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quinta-feira, 28 de junho de 2012

AOS MESTRES COM CARINHO! (Rev. Marcio Retamero)




Rev. Márcio Retamero, pastor da Igreja da Comunidade Metropolitana Betel do Rio de Janeiro e da Igreja Presbiteriana da Praia de Botafogo, RJ.

Dedico este artigo aos companheiros e companheira: Luiz Mott, Ricardo Aguieiras, João Silvério Trevisan e Míriam Martinho.

          Hoje é 28 de Junho, Dia Mundial do Orgulho LGBT! Dia de festa e comemoração; dia de relembrar nossos heróis e heroínas de Stonewall, que enfrentaram a polícia de Nova Iorque, acabando, desta maneira, com os abusos que ocorriam destes para com a população LGBT daquela cidade.

          Dias antes, numa pequena sala de estar em Los Angeles, Califórnia, nascia a “Igreja dos Direitos Humanos” – a Igreja da Comunidade Metropolitana, com 12 pessoas e U$ 3.95 de ofertas/dízimos. Troy Perry é o nome do corajoso homem que decidiu que não se calaria mais diante da homofobia produzida pela religião fundamentalista cristã e hoje, presente em 38 países da Terra, a Fraternidade Universal das Igrejas da Comunidade Metropolitana se alegra e faz festa hoje com o povo LGBT dos quatro cantos da Terra, construindo por onde passa um lugar seguro e saudável de adoração, além de militância política em prol dos direitos civis de LGBT.

          Nós – o povo LGBT – temos muitos heróis e heroínas dentro e fora da nação brasileira, pessoas que nos antecederam, nos ensinaram, nos encorajaram, nos fortaleceram e nos mostraram o caminho que devemos seguir para o avanço da cidadania gay. Pessoas essas já falecidas e outras em pleno combate, vivíssimas, graças a Deus, como Miriam Martinho, Luiz Mott, Ricardo Aguieiras e João Silvério Trevisan.

          Os que faleceram, lembro de Raimundo Pereira, deixaram um legado importante e um exemplo de luta incansável contra as hostes da injustiça e da maldade que habita o coração de uma maioria que não cede, em nome da homofobia, ao avanço da cidadania plena de gays e lésbicas; travestis e transexuais, bem como bissexuais.
          Hoje, no Brasil, nossos maiores opositores encontramos entre as hostes evangélicas de vertente fundamentalista, que com seus representantes no Congresso Nacional não deixam avançar os projetos de lei que visam a cidadania LGBT. Contra eles e a homofobia que espalham, lutamos todos os dias, tentando espalhar as trevas da ignorância e da injustiça, para um dia assistirmos o raiar do sol da justiça para o nosso povo.

          O movimento LGBT ou movimento homossexual brasileiro, infelizmente, está, em grande parte, cooptado pelos partidos políticos, notadamente o Partido dos Trabalhadores que está no poder desde a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Subvencionado pelo governo ou governos estaduais e municipais, parte do movimento se cala diante de tantas injustiças governamentais – como a suspensão do Projeto Escola Sem Homofobia – ou a fachada nunca realmente implantada do Plano de Combate à Homofobia do Governo Federal. Os militantes LGBT profissionais, que ganham dinheiro com a miséria do nosso povo, muitas vezes se cala diante da opressão, alguns, um pouquinho mais vergonhosos, escrevem aqui e ali um artigo de baixa crítica ou de justificação da atuação do atual governo petista.

          Eu lamento muito que muitos dos meus companheiros e companheiras de luta LGBT se vendam por um prato raso de lentilhas a nossa cidadania e a luta dos nossos antepassados. É triste demais perceber os conchavos, as picuinhas, as discriminações, o machismo e a misoginia dentro do movimento LGBT. Na verdade, é uma vergonha! Como decidi que neste país nenhum hipócrita gritará mais alto que eu – Troy Perry me ensinou isso – eu não me calo diante das mazelas do movimento LGBT, eivado de preconceitos e – pasmem! – homofobia!

          O movimento homossexual do Brasil, muitas vezes cego, inútil, massa de manobra e equivocado, rejeita, sabe-se lá em nome do que, a parceria com as chamadas Igrejas Inclusivas, logo elas, que podem desconstruir os argumentos falaciosos dos nossos maiores opositores, os fundamentalistas cristãos. A fogueira de vaidades muitas vezes não permite que se abra um espaço onde nós, cristãos/cristãs inclusivos poderíamos ter voz e vez, aliando-nos com eles no combate ao assalto fundamentalista ao Estado Laico, talvez “a” luta a ser travada no momento, porque nossos inimigos têm nos vencido e tem acontecido isso, porque eles, os militantes de carteirinha, que nada entendem de religião e cristianismo, não sabem derrubar um Malafaia num debate por exemplo, tampouco um ignorante em matéria teológica como o deputado federal Marcos Feliciano.

          A parte do movimento homossexual cooptado pelo PT, nessas eleições municipais de 2010, em São Paulo, por exemplo ou no Rio de Janeiro, apoiam dois candidatos – Haddad naquele e Paes neste – envolvidos até o pescoço com os fundamentalistas religiosos, o segundo já tendo recebido até oração de unção de caciques da vertente fundamentalista das igrejas cariocas, com direito a fotos estampadas nos jornais e o segundo correndo atrás destes eleitores dizendo que nada teve a ver com o Projeto Escola sem Homofobia. Esta parte do movimento deveria tomar vergonha na cara e, no mínimo, não manifestar apoio aos tais candidatos ou – o que seria muito bom, uma faxina – abandonar a luta e deixar aqueles que não se locupletam à frente deste, tornando-o mais limpo, honesto e transparente.

          No dia do Orgulho Gay eu não deveria trazer à tona tais mazelas, mas trazer à memória o que nos pode dar esperanças e por isso dediquei este artigo aos que considero heróis da nossa história homossexual brasileira, porque neles ainda arde a chama por justiça de fato, avanço da cidadania LGBT de fato e conquistas de direitos; pessoas que não venderam o nosso direito à primogenitura por um prato – raso e azedo – de lentilha$.

          Como militante LGBT e pastor do meu povo, me preocupa muito o atual estado de coisas no movimento e fora dele, como por exemplo, a situação da nossa terceira idade LGBT, jogada e esquecida nos asilos pertencentes, muitos deles, às igrejas fundamentalistas, onde têm de voltar pro armário, depois de uma vida fora dele ou as chacotas a que são submetidos, sejam nos bastidores – inclusive do movimento – seja na cara mesmo, quando resolvem se divertirem numa balada LGBT.

          O preconceito que combatemos fora do movimento mora dentro dele: homofobia, machismo, misoginia, preconceito religioso, étnico, de origem e etário. Isso nos assola e nos desune, posto que pessoas como eu e outras tantas, não aceitam tal estado de coisas, bem como não se calam diante delas! As guerras intestinais do movimento homossexual brasileiro, infinitas e sem data para acabar, também é algo de nos deixar desolados e de cabelos em pé, além dos seus conchavos e velanias de bastidores. É triste, mas alguém tem que levantar a sujeira debaixo do tapete e nada melhor que o dia de hoje, para refletirmos sobre tais mazelas.

          Eu sei que não estou sozinho na luta e que outros e outras estão comigo, contudo, alguns se calam porque perderam o vigor e a coragem, outros se omitem por temer represálias e ostracismos, como não temo nenhuma das coisas elencadas, mostro o que tem de ser mostrado, para que haja mudança de fato no atual estado de coisas, principalmente entre os caciques e os poucos índios calados que lhe são submissos.

          Os homens e a mulher a quem dedico este artigo me dão forças e esperanças de dias melhores para os que tiverem coragem de enfrentar de peito aberto e corajosamente os que estão no comando da luta e detém o poder hegemônico dentro do movimento LGBT; eles me dão com seus exemplos de vida força e vigor, além de destemor diante de tudo o que é podre e azedo, a fim de clamar por mudanças e por revolução, sim, revolução, por um movimento apartidário, não cooptado, pelego e que não se deixa vender por poucas moedas de Real.

          Contra a homofobia, inclusive a que nos assola de dentro, a luta é todo dia!

          Haja esperança! Feliz dia do orgulho LGBT, meu povo! Garra, força e destemor! Uni-vos! 

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