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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Assim Na Terra Como No “Céu”



By Levi B. Santos

Quis o destino que o patriarca e a matriarca da grande família partissem juntos dessa, para outra. Os amigos e os familiares do casal de velhos, depois de muitos entreveros, concordaram em fazer cerimônias fúnebres distintas, obedecendo aos ritos religiosos de cada um deles. É que o senhor Celestino de Jesus era um renhido protestante seguidor do Filho de Maria, e a senhora, Maria Anunciada da Conceição, uma católica devota de Nossa Senhora.

A um simples olhar, denota-se que a ancestralidade cultural dos pais dos defuntos está bem presente nos nomes que eles deram aos seus filhos, nascidos quase que na mesma época (1924 e 1926).


O gerente da maior empresa funerária da cidade, como sempre costumava fazer, perguntou ao familiar (contratante do enterro), qual era a religião que o casal professava, para preparar o ambiente de acordo com as tradições e rituais próprios dos falecidos. Ficou pasmo e quase sem fala, quando ouviu que deveria preparar dois velórios: um para o católico e outro para a protestante, em um só salão, ainda mais com a alegação extravagante de que as cerimônias seriam simultâneas, pois os velhos, nunca tinham deixado de viver juntos, se separando apenas nas ocasiões dos seus obsessivos cultos religiosos.

Depois de pedir um tempo para pensar, o vendedor de enterros chegou finalmente a uma genial solução: cobraria um preço mais alto e inovaria a indumentária de sua funerária, ao adquirir um biombo (espécie de cortinado retrátil de PVC na cor dourada) para separar os dois ambientes “pré-celestiais”, tudo em conformidade com os ricos castiçais e candelabros banhados a ouro de sua empresa.

Todos nós sabemos que um fato inusitado como esse, chega rapidamente aos ouvidos da população. E foi justamente o que aconteceu.

O prefeito da cidade, eleito pelas duas maiores comunidades religiosas rivais, temendo grande tumulto por ocasião da dupla cerimônia fúnebre agendou uma reunião de urgência com sua equipe multi-denominacional de fiéis. Chegaram então a um consenso, afinal: nas cerimônias simultâneas nem o padre rezaria “Santa Maria, rogai por nós”, nem o pastor falaria que “só Jesus é o único intercessor entre Deus e os homens”. Ficou acertado, também, que uma história bíblica não poderia, em nenhuma hipótese, ser ventilada na dupla encomendação dos mortos: a parábola que mostra o pobre mendigo, Lázaro, sendo recebido no céu e um rico avarento nas chamas do inferno, gritando para que lhe molhem a língua. Ainda, duas passagens da Bíblia não poderiam ser tocadas: O pastor estaria proibido de ler uma parte que seus fiéis adoram muito ― àquela que os evangelistas atribuem a Jesus −, numa ocasião em que estava sendo importunado por sua mãe, quando assim falou veementemente: “Mulher, que tenho eu contigo?!”. O padre, por sua vez, estaria terminantemente proibido de citar a parte inicial do “Magnificat”: “Bendita és tu entre as mulheres”.

Quanto ao uso dos símbolos religiosos não houve questionamentos: o defunto protestante portaria a Bíblia sobre o pedestal funerário atrás do seu caixão, e a católica morta exibiria o Cristo crucificado num altar acima de sua cabeça. De maneira nenhuma seria permitido a cruzada, isto é, a passagem dos adeptos da Mãe de Deus  para o outro lado da cortina, reservada aos fieis do Filho de Deus, e vice-versa.


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