Pesquise artigos do blog:

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O jardineiro de Madalena! - cap 3 - A desobediência


A Desobediência

Felipe então observa um diálogo meio áspero entre o homem e a mulher. Vê uma serpente no galho daquela árvore exótica. Parecia que Eva conversava com a serpente e Adão então estendeu a mão e pegou do fruto daquela árvore e comeu. Percebeu nos olhos do homem e da mulher um semblante horrível e um desespero. O que havia naquela árvore? Que fruto era aquele que trazia tanta dor ao homem e a mulher? Então olhou para Emanuel e pela primeira vez viu no seu semblante e nos seus olhos um ar de preocupação e decepção. O olhar de Emanuel era quase sempre um olhar de serenidade e amor. Felipe percebeu que o olhar da serpente era uma contradição ao olhar de Emanuel. A serpente parecia raivosa, invejosa e presunçosa. Quando Adão comeu do fruto ela riu sarcasticamente, sua risada causou um temor a Felipe que se arrepiou todo e lembrou-se de quando tinha muito medo e gritava pelo pai que o abraçava a noite em sua cama e o fazia dormir novamente. Seu sentimento era o mesmo, sentia-se desprotegido e queria gritar pelo pai. Seu sentimento de derrota, os rostos de Adão e Eva e o sorriso da serpente o fizeram tremer. Mas nada se comparava a preocupação que Emanuel apresentava. Para quebrar a tensão disse:
            - Veja! Eles estão se cobrindo com folhagem e Adão e Eva choraram. Porque ele esta se escondendo?
            - Por que ele comeu do fruto da árvore da ciência do bem e do mal.
            - E não podia?
            - O Pai lhe disse que podia comer de todas as árvores do Jardim do Éden, inclusive da árvore da vida e que viveriam eternamente felizes, menos da árvore da ciência do bem e do mal. Esta árvore lhe traria independência e uma total consciência do que é certo e errado e, portanto teriam que responder pelas suas atitudes e decisões. Por isso a partir de agora também precisarão trabalhar para manter suas vidas e experimentarão a morte.
            - Eles sabiam disso? - Perguntou Felipe.
            - Sim. Quando o homem não quer saber, sua consciência o avisa.
            Felipe na verdade estava pensando que se o homem e a mulher houvessem obedecido a Deus, talvez seu pai estivesse vivo.
 Por que a vida lhe ofereceu este destino tão amargo? Então lhe veio uma idéia, talvez pudesse chegar perto de Deus no paraíso e lhe fazer estas perguntas. Seu pai sempre dizia que Deus tem resposta para tudo. Mas quando foi perguntar a Emanuel ele viu uma das cenas mais fortes e marcantes da sua vida. Viu Deus se aproximando de Adão como sempre fazia à hora da brisa da tarde e chamando-o pelo nome. Adão se escondera, pois estava envergonhado da sua nudez e da sua desobediência. Neste momento Felipe pode lembrar-se que quando aprontava as suas, seu pai o chamava insistentemente e ele se escondia às vezes debaixo da cama, às vezes em cima do forro e outra vez punha-se a chorar copiosamente para não sofrer as correções que na maioria das vezes ele merecia. Mas tantas outras vezes ele levava bronca do pai porque sua tia inventava as coisas. Quando sofria correção por merecer doía mais, pois carregava o remorso de ter errado. Já desejou por diversas vezes que seu pai morresse e agora sentia remorso de não ter amado e beijado mais seu pai.
            Felipe viu Adão sair do meio das árvores do jardim com a cabeça baixa. Houve um pequeno diálogo. Deus apontou para a porta do Éden e Adão e sua mulher partiram dali. Parecia que o Pai estava zangado... ou triste? Felipe pensou: “quantas vezes eu fiz meu pai chorar por causa de mim!”
            Felipe começou a chorar copiosamente, não sabia por que, mas sentia uma profunda tristeza. Tudo que aconteceu de ruim na sua vida aflorou em sua mente nesta hora. A solidão, o medo, a raiva, o ódio, a depressão, as doenças que já teve e a pior de todas as suas dores: a morte da sua mãe e principalmente de seu pai com quem conviveu há mais tempo. Aquele silêncio de Adão que não respondeu ao chamado do Pai parecia eternizado no tempo. Nunca imaginara um silêncio incomodar tanto quanto o silêncio do homem e da mulher no paraíso. Felipe começou a berrar violentamente para Deus:
            - Pai eu estou aqui! Pai eu estou aqui! Pai eu estou aqui!
            Emanuel colocou a mão sobre o ombro dele, abraçou-o e chorou junto com ele. Depois disse:
            - Não fique triste eu estou aqui.
            Então Felipe desabafou:
            - Por que sempre decidimos errado. Por que não conseguimos enxergar o que é essencial. Porque será que quase sempre não sabemos o que fazer na vida?
            - Este não é o problema maior da humanidade. O agravante não é ter dúvidas, fraquezas e limitações. O problema é quando o homem acha que sabe tudo e se faz de forte e sabido. Quando o homem se sente auto-suficiente e todo poderoso. Se Adão tivesse a consciência que é feito de barro, portanto é limitado e possui fraquezas não desobedeceria a Deus. Quando o vaso de barro se acha de ferro ou feito a ouro enquanto não cai viverá sempre da ilusão que é inquebrantável.
            Felipe interrompeu ainda em soluços e disse:
            - Este é o problema da humanidade. Sempre faz o que não deve. Sempre age como se fosse o senhor da criação.          
 - Meu amigo o problema não é agir como senhor da criação, mas sim como um administrador irresponsável. Se o homem se comportasse como senhor e administrador da criação a protegeria e a preservaria. Falou Emanuel enquanto enxugava as lágrimas de Felipe.
            - Se no centro, em destaque, estava a árvore da vida, cujo fruto podia oferecer a felicidade eterna, eles preferiram se igualar a Deus comendo da árvore da ciência do bem e do mal. Não entendo quanta burrice! Ao invés de sonhar com a felicidade preferiram o pesadelo de viverem infelizes. Afirmou Felipe.
            - Fruto proibido é mais gostoso! Porém deixa um amargo muito grande na vida das pessoas. Consequências quase irreparáveis. Soluções doloridas. E o mais triste de tudo isto é que as pessoas sabem que estão agindo errado. O segredo da felicidade Felipe é carregar dentro de si o sonho de Deus!
            - Viver o Reino de Deus! O que mais me impressionou foi o fato de Adão e Eva não conseguirem olhar a face de Deus. Agora entendo porque eu não via sua face enquanto falava com Adão. O erro de Adão e Eva foi ouvir aquela maldita serpente. - Disse Felipe.
            - O erro de Adão e Eva foi querer fazer de Deus a sua imagem e semelhança, ao invés de serem a imagem e semelhança de Deus. Adão culpou Eva que por sua vez culpou a serpente. O homem quase sempre não assume os seus erros, é mais fácil culpar o outro. E quando não tem ninguém para culpar a culpa cai nos ombros de Deus que por sua vez assumiu toda a culpa sozinho. Mas isso você vai entender nesta nossa caminhada ao Reino de Deus. - Afirmou Emanuel.
            Felipe lembrou que por diversas vezes culpou a Deus, sua tia e seu pai, seus professores e o mundo pelos seus fracassos e desilusões. Estava muito triste consigo mesmo.
            Emanuel colocou as mãos nos ombros de Felipe e apontou para a porta do Éden e disse:
            - Vamos daqui! Nunca mais este Paraíso será o mesmo com a ausência do Pai e dos seus filhos.
            - Acredito que em toda a minha vida nunca mais sentirei tanta angústia como senti hoje no silêncio de Adão e Eva. - Disse angustiado Felipe.
            - Estamos só começando com nossa jornada a busca do Reino de Deus! Tem muita emoção ainda pela frente. E pode ter certeza sentirá ainda algo muito mais forte do que você imagina. Pois para um impacto violento como este só um impacto ainda maior para solucionar.
            A sensação que Felipe possuía era de que nunca mais em sua vida poderia ver a face do Pai. E estranhamente o sentimento que permaneceu em seu coração após esta experiência do Paraíso era o de querer ver a face de Deus. O que esta face tem que não podemos enxergar? Por que Deus era tão democrático e que permite o livre arbítrio para seus filhos irresponsáveis? Por que não intervém drasticamente na história e não elimina os maus? Por que não protegeu meu pai e minha mãe da morte? Por quê?
            Enquanto refletia, partiram em silêncio e com a sensação de que esta primeira experiência lhe trouxe mais dúvidas do que respostas. Porém o encontro com Deus suavizou a saudades que tinha do pai.
           
Gilberto Begiato


Para ler os capítulos anteriores dos livros "Vinde Bendito" e "O jardineiro de Madalena" basta clicar no link abaixo:

Crônicas de Gilberto Begiato (Link)

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...