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quarta-feira, 11 de julho de 2012

A HORA DO APELO






Os católicos têm a sua hora sublime: a hora do Ângelus ─ também conhecida como a hora da “Ave Maria”. Lembro-me, era bem criança, quando entre o cair da tarde e o começo da noite, precisamente às 18 horas, a sinfonia de Gounoud cantada por um tenor invadia os lares, deixando em mim um sentimento nostálgico. Ali, eu compenetrado participava da despedida solene do dia para entrar melancolicamente no mundo das trevas noturnas. Esse ritual dolente era executado todo o final do dia. Ainda hoje, essa penetrante sinfonia, que minha mãe considera diabólica, me comove pela sua tranqüilizadora e suave melodia.


Por essa mesma época, freqüentando as Assembléias de Deus, eu tomava parte de um outro ritual, desta feita nos finais de cultos de pregação do evangelho ─ cultos de cunho proselitista. Meus pais me diziam que a “hora do apelo” era o momento mais sublime e importante do culto, na qual deveríamos ficar de olhos fechados numa reverência silenciosa e especial.


Como sempre, de forma inquieta, eu conversava e ria com outros amiguinhos durante o desenrolar do culto. Porém, ao chegar a “hora do apelo”, me via como se estivesse vestindo a camisa de meu time: torcendo por números. Festa boa era aquela em que o Diabo perdia de goleada: 6 ou 8 X 0. Saía decepcionado quando um grande culto terminava com apenas uma alma salva. Esse placar apertado me deixava furioso. Nesses cultos, quanto mais restrito se desenhava o placar, mais corinhos eram cantados pelos irmãos, em tom solene e baixinho, para sensibilizar os pecadores visitantes, e eu ficava olhando para a porta de entrada do templo numa expectativa ansiosa de ver uma pessoa levantar a sua mão. Torcia desesperadamente, e no final, após ser cantando muitos corinhos, me via triste por aquele minguado resultado, para um culto tão propalado pela cidade. Nas noites em que isso ocorria, eu saia acabrunhado da igreja.


Lembro-me de um pregador, já cansado de tanto pedir “venha aqui a frente, venha!”, ficou tão furioso que disparou: “Tu que rejeitastes aceitar Jesus como o único e suficiente Salvador, tu mesmo que estás me vendo, quem sabe se um carro ou um bonde não te tragará a vida antes de chegares ao teu lar!”. Mesmo assim, com tamanha ameaça, a partida terminava em: 1X0.


Depois do culto, agora já no calçadão defronte a igreja, eu ficava atento aos comentários dos membros: “Ó povo de coração duro!!” ─ um afirmava. Outro disparava sem nenhuma cerimônia: “a culpa é do pregador!..., disse muita lorota, e não se ateve a Bíblia”. Ao que outro respondia: “Se eu soubesse que ia sair daqui de cara mexendo, não tinha nem vindo”.


Passaram-se 55 anos (mais de meio século), e cá estou eu assistindo a reprise dessa “hora do apelo”, que para não soar tão feio, agora é chamada de “hora do convite”. Vejo suavidade só na mudança do termo, pois a forma violenta e mal educada como é tratada a alma que se recusa a ir lá para frente, lá para o púlpito, é de uma indecência impar. Já vi gente sendo conduzida ao altar, presa pelos braços, tentando de todos os modos se libertar dos algozes.


Sem o recurso da hora do apelo ou do convite, o evangelho de resultados está morto. Sem o recurso da força, não há outro meio desse vergonhoso proselitismo ser disseminado.


É, mas hoje, na modernidade, já existe gente treinada para fazer valer a máxima do “apelo” como parte mais importante do culto. Já existem cursos e recursos para levar a emoção aos píncaros, a fim de trazer as almas chorosas aos pés da cruz.


Para se ter idéia do que o marketing da hora do apelo pode fazer, vejam o absurdo de que fui testemunha, alguns anos atrás:


Perguntando a um irmão se ele sabia onde estava residindo certo pregador, que era perito na função “Hora do Convite”, e que fazia tempo eu não o via, ele respondeu:


─ Ah! O irmão Fulano de Tal está trabalhando agora nos cemitérios.


─ Como meu irmão! Se explique melhor ─ pedi -lhe de modo afável.


─ É que ele está ganhando mais almas nas cerimônias fúnebres, do que na própria igreja. Lá, as almas já estão fragilizadas, sendo desta maneira, muito mais fáceis de ser ganhas para Cristo.


─ E como é o seu estilo de pregação nesses momentos em que a família do morto encontra-se naquele clima de choro e grande tristeza ─ indaguei, já pensando na sua trivial resposta.


─ Meu irmão, ele senta o sarrafo. Mostra o inferno de uma forma tão atroz e convincente, que as almas se rendem aos montes, com medo do fogo eterno.


Saí dali aturdido, pensando com os meus botões: “Não há arma mais mortal e mais temida pelo homem que a ameaça em nome de Deus, principalmente quando ela é dita na hora solene e tradicional do APELO”.


A hora do Ângelus assim como a hora do “Apelo” têm tudo a ver com trevas. A hora da Ave Maria, é uma hora triste por anunciar o inicio das trevas da noite. A “hora do apelo”, essa sim, é medonha e cruel, porque revestida de um falso caráter solene, anuncia as trevas da ignorância num lugar que deveria ser reservado ao que é Divino e Sagrado.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de fevereiro de 2009

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