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segunda-feira, 30 de abril de 2012

PRINCÍPIO PATERNO versus PRINCÍPIO MATERNO






Por  Levi B. Santos


De uns tempos para cá tenho sempre recorrido à Psicanálise para tentar compreender as raízes dos afetos de que somos portadores. Não há como negar que a figura do pai ou tutor e da mãe foram as primeiras e grandes fontes formadoras do mundo dos nossos sentimentos e, consequentemente, da nossa maneira de ser.

Não há como deixar de admitir a estreita conexão existente entre as figuras paterna/materna e os princípios morais de uma cultura.

A voz da consciência que nos manda cumprir o nosso dever é uma ressonância da autoridade paterna. Mas, não podemos deixar de perceber que a voz da consciência que nos manda perdoar e amar, é uma ressonância do instinto materno.

Erich Fromm, contemporâneo de Freud, soube como ninguém, transmitir de forma calorosamente humana e inteligível as suas profundas análises a respeito do Homem em face dos seus afetos paradoxais; diz tudo numa linguagem bem popular, senão vejamos:

“O pai que temos dentro de nós, nos diz: ‘Deves fazer isto’, e não deves fazer aquilo’. Se erramos nos repreende, e se acertamos nos elogia. Mas enquanto o pai que temos em nós nos fala dessa maneira, a mãe que temos em nós nos fala uma linguagem diferente. É como se ela estivesse dizendo: ‘teu pai está muito certo ao te repreender, mas não o leves muito a sério; faças o que fizeres és o meu filho, eu te amo e te perdôo; nada do que tenhas feito pode interferir no teu direito à vida e à felicidade.” (Psicanálise da Sociedade Contemporânea – Erich Fromm – página 58)

O homem na sua infância histórica está arraigado a mãe, arraigado a Natureza, a “grande mãe Terra”. É surpreendente que o homem, por mais adulto que seja, anela não romper os seus laços com a natureza. Deixou a órbita protetora da mãe para o desamparo do existir. Porém, nesse adulto maduro não desaparece por completo a nostalgia de uma situação que ele experimentou primariamente e não se lembra mais. Na fantasia ou nos sonhos, a morte é a volta ao seio materno, à Terra–Deusa-Mãe. Daí dizer-se que a relação “Mãe- Filho” é paradoxal e trágica: a fim de crescer a criança tem de tornar-se cada vez mais independente dela. Ao se tornar adulto o amor à mãe é interditado pela figura paterna, naquilo que se convencionou como TABU do INCESTO. A ameaça para quem violasse esse interdito era a CASTRAÇÃO (vide Complexo de Édipo).

J. J. Bachofen (1815 ― 1887), antropólogo suíço e maior teórico sobre o matriarcado pré-histórico, dissecou com clareza tanto o aspecto negativo como o positivo da fixação humana à figura da mãe. O aspecto positivo da Mãe para ele é no sentido de afirmação da vida, liberdade, igualdade que impregna a estrutura matriarcal. Em outras palavras, a mãe ama seus filhos não porque um seja melhor do que o outro, mas porque são seus filhos e, nessa qualidade, todos são iguais e têm o mesmo direito ao amor e ao carinho. Oaspecto negativo, segundo Bachofen, é este, bastante cruel: “Por está atado a Natureza, ao sangue e ao solo, o homem é impedido de desenvolver a sua individualidade e a sua razão”.

O afeto materno, ou a estrutura matriarcal introjetada no inconsciente está presente em muitas narrativas religiosas: A Vênus de Willendorf, a Deusa-Mãe de Monhego-Daro, Ísis, Istar, Réia, Cibele, Hator, a Deusa Serpente de Nipur, a Deusa indiana Cali — esta, criadora e destruidora da vida.

O homem quando julga seu semelhante, o faz pela consciência paterna. Quando o ama e o perdoa, o faz pela consciência materna. Será que o homem está condenado a carregar, enquanto viver, essa cruz que simboliza a nossa ambivalência, essas duas traves de sentidos contrários?

arquétipo feminino está muito vivo no catolicismo. Não custa lembrar aqui, que o Vaticano foi construído sobre o Monte Vaticanus ― antigo santuário consagrado à veneração da “Deusa-Mãe”.

Os gnósticos acreditam que o Espírito Santo é o Divino Feminino, e que na Trindade “Pai-Filho-Espírito Santo”, o “E. Santo” deveria ser substituído pela imagem da Mãe, para o dogma ser preciso e perfeito. Essa síntese era a que Freud reivindicava como solução para o velho antagonismo “masculino-feminino” da psique humana.

Erich Fromm, em a “Análise do Homem”, diz algo interessante para que se possa entender o peso do princípio paterno e materno no conceito “Deus” da tradição Judaico-cristã:

“O Deus que manda o dilúvio porque todos são fracos, exceto Noé, representa a consciência paterna. O Deus que fala a Jonas com compaixão por aquela grande cidade em que vivem mais de seis vintenas de milhares de pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, fala com a voz da Mãe que a tudo perdoa sempre.”

Não foi à toa, que os evangelistas para retratar um Jesus querendo de modo profundamente sentimental apaziguar a todos, recorreram à imagem de uma galinhajuntando seus pintinhos debaixo das asas.

O Protestantismo, especificamente o Calvinismo, ao invés de tentar equilibrar esses dois princípios, incentivou a aversão do lado feminino, ao polarizar o espírito patriarcal em detrimento do outro. Resultado: a religião ocidental, em prol da imagem de um pai severo e cruel —, ressuscitou o feudalismo psíquico que, ainda hoje, de forma aparentemente sutil, continua a fazer muitas vítimas.

E por falar em princípio paterno e materno em religião, aqui ficam duas perguntas:

Por que a maioria das seitas protestantes considera a Igreja Católica como a grande meretriz de que fala o Apocalipse de João?

Será que essa aversão calviniana se deve a aderência do Catolicismo ao pólo feminino, na medida em que coloca Maria como símbolo daquela que acolhe e protege a criança (o fiel) em seu seio ― a intercessora?

Não sei se essa síntese traria equilíbrio a “gregos” e “troianos”: A de admitir que na figura mítica de Jesus, estariam fundidos o “Deus-Pai” e a “Deusa-Mãe”.

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