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quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Evangelho que sobreviveu às cortinas de ferro da URSS

By Rodrigo Âncora da Luz

É impossível não crer que Deus de alguma maneira age no curso da História!

Na Rússia, o povo viveu debaixo de um totalitarismo aniquilador por sete décadas do século XX. Após a revolução bolchevique de 1917, junto com a repressão política, vieram também as perseguições religiosas do regime soviético combatendo duramente as igrejas cristãs e tomando todas as medidas ao seu alcance para tirar a Bíblia de circulação. No lugar da fé esperançosa num Deus amoroso, o governo pregava o estéril ateísmo pois a religião era vista como uma “estrutura do capitalismo” pelos comunistas.

Entretanto, no século XIX, dois escritores russos parecem ter sido divinamente inspirados para anunciarem o Evangelho para as gerações seguintes através de suas letras. Eram eles Leon Tolstoi (1828-1910) e Fiodor Dostoievski (1821-1881). Ambos foram contemporâneos e escreveram seus brilhantes romances nas últimas décadas do czarismo, eternalizando-se na literatura universal.

Tolstoi foi sem dúvida um asceta. Um homem com seu interior perturbado e que tentou seguir o Sermão da Montanha (Mateus 5, 6 e 7) literalmente numa verdadeira ambição de santidade. Procurou, dentro de sua compreensão, atingir aquilo que acreditava ser o ideal ético cristão. Nesta busca, ele expôs em si mesmo (e nos seus escritos) o grande drama humano em praticar com retidão a lei divina. Mostrou para seus observadores o quanto somos pecadores, contraditórios, incapazes de alcançar a perfeição e carentes da graça.

Estudando um pouco da biografia de Tolstoi, descobrimos que ele ao menos buscou ser sincero em relação à crença que tinha. Tendo quase levado sua família à miséria ao libertar seus servos e tentar se desfazer de suas posses, eis que os últimos dias deste renomado escritor foi como um andarilho quando então morreu numa estação ferroviária rural. E, por várias vezes, ele desejou dar fim em sua vida, provavelmente em decorrência da angústia por não conseguir atingir os elevadíssimos ideais de Deus.

Praticamente o oposto de Tolstoi, viveu Dostoiévski num ambiente de carnalidade e de jogatina. Foi um homem que aproveitou a vida conforme os seus desejos e se apegou imensamente às letras e de uma maneira bem intensa em diversos momentos seus.

Ao invés de caminhar pelas vereadas do ascetismo, Dostoiévski seguiu uma visão mais liberal. Seus escritos revelaram um Deus bondoso e amoroso capaz de aceitar o ser humano com todas as suas terríveis falhas. É a graça divina se fazendo presente nas nossas fraquezas de uma maneira incondicional e acessível.

É possível que, por causa de sua a experiência de vida, Dostoiévski tenha conhecido a graça de uma maneira tão especial. Quando condenado à morte pelo czar, eis que, inesperadamente ele recebeu a notícia de ter recebido uma indulgência quando já estava diante do pelotão de fuzilamento. Aquele momento radical certamente que o marcou de maneira profunda, levando-o a perceber tempos depois a manifestação da misericórdia de Deus. Tendo sua pena convertida em anos de trabalho forçado na Sibéria e ganhado um exemplar do Novo Testamento de uma senhora, ele valorizou como nunca aquela sua segunda oportunidade de viver a ponto de ter escrito:

“Se alguém me provasse que Cristo estava fora da verdade (…) então eu preferiria permanecer com Cristo a aderir à verdade”.

Não é por menos que em seu livro Alma Sobrevivente, o escritor cristão norte-americanoPhilip Yancey chama Tolstoi e Dostoiévski de seus “mentores espirituais”. E, se pensarmos bem, ambos romancistas encarnam a mensagem de Paulo dada na epístola aos Romanos, o que os torna verdadeiros “profetas” para o povo russo (e para o resto da humanidade).

Com Tolstoi, aprendo que sou pecador e que minhas boas obras não passam de um "trapo de imundície", como bem disse o profeta Isaías. Compreendo o quanto sou reincidentemente falho, mesquinho, hipócrita, avarento e carnal. Mas com Dostoiévski conheço o Deus que me ama e que me aceita com todos os meus pecados. O Deus que me dá sempre uma segunda chance para aprender a viver com alegria e satisfação diante de sua Santa Face.

Enfim, por mais que os stalinistas tivessem tentado calar a voz divina tirando a Bíblia de circulação, a Palavra continuou viva e operante na Rússia pelos 70 anos de comunismo. E, mesmo que a História não tenha muitos registros a nos relatar, creio que pessoas vieram a conhecer o Evangelho de Cristo por meio das obras desses dois nobres escritores sobreviventes à censura do regime soviético e, com isto, se converteram.


OBS: As fotos acima foram extraídas da Wikipédia. A primeira (de Tolstoi), tirada em 1908, tem sua autoria atribuída a Sergey Mikhaylovich Prokudin-Gorsky (1863-1944). Já a segunda mostra Dostoiévski em 1863 sendo desconhecida a origem do material.

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