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segunda-feira, 21 de maio de 2012

Vinde Bendito


Hoje é o dia da publicação do livro "vinde bendito" de Gilberto Begiato, uma obra voltada a discussão da teologia social.



SUMÁRIO

. Apresentação

. Acolher é amar

. Princípio da dignidade da pessoa humana

. Princípio do respeito pela vida humana

. Princípio da Associação

. Princípio de participação

. Princípio da proteção preferencial dos pobres e vulneráveis

. Princípio da solidariedade

. Princípio do exercício da administração pública com ética

. Princípio da subsidiariedade

. Princípio da igualdade humana

. Princípio do bem comum

. Civilização do Amor

. Bibliografia

. Biografia


ACOLHER É AMAR

Aproximadamente no ano 174 a 124 A.C., ou seja, do começo do reinado de Antíoco IV a bíblia nos relata a história da revolta  dos Macabeus até o estabelecimento da dinastia dos Asmoneus.

O povo judeu após muitas experiências de exílios percebeu que sua sobrevivência era uma questão de obediência à Lei e às suas origens. Neste tempo começa uma grande batalha em que morrer para defender a Lei era uma questão de honra e de fé. Chega de se afastar de Deus e permitir que o “castigo” Divino caia sobre o povo. Tal atitude protegeu de certa forma o povo da bíblia e a crença no Deus Único.

Não tardaram muito após esta firme decisão de defender a Lei e o Templo surgirem as primeiras histórias de mártires, dispostos a dar a vida para um fim nobre.
Eleazar um homem de certa idade preferiu ser torturado a ter que violar a Lei e agiu dignamente não aceitando ser hipócrita, mas sim transparente, conscientemente morreu para deixar o exemplo aos jovens: “Senda assim, se eu morrer agora corajosamente, mostrar-me-ei digno de minha velhice, e terei deixado aos jovens um nobre exemplo de zelo generoso, segundo o qual é preciso dar a vida pelas santas e veneráveis leis” II Mc 6, 27.

Mais espetacular e dramática foi a história de outra mártir, uma mãe de sete filhos que para não violar a Lei aconselhou seus filhos a darem a vida se fosse necessário. Cada filho seu foi sendo torturado e morto diante de seus olhos. A Mãe por fim entregou também a própria vida.

Um dos filhos disse “Estamos prontos a morrer antes de violar as leis de nossos pais” II Mc 7, 2b.

Com estes exemplos de radicalidade os judeus preservaram a raça não esquecendo sua origem. Um povo que esquece as origens é um povo fadado ao extermínio. Essa história exalta, a um só e mesmo tempo, os valores humanos e sobrenaturais: a fé engendra o heroísmo e o serviço da pátria se identifica com o único Deus.

        Porém esta tomada de consciência da importância em defender a Fé e a Lei, atinge um rumo legalista que por fim se tornará excessivo; a Lei passará a ser mais importante que o próprio Deus. Estamos, portanto próximo à época de Jesus, e aí que notará a preocupação do Senhor em mostrar que o amor está acima da Lei.

Deus é amor!

Na época de Jesus existiam aproximadamente 613 mandamentos divididos em 365 negativos e 248 positivos, todos vistos como importantes e obrigatórios. Imagine você, o povo ter que decorar todos estes mandamentos? Portanto os especialistas da Lei diziam que o povo não poderia amar a Deus suficientemente, pois não conheciam a Lei. Com isso o povo ficava às margens da fé, excluídos e renegados a aceitar tudo os que os especialistas diziam.
Então um doutor da lei se aproxima de Jesus e pergunta-lhe para colocá-lo à prova:
“Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Mt 22,36
Você pode imaginar que pergunta difícil e que situação complicada: Se todas as 613 leis eram importantes como definir uma mais importante que a outra?
Jesus responde a questão derrubando o paradigma que não é a Lei que é importante, portanto servir a Deus não é uma questão de obrigação, mas sim de satisfação: Amar é o essencial para quem quer ser cristão. Respondeu Jesus:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito” Mt 22, 37.
Jesus não cita uma frase nova e original, mas se baseia no livro do antigo testamento deuteronômio capítulo seis, versículo cinco.
Amar a Deus de todo o coração! O coração para o povo da bíblia tem um sentido bem mais amplo do que para nós. Coração para nós lembra apenas a vida afetiva. Para o povo da bíblia, o hebreu, concebe o coração como “interior” do homem. Além dos sentimentos o coração contém também as recordações e as idéias, os projetos e as decisões. Deus deu ao homem um coração para pensar. É o lugar onde o homem encontra Deus, é a fonte da sua personalidade consciente, inteligente e livre. Lugar onde faz suas opções decisivas, lugar da Lei não escrita.
Amar a Deus de toda a tua alma! A alma para o povo hebreu está longe de ser uma “parte” que com o corpo compõe o ser humano, a alma designa o homem na sua totalidade, enquanto animado por um espírito de vida; em virtude da sua relação com o Espírito, à alma indica no homem a sua origem espiritual, esta “espiritualidade” tem raízes profundas no mundo concreto.
Amar a Deus de todo espírito. Espírito aqui designa num ser seu elemento essencial e inaferrável, aquilo que o faz viver e aquilo que dele emana sem que ele queira, aquilo que em grau máximo é ele próprio e aquilo de que ele não pode dispor como dono. A palavra hebraica ruah é o sopro da vida.
Portanto amar a Deus é amá-lo na nossa totalidade. Amá-Lo com total entrega de si mesmo. Com que você é, tanto com que você conhece como com o que não conhece de si próprio.
Porém entregar-se a Deus, conhecê-lo, é uma experiência concreta, não se ama a Deus somente a partir de mim mesmo, o amor a Deus é acima de tudo uma extensão do meu eu para o outro. Deus é trindade e como somos a imagem de Deus, somos chamados a relacionar com o próximo. O amor não é egoísta, é solidário. Por isso Jesus disse:
“E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Mt 22,39. Mais uma vez Jesus não cita um mandamento novo, mas utiliza do livro do Levítico 19,18.
O amor a Deus (horizontal) passa necessariamente pelo amor ao meu próximo (vertical). É o sinal da cruz onde Cristo deu provas do seu amor por nós.
“Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia seu irmão, é mentiroso” I Jo 4, 20 a

O papa Bento XVI em sua Carta Encíclica “Deus Caritas Est” nos fala que crer no amor de Deus é opção fundamental da nossa vida.
A palavra amor que se exprime de realidades totalmente diferentes.
O amor entre o homem e a mulher (eros), o amor de amizade (philia) e o “amor  torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura, ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está disposto ao sacrifício, antes procura-o.” ( Papa Bento XVI) . É o amor Ágape.
Jesus nos ensina que amar não é um peso, e sim libertação! Quem ama não faz por obrigação e sim por prazer. O amor que têm três faces: a Deus, a mim mesmo e ao próximo.
Diante de tudo isto é que resolvi escrever este pequeno livreto para expressar que a religião não se vive por meio de obrigações e preceitos. Que a fé se realiza pelo comprometimento com o outro, de forma preferencial com aquele irmão e irmã que sofre.
O documento de Puebla nos lembra que a Igreja não é uma seita, não é um grupo religioso que só responde às necessidades e aspirações de um grupo social. Ela deseja acolher as angústias de todos os homens, porém mais especialmente as que brotam da sua pobreza.
Por isso de forma sucinta falo um pouco da Doutrina Social da Igreja que nos inspira a viver o amor não como Lei e mandamento obrigatório, mas como compromisso de amor aos que sofrem e desejam encontrar-se com o Deus que é Libertador!
Inspirei-me na metodologia utilizada pela Diocese de São Miguel, por isso dividi em dez itens como princípios fundamentais na formação do Ensino Social da Igreja.
O mais importante é não esquecer que o amor encerra todas as Leis e todos os mandamentos. Quem trilha pelo caminho do amor a Deus e ao próximo estará se realizando descobrindo a verdadeira felicidade e, portanto amando a si mesmo.
Quem ama pratica plenamente os mandamentos de Deus.
Espero que este material possa contribuir para que cada vez mais nos comprometermos com uma religião libertadora e compromissada com a pessoa humana como fundamento maior e principal da criação.
Assim como o sol que nasce para todos, assim também que a justiça seja para todos.
“A Doutrina Social da igreja propõe princípios de reflexão; apresenta critérios de juízo; orienta para ação” CIC 2423.



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