da angústia.
-         Catarina, por que existe alguma coisa em vez de nada?
Ela apenas ria sem nunca me responder; contraía os lábios e me mandava um beijo.
Diante do espelho eu só ouvia o barulho da água descendo pela pia. Falei sozinho:
-         Quisera poder segurar sua mão mais uma vez para pedir-lhe que pare de rir enquanto tento me concentrar em minhas argumentações.
Seus olhos marotos continuavam ariscos enquanto eu tentava conquistá-la com me tom professoral:
-         Catarina, nada nasce do nada. Se há alguma coisa – o mundo, o universo – é porque sempre houve um que precedeu tudo, incriado e eterno; que chamamos de Deus.
-         Fred, pare com esses questionamentos. Vamos viver. Nunca teremos a resposta. Só saberíamos se nos transportássemos para o tempo em que nada existia e perguntássemos: Quem está aí?
Não éramos distantes apenas no pensar; tudo nela diferenciava de mim. Eu não me importava com minhas poucas roupas no armário, de só usar um único paletó de lã, vestir camisas mal engomadas e só possuir duas calças jeans. Assustei-me quando vi a organização do seu guarda-roupas.
Os cabides acrílicos eram iguais, as roupas penduradas por cor e os muitos sapatos enfileirados como nas lojas. Catarina trajava-se como os arquitetos: “clean” e elegante.
Acabei de escovar os dentes e fugia-me a coragem de fazer a barba. Odeio barbear-me e hoje, prevendo a dor que me espera, hesitei continuar mirando o espelho.
Catarina me ensinara a me encarar com menos seriedade. Desde sempre eu só gostava de conversar sobre assuntos complicados de nossa existência humana, mas fugia de mim mesmo. Entretanto, ela não se conformava.
-         Sua vida é um tédio. Você precisa aprender a viver.
Ao lado de Catarina, tive que ouvir música popular brasileira. Muitas vezes, fui ao teatro algemado. Aprendi a ler poesia. E era repreendido quando tentava esticar meu trabalho nos fins de semana.
-         Não senhor! Vamos para um barzinho com os meus amigos arquitetos. Vamos relaxar e curtir uma noite agradável.
Enxagüei a boca e ainda mirando o espelho. Criei coragem e espalhei a espuma que me ajudaria tosquiar o rosto. Mas, a voz da enfermeira ainda ressoava em meus ouvidos e eu a odiei por isso.
-         Você precisa vir à UTI! Catarina quer falar com você.
“Maldita!” Pensei, enquanto puxava a lâmina pelo cabo. Deixei a torneira aberta e não me incomodei em desperdiçar água. Voltei a contemplar o espelho. Será que estava sentido prazer com a dor da saudade?
-         Quero chamar você por um apelido.
-         Pode me chamar de Cá.
-         Cá, continuo matutando sobre Deus.
-         Por que tanta preocupação? Devemos nos preocupar em amar. Está escrito na Bíblia que quem ama conhece a Deus porque Deus é amor.
-         É, acho que já li isso.
-         Fred, vamos tornar o nosso amor verdadeiro, mais forte que a violência, mais digno que a inveja, mais relevante que o egoísmo. Se Deus é amor, amemos o que é divino e estaremos próximos dele.
Acabei de fazer a barba e tive medo de vestir-me. Ali, diante do espelho ainda pensei passar colônia no rosto. Cá gostava de sentir o meu cheiro e sempre me elogiava quando deitava sua cabeça sobre meu peito. Continuei em meu monólogo delirante:
-         Hoje já não perceberá nenhum perfume, não haverá carinho; mal poderei tocá-la.
Acho que gritei um ou dois palavrões quando me lembrei daquele perverso envelope branco. Ela o segurava sobre o colo, rasgado numa das pontas, quando me falou:
-         Fred, estou com câncer nos dois rins; e já deu metástase no pulmão.
-         Cá, não brinque comigo!
-         Não, não estou brincando. Aquele mal estar que senti na caminhada da montanha já era a doença.
-         E quais são os prognósticos?
-         Tenho poucos meses de vida.
Passamos aquela noite acordados. Falamos sobre o tratamento e quais as opções no exterior. Prometi pesquisar tudo. Reviraríamos o mundo: a internet, os melhores especialistas, todas as terapias pioneiras.
Mas os nossos esforços redundaram em nada. Os remédios não passaram de meros paliativos. As drogas devastaram Catarina que piorou, piorou até acabar na unidade de tratamento intensivo, último estágio dos agonizantes.
O tempo deve ter se apressado. O imaterial inimigo dos mortais deve ter me iludido diante do espelho e não percebi o caminhar dos ponteiros quando o telefone tocou novamente. Tremi com um assombro sobrenatural. Só podia ser o pior.
-         Fred, Catarina acabou de morrer.
Era sua irmã Adriana, que chorava miúdo e impotente. Permaneci mudo; no quarto não havia espelho na minha frente e ninguém para conversar. Adriana continuou:
-         Antes de morrer, Catarina ainda teve forças para escrever-lhe um bilhete. Venha buscá-lo.
A morte nos encoraja. Em um centésimo de minuto já ia a caminho do hospital. Desejava ler a mensagem da mulher que marcou minha vida. Sozinho, continuei meu solilóquio, olhando retrovisor pendurado à minha frente:
-         O que ela pensou quando suas forças se esgotavam e com a mente tão débil?
Corri pelos longos corredores do quinto andar; desesperado, queria chegar à UTI. Abracei Adriana e nos sentimos irmãos. Sem falar, ela estendeu-me uma página de caderno dobrada ao meio.
Notei que a letra tremida e grande ocupava toda a folha. Cá me dizia:
-         Fred, não esqueça de ir ao barzinho na sexta-feira.
Soli Deo Gloria.

O ateísmo nunca irá conseguir acabar com a religião!





By Marcio Alves

Meus caros amigos “ateus-atoa”, “ateus-militantes”, “ateus-perdidos “, “ateus-agnósticos” e até “ateus-enrustidos” – o que tem de gente que no fundo é ateu, mas não sai do armário, não é brincadeira não! Sem contar os que são, mas não sabe ainda que são, ou não querem reconhecer isto –  vocês devem encarar a dura e “triste” (para os ateus) realidade de que a religião nunca irá acabar. (Porque será que a grande maioria dos ateus deseja ardentemente que os religiosos se tornem também ateus? Será que Freud explica? Risos)

Levanto, a partir de agora, nove (9) razões porque a religião nunca vai acabar:

1-Ela é a maior utopia das utopias

Promove uma visão futurista de esperança, gloria e otimismo, atribuindo ao “todo-poderoso” – aquele que nunca pode ser frustrado em seus planos – o poder de concretizar aquilo que seria impossível aos homens.
(Deus na visão do religioso é como o diretor que espera o momento certo, para intervir no filme que esta desenrolando, para por um ponto final, independente da atuação dos atores)

2-O religioso não corre o risco de um dia descobrir que sua crença não é real

Quando se aposta, geralmente se espera e se tem o resultado, seja o desejado ou não, mas no caso da religião é uma aposta que o religioso nunca descobrirá que era de fato um engano, pois se quando a pessoa morre se segue logo o nada da existência, o crente não terá do que se arrepender depois da morte. (famosa aposta do filosofo Pascal)

3-Ela torna a pessoa especial

Na visão religiosa o homem é a imagem de Deus, possui uma alma, e é alvo do cuidado de Deus, seja para ser abençoado por ele ou muitas vezes castigado como forma de repreensão.
Tire a concepção espiritual do homem, e ele se torna um mero animal sem alma que apenas racionaliza, mas que compartilha da mesma origem e o mesmo fim do animal.

4-Ela oferece respostas para a existência humana

Ela diz da onde você veio, porque você esta aqui e para onde você irá. Ou seja, ela enche o ser humano de propósito e significado. Pode até se argumenta que é falsa, que é inventada, que é ilusória, que é enganosa, mas no fundo, o que importa para o ser humano, que em geral prefere uma verdade inventada e cômoda, do que a angustiante duvida da não resposta, é a resposta em si.

5-Ela alivia a dor humana

Pois promete um paraíso eterno sem dor e sofrimento, ou seja, neste mundo você pode não ter nada, sofrer, ser injustiçado, mas lá no outro mundo, Deus irá reparar os seus danos sofridos.
Imagina uma pessoa que perdeu pessoas as quais ama, ela, se for religiosa, irá se consolar com a promessa da eternidade, onde poderá encontrar os seus parentes e amigos – mas desde que seja também da mesma religião, porque se não, se for um crente, por exemplo, irá ficar profundamente triste por crer que a pessoa a qual mais amou, mas que não era de sua religião foi parar no inferno por toda eternidade.

6-Porque os religiosos acreditam porque querem acreditar

Hoje, (sempre?) mais do que nunca, a grande busca do ser humano é pela tão sonhada e ilusória felicidade, tanto é que criamos varias ilusões, conscientes ou não, para tornar nosso mundo frio e cinzento, um pouco colorido e quente.
Portanto, a grande pergunta que a maior parte dos seres humanos fazem a si mesmo é: “isto vai trazer alegria, felicidade e/ou prazer para minha vida?” e não se é verdade ou real na existência, até porque, se ela verdadeiramente experimenta, para ela isto já se constitui uma verdade em si.
Sendo assim, os religiosos acreditam porque querem e desejam ardentemente acreditarem que é real sua experiência religiosa, e, contra isto, não há argumentos racionais que venham dissuadi-las desta vontade.

7-Porque ela é um sistema muito bem estruturado e organizado

Alguns ateus no afã de quererem “converter” (ou “desconverter”) os religiosos para sua “corrente de pensamento ateia”, distorcem os argumentos religiosos, por pura esperteza ou ignorância mesmo, limitando as mesmas em reducionismo classificatório e taxativo de somente “pura fé”, dizendo que os religiosos não utilizam à lógica e nem a razão.
Mas estão equivocados, porque toda religião possui em si mesma, isto é, em seus sistemas, lógica e razão interna, sendo coerente dentro da lógica proposta por cada religião.
Ou seja, quando um sujeito vai para alguma religião, ele não vai encontrar uma bagunça generalizada, onde cada adepto pensa ou diz de um jeito, mas sim, uma organização com sistema, doutrina, culto, hierarquia, e até uma concepção de deus própria.

8-Ela trabalha em cima do egoísmo e interesse humano

A religião, mais do que qualquer outra coisa, promove o interesse e egoísmo do ser humano, pois é um sistema de recompensa e punição que estão ligado e determinado pelos atos individuais de cada um – a famosa fala de Paulo “cada um dará conta de si mesma a Deus”.
Céu e bênçãos materiais, no caso do cristianismo, para quem for obediente, e, inferno e castigo para os desobedientes.
Ou seja, ela reforça e mantém ao mesmo tempo, o sujeito dentro do processo religioso, seja por medo da punição, ou interesse de ganhar recompensa.

9- A última e mais obvia das conclusões

Vou terminar esta postagem no nono ponto, sabendo que existem mais razões do porque “O ateísmo nunca irá conseguir acabar com a religião!” com a principal e mais simples conclusão:
Não é possível datar e nem dizer como a religião se iniciou de fato, apenas se especula, mas o que interessa mesmo é que nunca existiu (pelo menos nunca se descobriu) e não existe nenhuma sociedade sem religião, isto em milhares de anos, como os ateus pensam que agora vão conseguir acabar com a religião, e isto no mundo inteiro? (Desse jeito meus caros amigos ateus, vocês vão acabar sendo taxados de pessoas com muita mais fé do que os próprios religiosos, ou de serem pessoas ingênuas. Risos).

sábado, 28 de abril de 2012

menina mulher




Mulher menina ou menina mulher?
Não importa, és minha
Mulher angelical ou anja feminina?
Não importa, és minha
Desejo distante ou sonho impossível?
Não importa, um dia estarás comigo.

Antônio José Olivier

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O velório (by Ivani Medina)


Numa das capelas do cemitério do Catumbi o ambiente era padrão: caixão coberto de flores sobre suportes no centro da sala, ladeado pelos visitantes, uns poucos da família e a maioria amigos quase silenciosos. Dona Albertina, a defunta, nunca foi de choramingar em vida e isto parecia estar sendo respeitado naquele momento difícil. Por mais intelectualizado que se seja para perder alguém ninguém está preparado.
Ela deixara uma única filha que já havia perdido o pai e o avô materno anos atrás. Eram imigrantes portugueses e constituíam um bom patrimônio e uma família pequena no Brasil. Ana, a filha da morta, a partir daquele momento tinha como familiares, um tio, irmão do falecido pai, um primo e o marido. Mas, é como se diz: marido não é parente.

Simpática, inteligente e uma pessoa muito agradável, Ana, havia se cercado ao longo dos anos de amizades valorosas, porque assim ela era também. Estava perdendo a eterna luta contra a balança, mas o rosto continuava bonito, cativante e iluminado pelo bom humor de sempre, mesmo naquela hora. A inteligência dela tinha raízes profundas.

Na verdade, nunca estivera só. Cedo a vida lhe dera uma família apêndice. Eram quatro irmãos, dois casais, vizinhos desde pequenos. As meninas estudaram com Ana na mesma escola do ensino fundamental. Iam todo dia de carona com o seu querido avô materno no antigo Ford preto. O tempo se encarregou do resto. Amizade com mais de cinquenta anos sem interrupção pode ser considerada família.

Em sua família natural tudo era mais simples e mais farto para três pessoas. Na família, apêndice com o dobro de gente, não havia carência, mas era tudo bem mais movimentado, digamos assim. O pai das suas amigas era militar e viajava muito, mas quando estava em casa dirigia a família com mão de ferro. Viajava alívio, retornava terror. A casa da dona Albertina era uma espécie de embaixada para as meninas asiladas fugidas d’um governo militar. Ela dava asilo com satisfação e se divertia com tudo aquilo. Ana adorava. Que filha única não quer as amigas dormindo em sua casa?

A mais velha era mais infantil e muito medrosa. A mais nova era atrevidamente esperta, decidida e naturalmente engraçada. Era o oposto de Ana, com seus modos calmos, fala pausada e mansa e só fazia rir de Annette. O interessante é que entre elas havia até uma ligação no nome. Dona Albertina era fã declarada de Annette. Porém uma vez ficou sentida com essa filha emprestada. A parida e a emprestada brincavam com umas revistas que traziam umas bonecas para recortar e vestir com um guarda-roupa variado naquela alegria de papel.

O Natal estava próximo e Ana caiu na besteira de perguntar à Annette o que ela havia pedido a Papai Noel.

Que Papai Noel o quê. Você ainda acredita nisso?

Por quê?

Porque é mentira, ué?

A redomada Ana não podia aceitar aquela monstruosidade que a sua melhor amiga lhe dizia.
Mentira é o que você está me dizendo. Existe sim!

Ô garota burra!

Ana pôs-se a chorar. A amizade ficou seriamente abalada até a chegada da próxima revista de recortar, que chegou à semana seguinte. Dona Albertina acabou rindo também de si mesma. Aquele episódio serviu para chamar-lhe atenção para as inevitáveis tentações protecionistas que acabam trazendo mais tristezas do que contentamentos. Mas o Papai Noel da Ana não se esqueceu da apimentada Annette e nem da sua irmã mosca morta.

Annette entrou na capela acompanhada do irmão que guardava a mesma afeição fraternal por Ana. Quando os viu, os olhos dela se inundaram com aquele amor antigo. Os últimos meses de dona Albertina foram de um sofrimento intenso, narrado rapidamente por Ana, mas sem pressa. Nesse momento entram Glorinha e o marido. A mãe de Glorinha era amiga antiga de dona Albertina, cuja amizade se estendeu aos filhos. Glorinha jogava no time de Annette, isto é, tinha mais ou menos o mesmo perfil galhofeiro.

Vencida as etapas da dor, involuntariamente, foram se abstraindo da situação e do ambiente para aliviar as tensões. Os cinco haviam formado uma rodinha de costas para o caixão, na qual o primo de Ana se incluiu. Os assuntos tomaram rumos espirituosos como de hábito, os sorrisos evoluíram, Ana sem querer não conteve uma constrangedora gargalhada. Nas horas sérias isso pode ser contagiante... e foi. A defunta parecia rir também, enquanto a maioria dos presentes olhavam estupefatos para eles. Foi o velório mais animado do cemitério do Catumbi.

Para começo de conversa (by Gondim)



Ricardo Gondim
Os humanos desejam. A vida rodopia no verbo querer. Porque desejam, pessoas fazem escolhas. Volição ou livre arbítrio, um dos nós que a filosofia nunca conseguiu desatar completamente, é a maior riqueza da humanidade. A psicanálise diz que desejo é  pulsão –  energia de onde vem o apetite. Tesão. Embora pareça chulo, tesão  comunica bem essa força chamada desejo.
Pulsões tanto geram vida como arrastam para a morte. As pessoas dizem sim porque se sentem fascinadas. Anseiam pelo que traz vida. Apetite de morte produz medo. Rejeições, portanto, nunca começam com moralismo. Sempre que alguém recusa algo, quer fugir da morte; tenta evitar Tânatos – sua personificação. Desejo e aversão nascem dessas pulsões que em si não são certas ou erradas. Nas pulsões, inexiste o “pode, não pode”. A energia vital do desejo engatilha outro processo: “quero, não quero”. Daí, desejo, vontade e liberdade andarem juntos.
No império das decisões, todos são deuses. Quando a escolha é feita, nada e ninguém consegue reverter. O rei tapa os ouvidos depois que declara guerra. O general pode aconselhar, mas suas recomendações cairão como semente em terreno duro. Se o rapaz resolve cortejar a donzela, de nada valerá  pais, sacerdotes, profetas ou psiquiatras advertirem. Romeu e Julieta correrão todos os riscos.
Amor reduz, inclusive, alternativas. Quanto maior a cordialidade, maior a disposição de prestar atenção. Amor evita distrair-se.
Amantes se desarmam. Aquele que quer bem se abre para o que aprecia. Ternura destranca preconceito. O pai não se irrita de repetir e o filho não se zanga de ouvir as mesmas histórias.
Quem ama olha fixo – evita o soslaio, como Machado de Assis sugeriu a respeito de Capitu. Vista segura escancara a comunicação entre diferentes. Desejo gera apetite de ouvir o que antes soava estranho. Pela felicidade da amada, o namorado aprende um novo idioma. O amor que deslumbra possibilita a novidade.
Ninguém converte ninguém. Quando coração rejeita, toda racionalidade rui, impotente. Argumentos antipatizados se desmancham antes da mente percebê-los; vão para o lixo, rechaçados, não pelo intelecto, mas pelo coração. Com animosidade, a comunicação cessa. Para um coração endurecido, de nada serve acenar com fogo do inferno ou com o cenho franzido de Deus. Ameaça constrange, subjuga, mas só consegue inviabilizar o diálogo.
Pedagogia começa com amizade. Sensibilidade para aprender deve vir precedida de boa vontade. Sabedoria carece de ambiente sereno. O bom professor precisa ser querido. Graça vem antes da verdade. Na aprendizagem, tato antecede argumento, credibilidade antecipa explanação e só ternura dissipa dúvida. Aprender necessita do verbo desejar.
Para começo de conversa, a receita é amar.
 Soli Deo Gloria

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Opus Dei O que é?



A Prelatura da Santa Cruz e Opus Dei (em latim Obra de Deus) é uma instituição hierárquica da Igreja Católica, uma prelazia pessoal (prelatura pessoal em Portugal), composta por leigos, casados, solteiros e sacerdotes. Tem como finalidade participar da missão evangelizadora da Igreja. Concretamente, o Opus Dei procura difundir a vida cristã no mundo, no trabalho e na família, a chamada universal à santidade e o valor santificador do trabalho quotidiano.
O Opus Dei foi fundado no dia 2 de outubro de 1928 por Josemaría Escrivá de Balaguer, sacerdote espanhol canonizado em 2002. O termo latino "Opus Dei" significa "Obra de Deus". No dia 28 de novembro de 1982 o papa João Paulo II através da Constituição Apostólica Ut Sit constituiu o Opus Dei como prelazia pessoal."
Imagine sua mente sendo monitorada 24 horas por dia. Você está num lugar onde não é permitido ver televisão ou ir ao cinema. Até o jornal chega editado às suas mãos. Ninguém pode ter amigos do lado de fora e o contato com a família é restrito.

Pelo menos duas horas por dia, você tem de amarrar um cilício na coxa – espécie de instrumento de tortura com pontas metálicas que machucam a pele. Quanto maior for o seu desconforto, melhor: isso significa que a instituição está exercendo mais controle sobre você. Se doer demais, tudo bem, você poderá trocar de coxa na próxima vez. O importante é que a experiência não passe em branco. Tem de machucar, deixar marcas. Caso contrário, não “faz efeito”Uma vez por semana, você terá também de golpear suas nádegas ou suas costas com um chicote. E ainda passará pelo que é chamado de “sinceridade selvagem”: contar aos seus superiores cada pensamento que passa pela sua cabeça, principalmente aqueles segredos mais íntimos, sobre os quais não se comenta nem no banheiro, de porta fechada e luz apagada. Se você não revelar tudo, mas tudinho mesmo, estará mantendo um “segredo com Satanás”A influência que a “Obra de Deus” exerce sobre o Vaticano pode ser medida pelo processo incrivelmente rápido de canonização de Escrivá – o 2º mais breve na história da Igreja Romana, atrás apenas do de madre Teresa de Calcutá."

“A mais brutal forma de manipulação humana”


A seguir, trecho do livro Opus Dei – Os bastidores.
Após o seu ingresso, em princípio irrevogável, o numerário aos poucos vai se moldando à Obra até que, em palavras do seu fundador, tenha somente o fim corporativo. É nesse moldar-se (ou anular-se) que a violência moral e espiritual se processa, lenta mas poderosamente. Toda e qualquer espontaneidade é suprimida e substituída gradativamente pelo dever de servir à Obra, que é, como se pode depreender, sinônimo de servir a Deus e à Igreja. A vontade de Deus vai se manifestando concreta e paulatinamente ao numerário pelos diretores, que também são numerários. A obediência genérica vai sendo detalhada. Para aquele que mora nos centros da Obra, mesmo um simples telefonema aos pais será motivo de consulta, pela qual se estabelecerá a conveniência de se fazer ou não a chamada. As correspondências que chegam para o numerário são todas violadas pelos diretores, e as cartas escritas pelo numerário são lidas por esses mesmos diretores antes de lacradas nos envelopes e enviadas. O numerário vai descobrindo, assim, pouco a pouco, em que consiste ter dito sim a Deus. Trata-se de ter dito um sim definitivo à Obra, sempre, em qualquer assunto, pois nela “não existem desobediências pequenas” e já não existe uma vida propriamente individual.

A coerção exercida dentro da Obra, que consiste em fazer com que uma pessoa realize “livremente” e com “alegria”, mesmo não querendo, mesmo chorando, mesmo amargurada e aflita, o que lhe é ordenado, sempre em nome de Deus, é a mais sofisticada e brutal forma de manipulação perpetrada contra a dignidade humana. É uma coação, digamos assim, limpa e sem marcas, na qual não é necessária a força ou a tortura física. Os diretores assumem, perante o numerário, uma dignidade divina. Os diretores devem ser obedecidos sem pestanejar, e os que obedecem terão de dizer que obedecem porque queriam e querem sempre obedecer.

O Opus Dei é uma máquina manipuladora perfeita, perversa, sugadora da individualidade e da liberdade de seus membros e só poderá ser detida ou reformada se pessoas decentes dentro da Obra se revoltarem e não aceitarem as loucuras que dizem ser vontade de Deus.
Depoimento

Um dos depoimentos publicados no livro é de Marcio Fernandes da Silva. Ele descreve a trajetória típica de um numerário, segundo os autores: conheceu o Opus Dei muito cedo, com cerca de 10 anos de idade, quando passou a freqüentar atividades sociais promovidas pela prelazia num clube em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Com 14 anos começou a ir ao centro do Opus Dei na região, onde recebia “formação”, que incluía palestras e uma conversa semanal com um sacerdote. “É claro que não foi do dia para a noite que passei a participar dessas atividades. O pessoal do centro foi me propondo participar de cada uma delas de maneira gradual”, relata Marcio Silva. Até mesmo visitas a hospitais e favelas ele foi levado a fazer, não com a finalidade de assistir aos pobres e doentes, mas sim de despertar nele sentimentos de generosidade, usados depois para fazê-lo tornar-se membro da instituição, segundo conta. Estava preparado o “plano inclinado”, o processo em que a pessoa é levada a descobrir sua suposta vocação para a Obra até “apitar” – ou seja, pedir sua admissão como membro da instituição.

O livro reproduz ainda uma “conversa fraterna”, também chamada de “confidência”. Trata-se de uma sessão de 45 minutos de conversa semanal, em que o numerário escancara sua alma diante do diretor do centro onde reside, revelando toda sua intimidade. O texto citado no livro é uma simulação “nada exagerada e altamente reveladora”, segundo os autores:

– Eu estava pensando em ir almoçar domingo com meus pais.
– Quando foi a última vez que você esteve com eles?
– Há um mês.
– Não convém criar hábitos nessas visitas à família de sangue. Espera umas duas semanas e aí você volta a me consultar.


Não à toa, o livro publica a carta da família de um numerário, em que, ironicamente, agradece ao Opus Dei “por mais um Natal triste, ao qual nosso filho não vai comparecer porque agora – segundo vocês – ele tem outra família” e “pela destruição da nossa família, que era feliz, normal e católica”.
Alucinações 

Submetidos a um regime de regras rígidas, obediência cega e autoritarismo, os numerários acabam tendo sérios problemas mentais, segundo o livro. “Houve um numerário que começou a sentir dores de cabeça terríveis, chegou a ser tratado na clínica de Navarra, na Espanha, e acabou absolutamente imprestável para viver na Obra, que o devolveu ‘caridosamente’ para os pais. Outro começou com sintomas de depressão, foi mal diagnosticado, mal medicado e chegou a ter alucinações”, exemplificam os autores. “Outro numerário tornou-se meio que alienado, e vive encostado no centro, ex-funcionário brilhante na Cesp. Outro ainda, depois de largar, aos 50 anos, um bom cargo na Telefônica, dedica-se hoje a assistir a aulas de filosofia como ouvinte e a divulgar o pensamento do filósofo Leonardo Pólo, do Opus Dei.” Prescrito por médicos do Opus Dei, o tratamento dado a essas pessoas inclui choques elétricos e antidepressivos.

Na política
O ex-secretário de Cultura de São Paulo, Andrea Matarazzo (PSDB), teria afirmado em conversa com diplomatas americanos que o governador Geraldo Alckmin pertencia à Opus Dei, segundo um telegrama obtido pelo WikiLeaks.

No documento do WikiLeaks, o secretário teria definido Alckmin como um "católico conservador". Segundo o relato, Matarazzo vê Alckmin como um político de "orientação direitista", que só vê o mundo "da perspectiva de São Paulo.

Em artigo publicado no Jornal do Brasil, o advogado tributarista Ives Gandra Martins assume abertamente o apoio à Geraldo Alckmin e procura traçar os possíveis cenários do governo. Para quem não o conhece, Ives Gandra, que circula com desenvoltura nas esferas de poder e possui generosa exposição na mídia, é o principal supernumerário do Opus Dei no Brasil. Ele foi um dos primeiros brasileiros a ingressar nesta seita religiosa ultra-conservadora e é considerado o seu porta-vozes mais influente na política nacional, com a meta de fortalecer a ala conservadora da Igreja Católica e se contrapor ao avanço das idéias de esquerda no país.Ives começou a freqüentar as reuniões do Opus Dei em 1963. Ele fazia pregações semanais para o governador Geraldo Alckmin, no interior do próprio Palácio dos Bandeirantes, nas chamadas “palestras do Morumbi”.

Ives Gandra manifesta publicamente a sua simpatia por Geraldo Alckmin – o que não é comum na tradição desta seita, que cultua o anonimato e segue fielmente um dos principais ensinamentos do seu fundador, Josemaría Escrivá: “Acostuma-se a dizer não”.
O movimento católico Opus Dei tornou-se uma "presença significativa" na vida do candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos Rick Santorum, que fez de sua fé um dos eixos de sua campanha, disse nesta terça-feira o jornal The Washington Post.

A publicação mostra uma evolução da fé de Santorum, que de uma postura mais liberal em sua juventude passou a praticar o catolicismo de maneira fervorosa.

Santorum, então senador pela Pensilvânia, começou um grupo de oração na Câmara Alta. Em 2002, viajou a Roma com McCloskey com o objetivo de participar de uma conferência para celebrar a canonização do fundador do Opus Dei, Josemaría Escrivá de Balaguer.

Em sua intervenção na conferência, Santorum apoiou a posição de Escrivá de Balaguer, que considerava "absurdo" alguém deixar a fé católica de lado ao se envolver com a política.

Nos debates legislativos sobre o aborto, disse Santorum na audiência em Roma, ele escutava Escrivá dizendo que "não é verdade que haja um conflito entre ser um bom católico e servir fielmente à sociedade civil".

Santorum enfrenta uma etapa difícil nas primárias republicanas 2012 em Illinois, mas obteve grandes vitórias nos estados de Alabama e Mississipi, onde o voto dos cristãos conservadores foi crucial.

Durante um de seus discursos, Santorum disse que a frase que mais escuta de seus eleitores é "rezo por você". Sua esposa, Karen, disse que o marido acredita que "Deus o chamou" para concorrer à Presidência dos Estados Unidos.

.................................
O bispo de Guarulhos (SP), dom Luiz Gonzaga Bergonzini, disse em entrevista ao G1 que orientará os padres da cidade a pregar nas missas o voto contra os candidatos do PT.
"Vou mandar uma circular para os padres da diocese pedindo que eles façam o pedido na missa, para que os nossos fiéis não votem nos candidatos do PT.
.................................
Com sua filiação à Obra(Opus Dei), um crescente número de intelectuais, médicos, parlamentares, juizes e jornalistas dão ao Vaticano uma força poderosa e oculta que pretende impor seu código moral não somente ao católicos, mas através das leis e da política.
O vínculo com os fascistas


Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, "fingindo-se de louco", antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. "O Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais"

Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as idéias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis "são belos e inteligentes" e devem olhar aos demais como "inferiores e animais". Na máxima 643, ensina que a meta "é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial". Na máxima 311, ele escancara: "A guerra tem uma finalidade sobrenatural... Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas". Em 1992, um ex-membro do Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: "Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões". Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: "Escrivá, com toda certeza, era fascista". 

No seu processo de ascensão no Vaticano, ele contou com a ajuda de notórios nazistas. Como descreve a jornalista Maria Amaral, num artigo à revista Caros Amigos, "ao se mudar para Roma, ele estimulou ainda mais as acusações de ser simpático aos regimes autoritários, já que as suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer o Opus Dei com estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o pontificado do papa Pio XII, por meio do cardeal Eugenio Pacelli, responsável por controverso acordo da Igreja com Hitler". Um outro texto, assinado por um grupo de católicas peruanas, garante que a seita "recrutou adeptos para a organização fascista ‘Jovem Europa’, dirigida por militantes nazistas e com vínculos com o fascismo italiano e espanhol". 

Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma "peregrinação" pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.

Na América Latina, a Opus Dei controla o jornal El Observador (Uruguai) e tem peso nos jornais El Mercúrio (Chile), La Nación (Argentina) e O Estado de S.Paulo (Brasil). Segundo várias denúncias, ela dirige a Sociedade Interamericana de Imprensa, braço da direita na mídia hemisférica. No Brasil, a Universidade de Navarra é comandada por Carlos Alberto di Franco, numerário e articulista do O Estado de S.Paulo.

O veterano jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, há muito denuncia a sinistra relação do Opus Dei com a mídia. Num artigo intitulado "Estranha conversão da Folha", critica seu "visível crescimento na imprensa brasileira. A Folha de S.Paulo parecia resistir à dominação, mas capitulou". No mesmo artigo, garante que a seita "já tomou conta da Associação Nacional de Jornais (ANJ)", que reúne os principais monopólios da mídia do país. Para ele, a seita não visa a "salvação das almas desgarradas. É um projeto de poder, de dominação dos meios de comunicação. E um projeto desta natureza não é nem poderia ser democrático. A conversão da Folha é uma opção estratégica, política e ideológica".

Durante seus longos anos de atuação nos bastidores do poder, o Opus Dei constituiu uma enorme fortuna, usada para bancar seus projetos reacionários - inclusive seus planos eleitorais. Os recursos foram obtidos com a ajuda de ditadores e o uso de máquinas públicas. "O Opus Dei se infiltrou e parasitou no aparato burocrático do Estado espanhol, ocupando postos-chaves. Constituiu um império econômico graças aos favores nas largas décadas da ditadura franquista, onde vários gabinetes ministeriáveis foram ocupados integralmente por seus membros, que ditaram leis para favorecer os interesses da seita e se envolveram em vários casos de corrupção, malversação e práticas imorais", acusa um documento de católico do Peru. 

A seita também acumulou riquezas através da doação obrigatória de heranças dos numerários e do dizimo dos supernumerários e simpatizantes infiltrados em governos e corporações empresariais. Com a ofensiva neoliberal dos anos 90, a privatização das estatais virou outra fonte de receitas. Poderosas multinacionais espanholas beneficiadas por este processo, como os bancos Santander e Bilbao Biscaia, a Telefônica e empresa de petróleo Repsol, tem no seu corpo gerencial adeptos do Opus. 


O jornalista Emílio Corbiere cita os casos de fraude e remessa ilegal de divisas das empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, que financiaram a Universidade de Navarra. Há também a suspeita do uso de bancos espanhóis na lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. O Opus Dei esteve envolvido na falência fraudulenta do banco Comercial (pertencente ao jornal El Observador) e do Crédito Provincial (Argentina). Neste país, os responsáveis pela privatização da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por grupos espanhóis, foram denunciados por escândalos de corrupção, mas foram absolvidos pela Suprema Corte, dirigida por Antonio Boggiano, outro membro da Opus Dei. Outro numerário do Opus Dei, o banqueiro Gianmario Roveraro, esteve envolvido na quebra da Parlamat.

Durante a ditadura no Brasil, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do atual governador do Estado de São Paulo. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.


Seu crescimento dependeu da benção dos generais golpistas e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram os seus "embaixadores", relacionando-se com donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção da sua estrutura de fachada - Colégio Catamarã (SP), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: OSUC (Obras Sociais, Universitárias e Culturais). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Confrontado com esta denúncia, Lizandro Carmona, da OSUC, implorou à jornalista Marina Amaral: "Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro ao Opus Dei".


Como você pode ver, nos bastidores do poder, existe a grande influência desta organização religiosa, onde os que sedem ao seu assédio acabam por influenciar as leis que regem a população, ficando todos a mercê das conspirações enrustidas nos bastidores.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...