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sábado, 30 de junho de 2012

"Pobres Ateus" (by Noreda Somu Tossan)




                                                       
Pobre de nós ateus que, como cordeiros ingênuos, caímos em covis de lobos ferozes. Pobres de nós ateus que somos vilipendiados pelos intolerantes crentes, e não temos nem sequer a oportunidade de manifestarmos nossa opinião, pois tudo que falamos é tolice. Crentes estes que esqueceram que divino era só o mestre Jesus, e eles, assim como nós ateus, tombaremos sobre a mesma terra e apodreceremos a medida em que somos devorados pelos vermes. Vermes estes que, ao contrário do que disse o messias, acabará ao ver que nada de nós existe mais para ser consumido.

Pobre de nós ateus, que no início de nossa descrença ficávamos preocupados com o fato de nossas atitudes estarem fazendo mal aos irmãos que ainda creem. Pobre de nós ateus que não falamos para nossos filhos e para nossas velhas e crentes mães que Deus não existe mesmo. Pobre de nós ateus que nos calamos quando lá dentro, uma voz implorava para que gritássemos nos ouvidos dos crentes que nos aporrinham o saco com suas idiotices, que Jesus não salva ninguém, que céu é lugar de zumbi, e que é preciso ser por demais burro para acreditar em histórias tão absurdas como as que são contadas na Bíblia "Constantinizada".

Pobre de nós ateus que sofremos... sim, sofremos ao ver que não adianta nada falar que a ilusão da fé é o maior freio-social que já puderam impingir ao homem. Sofremos por vermos nossos irmãos... sim, irmãos, padecerem sob o jugo de pastores, padres, líderes espirituais de todos os tipos, sendo levados para um caminho de negação, flagelação de consciência, repressão de desejos humanos, (desejos estes, demasiado humanos), estoicismo em pleno século XXI e falência de intelecto.

Pobre de nós ateus, que não queremos o mal de ninguém, que procuramos viver em paz com todos, que desejamos ajudar, ou melhor, agimos em prol daqueles que necessitam de auxílio, seja ele financeiro, sentimental, ou moral. Pobre de nós ateus que não oramos para que o mundo se torne um lugar tolerável, ao contrário disto, nos empenhamos em deixar filhos melhores para este mundo e não um mundo melhor para filhos maus. Pobre de nós ateus, que não temos ajuda de cima, que não somos socorridos por deuses, que não somos protegidos por um criador, que vivemos na angustia, aguentando calado a náusea causada pelo enfrentamento da realidade.

Pobre de nós ateus, que olhamos para o céu e só vemos o negro do espaço disfarçado de azul pelas muitas camadas de atmosfera, não olhamos além disso, não esperamos ser notados nem amparados em meio aos conflitos sociais e existenciais, estamos sós, e sós permaneceremos sempre... pobre de nós ateus que não temos alma nem espírito, que não possuímos a pneuma divina em nosso interior, que nos garantirá a vida eterna ao lado do criador se bom formos.

Pobre de nós ateus, que não nos prendemos a histórias antigas, daquelas que as crianças fantasiam e acabam por usá-las como válvula de escape para seus medos interiores. Pobre de nós, que não conhecemos os mistérios do reino, que não temos sobre nós o sangue do cordeiro, que seremos atirados no lago de fogo e enxofre, apenas para satisfazer os caprichos desse deus mesquinho, apático e mimado chamado Jeová.

Pobre de nós ateus, que desejamos que todos vivam, e vivam com abundância, enquanto que para nós é desejado apenas a morte... a pior delas, a saber, a morte da alma. Pobre de nós ateus que já ardemos em fogueiras "santas", queimados como hereges... mal sabendo eles que os hereges são todos aqueles que acendem a pira e contemplam as chamas lamberem a carne do incrédulo. Pobre de nós ateus que não cremos em nada e mesmo assim somos chamados de filhos do demônio, decepcionados, frustrados e carentes de uma experiência verdadeira de fé. Será que eles não percebem que o "demônio" aplaude e faz festa ao ver um irmão condenar o outro ao "inferno"?


Pobre de nós ateus, quando vemos que a loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado ateu, exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessasse, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar os pobres ateus.

Pobres, sim, somos pobres ateus, mas não apreciem estas linhas como lamentos, e sim como regozijo, pois são justamente estes pobres ateus que experimentarão as maravilhas do mundo, que errarão tentando acertar, que perder-se-ão buscando novos caminhos, que perguntarão e não obterão respostas, e essas dúvidas serão o combustível que os levarão a entender que não possuem a verdade de nossa existência, que não se conformarão com o mal deste mundo, mas antes, se transformarão pela renovação constante de seu entendimento, experimentando assim, a boa, perfeita e agradável vontade da natureza  humana.

Enfim...

Pobre de nós ateus que não temos crise de consciência (mentira, temos sim), somos ateus, e eu pelo menos, pregarei o ateísmo até que a matéria orgânica que me compõe exaure suas energias, fato conhecido como morte. Morrerei negando a existência de qualquer tipo de deus. Nego-me a desperdiçar minha última palavra com algo que não seja um alto e sonoro: "Deus não existe".  Aliás...consciência? O que é isto senão uma maneira mais educada, e polida para disfarçar a palavra...covardia.

Noreda Somu Tossan

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