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quinta-feira, 28 de junho de 2012

Perdido no Parque da Tijuca (By Rodrigo Da Luz)



Conforme noticiei pelo facebook e twitter, meu amigo e colaborador Rodrigo, estava desaparecido (se perdeu numa trilha), mas tudo se resolveu da melhor forma possível, e ele compartilha os momentos terríveis que passou.


By Rodrigo Da Luz


Conforme a imprensa  andou noticiando e muitos espalharam pelas redes sociais, fiquei perdido três dias e duas noites neste último final de semana (23 a 25 de junho).

Gente! Minha imprudência foi enorme, mas mesmos os erros cometidos são cheios de significado.

Se eu disser que, nas minhas caminhadas anteriores jamais tive alguma dificuldade, estaria mentindo. Pois, desde 99, morando em Nova Friburgo, em que comecei a fazer minhas aventuras, ocorreram situações quando fiquei desorientado. Só que, quando não chegava ao meu destino, conseguia voltar por onde vim ou sair em outro lugar. O pior acontecimento teria sido em junho de 2001, quando eu e Núbia tentamos ir de Castália até Guapiaçu, em Cachoeiras de Macacu em que, tendo percorrido 2/3 da trilha, chegamos a uma antiga fazenda e não acertamos mais o caminho pois tinha várias picadas de caçadores. Aí anoiteceu e foram justamente dois caçadores que nos resgataram e nos trouxeram para a casa da família deles.

A maioria das vezes eu me dava bem! Fazia caminhadas de 6 horas sem problemas, o que me encheu de auto-confiança. Morando aqui no Rio desde meados de dezembro, fiquei ansioso por querer conhecer profundamente o território da cidade e, principalmente, esta área onde estou morando na Zona Norte. Minha compulsão por estar em novos lugares ficou a mil. De lá pra cá, fiz vários passeios e caminhadas.

Como antes eu tinha conhecido a pé uma boa parte do nosso estado e da Serra do Mar, pensei que o Parque da Tijuca fosse só um pequeno jardim. Brincadeira de Mickey Mouse pra quem se achava um grande trilheiro que já tinha andado praticamente Friburgo inteiro mais boa parte dos municípios de Cachoeiras de Macacu, Teresópolis, Silva Jardim, Casimiro de Abreu, Macaé e Trajano de Morais. Só que passear no meio rural é muito diferente de um parque ecológico! Principalmente porque as vias de acesso são menores e não há moradores.

Bem, mas quando eu olhava os morros da janela de casa, cada dia dava aquela vontade de ir daqui do Grajaú (bairro onde moro) até a sede do Parque da Tijuca, situada no Alto da Boa Vista, bem como descobrir um roteiro até à praia por dentro do mato. Aí soube que pessoas já faziam o roteiro, geralmente vindo do Alto da Boa Vista pra cá e outros até um lugar em Jacarepaguá chamado de Represa do Cigano. Passeios que nem são recomendados pelo parque porque fogem do circuito turístico. Porém, não quis esperar a oportunidade de pintar um passeio. Eu mesmo resolvi arriscar sozinho assim como já fazia lá em Nova Friburgo e nunca tive problemas.

Pois é. Dizer que antes disso Deus não me mandou um aviso, estaria mentindo. Quando foi no dia 3/5, saí à tardinha de casa e tinha chegado até o alto do Morro do Elefante. Não achei a trilha, o sol começou a se por, senti um certo desespero e quase me perdi. Naquele dia, consegui acertar o caminho de volta e cheguei em casa de noite, grato por não ter passado a noite ali e estar vivo.

Mas vocês acham que eu aprendi a lição naquele dia? Coisa nenhuma!

Não demorou muito pra que a minha mente justificasse que o fato de não ter achado a trilha pro outro lado do Morro do Elefante teria sido o fato de escurecer. Na manhã deste último sábado, após ter sido cancelado um evento do qual o pessoal da minha ONG participaria, resolvi então caminhar. Não avisei ninguém pra onde iria, nem levei celular, mochila, alimentos, lanterna, facão ou barra de acampamento. Simplesmente resolvi ir até o alto do Morro do Elefante e, se identificasse o caminho para o outro lado, desceria por ele. Aí, quando cheguei lá em cima, encontrei o Luiz Albuquerque vindo com seu grupo do Alto da Boa Vista pra cá. Perguntei-o se a trilha estava “limpa”, o que, no linguajar do meio rural significa “roçado”. Então, com a presença deles, senti-me super auto-confiante.

Continuei o caminho, descendo embalado e acreditando que, à tardinha, estaria na sede do parque talvez antes das 15 hs. Só que, quando cheguei num bananal é que comecei a me embananar. Fui descendo por uns vales e vi que não chegava a lugar nenhum. Retornei e não achei o caminho de volta, pelo que precisei passar a noite ali, ficando pouco acima do bananal, perto de, salvo engano, uns taquaruçus.

Só aquela noite foi num terrível teste de resistência pra mim. Sem ter me alimentado naquele dia (tomei apenas o café da manhã), dormi com estômago vazio e enfrentando o frio gelado da serra, tendo que deitar ao relento pela primeira vez na vida fora de uma barraca. Sofri uns ataques de mosquito, só que o pior mesmo foi o frio. Sabia que, sem comida, a pessoa sobrevive por dias e água tem bastante por ali. Ainda assim fiquei preocupado em não conseguir sair dali ou não ser achado.

Imaginei que minha morte seria por motivo de hipotermia e que estaria deixando este mundo de uma maneira tão sem razão. Algo bem diferente do que fizeram Jesus, Gandhi, Martin Luther King ou o nosso Chico Mendes. Meu corpo poderia ficar por lá, minha família nunca saber, ser aberto um processo de declaração de ausência até a Justiça permitir a abertura do inventário. O documento de identidade de minha mulher e o cartão da Unimed dela estavam comigo assim como a chave de um cofre onde ficam os remédios controlados dela que eu dou todas as noites pra Núbia tomar. O único conforto que tinha era o fato da ter vindo de Mangaratiba ficar conosco, o que não deixaria minha esposa sozinha dentro de casa.

Passando o aperto da primeira noite, fui procurar o caminho de volta ali pelo bananal e não consegui encontrar. Distanciei-me e fui sair num outro vale onde também fiquei andando desorientado sem encontrar alguma trilha que me levasse pra qualquer saída. As horas passaram e acabei ficando outra noite na mata que pareceu muito mais longa e fria do que a primeira. Principalmente porque ventava e meu corpo estava com menos energia do que no dia anterior. Por ser inverno, não tinha muito alimento disponível na floresta. Cheguei a comer um pouco de cana-do-brejo, folhas de assa-peixe, de bananeira e até larva, sabendo que são coisas comestíveis.

Segunda-feira, tomei a decisão de descer por um caminho a princípio aplainado entre dois morros que descia em direção ao barulho de uma estrada (a Grajaú-Jacarepaguá). Prossegui, atravessei um trecho cheio de plantas espinhosas e depois continuei andando por dentro de um rio que, por um longo percurso, parecia ser tranquilo. Tinha a esperança de que não encontrasse cachoeiras pelo caminho e fosse sair numa ponte da tal estrada onde eu subiria até o asfalto pra tomar o ônibus. Só que, infelizmente, depois de tanto andar, cheguei até o alto de um enorme precipício de onde despenca uma imensa queda d'água. Eu tava exausto para retornar e meus pés já machucados por causa do roçar do tênis no calcanhar. Achei melhor pegar um pouco de sol e descansar.

Meu corpo já doía devido ao ácido láctico. Eu estava profundamente arrependido com o que fiz, tomando providências quanto à minha possível morte de modo que raspei o código de segurança do cartão de crédito, cortei-o em dois e enterrei para o caso de alguém encontrar o corpo, não fazer compras indevidas e provocar danos à herança. Pensei muito no bem estar das pessoas que eu deixaria tipo Núbia e minha mãe.

Orei muito a Deus e pedi pelas pessoas. Achei que aquela seria mesmo a minha hora e que ainda poderia sofrer por dias até, finalmente, morrer com uma parada cardíaca porque tenho boa saúde. Disse a Deus que amo minha esposa e que, mesmo sem ela ouvir fisicamente esta mensagem, Ele a transmitisse. E, certamente, entristeci-me por estar deixando a vida tão prematuramente.

Entretanto, ainda naquela tarde, a alegria voltou ao meu coração. Ouvi uma voz na mata e respondi para ver se não era alguma alucinação (quando estive perdido várias vezes imaginava estar ouvindo alguém mas devia ser som de bicho). Então, quando recebi resposta e a mensagem para permanecer onde estava, percebi que realmente estava sendo resgatado.

Não sabia exatamente como aquilo estava acontecendo, se alguém teria escutado meus gritos de socorro na mata, e considerava bem remota a possibilidade de ter ocorrido o que de fato aconteceu: minha família ter espalhado na internet o meu desaparecimento e o Luiz Albuquerque visto a informação pelo Facebook a ponto de responder que me viu no alto do Morro do Elefante. E foi justamente isto que houve, mas que também poderia não ter acontecido. E, neste caso teria eu permanecido lá até os urubus comerem meu cadáver.

Bem receptiva, a equipe de socorro cumprimentou-me, trouxe alimento, fez curativo nos meus calcanhares e me guiou dali até uma das saídas do parque na represa dos ciganos. Eles tinham começado a busca no começo da tarde, viram os locais onde eu tinha dormido e improvisaram uma trilha para me tirarem daquele buraco. Eu pedi muitas desculpas pelo transtorno causado já que viaturas e agentes públicos foram deslocados para me salvarem, porém ninguém ali ficou me julgando mau pelos erros cometidos.

Cerca de uma hora depois, sendo já noite, cheguei até à ambulância do Corpo de Bombeiros onde, após a médica examinar e ver que nada havia de grave, ainda assim sugeriu que eu fosse ao hospital. Concordei e fui conduzido ao Lourenço Jorge, unidade municipal de saúde. Ali, dormir numa maca e num lotado corredor com luzes acesas e uns pacientes alcoolizados perturbando o tempo todo, acabou se tornando um verdadeiro hotel cinco estrelas para quem tinha passado duas noites frias no mato sobre o chão frio da serra.

Depois desta experiência, estou buscando reavaliar a maneira como tenho conduzido meus caminhos. Pedi a Deus uma nova chance de viver e Ele, na Sua grande misericórdia, me concedeu. Estou me sentindo um pouco como o profeta Jonas quando ficou três dias na boca de um peixe e também me cuido para deixar de ser estúpido como orei Ezequias que, depois de receber o livramento divino, quis orgulhosamente exibir-se diante da embaixada dos babilônicos.


“Andaram errantes pelo deserto,
por ermos caminhos,
sem achar cidade em que habitassem.
Famintos e sedentos,
desfalecia neles a alma.
Então, na sua angústia,
clamaram ao SENHOR,
e ele os livrou das suas tribulações.
Conduziu-os pelo caminho direito,
para que fossem á cidade em que habitassem.
Rendam graças ao SENHOR por sua bondade
e por suas maravilhas para com os filhos dos homens!
Pois dessedentou a alma sequiosa
e fartou de bens a alma faminta.”
(Salmo 107.4-9; ARA)

Via http://doutorrodrigoluz.blogspot.com.br/2012/06/perdido-no-parque-da-tijuca.html

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