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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O "Diálogo" entre os apócrifos e os canônicos







Se você aprendeu no teu seminário ou na EBD da sua igreja que os livros apócrifos são "espúrios", "não inspirados",  saiba que essa afirmação é bem duvidosa. Existe uma grande possibilidade histórica de que tenha havido um frutífero diálogo ecumênico entre o mundo judaico e o mundo cristão através  dos apócrifos do Antigo Testamento em suas redações finais. E mais: muitos temas teológicos passaram a ser comum às duas tradições através desses livros.

Boa parte dos cristãos mais esclarecidos sabem que escritores do Novo Testamento conheciam e citaram os apócrifos do mundo judaico. O exemplo clássico é o da carta de Judas que nos v 14 e 15, cita diretamente o primeiro livro de Henoc 1,9 - que aliás é considerado canônico até hoje pela igreja copta. Existe também a alusão aos anjos que pecaram (Jd 6) e a comparação dos "astros errantes" (Jd 13). Temos também em Judas, clara referências ao Testamento dos doze patriarcas (Jd 7) e à Assunção de Moisés (Jd 9).


Mas o "diálogo" não ficou somente na carta de Judas. Veja abaixo uma amostra de semelhanças entre textos do Novo Testamento e textos apócrifos judaicos:

O Apocalipse siríaco de Baruc (2Br 49,2-3) e 1 Co 15,35-40 se põem a mesma pergunta: com que corpos ressuscitarão os mortos?

Ap 6.9-11 fala dos mártires que debaixo do altar perguntam pelo tempo que falta para a vingança. Encontramos as mesmas perguntas e respostas no quarto livro de Esdras (4.34-36)

O discurso de Estevão em Atos(7.36.38-39.43) ecoa quase que literalmente aAssunção de Moisés 3.11-13. Influências desse apócrifo podem também ser encontradas em 2 Pd 2,3, 13; Mt 24.21; Mt 24,29.

Encontramos paralelos interessantes entre o Apocalipse de Elias 1,7 e 1 Jo 2,15: "Não ameis o mundo nem o que está no mundo". Apocalipse de Elias 1,13também aparece em Fl 3.9 "cujo deus é o ventre". O sinal na testa e o selo na mão de Ap 14.1,9 se encontra em Apocalipse de Elias 1,9 e 3,58.

Os sinais de conflito que preparam a chegada do fim em Mc 13,7-8 encontram-se também nos Oráculos Sibilinos 3,635, em 4 Esdras 13,31, em 2 Baruc 27.5 que no v 12 anuncia também: "um irmão entregará seu irmão à morte, um pai o filho; os filhos denunciarão seus pais e os farão morrer..."

Existem várias outros exemplos  mas estes já bastam para que se veja como os apócrifos influenciaram textos do Novo Testamento. Isso mostra também que os autores do NT conheciam, estimavam, valorizavam e dialogavam com esta literatura que, posteriormente chamada de apócrifa, circulava, sem censura, nos meios judeus e cristãos.

Muitos destes livros chegou até nós do mundo judaico  após uma releitura cristã. Os cristãos leram, usaram, interpolaram, releram estes livros a tal ponto que, em muitos casos, fica difícil definir o que pertence ao original judaico ou ao posterior intervenção cristã.

O livro da Vida de Adão e Eva originalmente escrito em hebraico  antes de 70 E.C e que teve uma tradução grega da qual surgiu uma tradução em latim que é na verdade, uma nova narrativa, demonstra bem esse diálogo dos textos de tradição hebraico com a tradição cristã. O texto em latim reinterpreta o messianismo judaíta numa perspectiva cristã; Gênesis 3,15 é relido desde Cristo.“Quando passarem 5.228 anos, virá à terra o Cristo, o muito amado Filho de Deus, para animar e ressuscitar o corpo de Adão e de todos os mortos”.  Encontramos aqui uma interessante interpretação messiânica cristã, enraizada numa interpretação judaica. No novo texto também aparece a visão da virgem com um menino crucificado nos braços, lembrando a mulher e sua descendência ferida pela serpente.

Começa a ser construído o pensamento teológico que virá a ser cada vez mais comum ao judaísmo e ao cristianismo: todos os males são consequência da culpa do pecado de Adão e Eva, o que o cristianismo posteriormente vai chamar de “pecado original. Consolida-se também no pensamento cristão o dualismo corpo/alma; no livro, a alma de Adão será entregue no céu ao arcanjo Miguel, enquanto o corpo de adão será enterrado pelos anjos, no paraíso, junto com o corpo de Abel.

O 4Esdras, que junto com 3Esdras que fazem parte da Vulgata como livro canônico, nasce no contexto da grande pergunta que mexeu com a cabeça e com o coração dos judeus, depois de 70 E.C: Por que o nosso Deus Todo-Poderoso deixou que a santa cidade de Jerusalém fosse destruída pelos romanos?  É um texto originalmente judaico, ao qual autores cristãos acrescentaram os primeiros e os últimos capítulos. O corpo judaico, porém, é também recheado de mensagens que foram lidas em comum por judeus e cristãos, a ponto de ser considerado livro inspirado.

A explicação encontrada é que todos os males está no “coração mau” com o qual, depois do erro de Adão, todos nascem, inclusive Israel. Nem a Torá livra do pecado: Deus a entregou no Sinai sem tirar o coração mau(4Esd 3,19-22). A lei, aos poucos, foi abandonada e ficou só o coração mau. Jerusalém foi entregue aos babilônicos e aos romanos porque seus habitantes repetiram o erro de Adão.

Vários outros exemplos de livros hebraicos com interpolações e reinterpretações cristãs poderiam ser citados, mas para não  alongar muito, passo  à conclusão que é: O cristianismo primitivo dialogou com os textos da tradição judaica canônica e apócrifa. Às vezes parecem dominar razões apologéticas onde se busca mais do que um diálogo, usar a obra do outro para legitimar o nosso pensamento. Outras vezes, porém, parece estar sendo autorizada, através de uma espécie de batismo cristão, uma obra judaica considerada importante e interessante para a comunidade. Seja qual for o objetivo desta interação, não resta dúvida que os apócrifos judaicos eram lidos, eram conhecidos, eram meditados e celebrados ao mundo cristão ou, pelo menos, ao mundo judeu-cristão.

Fica portanto algumas perguntas:

O que é canônico e o que é apócrifo? Como se chegou a esta distinção?  Quem quis e por que quis afastar da comunidade a proclamação da palavra contida nesses livros? Por que hoje não lemos mais estes textos que alimentaram as primeiras gerações de cristãos? Por que surgiu esse abismo entre judaísmo e cristianismo, já que ambas tradições possuem a mesma raiz?


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As informações do texto constam de um artigo escrito por Sandro Gallazzi na Revista de Interpretação Bíblica Latino-Amricana, edição 40, ed Vozes que por sua vez, cita a obra de Alejandro Diez Macho, Apócrifos del Antigo Testamento, vol 1, ed Cristandad, Madri, 1984

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