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sexta-feira, 27 de abril de 2012

O velório (by Ivani Medina)


Numa das capelas do cemitério do Catumbi o ambiente era padrão: caixão coberto de flores sobre suportes no centro da sala, ladeado pelos visitantes, uns poucos da família e a maioria amigos quase silenciosos. Dona Albertina, a defunta, nunca foi de choramingar em vida e isto parecia estar sendo respeitado naquele momento difícil. Por mais intelectualizado que se seja para perder alguém ninguém está preparado.
Ela deixara uma única filha que já havia perdido o pai e o avô materno anos atrás. Eram imigrantes portugueses e constituíam um bom patrimônio e uma família pequena no Brasil. Ana, a filha da morta, a partir daquele momento tinha como familiares, um tio, irmão do falecido pai, um primo e o marido. Mas, é como se diz: marido não é parente.

Simpática, inteligente e uma pessoa muito agradável, Ana, havia se cercado ao longo dos anos de amizades valorosas, porque assim ela era também. Estava perdendo a eterna luta contra a balança, mas o rosto continuava bonito, cativante e iluminado pelo bom humor de sempre, mesmo naquela hora. A inteligência dela tinha raízes profundas.

Na verdade, nunca estivera só. Cedo a vida lhe dera uma família apêndice. Eram quatro irmãos, dois casais, vizinhos desde pequenos. As meninas estudaram com Ana na mesma escola do ensino fundamental. Iam todo dia de carona com o seu querido avô materno no antigo Ford preto. O tempo se encarregou do resto. Amizade com mais de cinquenta anos sem interrupção pode ser considerada família.

Em sua família natural tudo era mais simples e mais farto para três pessoas. Na família, apêndice com o dobro de gente, não havia carência, mas era tudo bem mais movimentado, digamos assim. O pai das suas amigas era militar e viajava muito, mas quando estava em casa dirigia a família com mão de ferro. Viajava alívio, retornava terror. A casa da dona Albertina era uma espécie de embaixada para as meninas asiladas fugidas d’um governo militar. Ela dava asilo com satisfação e se divertia com tudo aquilo. Ana adorava. Que filha única não quer as amigas dormindo em sua casa?

A mais velha era mais infantil e muito medrosa. A mais nova era atrevidamente esperta, decidida e naturalmente engraçada. Era o oposto de Ana, com seus modos calmos, fala pausada e mansa e só fazia rir de Annette. O interessante é que entre elas havia até uma ligação no nome. Dona Albertina era fã declarada de Annette. Porém uma vez ficou sentida com essa filha emprestada. A parida e a emprestada brincavam com umas revistas que traziam umas bonecas para recortar e vestir com um guarda-roupa variado naquela alegria de papel.

O Natal estava próximo e Ana caiu na besteira de perguntar à Annette o que ela havia pedido a Papai Noel.

Que Papai Noel o quê. Você ainda acredita nisso?

Por quê?

Porque é mentira, ué?

A redomada Ana não podia aceitar aquela monstruosidade que a sua melhor amiga lhe dizia.
Mentira é o que você está me dizendo. Existe sim!

Ô garota burra!

Ana pôs-se a chorar. A amizade ficou seriamente abalada até a chegada da próxima revista de recortar, que chegou à semana seguinte. Dona Albertina acabou rindo também de si mesma. Aquele episódio serviu para chamar-lhe atenção para as inevitáveis tentações protecionistas que acabam trazendo mais tristezas do que contentamentos. Mas o Papai Noel da Ana não se esqueceu da apimentada Annette e nem da sua irmã mosca morta.

Annette entrou na capela acompanhada do irmão que guardava a mesma afeição fraternal por Ana. Quando os viu, os olhos dela se inundaram com aquele amor antigo. Os últimos meses de dona Albertina foram de um sofrimento intenso, narrado rapidamente por Ana, mas sem pressa. Nesse momento entram Glorinha e o marido. A mãe de Glorinha era amiga antiga de dona Albertina, cuja amizade se estendeu aos filhos. Glorinha jogava no time de Annette, isto é, tinha mais ou menos o mesmo perfil galhofeiro.

Vencida as etapas da dor, involuntariamente, foram se abstraindo da situação e do ambiente para aliviar as tensões. Os cinco haviam formado uma rodinha de costas para o caixão, na qual o primo de Ana se incluiu. Os assuntos tomaram rumos espirituosos como de hábito, os sorrisos evoluíram, Ana sem querer não conteve uma constrangedora gargalhada. Nas horas sérias isso pode ser contagiante... e foi. A defunta parecia rir também, enquanto a maioria dos presentes olhavam estupefatos para eles. Foi o velório mais animado do cemitério do Catumbi.

5 comentários:

Levi Bronzeado disse...

É Ivani

Você tocou num ponto interessante.

Comigo aconteceu várias vezes de, num velório, entabular um papo intensivo com a parentela do defunto, e me surpreender dando gargalhadas. (rsrs)

É que a vida hoje é tão corrida, que nos mais das vezes, a única oportunidade que temos de rever a parentada toda e os velhos amigos é na hora do velório da pessoa que gozou muito tempo do nosso círculo de amizade

Vá ver que no futuro, os cemitérios venham ter bares, para que os encontros pós-velórios, com o morto já enterrado, nos deixem mais a vontade. Só assim, desvestido das máscaras fúnebres, nos regalaríamos com os fatos engraçados do nosso cotidiano. (rsrs)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Interessante o conto.

Assim como o Levi, também considero os velórios uma oportunidade para as pessoas se relacionarem melhor. Claro que, passado algum tempo, todos voltamos às nossas rotinas e corremos o risco de nos afastar uns dos outros.

Ao lado disto, existe também a possibilidade de que venhamos a nos psicoadaptar aos falecimentos tornando-nos insensíveis a estes momentos. Quando minha avó estava em estado terminal do CTI do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, aqui no Rio, estaria sendo hipócrita se negasse que, no fundo do coração, pedia a Deus que a levasse por todos nós, pondo fim ao terrível sofrimento. Por razões morais e de crença na Vida, até para falar com o Onisciente a respeito eu acabava medindo minhas palavras nas orações.

Seja como for, a perda não deixa de ser sentida tempos depois do falecimento. Se na hora do recebimento da notícia do óbito as pessoas são capazes de fazer todos os procedimentos burocráticos e de enterrarem logo o corpo sem vida, corre-se também o risco de nos tornarmos reféns das lembranças. E aí tudo acontece conforme a relação de intimidade desenvolvida com a falecido, a maneira como trabalhamos nossos sentimentos, as culpas repugnantes inoculadas pela religião, etc.

Recordo que, em 2005, quando meu avô paterno faleceu em Juiz de Fora, a presença do apdre ali não fez nada bem a algumas pessoas próximas como eu e minha tia. O sacerdote parecia querer que os descendentes se sentissem de alguma maneira culpados. Até porque muitos na cidade conheciam coisas negativas do meu passado de adolescente rebelde e desobediente ao avó que tinha lhe criado e nem todos vinham me abraçar. Uns olhavam-me de cara feia e o pade (não sei se já me conhecia ou não) causava impressões semelhantes.

Enfim, às vezes é melhor ter um barzinho no cemitério onde as pessoas podem agir com espontaneidade do que uma triste capela...

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Em tempo!

Lembrei agora de quando meu professor de História de Direito faleceu uns anos atrás em Nova Friburgo.

O Dr. Ronaldo Leite Pedrosa, além de professor era juiz criminal na Comarca. Não sei qual era a religião dele, mas eu me recordo de quando uma outra ex-aluna me informou sobre seu falecimento e que o corpo estava sendo velado no auditório de palestras do Fórum.

Bem, ao chegar lá, encontrei um ambiente mais leve do que os cemitérios com um grupo de capoeiristas cantando e prestando assim uma homenagem póstuma ao falecido (ou aos seus familiares).

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Em tempo 2!

Quando eu morrer, peço que não me enterrem na lapinha. (rsrsrs)

Nem quero que comprem caixão! Pefiro que enrolem meu corpo num lençol para que os bichos comam mais rápido a matéria em decomposição.

No entanto, quero que haja bastante alegria e já falei pra minha esposa que façam bolo e guaraná.

Ivani Medina disse...

Levi e Rodrigo obrigado pelos seus comentários. Vocês captaram exatamente o que eu quis passar, pois a vida a gente inventa, a morte não dá pra melhorar. Felizmente, num velório somente um está morto. Os demais devem continuar a inventar.
Abraços.

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