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sexta-feira, 29 de junho de 2012

O pecado original (by Ivani Medina)



 By Ivani Medina

Para os gregos o termo harmartia significava “errar” o alvo ou o propósito. Aludia ao conceito de viver a margem do essencial por causa da não consciência deste. Aliás, a filosofia se esforçava exatamente no sentido de desenvolver a consciência do indivíduo, pois o desejo de acertar ou viver melhor se frustrava pela não visualização do “alvo” ou pela não conquista de uma consciência nítida de propósito. Atirava-se e ainda se atira no escuro, por assim dizer.

Precedendo a citada ideia grega e antes mesmo de o aramaico ter-se espalhado pelo mundo antigo por intermédio dos persas, a ideia que serviu de base ao conceito de pecado se relacionava ao esquecimento de algo que continuava presente a despeito da inconsciência individual. Portanto, impedido de repetir eficazmente seus acertos e viver melhor, o indivíduo tornava-se muito mais sujeito às consequências dos próprios erros.

Enfraquecido, o Homem torna-se mais dócil à condução por outrem. Ao considerarmos o número elevado de tarefas desagradáveis que precisam ser feitas para que se mantenham em funcionamento as organizações humanas, não fica difícil se compreender os motivos da estratificação social e da hierarquia. Enquanto se festeja as excelências da sabedoria, é a ignorância que carrega o mundo nas costas.

O termo “original” se refere aquilo que não existia antes. O ponto inicial de uma ação que teve continuidade no tempo – o Homem. A ocultação do surgimento do ser humano moderno sobre a Terra preserva a pirâmide social encimada pela ideia de “Deus”. Obedecer às chamadas leis divinas, nesse contexto de entendimento, equivale a preservar a própria existência humana.

[...] Tutu, [...] que teve compaixão dos deuses encadeados, que rechaçou o jugo imposto aos deuses, seus antigos inimigos, que, para liberá-los, criou a humanidade, ele, o misericordioso, em quem está o poder de dar a vida.  (Enuma Elish, tablete sete).

A versão mesopotâmica para a criação da humanidade, que serviu de base ao livro do Gênesis, associa esta criação ao trabalho escravo em favor dos deuses. Segundo ela, a origem da humanidade estaria nos deuses aprisionados que teriam servido de apoio para nova criatura, que os substituiu no trabalho pesado. A nova criatura, o Homem, como um ser híbrido, não pertencia a uma realidade e nem a outra: parte hominídeo, parte deuses aprisionados.

[...] Segue-se uma das explicações "antropológicas" (entendida no contexto de que o livro sagrado pretende a apresentação de uma explicação ou uma construção explicativa das origens do universo, do nosso mundo, da humanidade, da civilização em geral e da hebraica em particular, e por fim das origens do bem e do mal): Até atingir a fase da "civilização" o homem vivia no "estado de natureza", em oposição ao "estado de cultura", explicação essa totalmente compatível com o evolucionismo darwinista. O comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal seria o divisor de águas, ou seja a ruptura da comunhão entre o ser humano e a natureza. A partir de então o homem passou a reconhecer-se como separado e independente da natureza, adquirindo consciência de sua morte e finitude, adotando valores, crenças e objetivos independentes da natureza. Deu-se a traumática transição do animal para o hominal, como definia Teilhard de Chardin.(WIKIPEDIA)

A posterior variante da criação da humanidade, romanceada pelo judaísmo, fez da não crença nos preceitos estabelecidos por ela um delito moral grave, tendo em vista a sua pretensão pedagógica. O motivo disso seria o fato de que, segundo a religiosidade mesopotâmica, na medida em que o homem segue a moral divina, do deus que habita nele, pode contar com a sua proteção, pois é ‘filho do seu deus’. Quando fraqueja, o deus se irrita e se aparta dele, permitindo que a desdita o atinja. (CONTENEAU, 1979, p. 105). Daí a ideia de um deus pessoal.

Visto outras possibilidades de entendimentos para os termos “pecado” e “original”, fica claro que o propósito da ideia de erro de Adão e Eva, por desobediência, é evocar a obediência à autoridade. O conceito de pecado original, não existe no judaísmo, surgiu com Irineu no momento em que o cristianismo declarava o judaísmo destituído por Deus da autoridade sobre seus livros sagrados, pelo assassínio de Jesus Cristo, e reivindicava autoridade sobre todos crentes, judeus e cristãos.

[...] Irineu se volta para a questão prática de quem cultua a Deus corretamente e quem não cultua. Primeiro, diz ele, os judeus não cultuam, pois se recusaram a ver que “o verbo do Senhor” que falou a Abraão e a Moisés foi nada mais, nada menos, do que Jesus Cristo. [...]

Visto que não reconhecem Jesus como “o Deus que falou em forma humana” a seus ancestrais, os judeus, diz Irineu, foram deserdados por Deus, que os privou do direto de serem sacerdotes. Embora continuem a venerá-lo, Deus rejeita suas oferendas, assim como rejeitou as de Caim, pois exatamente como Caim matou Abel, os judeus “mataram o Justo” – Jesus -, portanto, “têm as mãos cheias de sangue”.

 Os judeus, portanto, cultuam Deus em vão, pois ele transferiu o sacerdócio deles para quem reconheceu o seu “verbo” – ou seja, os apóstolos, a quem Jesus ensinou a fazer “o sacrifício do novo pacto” quando lhes disse que oferecessem o pão a que chamou de seu corpo e o vinho a que chamou de seu sangue. Desde que Jesus morreu na cruz, a eucaristia que reencena o seu sacrifício é o para-raios que atrai o poder de Deus para a Terra. [...].     (PAGELS, 2004, p. 160)


Referencias
CONTENEAU, Georges.  A Civilização de Assur e Babilônia. Rio de Janeiro: Otto Pierre, 1979.
PAGELS, Elaine. Além de toda crença: o Evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

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