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terça-feira, 29 de maio de 2012

Semente da insaciedade


By Sostenes Lima


Somos continuamente seduzidos pela vontade de ser grandes. Nosso desejo de realizar projetos faraônicos começa bem cedo. Desde criança, desejamos fazer coisas notáveis. Quando adultos, nos metemos em projetos políticos, científicos, sociais, religiosos, artísticos etc. desejando fazer coisas irrepetíveis. Todos nós nutrimos certos projetos messiânicos. Por medo do ridículo, às vezes, conseguimos manter nossos desejos silenciados, mas não reprimidos e inativos. Eles continuam vivos, prontos a virem à tona em oportunidades pouco arriscadas ou embaraçosas.

Mesmo querendo, é muito difícil depor nosso desejo de grandeza. Por exemplo, é muito difícil escrever um texto sem o desejo de que ele seja um grande texto. Quando nos lançamos sobre uma folha em branco, nos deixamos seduzir pela ideia de que o vazio será vencido por um texto magnífico. Nos entregamos à ilusão de que, ao final de cada página, algo incrivelmente criativo virá a existir. É quase impossível escrever um texto desejando-o precário. Não nos sentimos bem em celebrar a precariedade ou mediocridade, em qualquer que área que seja.

Algumas pessoas chegam até a acreditar que são geniais, mesmo não sendo. Alguns até se entregam a uma celebração inebriante (delirante) de sua própria obra, concebendo-a como a última peça da criatividade humana, mesmo o objeto não passando de um (des)arranjo precariamente desenhado. Contudo, o que mais acontece é que mesmo um gênio, como Machado de Assis, costuma ser o “mais austero crítico de si mesmo”. Parece que até os gênios nutrem certa decepção com o que realizam, se comparado com o que desejavam realizar. O que dizer, então, dos mortais e medianos?

Realmente, o desejo de notabilidade, de grandeza, de genialidade não é facilmente saciado. Ou melhor, nunca pode ser saudavelmente saciado. Me parece que só pessoas alucinadas e doentes se sentem grandes e geniais. Em geral, as pessoas desejam ser grandes, mas não se sentem assim, mesmo quando de fato são.

É bom que seja assim. Só conhecemos o Machado de Assis de Dom Casmurro porque ele se desencantou com o que produziu em Iaiá Garcia. Grandes realizações (científicas, artísticas, sociais, tecnológicas etc.) existem porque há na alma humana uma semente de insaciedade, de descontentamento com o que já está pronto, com o que já foi alcançado.

Herdamos isso de Deus. Ele é essencialmente expansivo. Não estou dizendo que Deus sofre de algum tipo de carência de grandeza. Ele é pleno em si mesmo. Contudo, houve um dia em que Ele quis se expandir. Também não sei dizer se Deus se desencantou consigo mesmo. O que posso dizer com garantia é que Deus quis se alargar e criar outros movimentos para si mesmo. O ser humano é uma aventura criativa de Deus, é um passo além do que ele já tinha feito, buscando fazer algo maior e mais sublime.  Não tenho dúvidas de que Deus está sempre em movimento, em atividade, fazendo coisas novas, aperfeiçoando a técnica para empregá-la em sua(s) grande(s) obra(s) prima(s).



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