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segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Bíblia é homofóbica? (Um segundo argumento)




By Walter Silva



Essa questão foi colocada em debate em um fórum social e suscitou um interessante e provocativo artigo (ler o primeiro artigo em A bíblia é homofóbica? link clik p/ ler), para cujo desenvolvimento do tema estou oferecendo uma contribuição aqui.

Vou me deter na exposição e análise de alguns argumentos das igrejas inclusivas bem como das igrejas cuja perspectiva chamarei de “literalista’’, e tentar apresentar o meu próprio ponto de vista a cerca do assunto.

A Bíblia sagrada se mantém como uma dolorosa espada de Dâmocles suspensa sobre a cabeça de homens gays e mulheres lésbicas, provocando a angustiante sensação de danação iminente e norteando também as políticas e atitudes sociais hostis para com pessoas LGBT ao longo dos séculos, independente de crença ou descrença.

Portanto, diante disso questionar se a bíblia é homofóbica pode parecer mesmo uma grande ingenuidade, quando não uma pilhéria grotesca. Apesar de tudo, proponho ao menos uma mudança ligeira e significativa de posição no sofá das convenções ideológicas durante as próximas linhas.

Os pressupostos morais estabelecidos firmemente durante gerações de cristãos no Ocidente foram desafiados com maior entusiasmo e elegante inteligência pela primeira vez quando John Richard Boswell, iminente professor de história da universidade de Yale, publicou no início dos anos oitenta o surpreendente livro “Cristianismo, tolerância social e homossexualidade’’.

A obra de Boswell gerou uma onda de intensa polêmica, ganhou prêmios, foi entusiástica e afetuosamente acolhida por gays cristãos e recebeu críticas ferrenhas tanto de ativistas LGBT quanto de fundamentalistas e grupos antigay.

O meio acadêmico, igualmente, reagiu de modo variado.

O dogma do construcionismo social despontava; a tese essencialista apregoada pelo professor gay de Yale não estava mais na moda (embora o próprio Foucault tenha elogiado o livro) e muitos ativistas LGBT se sentiram “traídos’’ por aquilo que eles entenderam como uma tentativa de “branquear’’ o cristianismo e retirar a culpa dos ombros da igreja por todos os crimes cometidos contra homossexuais.

Por outro lado, Boswell foi celebrado ao expor uma interpretação revolucionária, argumentando que a igreja no início da sua trajetória e ao longo de uma parte do medievo, conviveu com a homossexualidade de forma pouco conflituosa, possibilitando inclusive o emergir de uma subcultura gay, expressando-se através de primorosos poemas e cartas eróticos de amor e amizade do mesmo sexo, escritos por bispos e clérigos cristãos.

O professor John Boswell também se tornou pioneiro ao fazer uma exegese “inclusiva’’ de trechos bíblicos tradicionalmente considerados homofóbicos, causando uma controvérsia que dura até hoje, fornecendo o lastro sobre o qual repousa a assim chamada “teologia inclusiva’’.

Afinal, a bíblia é homofóbica? Não vou entrar no mérito de discutir a semântica apontada como a razão da condenação explícita a atos homossexuais, motivo de disputa ferrenha entre os adeptos da interpretação inclusiva e os adeptos da interpretação literalista.

Ao contrário, vou assumir aqui que a Bíblia de fato condena atos homossexuais, uma alegação com a qual Boswell também concordaria.

Uma assertiva bastante comum entre os cristãos literalistas homofóbicos é aquela que diz que “Deus não condena o indivíduo homossexual; Deus condena atos homossexuais’’.

Suspeito que essa afirmação contém inadvertidamente uma verdade oculta, fundamental e divergente da intenção com a qual é propagada, conforme veremos.

De modo contraditório os literalistas afirmam que Deus não reconheceu a categoria dos homossexuais (então qual o sentido de dizer que Deus não condena a pessoa gay?) que Deus criou somente o “macho’’ e a “fêmea’’; indivíduos gays, portanto são machos e fêmeas que se recusam a cumprir com os desígnios de sua natureza verdadeira (heterossexual).

Desconsiderando solenemente a teoria social construtivista (de viés Marxista) e os equívocos derivados da crença Foucaultiana de que a identidade gay é uma invenção moderna, é bastante razoável discordar da idéia de que Deus “limitou-se’’ a “criar’’ duas distintas classes de pessoas; com efeito, diversas escrituras jurídicas, literárias, religiosas e de medicina do mundo antigo se referem explicitamente a uma terceira categoria de pessoas, com estatus próprio naturalizado e normatizado, para além da nomeação de “homem’’ ou “mulher’’.

Essa classe específica de pessoas por vezes foi considerada um terceiro gênero, ou gênero neutro, ou uma combinação de ambos os gêneros.

A própria Bíblia confirma a existência de uma terceira classe de pessoas, não aptas para o casamento procriativo, nascidas exatamente desta forma desde o “ventre materno’’.

Quem são essas pessoas?

No Evangelho de Mateus, no verso que se refere ao divórcio e casamento entre homem e mulher (19,11-12) Jesus declara:

“Não tendes lido que o criador os fez, desde o princípio, homem e mulher, e que ordenou: Por isso deixará pai e mãe e unir-se-á com sua mulher, e será uma só carne?’’

Responderam-se os discípulos, opinando sobre a interdição de Cristo ao divórcio:

“Se tal é a condição do homem relativo à mulher, melhor não casar.’’

Jesus retrucou então:

“Nem todos podem entender esse ensino. Mas somente aqueles a quem isso foi dado.

Porque há eunucos que nasceram assim, e há eunucos que pelos homens foram feitos tais; e há outros que se fizeram eunucos por causa do reino dos céus.

Quem puder aceitar isso que aceite.’’

Jesus coloca a questão do repúdio da esposa, consentido pela lei de Moisés, e no final, excepcionalmente deixa claro que existem pessoas que não são aptas para se engajar no casamento heteronormativo prescrito por ordem divina.

Faris Malik, um pesquisador de concepções antigas de identidade de gênero e identidade sexual, entre outros defende a tese de que os “eunucos de nascimento’’ citados no evangelho de Mateus é a denominação primitiva genérica aplicada por vários povos da antiguidade aos homossexuais exclusivos.

A primeira objeção ao argumento é a mais óbvia: Jesus pode simplesmente estar se referindo a homens que nasceram com disfunções biológicas que impossibilitam a reprodução.

“Eunuco de nascimento’’ então se refere a homens estéreis naturalmente, em oposição aos esterilizados artificialmente e os que escolheram não procriar (celibatários).

Malik está consciente do problema e sua pesquisa aborda sem rodeios a busca pelosignificado original do “eunuco de nascença’’; ele observa que apesar de quase todas as definições atuais de eunucos se encontrarem atreladas ao conceito de castração ou danos físicos à capacidade reprodutiva, seja por nascimento ou por algum tipo de emasculação, para os povos do passado, um eunuco se caracterizava essencialmente pela ausência de desejo sexual por pessoas do sexo oposto.

O mito Sumério da criação do eunuco diz que eles foram criados especificamente para não sentir desejo por mulheres; Asushunamir, o eunuco que vai para o reino dos mortos em missão de resgate da deusa Isthar, precisa ser imune à sedução da rainha do submundo, que mantém a deusa do amor prisioneira.

Clemente de Alexandria, comentando a respeito das crenças gnósticas dos adeptos deBasilides (Em Stromata) menciona a versão gnóstica do discurso de Jesus em Mateus 19: “Alguns homens, desde o nascimento, têm a natureza que os impele a afastar-se das mulheres, e deste modo fazem bem em não se casar. São os eunucos de nascença.’’

Em outras palavras, o eunuco de nascença não era necessariamente um homem estéril biologicamente; apenas era relativamente estéril, porque incapaz de sentir desejo por mulher.

Isso tem cabimento?

De acordo com o Sumário de direito romano, codificado por Justiniano, e reunindo os principais peritos da legislação romana (Papiniano, Ulpiano, Paulus e Juliano), a definição geral de eunuco engloba o “eunuco de nascimento’’ e faz distinção entre os eunucos castrados e os não castrados.

A lei romana prevê a possibilidade de um eunuco “não castrado’’ casar-se com uma mulher e consumar o casamento, restringindo o direito de casar de um eunuco castrado. O eunuco castrado não pode casar porque não pode procriar. O eunuco não castrado pode casar porque pode procriar.

Considerando ainda o termo “doença’’ uma condição natural física que prejudicava o uso do corpo para os fins aos quais ele se destinava, Ulpiano pondera que a situação dos eunucos naturais procriadores não condizia com a definição de doença, já que alguns eram capazes de procriar.

direito romano reconhece que “eunuco’’ é um termo genérico, aplicado a diversos tipos de pessoas, inclusive homens que podem procriar, portanto.

O jurista Paulus confirma, por outro lado, que se alguém é um eunuco e lhe faltam os órgãos necessários para procriar, ainda que “internamente’’ então ele é incapacitado, um doente.

Nem todo homem que se engajava em sexo homossexual foi reconhecido como eunuco; há uma boa razão para isso.

bissexualidade era mais amplamente aceita socialmente; a pederastia caracterizava-se como relação homofílica passageira e tinha aspecto transgeracional, e mesmo o “amor pelos meninos’’ foi alvo de intolerância e hostilidades. O pederasta não perdia o estatus de homem, a não ser de modo temporário, quando era Catamito e passivo.

Homossexuais exclusivos, naturalmente, não se encaixavam no estereótipo de gênero masculino naquela época.

Ser eunuco não era exatamente uma vantagem, embora não fosse crime; numa sociedade patriarcalista e misógina, que valorizava o poder do gênero masculino e a fertilidade, é compreensível o interesse de alguns eunucos pelo casamento heterossexual. O poderoso senhor do atraente José do EgitoPotifar, é um exemplo. O desejo licencioso da esposa de Potifar é sintomático e revelador, aliás.

Quem nunca ouviu falar em gays que se casam com mulheres para fugir do estigma social? E de mulheres de gays que se ressentem da falta de desejo dos maridos?

Dito isto, vamos examinar o contra argumento literalista que sugere que em todos os casos, um eunuco é ou um homem castrado, ou um homem estéril de nascença, ou um celibatário (alguém que escolheu manter-se casto).

Malik destaca o comentário do sumeriano Manual de Summa Alu (2500 antes de cristo) de prognósticos místicos: “Se um homem tem relações sexuais com um assinu(eunuco, prostituto sagrado), ao longo de um ano todas as suas aflições irão desaparecer’’;

Eliano, Orador grego do século terceiro, em “Histórias diversas’’ faz referência a um rei persa apaixonado por um lindo eunuco morto recentemente; Quintius Curtiusinforma que Dario tinha 365 concubinas, e Alexandre magno dispunha do mesmo número, contando ainda com um efetivo de eunucos, que “eram usados como as mulheres’’ (Curtius fala ainda da paixão de Alexandre pelo Eunuco Bagoas, que ganhou o respeito do rei oferecendo-lhe seu corpo para sexo); O historiador judeu Flávio josefodiz que Herodes teve muitos problemas por causa de um eunuco por quem ele era muito apaixonado por conta de sua beleza (Antiguidades judaicas)Suetônio deixa-nos saber a futrica sobre o imperador Tito, acusando-o de deleitar-se em excessiva luxúria com seus eunucos; o astrólogo do século quarto, Firmicus Maternus, descreve a luxúria de eunucos que desempenham o papel passivo no sexo.

Recapitulando, eunucos naturais eram fisicamente perfeitos (capazes de procriar), eunucos transavam com homens, eunucos não tinham interesse em mulheres.

Precisa mais de que para confrontar-se com a realidade de que “eunuco’’ foi umadenominação genérica que incluía pessoas homossexuais?

Voltando à questão inicial do debate, se as pessoas exclusivamente homossexuais eram consideradas um tipo de “eunuco’’ (existem documentos rabínicos que mencionam também a “mulher eunuco’’, o protótipo da lésbica machona), se o eunuco é uma criação de Deus (porque nasceu eunuco), se o eunuco não está apto para o casamento heteronormativo (porque é relativamente impotente e desinteressado do sexo oposto)para quem a Bíblia está dirigindo as suas reprovações e admoestações antigay em Levítico e outras escrituras?

De acordo com o professor John Boswell, para os heterossexuais.

Faz sentido.

O texto sumeriano do Manual de Summa Alu parece confirmar que o sexo homoerótico era proibido em alguns contextos e liberado em outras situações. O sexo entre um “homem’’ e um “eunuco’’ não era punido. Se um indivíduo considerado “homem’’ (naturalmente inclinado para as mulheres) relaciona-se com outro “homem’’ (sendo o passivo, por exemplo) havia o interdito.

O argumento de Boswell é que a Bíblia repudia a afeminação não natural nos homens heterossexuais, o sexo homossexual com prostitutos sagrados e a disposição de alguns heterossexuais para a luxúria ocasional com o mesmo sexo.

Entretanto, os apologetas literalistas rebatem questionando sobre qual é o sentido de se afirmar que Deus proíbe um pecado em uma circunstância e permite o mesmo pecado noutra?

Ora, Deus também proíbe a mentira e ainda assim induziu profetas a mentir e enganar o rei Acabe de Israel (“E disse o SENHOR: Quem induzirá Acabe, para que suba, e caia em Ramote de Gileade?’’; 1, Reis 22).

A Bíblia afirma, porém, que diante de Deus os eunucos podem encontrar graça e favor.

“Não fale o estrangeiro que se houver chegado ao SENHOR, dizendo: O SENHOR, com efeito, me separará do seu povo; nem tampouco diga o eunuco: Eis que eu sou uma árvore seca.

Via http://espiritualidadeinclusiva.blogspot.com.br/ (um dos parceiros do blog Mundo Da Anja)

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