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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Escravos da Pós-Modernidade



 Por  Levi B. Santos


Desde que o mundo é mundo se apregoa que a justiça, a educação e a Ciência um dia triunfarão e o homem deixará de ser escravo do próprio homem. O que mais se fala hoje é: “estamos cada vez mais progredindo, o avanço da Tecnologia está aí para não nos libertar do atraso. Acreditamos que aos poucos estamos conseguindo a tão sonhada liberdade que nossos pais não tiveram”.

Mas será que não estamos hoje tanto ou mais escravizados quanto foram os nossos ancestrais?

Até que ponto nos libertamos dessa herança?

O lema idealista do nosso mártir, Tiradentes ― “Liberdade ainda que tardia” ― ainda ressoa em nossos ouvidos, fazendo vibrar as cordas enferrujadas dos nossos corações. O vazio existencial impulsiona-nos ainda a sonhar com um utópico paraíso de paz.

Era o medo de morrer que fazia com que os escravos fossem submissos aos seus Senhores. O espectro do medo com sua sombra forte e lúgubre, como nos primórdios, sufoca o nosso desejo de liberdade.

Hegel, em sua Fenomenologia do Espírito, fez um pequeno e emblemático intróito sobre a dialética ― “O Senhor e o Escravo”:

“Dois homens lutam entre si. Um deles é pleno de coragem. Aceita arriscar a sua vida no combate, mostrando assim que é um homem livre, superior à sua vida. O outro que não ousa arriscar a sua vida, é vencido. O vencedor não mata o vencido, ao contrário, conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Tal é o escravo “servus”, aquele que ao pé da letra foi conservado.”

Como toda moeda tem o seu lado avesso ou oposto, passemos a exibir a outra face da teoria de Hegel: “O Senhor só é senhor em função da existência do escravo. O Senhor depende da consciência do escravo para ser reconhecido como tal”.

O Historiador Inglês, Theodore Zeldin, em “Uma História Íntima da Humanidade”, tece algumas considerações sobre o paradoxo “liberdade-escravidão”, mostrando que as pessoas crescem “fatigadas de obediência”, da mesma forma que evoluem “cansadas de liberdade”.

Alguns escravos lograram assegurar sua autonomia mesmo sendo forçados a um trabalho desprezível, fingindo aceitar as humilhações, representando um papel de forma que o Senhor vivesse na ilusão de que detinha o comando, em consonância com o provérbio favorito do escravo jamaicano, que diz: “Passe por tolo para obter vantagem”.

O proprietário Romano de escravos, Plínio ― O Velho (77 d.C.), no intuito de demonstrar que ele era também um escravo, assim escreveu: “Usamos os pés de outra pessoa quando saímos, usamos os olhos de outra pessoa para reconhecer as coisas, usamos a memória de outra pessoa para saudar as pessoas, usamos a ajuda de alguém para permanecer vivos. As únicas coisas que guardamos para nós mesmos são os prazeres.”

Mas o sonho da sociedade utilitária pós-moderna ainda continua sendo, como nos primórdios, o de viver como um Senhor. Não sabem esses candidatos a senhores que ao tentarem abandonar as vestimentas de escravos, estarão se tornando dependentes de outros tipos de Senhores: os robôs da tecnologia niilista, a ciência agressiva, poderosa e insensibilizadora de nossos afetos.

Zigmunt Bauman, sobre a “pós modernidade líquida”, disse: “o homem pós-moderno faz tudo em nome da segurança. Ele quer ser livre e junto com este desejo vem a insegurança que o leva ao pânico”.

Concluindo: a escravidão nunca será abolida do mundo. No máximo ela será trocada por novas formas de escravização. Lutar para ser livre já se tornou cansativo e doloroso demais.

Tinha razão Theodore Zeldin, quando assim escreveu: “Cada geração procura somente o que pensa lhe faltar e reconhece apenas o que já conhece. No entanto, a despeito dos novos anseios de liberdade, muito do que as pessoas fazem ainda é governado pelos velhos modos de pensar”.
Já que estamos a falar sobre “Senhores e Escravos”, não poderia deixar de abordar um tipo de escravismo que campeia na pós-modernidade, e vem tomando conta de nós, de uma forma sutil e poderosa. Na maior parte do nosso tempo, navegamos muito mais pelo oceano da internet ou em redes virtuais, do que em conversa com os familiares que estão, em corpos, mais próximos, nos nossos lares. Dependentes do “Senhor” ― “Mundo Cibernético” ― progredimos e ao mesmo tempo retornamos a viver como os escravos de antigamente que não tinham família e não deviam lealdade a ninguém, salvo ao seu Senhor.

A evolução tecnológica que nos tirou das matas, é a mesma que nos aprisiona nas selvas de pedras e de silício. Boa parte das doenças que assolaram a humanidade de outrora, hoje, são facilmente debeladas; em contrapartida não conseguimos fugir do trabalho desvairado, do esgotamento nervoso, da depressão e do estresse. Levados por uma correnteza implacável continuamos escravos de nós mesmos.


Via: C.P.F.G

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