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terça-feira, 26 de junho de 2012

Igreja Universal dormindo com o inimigo



By Luís Fernando de Almeida*


Igreja Universal dormindo com o inimigo

Recebi em casa um panfleto da Igreja Universal do Reino de Deus convidando-me para uma espécie de banho de luz que me traria libertação financeira. Como minha vida financeira faz parte de toda uma engrenagem política e econômica sobre a qual é sabido que Deus nenhum costuma intervir, resolvi proceder a uma reflexão sobre o primeiro ponto que me saltou aos olhos nesse marketing neopentecostal: o pacto com o inimigo.

A prática litúrgica da IURD, calcada na Teologia da Prosperidade, adota um misticismo semelhante ao dos xamãs e pajés, e incorpora conceitos ritualísticos de seus inimigos, a saber, umbanda, candomblé e espiritismo.

No campo religioso, tudo é impregnado de simbolismo, e com o cristianismo não é diferente. Exemplos disso são o batismo representando um novo nascimento e a eucaristia representando o sacrifício de Cristo. Segundo Justo Gonzales (2007, p.33), o cristianismo adotou, desde o período de Constantino, formas litúrgicas simbólicas, como, por exemplo, o culto do Sol Invicto:

“Constantino interpretava a fé em Jesus Cristo de uma maneira que não o impedia de adorar a outros deuses. Seu pai já tinha sido devoto do Sol Invicto. Este era um culto ao Deus Supremo, cujo símbolo era o sol, mesmo não negando a existência de outros deuses. Parece que Constantino, durante boa parte da sua carreira política, pensou que o Sol Invicto e o Deus dos cristãos eram o mesmo ser, e que outros deuses também eram reais e relativamente poderosos, apesar de serem divindades subalternas. Por esta razão Constantino podia consultar o oráculo de Apolo, aceitar o título de sumo sacerdote dos deuses tradicionalmente conferidos aos imperadores, e participar de cerimônias pagãs de todos os tipos sem pensar com isso estar traindo ou abandonando o Deus que lhe tinha dado a vitória e poder.”

Com a modernidade, cristãos e não-cristãos passaram a ansiar as mesmas coisas, e ambos igualmente têm suas vidas atravessadas por um desejo de consumo e apelos de prazer. O cristianismo histórico dá pouca atenção a tais demandas, enfatizando os bens espirituais. Com isso, os neopentecostais vieram preencher tal lacuna, ao darem livre âmbito a nossos desejos mundanos de prosperidade material. O gerenciamento pentecostal de nossos desejos mundanos se dá mediante um panteão de símbolos que se assemelha ao panteão de deuses romanos. O discurso sacerdotal é que sustenta e legitima tal panteão simbólico.

As igrejas neopentecostais, como a IURD, operam uma simplificação máxima do mundo e tornam-no facilmente inteligível mediante um conceito tradicional cristão, qual seja, o diabo. O problema do mal, para o qual o cristão histórico não raro procura respostas racionais, no neopentecostalismo é explicado inteiramente, e à exaustão, pelo conceito de diabo. É por culpa dele que temos problemas financeiros, que nossos relacionamentos afetivos nos frustram, que existe violência, desastres, etc. Tal conceito eximiu os neopentecostais da necessidade de uma teologia sólida para enfrentar os problemas do mundo.

A doutrina da Iurd tem como principal agente a pessoa do diabo, e não a de Cristo. A atribuição de poderes ao diabo foi fundamental para a ampliação das fronteiras do império de Macedo, tal como diz Ricardo Mariano (2010, p. 54): “Macedo vai, em parte graças ao Diabo que tanto ataca, interpela e humilha, construindo a passos largos seu império”.

Vale lembrar que a figura do diabo está muito mais presente no imaginário evangélico do que no católico. Os pentecostais igualmente instrumentalizam tal conceito para explicar o mundo, mas no neopentecostalismo esse é um traço marcante.

Ocorre que no Brasil, para essas religiões, o diabo se tornou mais palpável, ganhando uma realidade muito mais imediata: as entidades afro-brasileiras. Passou-se a identificar não apenas o Exu, que se aproxima mais do diabo cristão, mas toda e qualquer entidade com o diabo. Como diz Reginaldo Prandi, pesquisador das religiões afro-brasileiras: “Esse diabo tem que estar muito próximo, o diabo pentecostal você vê, você pode tocar. Uma pessoa em transe é uma pessoa que tem o diabo no corpo, você bate nela, você pode xingar o diabo, você transforma o diabo numa coisa muito próxima, muito fácil”.

A situação começa a ficar estranha quando se atenta para o fato de que nas reuniões e campanhas da IURD é comum o uso dos elementos mágicos dos cultos encontrados nas superstições populares do Brasil e nas religiões de matriz africana, entre eles o sal grosso (para afastar maus espíritos); a rosa ungida (usada nos despachos e nas oferendas a Iemanjá); a água fluidificada (usada por credos espiritualistas a fim de trazer a influência espiritual para o corpo humano); fitas e pulseiras (semelhantes na sua designação as fitas do chamado Senhor do Bonfim); o ramo de arruda (usado para afastar o mal); o pão abençoado (que tem o poder de curar doenças); e uma quantidade enorme de apetrechos aos quais se emprestam supostos valores espirituais que podem ser passados aos seus usuários.

Leonildo Silveira Campos (1997, p. 79) escreveu que “A mentalidade mágica, presente em vários grupos neopentecostais, nunca considera que seus objetos são portadores de poderes mágicos, mas sim meios para que ocorra uma manifestação divina”, mesmo que esses objetos sejam idênticos às doutrinas combatidas, e ainda: “Em outras palavras, os objetos cúlticos dos concorrentes estão carregados de magia negativa, enquanto os próprios conseguem ser um eficiente meio de comunicação com Deus” (CAMPOS, 1997, p. 79). Ou seja, a Iurd condena práticas religiosas e simbólicas da mesma forma que as adota.

Enquanto isso acontece, a umbanda, religião mais atingida pela propaganda pentecostal, talvez justamente por abrigar os Exus e a pomba-gira, tem perdido fieis, de acordo com as últimas pesquisas.

Pode se dizer que os neopentecostais, deliberadamente ou não, têm dormido com o inimigo e estão recolhendo todos os seus despojos. Assim, nessa abertura sincrética, constroem impérios e asseguram seu lugar ao sol no mercado de bens simbólicos.

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*Apresentando o mais novo colaborador do blog Mundo Da Anja em sua primeira (de muitas) participação:



Luís Fernando de Almeida

Tem 24 anos e é estudante de filosofia pela Unifesp. É uma pessoa atormentada por questões teológicas, filosóficas e metafísicas. Tem interesse em pesquisa nas áreas de ciências da religião, filosofia da mente, psicologia e antropologia. Apesar de ter uma alma eminentemente religiosa, gostaria de ter fé suficiente para se declarar devoto de Nossa Senhora.

Confira a pag de colaboradores no link 


2 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

Anja,

o Luis foi pereito em sua análise:

O cristianismo histórico dá pouca atenção a tais demandas, enfatizando os bens espirituais. Com isso, os neopentecostais vieram preencher tal lacuna, ao darem livre âmbito a nossos desejos mundanos de prosperidade material.

Eu não classifico a IURD como uma igreja cristã, ela é alguma coisa pós cristã, cujas características o autor esplana bem.

Esse menino é bom, gostaria muito de tê-lo escrevendo e debatendo na nossa igreja fiel e verdadeira, única baluarte da fé, Logos e Myhtos.

Será que o pase dele é muito alto...??

Anja_Arcanja disse...

Bom dia Edu!

Agora vc está querendo arregimentar todos os meus colaboradores? rsrsrs

Vou leva-lo para debater este novo texto que o Gil postou e falar com ele sobre a possibilidade dele estar escrevendo para a Logos & Mythos, que tenho certeza, será pra ele motivo de orgulho, mas já adianto que não abro mão da preferencia viu? rsrs

Estou descobrindo talentos e voce vem aqui no meu mundo pesca-los né? heheheh hahaha Estou amando!

Bjux

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