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quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Jardineiro de Madalena cap- 4 - O sonho de Abrão



Gilberto Begiato


O sonho de Abrão

Felipe estava agora sentado no banco da praça e olhava encantado para o céu estrelado. Pensava se algumas daquelas estrelas que brilhavam no céu seriam seu pai ou sua mãe? O que acontecia com as pessoas depois da morte? Sentia também que o paraíso lhe trouxe uma cura para sua alma e que algumas feridas haviam sido tratadas naquele lugar. Porém também teve a sensação de que carregava uma culpa daquele lugar. Pensava que estava ficando louco com toda aquela jornada que fez, e se realmente existiu o jardim do Éden. Percebeu que sentado ao seu lado estava Emanuel que via as estrelas do céu balbuciando algumas palavras em uma língua estranha como se estivesse rezando. Parecia uma criança falando com o pai. Felipe sentia a presença de Emanuel ali e ouvia o som de suas palavras, mas não conseguia tirar os olhos do céu. Neste dia parecia que o céu estava muito mais estrelado. Com os olhos fixos para o alto perguntou a Emanuel:
- O paraíso, este tal Jardim do Éden existiu? E o que vimos ali foi real?
Emanuel também olhando fixamente para o céu interrompe sua oração e responde:
- O Paraíso do Éden existe no desejo de cada pessoa em reconciliar com o Criador sua volta à dignidade e à felicidade plena. O paraíso é um estado de espírito que só é possível existir se você acreditar na felicidade. Dentro de cada pessoa existe a árvore da ciência do bem e do mal. Existe a árvore da vida e todos os frutos necessários para buscar a felicidade. Tudo na vida, Felipe, é uma questão de escolha. E só chegamos ao paraíso se antes soubermos sonhar. Ninguém chega a lugar nenhum se antes não aprender a sonhar. E por não saber sonhar com o que vale a pena Adão e Eva se auto- expulsaram do paraíso.
Felipe lembrou que quando chegava à hora de dormir aproximava de seu pai e pedia a benção. O pai o abençoava e desejava bons sonhos. Felipe por diversas vezes sonhava com sua mãe sorrindo e abraçando com carinho. Era uma mulher bela. Quando estava triste costumava sonhar acordado também com coisas boas. Seu pai dizia que ele vivia no mundo dos sonhos
            Emanuel levantou-se do banco e disse:
            - Vem e segue-me!
            - Para onde vamos! Respondeu Felipe ainda com os olhos para as estrelas.
            - Vamos para a cidade de Ur.
            - Onde fica este lugar? É ali o Reino de Deus?
            - Não! Já lhe disse que o Reino de Deus está mais próximo do que você imagina. Ur fica muito distante daqui.
            Felipe abaixou os olhos e viu à sua frente que a poça de água continuava do mesmo jeito e que não refletia mais o rosto de seu pai. Parecia que seu pai estava cada vez mais distante. Apenas viu refletida naquelas águas muitas estrelas que brilhavam fortemente no céu. Foi se dando conta que estava sentado em uma relva e ao seu lado uma imensa escuridão que faziam as estrelas brilharem com mais intensidade. Levantou a cabeça e viu que já não estava mais sentado no banco da praça. Perguntou assustado:
            - Onde estamos? Que lugar estranho é este?
            - Estamos em Ur, terra natal de Abraão, meu amigo no ano de 1.800 A.C. - respondeu Emanuel
            - Como viemos parar aqui?
- Pela porta da praça, respondeu Emanuel.
- Outra porta? Quantas portas aquela praça têm?
Emanuel sorriu e disse:
- Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim será salvo, tanto entrará e sairá e encontrará pastagens.
- Você é a porta? Perguntou Felipe.
- O Bom Pastor é a porta! Respondeu Emanuel.
E continuou:
- Eis que estou a porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo.
Felipe nesta hora levantou-se e sem dar ouvidos ao Emanuel lhe dissera começou a observar como aquele lugar era diferente. Não tinha a magia e nem a beleza do paraíso, mas as estrelas brilhavam com tamanha intensidade e a quantidade de estrelas parecia ser infindável.
- Emanuel, disse ele, porque as estrelas estão brilhando tão forte assim?
Emanuel respondeu pacientemente:
- Você mora na área urbana e por isso os homens que ali moram há muito já não podem ver um céu estrelado. As luzes artificiais escondem o brilho das estrelas e sua quantidade. O homem do campo sabe muito bem do que estou falando. No campo a escuridão faz com que as estrelas aparecem mais e com maior intensidade.
- Aqui o céu é muito lindo! E a noite não parece ser tão assustadora. Disse Felipe
            Felipe lembrou-se que lá no morro onde mora, a noite sempre era assustadora. Quase sempre havia tiroteio e balas perdidas. Foi em uma destas situações que sua mãe faleceu com uma bala perdida que entrou pelo barraco e acertou em cheio suas costas atingindo seu coração. Estava de pé lavando as louças depois de um dia todo, atarefada com seu serviço. Foi esta história que ouviu de seu pai a respeito da morte da mãe. Felipe tinha 8 anos. Nunca soube da onde veio aquela bala. Seu pai dizia que depois daquele dia nunca mais sua vida foi a mesma. Pensou diversas vezes de desistir de viver, mas sentia a mão de Deus que o segurava. Mas sempre dizia que Felipe era o que o motivava continuar em pé. Felipe chorou novamente com esta lembrança deitou-se na relva e dormiu de tristeza. Refletiu consigo: “qual meu motivo para viver?”
            Emanuel percebeu que sua alma estava triste e preferiu calar-se apenas observando seu sono. Beijou-o na testa e balbuciou em seu ouvido:
            - O Pai lhe ama!
            Felipe dormiu com esta frase com uma paz no coração, pois quando seu pai o colocava na cama dizia sempre que o amava, então dormia com uma imensa segurança. Fazia isso sempre até sua idade agora. Felipe nunca chegava mais tarde em casa, por causa do perigo do morro à noite e principalmente porque gostava de ouvir seu pai lhe dizer antes de dormir que o amava. O que estava cada vez mais raro de acontecer, pois seu pai trabalhava muito e chegava tarde em casa.
            Emanuel então encostou-se em um canto e disse:
            - Se todos os pais soubessem a importância de um abraço, um beijo e palavra de amor e carinho, seus filhos estariam motivados e não precisariam buscar no mundo o que não recebem em seus lares. As coisas essenciais da vida são simples e Deus deixou ao alcance de todos. Mas os homens preferem complicar o que é simples. Buscam a felicidade onde ela não está, oferece aos seus filhos a matéria como solução de alegria pagando com o preço da sua ausência e distanciamento.
            A manhã chegou toda radiante o sol nascia e então Felipe acordando pode ver a beleza de todo aquele vale. Percebeu que estava disposto e com uma sensação de alegria. A noite foi-se embora e junto com ela a tristeza. Lembrou-se então da primeira frase que ouviu de Emanuel quando o conheceu: “A tristeza pode durar até o anoitecer, mas alegria logo vem no amanhecer”.
            - Nada como um dia após o outro. Disse Emanuel e emendou:
            - Bom dia!
            Felipe com um ar de alegria olhou para Emanuel que parecia mais reluzente que comumente era. Disse:
            - Bom dia! Sinto uma sensação muito grande de alívio nesta manhã. Como que uma esperança se renovando dentro de mim e não sei por que, mas me parece que teremos uma missão que promete hoje.
            Emanuel o olhou com carinho e disse:
            - Hoje conheceremos um amigo. Um filho muito amado por Deus. Hoje você conhecerá como começou concretamente a História da Salvação, ou como gosto de chamar, o Reino de Deus. Disse Emanuel.
            Felipe notara que podia ouvir o barulho dos pássaros e do local, diferente do paraíso que só conseguiu ouvir o chamado de Deus a Adão e os seus passos. Mas preferiu não se lembrar deste momento, pois mexeu muito com suas lembranças e seus traumas.
            - Felipe, quando queremos curar uma ferida é preciso limpá-la, tratá-la e para isso é necessário mexer nela. Não se cura uma ferida aberta se não tiver a coragem de tratá-la. Afirmou Emanuel.
            - Você lendo meus pensamentos de novo! Parece que é mais fácil ignorar e deixar a ferida curar sozinha do que mexer nela. Disse Felipe
            - Ferida mal tratada pode se tornar ferida para sempre. Disse Emanuel
            Felipe observou que se aproximava um homem idoso, porém muito forte e rústico com seu rebanho. Perguntou:
            - Quem é ele?
            - Seu nome é Abrão, por enquanto, Deus o chamara de Abraão que significa mais ou menos em sua língua Pai Excelso, Pai de todos ou líder de todos.
            - Tipo Paizão! Disse Felipe sorrindo.
            - Isso mesmo, gargalhou Emanuel, é a melhor definição que já ouvi. Emanuel disse ainda:
            - Aqui você poderá ouvir algumas conversas, por isso está ouvindo o som do lugar.
            - Desta vez o Pai não tirou o som ambiente, disse Felipe sorrindo mais uma vez.
            Emanuel sentia Felipe um pouco mais leve e percebeu que a experiência da origem, do paraíso lhe fez muito bem.
            Felipe estava falador e disse:
            - Quantos anos este senhor tem?
            - 75 anos. Respondeu Emanuel.
            - Então está no bico do corvo. Disse Felipe ainda rindo.
            - Está na idade da experiência. Quando você é jovem faz diversas coisas para acertar uma. Quando se tem a idade da maturidade e experiência acerta mais vezes agindo menos. A maturidade ensina que com o esforço menor e sabedoria você acaba realizando mais. Disse Emanuel.
            Neste momento Felipe ouve como se fosse um trovão, um barulho forte, mas da onde vinha, o tempo estava limpo. Então percebeu que era do céu e era uma voz que dialogava com aquele homem:
            - Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar. Farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome, e tu serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem, todas as famílias da terra serão benditas em ti.
            Felipe se sente amedrontado e quase que sem levantar a cabeça nota que Abrão estava no chão com o rosto escondido e parecia com muito mais medo que ele. Aquela voz parecia algo diferente, as palavras tinham tanto poder e tanta força que quase Felipe respondeu: “eu estou aqui me envia também”. Felipe sentiu uma segurança enorme ouvindo esta voz. Lembrou-se da voz do pai e da sua presença, pois sempre sentia seguro ao lado do pai. Seu pai era sua segurança e a certeza que tinha que ninguém mais do que ele o amava e lhe queria bem. Sempre viu seu pai como um herói, aquele que com certeza não pensaria duas vezes em dar a própria vida para o proteger. Culpava às vezes seu pai inconscientemente pela morte da sua mãe, porque ele não a protegeu? Porque se era tão forte não pode estar ao lado dela? Quando pensava em sua mãe era a única vez que colocava em dúvida a força de seu pai e consequentemente a admiração que tinha por ele. Certa vez em meio a uma discussão culpou seu pai pela morte da mãe e pela primeira vez em sua vida viu lágrimas rolarem do rosto do seu pai. Naquele dia Felipe descobriu verdadeiramente o que significa arrependimento. Se pudesse enfiaria a cabeça dentro da terra como um avestruz de tanta vergonha e raiva de si mesmo. Seu pai não merecia ouvir aquilo.
            Enquanto pensava estas coisas viu Abraão se afastar e deixar o seu rebanho e partir com o semblante preocupado e feliz. Felipe por sua vez se sentia muito feliz. O sentimento que teve durante esta experiência lhe trouxe na alma como que uma esperança. A sensação era que uma criança estava sendo gerada neste momento do chamado de Abraão e que as dúvidas e os traumas que afloraram em si quando viu Adão se esconder começava a diluir-se como se o sol estivesse nascendo e iluminando todo um novo dia. Também notou que o semblante de Emanuel irradiava a mesma luz que tinha o rosto de Deus no paraíso e que ao contrário daquele semblante preocupado também na hora da negação de Adão, agora havia alegria e muita Paz! Apesar que estes sentimentos sempre permaneciam no olhar e semblante de Emanuel mesmo na hora da tensão.
            - E agora o que será da vida de Abraão? Seus filhos? Sua mulher? Como pode um homem nesta idade abandonar tudo o que tem para seguir uma voz do além? Ir para uma terra que nem conhece? Perguntou Felipe a Emanuel.
            - O chamado de Deus não se vive com certezas humanas e sim com a fé.
            Felipe interrompe e pergunta:
            - O que é Fé?
            Emanuel respondeu:
            - É o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Será ela que de agora em diante fará a glória de Abraão.
            Emanuel continuou:
            - Abraão não tem filhos, aliás, antes de Deus se manifestar a ele, era o seu único sonho. Sua mulher Sara é estéril. A vida para Abrão não tinha mais alegria e sentido, já que pra esta época, ter filho é sinal de benção e as coisas mais importantes para o homem e para a mulher são a terra, um nome e sua posteridade. Que adianta ter tantas riquezas, um nome respeitado e não ter uma posteridade para dar continuidade a tudo isso? E esta posteridade entenda como um filho homem, o primogênito. É o que eles pensavam nesta época.
            - Deus pensa assim? Perguntou Felipe.
            - Não! Deus está acima de todo pensamento e de toda cultura. Os pensamentos de Deus não são os pensamentos dos homens. Portanto quando alguém está em Deus sua decisão e seus pensamentos estão bem mais próximos do que vocês chamam de realização. Porém Deus ama e respeita a liberdade dos seus filhos e por isso age na cultura em sintonia com a forma de agir e pensar do ser humano desde que isto não fira os princípios básicos da dignidade e da verdade.
            - O que fez Abraão responder a este chamado foi então a fé?
            - A princípio não! Disse Emanuel.
            - Como assim, não entendi. Afirmou Felipe.
            - Qual é o sonho maior de Abrão? Perguntou pacientemente Emanuel.
            - Ter um filho! Disse Felipe soltando uma gargalhada.
            Emanuel sentia que Felipe estava cada vez mais livre de seus traumas e que a jornada para o Reino de Deus estava lhe fazendo muito bem.
            - Por que me olha assim? O que esta pensando Emanuel?
            - Olho seu sorriso. Se soubesse o bem que lhe faz e que faz aos outros o seu sorriso não o continha tanto para si.
            Felipe ficou corado, mas mesmo assim tinha vontade enorme de rir. Então teve a coragem de dizer o porquê da gargalhada:
            - Abraão vai morrer sem realizar seu sonho. Disse rindo bem alto.
            - Se refere à idade dele? Disse Emanuel
            - Sim, com setenta e cinco anos....
            - Sei, não precisa falar....
            - Ainda bem que lê pensamentos. Disse Felipe.
            - Felipe... Felipe... Para Deus nada é impossível.
            Então Felipe voltando ao assunto anterior questionou a Emanuel:
            - Então Deus enganou a Abraão quando lhe disse que sua posteridade seria grande, foi uma forma de motivar e convencer?
            - Deus não engana! A fé não é uma motivação e sim uma certeza. Disse Emanuel e prosseguiu:
            - Eu lhe disse que para Deus nada é impossível. Abraão terá um filho. Mas quando ele se refere a esta numerosa posteridade não se referia necessariamente ao filho dele.
            - Então aquele senhor de setenta e cinco anos vai fazer um filho? Disse Felipe rindo.
            - Não! Dois: um com a escrava e outro com sua mulher. Com a escrava fez por desobediência a Deus e por não acreditar na promessa de Deus em sua vida. O resultado foi desastroso iniciou uma guerra sem fim. Mas antes que diga alguma piada quero lhe informar que sua mulher a Sara riu duvidando do poder de Deus e Ele ficou muito bravo com ela. Falou Emanuel rindo como que se desse um cheque mate em Felipe.
            Felipe por sua vez engoliu sua saliva e achou melhor não brincar com a situação, mesmo achando toda esta história por demais estranha. Felipe também lembrou quase que ligeiramente que toda vez que não ouvia os conselhos do pai se dava muito mal.
            Então Felipe pediu a Emanuel que lhe explicasse o que aconteceu verdadeiramente naquela manifestação de Deus na vida de Abraão. O que representava tudo aquilo e por que sentiu um ar de alívio no sim de Abraão em resposta à desobediência de Adão.


Para ler os capítulos anteriores dos livros "Vinde Bendito" e "O jardineiro de Madalena" basta clicar no link abaixo:

Crônicas de Gilberto Begiato (Link)

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