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sábado, 14 de abril de 2012

Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; (Mt 5,3)



By Daniele Faedda Pusceddu



μακαριοι οι πτωχοι τω πνευματι οτι αυτων εστιν η βασιλεια των ουρανων  (Mt 5,3)
Um texto difícil esse das bem-aventuranças, mas não por que sua exegese seja truncada, ou tenha alguma dúvida quanto à veracidade de tal perícope dentro da comunidade de fé. Não, muito pelo contrário, eu diria.
Difícil pela renúncia radical que o Cristo nos convida, enfim, ele começa a proclamar o reino de Deus e, logo, sem reservas diz a quem este reino é destinado: O REINO É DOS POBRES!
E pobre aqui é no sentido mais radical, extremado e agravado que se possa pensar, o pobre é também pobre no espírito, ou seja, não há nenhum recurso material ou intelectual mínimo, que seja que possa garantir que ele venha se livrar de tal condição. Ele é o excluído, rejeitado pela sociedade, o não querido, o não homem, o marcado por Deus, na concepção social para padecer o infortúnio de sua própria pobreza, de seu próprio pecado.
Há duas palavras gregas, usadas no Novo Testamento, que são traduzidas pobres: "ptochos (πτωχοι) e penes".

Ptochos (plural ptochoi πτωχοι)  significa estar totalmente sem meios. Ptochos  refere-se a alguém que está na miséria.

Penes significa pobre no sentido de que uma pessoa tem meios, mas está sempre lutando para sobreviver. Um homem que trabalha que se esforça para pagar pela comida.   A diferença é esta:
1)   "Ptochos, πτωχοι " reduz o homem a um mendigo.
2)   "Penes" é a pobreza, no sentido de trabalhar duro apenas para sobreviver.

Mateus 5:3 "Bem-aventurados os pobres (' πτωχοι '), em espírito, porque deles é o reino dos céus”.

Lucas 6:20 "E ele, levantando os olhos para os seus discípulos, e disse: Bendito seja vós, os pobres ('ptochos πτωχοι'), porque vosso é o reino de Deus”.

Ptochos  é usado significando totalmente desamparados. Uma pessoa que não é totalmente destituída de bens materiais e intelectuais procurará trabalhar o seu caminho para sair da situação. Uma pessoa que é destituída, não tem meios de salvar a si mesmo, e o reino dos céus, portanto, a ela é destinado, como dom, como graça! Aos pobres se juntam todos os excluídos  e marginalizados do tempo de Jesus: doentes que são curados, mulheres que são valorizadas,  crianças que são abençoadas, publicanos que são acolhidos, pessoas perturbadas e cheias de  problemas que são libertadas, assim  todos que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos!

O reino dos céus procurará operar uma transformação radical na consciência dos homens e mulheres desse reino, em função da justiça e da paz, eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! Fazer parte desse reino, portanto, envolve o amor à justiça, ao pobre e ao excluído como o amor do próprio Cristo na cruz pela humanidade, e humanidade aqui, é entes de todas as coisas, a condição de ser humano, condição essa que o pobre não tem, pois ele é o NÃO humano. Cristo transforma essa realidade, de injustiça à justiça plena, libertando e operando a salvação. O Reino de Deus é do totalmente pobre.

10 comentários:

Carlos Gasparotto disse...

Creio q Jesus usou ptochoi e não penei, não para falar de pobres no sentido econômico, mas no sentido espiritual mesmo, do coração. Se ele tivesse usado penei, então, nós teríamos recursos em nós mesmos. Por isso não sigo a doutrina existencialista como um princípio, mas apenas como um alerta do quanto dependemos dos recursos do Pai.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Excelente texto e de grande profundidade teológica!

Concordaria com o nosso irmão e pastor Carlos em dizer que Jesus teria usado um termo aramaico que se aproximou de ptochoi.

Não ter recursos em si mesmo seria dependermos da graça de maneira total. E aí, quanto mais "pobres", mais podemos compreender e experimentar a realidade do Reino em nós.

Quando temos muitas bagagens, temos dificuldades de nos mover. Gandhi, com toda a sua esquisitisse que chego a questionar, optou por ser um pobre. E ele, inegavelmente, inspirou-se nos evangelhos que conheceu na Inglaterra e África do Sul, pelo que não apenas apoiou-se na sua cultura hindu. Pois bem, tendo ele apenas poucos bens de uso: a túnica, os óculos, a bengala e as sandálias, Gandhi não ficava preso a praticamente nada que pudesse dificultar sua missão.

Sem dúvida que estamos de uma frase sapiençal de grande profundidade e acredito que o termo ptochoi aparece ali também como metáfora quanto ao ensinamento.

Um abraço a todos e tenham uma excelente semana!

Ricardo Prado disse...

Na verdade afasto peremptoriamente toda a tentativa de interpretação quanto o termo ptochoi ser um termo figurativo, metafórico. Na verdade, não o é! Pelo contrário, tanto o texto receptus, quanto o texto crítico trabalham ptochoi em todas as passagens comparativas às de Mt5,3 na radicalidade da pobreza, da mendicância... Querer usá-lo como metáfora, é tão somente, assumir em si mesmo a condição de que o Reino não serve para quem assim procede. Ou seja, tentam usurpar o Reino de Deus de quem ele de fato é destinado, aos pobres, como se as meras interpretações dolosamente equivocadas pudessem mudar à vontade do próprio Deus quanto ao destino do Reino, seus habitantes e convidados.

Porém, ele lhe disse: Um certo homem fez uma grande ceia, e convidou a muitos.

E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado.

E todos à uma começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e importa ir vê-lo; rogo-te que me hajas por escusado.

E outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me hajas por escusado.
E outro disse: Casei, e portanto não posso ir.

E, voltando aquele servo, anunciou estas coisas ao seu senhor. Então o pai de família, indignado, disse ao seu servo: Sai depressa pelas ruas e bairros da cidade, e traze aqui os pobres (και τους πτωχους, acusativo, plural, Lucas 14:21), e aleijados, e mancos e cegos.

E disse o servo: Senhor, feito está como mandaste; e ainda há lugar.

E disse o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e valados, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha.

Porque eu vos digo que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia.
Lucas 14:16-24


Nessa parábola, muito antes de se dizer do Reino aos gentios, ela diz do REINO AOS POBRES DE ISRAEL, e como Bíblia se interpreta com Bíblia, sendo uma das primeiras regras hermenêuticas é de bom senso, Est modus in rebus, que se olhe para a própria tônica do sermão do monte quando Jesus anuncia o Reino aos pobres e CONDENA AS RIQUEZAS! Mateus 6,19 seguintes.

Enfim, o texto é maravilhoso, de um grande teólogo e amigo, e que traz à luz o devido lugar da justiça: ela é para o POBRE como o Reino de Deus também o é. Hoje em dia tem muita gente usando Deus para ser rico, como se Jesus fosse uma varinha de condão, e que se ao pronunciar seu nome, todas as riquezas e regalos da vida viessem a existir, e se esquecem que ele disse: Entrai pela porta estreita (LARGA É A PORTA E ESPAÇOSO O CAMINHO QUE CONDUZ A PERDIÇÃO, E SÃO MUITOS OS QUE ENTRAM POR ELA), porque estreita é a porta, e apertado é o caminho que conduz para vida, e são poucos que entram por ela. Mt 6,13. Antes ele havia dito: Ninguém serve a dois senhores, porque ou há de aborrecer um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a DEUS E ÀS RIQUEZAS.

Quem tem ouvidos para ouvir, que OUÇA!

Eduardo Medeiros disse...

Anja,

gostei muito do texto sintético mas profundo teologicamente da Daniele!
Taí mais uma eu que eu gostaria de ter no staff da logos e mythos...rsss

Sem dúvida, o Reino era dos pobres; mas não somente deles; também das "crianças" e dos pacificadores, dos que tem sede de justiça, dos mansos...

Mas é não creio que a pobreza tivesse valor em si mesma no discurso de Jesus; o Reino era dos pobres para que eles fossem salvos da pobreza!

ou será que devemos pensar que no Reino de Jesus a miséria e a opressão continuariam a existir?

Anja_Arcanja disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anja_Arcanja disse...

Rodrigo, Grata por sus Réplica e atacamento ao texto.

O ricardo lhe respondeu.

Bjux Paz.

Anja

Anja_Arcanja disse...

Ricardo, Grato querido pela apologética feita, seja bem vindo e sinta-se a vontade.

Anja

Anja_Arcanja disse...

Edu, grata querido.

]Sim, quero muito reverberar os textos do Daniele ( e não é da é do) Ele tem escrito textos maravilhosos e exclusivos para meu blog e que tem servido de objeto de estudo para seus alunos, e eu espero poder reverberar os textos dele no nosso recanto dos hereges rsrs veja os textos dele neste link Edu compensa: http://omundodaanja.blogspot.com/search/label/Artigos%20Daniele%20F.%20Pusceddu

Este é o Daniele:

"Daniele Faedda Pusceddu, de origem Sarda, é mestre em Filosofia, e graduado em Teologia e Direito.

Professor universitário apaixonado por Letras e Literatura, em especial, a decadentista por descrever uma sensibilidade estética marcada pelo subjetivismo, pela descoberta do universo inconsciente e pelo gosto das dimensões misteriosas da existência, que ocorre no fim do século XIX, em especial na França.

Descrito, pelos amigos, como crítico ao extremo, constantemente fala de política, religião e movimentos sociais nas mesas de bares, lugar em que, para ele, a verdadeira filosofia flui...

Em tudo com intensidade, sempre recomenda: “carpe diem... Tornem extraordinárias as suas vidas!”.

Bjux Edu

Renato HOFFMANN disse...

Ou seja, nem Jesus falando, pois essas são as "logias" de Jesus, nem assim a galera se convence. Deus é uma apropriação do humano e do desejo dos homens. Se Deus diz contrário a avareza e às riquezas, ambição e egoísmo, os homens tem que dizer que não é bem assim! NÃO É ATOA QUE JEUSS FUI CRUCIFICADO!

Parabéns Daniele, fantástico como sempre!

Eduardo Medeiros disse...

Ah, sim, perdoe-me o mico com O Daniele....rsss seria muito bem-vindo a Logos e Mythos!!!

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