Pesquise artigos do blog:

domingo, 29 de abril de 2012

O bilhete (by Gondim)




Ricardo Gondim
O telefone acordou-me mais cedo. Soava com um alarme estridente. Pressenti péssimas notícias. Estendi a mão sem saber ao certo se queria silenciá-lo ou atender quem interrompia meu breve sono.
-         Alô?
-         Frederico, você precisa vir à UTI agora mesmo. Catarina quer falar com você.
-         Já estou indo.
Rodei as cobertas como um toureiro e, acrobata, saltei da cama. Sequer tomei banho. Com os movimentos circulares da escova enchi a boca de espuma. Lavei o rosto, preparando-me para fazer a barba e mal avaliei as novas rugas que se aprofundaram com a noite mal dormida. Fixei o olhar no espelho que me parecia uma tela projetando o dia em que Catarina e eu nos conhecemos.
Deus, não faz tanto tempo! Aconteceu no Seminário de Atualização Literária da Fundação Olavo Bilac. Como detesto serões literários, queria manter-me acordado. Creio que demonstrava meu tédio com tantas leituras e palestras chatas. Catarina me observava. De repente, voltou o rosto para trás, espalhando seus cabelos negros e cacheados para censurar-me; quase rebentando numa gargalhada:
-         Você é sério demais, vai ficar velho antes do tempo.
Tomei um susto com sua coragem de falar assim para um homem sem conhecê-lo. Mas todos os amigos de Catarina já comentavam, há tempos, sua espirituosidade. Ela sempre encarava momentos constrangedores com bom humor. Não hesitei encara-la e encantei-me com sua altura, ombros largos, seios pequenos, pernas fortes e cintura não tão fina. Catarina tinha uma beleza sem polimentos, algo tosca. Seus dentes alvíssimos pareciam maiores que o normal e seus lábios carnudos conferiam-lhe a sensualidade das sertanejas. Ela parecia uma personagem tirada dos filmes de cangaceiro.
-         Não sou tão sério como você pensa.
Respondi mais sério ainda.
-         Essa sua mania de franzir a testa e só olhar, sem falar nada, vão fazer de você um velho prematuro.
Insistiu.
-         Vamos tomar um café na livraria?
-         Só se você prometer tomar café mesmo e não esquecer de mim, folheando livros.
Começou assim e assim passamos a nos amar; sempre dentro de livrarias. Entre prateleiras e sob o olhar de Heidegger e Sartre, que nos espiavam do dorso de seus tomos, nos beijamos pela primeira vez. Ah, como tremi ao sentir seu corpo por inteiro. Abraçou-me enlaçando meu pescoço com seus braços fortes.
Senti-me vassalo de seus carinhos. Os tamancos altos nos tornavam quase da mesma altura.
Passei a conversar com o espelho.
-         Porque nos apaixonamos tão depressa? Somos tão diferentes.
Notei que meus cabelos cor de ferrugem, olhos azuis e pele tão clara fizeram de mim um nórdico ao lado de Catarina.
Ela era arquiteta e eu acostumado a só dialogar com outros professores de filosofia. Nossos universos eram diferentes. Enxergávamos o mundo por nesgas bem distintas.
Catarina ensinou-me a rir. Desde a faculdade achei que viver bem exigia uma mente taciturna, sóbria e sempre muito grave. Acreditei que filosofar é um combate perene. Repeti tantas vezes que a arma dos pensadores é a razão, jamais o riso dos frívolos ou dos que encaram a vida sem disciplina. Quantas vezes pontifiquei do alto de minha estúpida soberba:
-         Catarina, as virtudes exigem moderação.
-         Bobo, precisamos rir, brincar, dançar e cantar muito.
Suas respostas a princípio me agrediam; uma zombaria. Catarina decididamente não se levava a sério e por isso eu a amei.
Perguntei para o homem que me espreitava de dentro do espelho:
-         Ela está chamando por mim, será que quer falar sobre Deus? Será que finalmente vamos conversar sério sobre ele?
Sei que Catarina é agnóstica. Mesmo naqueles dias em que eu andava encantado com o teísmo de Tomás de Aquino, jamais conseguimos nos aprofundar sobre a existência de Deus. Nossos diálogos tornavam-se pesados. Eu sentia que lhe incomodava. Meus arrazoamentos sobre o desígnio do universo, nunca lhe encantaram. Ela nem prestava atenção quando argumentava que a principal indagação filosófica sobre a eternidade nasce da angústia.
-         Catarina, por que existe alguma coisa em vez de nada?
Ela apenas ria sem nunca me responder; contraía os lábios e me mandava um beijo.
Diante do espelho eu só ouvia o barulho da água descendo pela pia. Falei sozinho:
-         Quisera poder segurar sua mão mais uma vez para pedir-lhe que pare de rir enquanto tento me concentrar em minhas argumentações.
Seus olhos marotos continuavam ariscos enquanto eu tentava conquistá-la com me tom professoral:
-         Catarina, nada nasce do nada. Se há alguma coisa – o mundo, o universo – é porque sempre houve um que precedeu tudo, incriado e eterno; que chamamos de Deus.
-         Fred, pare com esses questionamentos. Vamos viver. Nunca teremos a resposta. Só saberíamos se nos transportássemos para o tempo em que nada existia e perguntássemos: Quem está aí?
Não éramos distantes apenas no pensar; tudo nela diferenciava de mim. Eu não me importava com minhas poucas roupas no armário, de só usar um único paletó de lã, vestir camisas mal engomadas e só possuir duas calças jeans. Assustei-me quando vi a organização do seu guarda-roupas.
Os cabides acrílicos eram iguais, as roupas penduradas por cor e os muitos sapatos enfileirados como nas lojas. Catarina trajava-se como os arquitetos: “clean” e elegante.
Acabei de escovar os dentes e fugia-me a coragem de fazer a barba. Odeio barbear-me e hoje, prevendo a dor que me espera, hesitei continuar mirando o espelho.
Catarina me ensinara a me encarar com menos seriedade. Desde sempre eu só gostava de conversar sobre assuntos complicados de nossa existência humana, mas fugia de mim mesmo. Entretanto, ela não se conformava.
-         Sua vida é um tédio. Você precisa aprender a viver.
Ao lado de Catarina, tive que ouvir música popular brasileira. Muitas vezes, fui ao teatro algemado. Aprendi a ler poesia. E era repreendido quando tentava esticar meu trabalho nos fins de semana.
-         Não senhor! Vamos para um barzinho com os meus amigos arquitetos. Vamos relaxar e curtir uma noite agradável.
Enxagüei a boca e ainda mirando o espelho. Criei coragem e espalhei a espuma que me ajudaria tosquiar o rosto. Mas, a voz da enfermeira ainda ressoava em meus ouvidos e eu a odiei por isso.
-         Você precisa vir à UTI! Catarina quer falar com você.
“Maldita!” Pensei, enquanto puxava a lâmina pelo cabo. Deixei a torneira aberta e não me incomodei em desperdiçar água. Voltei a contemplar o espelho. Será que estava sentido prazer com a dor da saudade?
-         Quero chamar você por um apelido.
-         Pode me chamar de Cá.
-         Cá, continuo matutando sobre Deus.
-         Por que tanta preocupação? Devemos nos preocupar em amar. Está escrito na Bíblia que quem ama conhece a Deus porque Deus é amor.
-         É, acho que já li isso.
-         Fred, vamos tornar o nosso amor verdadeiro, mais forte que a violência, mais digno que a inveja, mais relevante que o egoísmo. Se Deus é amor, amemos o que é divino e estaremos próximos dele.
Acabei de fazer a barba e tive medo de vestir-me. Ali, diante do espelho ainda pensei passar colônia no rosto. Cá gostava de sentir o meu cheiro e sempre me elogiava quando deitava sua cabeça sobre meu peito. Continuei em meu monólogo delirante:
-         Hoje já não perceberá nenhum perfume, não haverá carinho; mal poderei tocá-la.
Acho que gritei um ou dois palavrões quando me lembrei daquele perverso envelope branco. Ela o segurava sobre o colo, rasgado numa das pontas, quando me falou:
-         Fred, estou com câncer nos dois rins; e já deu metástase no pulmão.
-         Cá, não brinque comigo!
-         Não, não estou brincando. Aquele mal estar que senti na caminhada da montanha já era a doença.
-         E quais são os prognósticos?
-         Tenho poucos meses de vida.
Passamos aquela noite acordados. Falamos sobre o tratamento e quais as opções no exterior. Prometi pesquisar tudo. Reviraríamos o mundo: a internet, os melhores especialistas, todas as terapias pioneiras.
Mas os nossos esforços redundaram em nada. Os remédios não passaram de meros paliativos. As drogas devastaram Catarina que piorou, piorou até acabar na unidade de tratamento intensivo, último estágio dos agonizantes.
O tempo deve ter se apressado. O imaterial inimigo dos mortais deve ter me iludido diante do espelho e não percebi o caminhar dos ponteiros quando o telefone tocou novamente. Tremi com um assombro sobrenatural. Só podia ser o pior.
-         Fred, Catarina acabou de morrer.
Era sua irmã Adriana, que chorava miúdo e impotente. Permaneci mudo; no quarto não havia espelho na minha frente e ninguém para conversar. Adriana continuou:
-         Antes de morrer, Catarina ainda teve forças para escrever-lhe um bilhete. Venha buscá-lo.
A morte nos encoraja. Em um centésimo de minuto já ia a caminho do hospital. Desejava ler a mensagem da mulher que marcou minha vida. Sozinho, continuei meu solilóquio, olhando retrovisor pendurado à minha frente:
-         O que ela pensou quando suas forças se esgotavam e com a mente tão débil?
Corri pelos longos corredores do quinto andar; desesperado, queria chegar à UTI. Abracei Adriana e nos sentimos irmãos. Sem falar, ela estendeu-me uma página de caderno dobrada ao meio.
Notei que a letra tremida e grande ocupava toda a folha. Cá me dizia:
-         Fred, não esqueça de ir ao barzinho na sexta-feira.
Soli Deo Gloria.

Um comentário:

Ivani Medina disse...

Fred, não se esqueça de viver. Maravilha!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...