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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Porque parti (By Gondim)





Ricardo Gondim
Depois dos enxovalhos, decepções e constrangimentos, resolvi partir. Fiz consciente. Redigi um texto em que me despedia do convívio do Movimento Evangélico. Eu já não suportava o arrocho que segmentos impunham sobre mim. Tudo o que eu disse por alguns anos ficou sob suspeita. Eu precisava respirar. Sabedor de que não conseguiria satisfazer as expectativas dos guardiões do templo, pedi licença.
Depois de tantos escarros, renunciei. Notei que a instituição que me servia de referencial teológico vinha se transformando no sepulcro caiado descrito pelos Evangelhos. Restou-me dizer chega por não aguentar mais.
Eu havia expressado minha exaustão antes. O sistema religioso que me abrigou se esboroava. Notei que ele me levava junto. Falei de fadiga como denúncia. Alguns interpretaram como fraqueza. Se era fraqueza, foi proveitosa, pois despertava para uma realidade: o Movimento Evangélico vinha se transformando em cabide de oportunistas; permitindo que incompetentes, desajustados emocionais e – por que não dizer?  – vigaristas, se escorassem nele.
Não há sentido em gastar os poucos dias que me sobram em remendar panos rotos. Para que continuar no mesmo arraial de pessoas que me desconsideram e que eu desconsidero? Deixei de tolerar os bons modos de moralistas (sexuais) que não se incomodam em transformar a casa de Deus em feira-livre.
Verdade, desisti. Desisti, porém, de apenas um segmento religioso. Que eu já não trato como lídimo representante do caminho do Nazareno. Larguei o esforço de recauchutar um movimento carcomido de farisaísmo.
Mas saio assustado. A fúria dos severos defensores da reta doutrina, confesso, me surpreendeu. Há alguns anos experimento o peso do rancor religioso. Nada mais perigoso do que um crente assustado; e nada que assuste mais um crente do que a transgressão da ortodoxia. Amigos me voltaram as costas. Estranhos se intrometeram em minha vida particular. Fui traído. Antigas invejas se fantasiaram de zelo pela verdade, e parceiros se transformaram em inimigos. Senti o escarro do desdém.
Embora tenha repetido, não me deram atenção. Eu nunca me atrevi solucionar os paradoxos filosóficos ou os mistérios teológicos que se arrastam há séculos. Não sou ingênuo: as Esfinges modernas, iguais as míticas, devoram o fígado de incautos que se imaginam donos da verdade.
Meu adeus foi ético. Passei a evitar a parceria de gente a quem eu jamais confiaria a carteira. Eu tinha que partir. Se critérios éticos não bastarem para definir o acampamento onde cravamos nossa barraca, há algo muito errado em nossa credibilidade. Nervoso com o carreirismo de gente que não hesita em vender a alma, preferi caminhar por outra estrada.
Rejeito a bitola que qualquer grupo -  fundamentalista ou não – chancelou e recomendou. Não aceito que tradição, escola ou cânone, cerceiem a minha capacidade de arrazoar. Rechaço obediência servil. Odeio timidez intelectual. Aliás, a única chancelaria que admito é da consciência. Creio que posso ser movido pelo mesmo Espírito que inspirou, e capacitou, homens e mulheres no passado. Erros teológicos, enquanto não produzirem intolerância, ódio ou preconceito, tenho certeza, estão perdoados.
Quero reaprender a viver. Vou buscar a trilha onde menos homens e mulheres andam de dedo em riste. Anseio por fazer-me amigo de gente espirituosa, leve, risonha, que sabe desafogar a alma.
Por condescendência, alguém disse que não sou teólogo, apenas poeta.  Apesar de não me achar digno de ser chamado poeta, sorri de felicidade. Que honra! Poetas não acendem fogueira. Tenho certeza que Miguel de Serveto gostaria de ver-se na companhia de trovadores.
Pretendo amar e apreciar, sem extravagância, as coisas mínimas: o tirocínio dos meninos, o desabrochar da paixão na menina em flor, a conversa de bons amigos. E no final do dia, ao rever as horas, saber celebrar a paixão de simplesmente existir.
Saio para instruir-me na adoração. Necessito transformar genuflexão em serviço. Quero descer do alto dos meus privilégios e estender a mão ao mortiço que jaz em alguma estrada poeirenta. Desisti de uma espiritualidade que se contenta em implorar favores à Divindade. Em minha partida, acalento o desejo de encarnar Deus. E assim dizer: não vivi em vão.
Soli Deo Gloria

7 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

Pois é, Anja.

Desde que o Gondim começou a escrever na Ultimato que eu leio seus artigos. Sempre o admirei como pastor; sempre pareceu humilde, ético, com uma capacidade de pensar admirável e um apaixonado por Jesus.

Ele deveria saber que propor teologias tidas como heréticas pela ortodoxia não o levaria a um bom lugar.

A igreja evangélica brasileira não pensa Deus, só "pede" a Deus. E agora, qual será seu destino ministerial?

Anja_Arcanja disse...

Pois é Edu...

Grata por sua ressonância. Vamos lá:

Eu e meu esposo acompanhamos o trabalho do Gondim a mais ou menos 8 ou 9 anos e me tornei ovelha dele, mesmo que a distancia (maravilhosa internet e celular rsrs), hoje ouso dizer mais, sou amiga.

Hoje o que vivenciamos? Quem ousa levantar-se contra a "má e velha teologia" é literalmente julgado e condenado (dias atrás li sobre um bispo espanhol que está sofrendo um processo e provavelmente, será punido e proibido de exercer seu ministério na Espanha). Etão Edu, qual a solucionática pra esta problemática? Calar-se? Jamais! vide o seu trabalho e dos demais confrades (que agora tenho orgulho de estar inserida, embutida e entrelaçada no meio rsrs) realizam na confraria Logos & Mythos? Todos desigrejados, todos hereges, todos apóstatas!

Então é por isto que eu tenho uma admiração singular pelo Gondim, porque ele ousou levantar a voz, mesmo sabendo que seria julgado, condenado e excomungado, não calou-se! Bradou e bradou com força!

Claro que as consequências seriam inevitáveis. Agora pense aqui comigo: será que um de nós lá da confraria teria a coragem de assumir a postura do Gondim, tendo já galgado tantos degraus e alcançado certo prestígio junto a sociedade tanto evangélica como a não-evangélica?

Isto, diria eu, é ser mártir!

Quanto ao seu destino ministerial, ele ainda continuará pastoreando, ouvindo amigos e ovelhas ,mais de perto... amigos mais chegados, e salvo engano, continuará a frente da igreja Betesda, ainda que veladamente, pois a Betesda sempre o acompanhou e desta vez, penso que não será diferente.

Minha opinião e meu pensar (e é minha opinião pessoal) é que outro pastor assumirá a Betesda, mas ele continuará pastoreando, aconselhando... etc... enfim...

Bjux

Anja

Eduardo Medeiros disse...

Cade um deve ser fiel à sua consciência. Não há como negar que o sistema evangélico deteriorizou-se e pastores hoje não sabem o que é ser um pastor.

Pelo texto, ele dá a entender que está pulando fora do sistema evangélico e não sei como ele fará isso ainda pastoreando a Betesta, ao menos que a Betesta não se considera mais uma igreja evangélica.

O "quase deísmo" do Gondim foi uma teologia rejeitada há tempos pela ortodoxia que pensa Deus como soberano, todo-poderoso, imutável. Mas eu sinceramente, vejo problemas tanto na teologia clássica como na teologia do processo.

Enfim, são apenas teologias que não devem ter a pretensão de serem toda a verdade. Teologia deveria ser diálogo e não, instrumento de guerras.

ah, apesar de herege, ainda sou um batista...kkkkkkakkakkak

Anja_Arcanja disse...

Edu, só uma correção ao meu cometário, falei hoje pela manhã com o Gondim e ele me disse que continuará a frente da Betesda, e continuará pastoreando...

Anja_Arcanja disse...

há o Nilton me lembrou o nome do Bispo é Andrés Torres Queiruga

Anja_Arcanja disse...

Edu,

Não que a Betesda não seja evangélica, mas com o Gondim à frente tem tudo (e, pelo que sei o é) pra ser diferente, ou seja, uma igreja fora dos padrões ditos "evangélicos"

Não! Não há um "quase-deísmo" e sim um Deus mais humano ou um deus com algo de humano, esta é a visão dele. Estava eu me bandeando para o deísmo e ele quem me trouxe de volta, mas ainda que pequenas, temos algumas divergências, natural de duas pessoas que pensam né mesmo?

Bjux

Anja_Arcanja disse...

Deus mais humano que divino, entende? Bom, ao menos é assim que tenho visto, mas posso estar enganada, claro.

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