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segunda-feira, 30 de julho de 2012

PARTE II - O Sexo dos Anjos... Entrevista com Anja Arcanja





By Carlos C. Cavalheiro e Anja Arcanja


Continuação...


Quem não leu a 1° parte, segue o link:


http://omundodaanja.blogspot.com.br/2012/07/o-sexo-dos-anjos-entrevista-com-anja.html 



TRÉPLICA

[Carlos Carvalho Cavalheiro] – Entendo que pela ótica calvinista os seus argumentos são procedentes. Queria fazer apenas algumas colocações em relação ao que você afirmou e mostrar uma outra possibilidade de interpretação. Embora em alguns pontos do que eu afirmei possam estar em consonância com a doutrina arminianista, em essência não me norteio por ela. Concordo com o que disse em relação a graça é favor imerecido, ou seja, não a alcançamos por obras “para que ninguém se glorie” (Ef. 2:8 – 9). Mas pense bem: se está sendo distribuída de graça não significa que eu posso denegá-la? Caso contrário, somos máquinas ao bel prazer de um “deus” que determina tudo. E se esse “deus” determina tudo, por que não criou o homem sem a capacidade de pecar? Se o homem pecou é porque teve escolha de pecar. Agora, se Deus criou o homem para lhe dar tanto trabalho assim, a ponto de ter de providenciar a morte de Seu Filho para redimir essa humanidade que tanto pecava, não parece que tenha o atributo da inteligência suprema, não? Desse modo, penso que o que você defende seria um determinismo mecanicista teológico no qual o homem é uma marionete nas mãos de um “deus” pueril. Por outro lado, a doutrina do livre-arbítrio é muito mais coerente do que a da predestinação calvinista. Todos os versículos apontados por sua argumentação levam a um ponto só: a onisciência de Deus. Isso é ponto pacífico. Deus conhece a cada um de nós, o nosso coração (Is. 49:1; At. 13:22). E Deus faz planos a todos. Porém os homens podem seguir ou não os planos de Deus. Veja o que diz 1Sm. 13: 13: “Então disse Samuel a Saul: Procedeste nesciamente, e não guardaste o mandamento que o SENHOR teu Deus te ordenou; porque agora o SENHOR teria confirmado o teu reino sobre Israel para sempre”. Vemos claramente que Deus confirmaria o reinado de Saul sobre Israel se, e este condicional é essencial para o entendimento da passagem, o rei tivesse guardado o mandamento que o Senhor Deus te ordenou. Vemos o livre arbítrio, ou seja, a escolha e suas consequências em diversas passagens. Em Adão, por exemplo, que pecou porque desobedeceu ao preceito único estabelecido por Deus e por isso foi destituído das benesses do Paraíso. Davi, como já foi dito, era homem de coração de acordo com o próprio Deus, pecou e foi repreendido por Natã que proferiu a sentença de Deus: a espada não se apartará da casa de Davi (2Sm. 12:10). Por seus pecados, Davi não pôde construir o templo, o que foi feito por Salomão, homem que ainda no ventre da mãe, Deus o amou (2 Sm. 12:24). Mas mesmo Salomão recebeu a ira de Deus por ter se tornado idólatra e “desviado seu coração do Senhor Deus de Israel” (1 Reis 11:9). Jesus Cristo foi tentado e a tentação significa que Ele tinha escolha. Poderia escolher entre o bem e o mal. E o que dizer do caso de Ananias e Safira, bem como do mago Simão? Todos convertidos, “aceitos”, andando com os apóstolos (será que como apóstolos não sabiam que estes não eram “predestinados”?). Mas todos esses perderam a sua salvação, porque a salvação não é algo que não se possa perder. Veja o que diz Pedro: “guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a firmeza e caiam” (2Pe. 3:17). Diante de todo esse exposto, pergunto: Se o livre arbítrio não existe, como se coadunam todas as passagens aqui expostas que apontam para o contrário? O que diria da afirmação de Agostinho: “Sem o livre arbítrio, não haveria mérito ou demérito, glória nem vitupério, responsabilidade nem irresponsabilidade, virtude nem vício”? Você argumenta, também, que a sodomia era proibida somente no Antigo Testamento, mas os versículos que apontei são todos do Novo Testamento... Como, então, dizer que não são mais válidos? Não seria o mesmo que dizer que o homicídio agora é permitido? E o ponto principal, ou seja, a pergunta inicial: a advertência contra a sodomia no Novo Testamento não é suficiente para afirmar que sodomia sim é pecado ainda hoje?

TRÉPLICA ANJA

Bem Carlos, você tocou num ponto chave, pois muito embora minha resposta esteja baseada na doutrina calvinista (que particularmente eu perceba ter mais embasamento bíblico), também não me norteio por ela e para mostrar que não devemos nos basear por doutrinas feitas por homens e que enaltecem os dogmas e suprimem a vida. Se por um lado a doutrina calvinista nos dá a impressão de sermos marionetes nas mãos de um deus pueril, por outro a doutrina arminiana diz que deus determina (ou predestina) conforme sua presciência, ou seja, deus, de antemão, conhecendo o coração do homem, predestinou, mas a base de tal doutrina, seria as escolhas do homem, ao contrário da calvinista, que diz que deus escolheu e pronto! Nada podemos fazer para mudar os desígnios divinos. Eu pergunto: será mesmo?

A Bíblia não é um livro que se possa ler e ser interpretado de forma literal, e dogmas, sempre devem favorecer a vida, e não a suprimir!

Entende a magnitude disto? Ou temos livre arbítrio, ou de fato, não temos liberdade. E se cabe a resposta de que “se nós temos o livre arbítrio para escolher ou não a Deus, Deus tem o mesmo livre arbítrio para mandar quem Ele quiser para o inferno”. Eu replico perguntando que se, o amor de deus é sobremodo maior que o amor do homem (supostamente ama-me mais que meus pais me amam), jamais se viu um pai ou mãe renegar a seu filho, mesmo que este seja um bandido, ou uma pessoa de má índole (exceto em raríssimas exceções), e deus agiria diferente de nós como pai/mãe? É este o amor de deus?

Quanto a esta sua fala, Carlos: “Mas todos esses perderam a sua salvação, porque a salvação não é algo que não se possa perder”; temos aqui um problema, pois segundo o que dizem ter sido dito pelo próprio Jesus, vemos em João 6:37: “Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”.

Mas sigamos em frente, e para isto, vamos voltar ao inicio, para que possamos seguir e vejamos o termo hebraico e grego para a palavra:

Na verdade na bíblia nem há o termo sodomia e sim sodomita.

Sodomita

Grego: Arsenokoitesum
Que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual

Hebraico: Qadesh
Prostituto de templo masculino

A palavra SODOMIA é encontrada no latim, e refere-se a todo e qualquer tipo de perversão sexual, seja hétero, seja homossexual, e entre eles o sexo anal.

Mas porque eu voltei ao início? Simplesmente para citar o que você, Carlos, diz: “Você argumenta, também, que a sodomia era proibida somente no Antigo Testamento, mas os versículos que apontei são todos do Novo Testamento... Como, então, dizer que não são mais válidos?”

Exato! A lei serviu apenas para mostrar que ninguém capaz de cumpri-la, e quanto aos textos que você cita serem encontrados no Novo Testamento, eu pergunto-lhe: sendo Paulo um fariseu, conhecedor de TODA a lei, não lhe parece que ele possa ter estado preso a tais conceitos ao escrever suas cartas?  Os escritores bíblicos não poderiam escrever presos a tais conceitos da época? Qual seria de fato a vontade de deus? Qual o motivo dele (Deus) ter em Jesus humanizado? Seria para nos ensinar como sermos divinos? Ou para nos mostrar como sermos de fato humanos? 

Se formos sempre fazer uma análise rasa dos textos bíblicos, e interpretá-los no sentido literal, teremos grandes problemas. Desde nossa alimentação, até as nossas vestimentas. E devemos sempre ter em mente que a Lei foi escrita para o povo Judeu. Qual foi a intenção de Deus ao passar estes estatutos e leis aos hebreus? O que significava este código de santidade passado ao povo judaico?

Este conjunto de leis e código de santidade para nada mais serviam a não ser para mostrar a total incapacidade e inabilidade em cumprir tal aliança firmada entre Deus e o povo escolhido, fazendo-se necessário, portanto, a Cruz, o sacrifício vicário de seu Filho Jesus. Estas leis e a aliança firmada com o povo judeu apontavam para Jesus, nada mais.
Paulo não tinha o ministério da incircuncisão? Por acaso ele obrigava os gentios a se circuncidarem? NÃO! 

Vejamos: Romanos 3:29,30
29 - É porventura Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, 30 - Visto que Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a incircuncisão.

Somente no judaísmo pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”.

E como então poderemos hoje querer aderir ao ministério da circuncisão e exigir que passemos a observar certos preceitos que foram entregues somente aos judeus, não sendo exigido aos gentios que observasse uma vírgula sequer desta lei? Entende onde quero chegar quando digo que “ou devemos cumprir toda a lei, ou então, pela graça que nos foi derramada por intermédio do sangue de Cristo, não cumprir nada”? Ou tudo, ou nada! Simples assim!

Façamos agora (e pra finalizar) uma análise dos termos hebraico e grego:
Lemos no original Grego: Arsenokoitesum que literalmente significa: que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual.

Mas no Antigo Testamento (todo escrito em hebraico e aramaico) lemos: Qadesh

Que significa: prostituto de templo masculino. (não interprete como sendo um costume apenas dos gentios, mas sim do povo Judeu, pois era costume entre os judeus, misturar o culto ao deus hebreu com diversas formas de cultos pagãs, o que mostra que a lei se referia apenas ao povo judeu).

Percebe a sensível diferença? PROSTITUTO DE TEMPLO! Pessoas que usavam a prostituição como forma de culto, e, portanto, eram tidas pelo deus hebreu como sendo abomináveis.

Mas não devemos deixar de lembrar que a palavra sodomia que se apresenta no latim apenas, e abre o leque para perversões sexuais, seja entre homossexuais, seja entre heterossexuais, e nada mais foi que um dos muitos erros não somente de tradução, mas de interpretação contidos na bíblia. Muitos mitos são construídos sobre pesados escombros, consequentemente, basta removê-los para que o alto edifício dos velhos e falsos conceitos caia por terra. O significado de sodomia que hoje lemos nos melhores dicionários não passa de produto de um equívoco que dura há séculos e insiste em permanecer de pé.

Finalizando, eu repito que deus humanizou para que fôssemos humanos, demasiadamente humanos e é pela igreja nos impor seus dogmas e religiosidade que descri do deus da igreja. E tenho comigo que, se existe um deus que conspire contra a liberdade humana, eu repudio este deus, ele é meu inimigo, e eu dele.

Muitos hoje me dão o rótulo de ateia, até mesmo eu  faço isto, mas não gosto de rótulos, de caixas e de algemas, sou livre, vivo livre, sendo humana. 

Anja_Arcanja®

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Escritora e poetisa amadora e teóloga. Autora do blog “O mundo Da Anja” (http://omundodaanja.blogspot.com.br/), um blog que conta com diversas parcerias e articulistas, voltado a discutir religião, filosofia, teologia, ateísmo, homossexualidade, sexualidade humana, entre outros temas de relevância; e do blog “Poemas e contos eróticos da Anja” (http://anjaarcanja.wordpress.com/), um blog de cunho erótico. Escreve ainda para os blogs “confraria teológica Logos & Mythos”, "Vida Sofista" e   “Fragmentos Ativos”, além de ter textos publicados em vários blogs e sites.

Carlos Carvalho Cavalheiro - Nasceu em São Paulo em 09 de maio de 1972. Formado em História, Teologia e Pedagogia. Pós-graduado em Gestão Ambiental e em Metodologia do Ensino de História. Professor de História na rede pública municipal de Porto Feliz. Escritor e poeta, escreveu os livros: "A greve de 1917 e as eleições municipais de 1947 em Sorocaba"; "Folclore em Sorocaba", "Salvadora!", "Decobrindo o Folclore", "Scenas da Escravidão", "Histórias que não se contam mais - vol 1", "A História do Preto Pio e a fuga de escravos de Capivari, Porto Feliz e Sorocaba", "Histórias que não se contam mais - vol. 2", "O Peregrino do Caminho do Sol", "Moda da História de Sorocaba", "Vadios e Imorais", "O Mistério Revelado", "Memória Operária", "Folia de Reis em Sorocaba".
Foi co-diretor, juntamente com Adilene Cavalheiro, do documentário "Cantos da Terra".
Produziu os cds "Cantadores - o folclore de Sorocaba de Sorocaba e região" e "Passarela da Saudade" (Diolindo e Almeida).

22 comentários:

Ricardo F. Vaz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ricardo F. Vaz disse...

Gostaria de dividir o comentário em 3 pontos, sendo que os dois últimos se misturam: predestinação x livre-arbítrio e leitura literal x interpretação da bíblia / antigo x novo testamento.

Predestinação x livre-arbítrio:

Na minha visão, tanto o livre-arbítrio quanto a idéia da predestinação calvinista podem ser desprezados por completo. A ótica da predestinação, penso que nem vale à pena comentar, pois ela apenas nos coloca em um teatro de marionetes, onde todos os nossos passos já estão determinados, o que anula o sentido da própria existência e desconstrói a idéia de bem e mal, afinal se tudo já está determinado por deus, não podemos mudar nada, então o mal não é errado e não é passível de punição, a não ser que este deus puna alguém pelos erros dele próprio.
A mentira do livre-arbítrio: quando se fala em punição, a idéia de liberdade imediatamente desmorona. Para haver liberdade, teríamos que falar em conseqüência, não em punição. Exemplificando: existe uma lei social que nos proíbe de matar outra pessoa, mas se você quiser matar assim mesmo, vai conseguir, o que não quer dizer que você tenha liberdade nem direito para fazer isso, pois se fizer sofrerá uma punição (ao menos em uma sociedade séria), então não é um livre-arbítrio. Em contrapartida, você pode abrir sua geladeira, pegar um produto qualquer e observar que o prazo de validade está vencido. Aí você pode optar se o consome assim mesmo ou joga fora. Se escolher consumi-lo, pode ficar doente ou pode ser que nada aconteça. Neste caso estamos falando em conseqüência direta, ninguém vai te trancar na cadeia porque você consumiu algum produto que estivesse fora do prazo de validade. Isso podemos chamar de livre-arbítrio. Então dizer que uma pessoa tem o livre-arbítrio de ser boa ou má é uma grande mentira, pois a mitologia cristã afirma que as pessoas que forem más ou simplesmente descumprirem os preceitos cristãos serão punidos após a morte e os que forem bons, serão recompensados. Isso me lembra outro “bom velhinho”, que diz que se você se comportar e passar de ano, ele vai te dar um presentinho no natal... Este é também um bom exemplo que derruba a idéia mentirosa do livre-arbítrio, visto que coloca uma condição e, tudo que é condicionado não é livre.

Ricardo F. Vaz disse...

Leitura literal x interpretação bíblica / antigo x novo testamento:

Inicio a argumentação com a frase da Anja: “A Bíblia não é um livro que se possa ler e ser interpretado de forma literal, e dogmas, sempre devem favorecer a vida, e não a suprimir!”. Dizer que a bíblia deve ser interpretada e não lida rigorosamente ao pé da letra, contraria o que a própria bíblia diz. Vamos às palavras do próprio Jesus Cristo:
Mateus 5:17-18 “A nova lei é o cumprimento da antiga – Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas; não os vim destruir, mas sim para cumprir. Porque em verdade vos digo; antes passarão o céu e a terra, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.” A mim fica claro que a leitura deve ser literal e seguida à risca. Além disso, seguindo a mitologia cristã, se a bíblia foi escrita pelo próprio deus criador, as suas colocações seriam claras e objetivas, afinal o cara é deus, se ele impõe regras, ele profere, não sugere. Me incomoda quando alguém lê algum trecho da bíblia e fala “deus quis dizer...”. Caramba! Falar em interpretação é o mesmo que dizer que este deus não sabe se expressar e, isso seria indiferente ao contexto de época. Mesmo a bíblia sendo um livro contraditório do começo ao fim, não vi nenhum versículo dizendo para que os cristãos a leiam da forma que quiserem e depois saiam por aí dizendo que foi deus quem falou... Pela minha visão, se querem continuar considerando que a bíblia foi escrita por deus, o que está escrito deve ser seguido à risca ou então, devem colocar esta idéia de lado, assumir que ela foi escrita por homens e aí sim poder contextualizar por época, interpretação e tudo mais.
Comumente vejo os cristãos afirmando que o antigo testamento não tem mais valor. Este mesmo versículo que citei bate de frente com tal declaração. Pelo que entendo, a lei era a Torá judaica, ou os 5 primeiros livros do antigo testamento (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio).
Voltando ao início da entrevista, sobre o coito anal, faço um comparativo entre o antigo e o novo testamento:
Levítico 20:13 “Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles.”
Este trecho aborda exclusivamente a relação homossexual no antigo testamento. O novo testamento é semelhante, mas cita as mulheres que praticam o sexo anal e também aqueles que não praticam, mas consentem.
Romanos 1:26-27 “Por isso Deus entregou-os a paixões de desonra. Efetivamente, as suas próprias mulheres mudaram o uso natural em outro uso, que é contra a natureza, e, do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam nos seus desejos mutuamente, cometendo homens com homens a torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que era devida ao seu desregramento.”
Romanos 1:32 “Os quais, tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem tais coisas são dignos de morte; e não somente quem as faz, mas também quem aprova aqueles que as fazem.”
Olha só o “bondoso” deus cristão pregando a intolerância e condenando pessoas à morte pelo comportamento sexual no novo testamento, exatamente como no antigo. A minha conclusão é que o novo testamento não anula o antigo, é apenas uma seqüência e o estudo da bíblia vem se tornando perda de tempo. Um ser com uma inteligência tão superior capaz de criar o universo inteiro com toda a sua magnitude não é compatível com pensamentos tão mundanos como a obsessão pelos respectivos pênis e ânus dos frutos da sua criação.

Anja_Arcanja disse...

Ricardo, grata por seu comentário, pois traz-me a oportunidade de esclarecer pontos que possam ter fiado obscuros.

Sobre o que vc cita a respeito do livre arbítrio, eu concordo em gênero número e grau, pois se de fatos temos livre arbítrio, como usufruir dele sem que recaia em desgraça e sofra punição do deus hebreu? Que deus é este que supostamente dá-me o livre arbítrio, e ao mesmo tempo, impõe regras, e exige que eu seja um abstêmio para que possa estar em comunhão com ele?
Por isto disse no 3° parágrafo ou temos livre arbítrio ou não temos liberdade e somos todos marionetes (no caso de calvinistas) nas mãos de um deus que de antemão tudo escreveu e determinou (inclusive todos os ardentes desejos de meu coração), ou abstêmios (renunciando a todos os ardentes desejos de meu coração) trabalhando para termos uma salvação se nem sabemos se virá ou se existe (no caso de arminianos) , Isto pra citar apenas duas das doutrinas existentes. Se devo abster-me de meus desejos para estar em comunhão com um deus que supostamente me dá a liberdade de realiza-los, não posso sofrer nenhuma punição, caso os realize. E se deus tudo determinou de antemão, devo pressupor que de nada preciso abster-me, já que o próprio deus foi o responsável direto por tal desejo.

Agora como você muito bem citou, devo ser responsável apenas pelas consequências de minhas escolhas, isto sim, é livre arbítrio, sem que nestas consequências estejam inseridas: ameaças de inferno e castigos temporais.

Jaja respondo a seu 2° comentário ok?

Anja_Arcanja disse...

Ricardo, seu 2° comentário foi de suma importância, pois de fato a bíblia foi escrita por homens e não por deus, como é comumente falado, e por isto eu disse que não se pode fazer uma leitura literal, e sim histórico-critica. VEJA UM A PARTE DO DA ENTREVISTA O QUE EU DIGO: […]sendo Paulo um fariseu, conhecedor de TODA a lei, não lhe parece que ele possa ter estado preso a tais conceitos ao escrever suas cartas? Os escritores bíblicos não poderiam escrever presos a tais conceitos da época? […]

Se formos sempre fazer uma análise rasa dos textos bíblicos, e interpretá-los no sentido literal, teremos grandes problemas. Desde nossa alimentação, até as nossas vestimentas. E devemos sempre ter em mente que a Lei foi escrita para o povo Judeu. […]


E em momento algum eu digo que se deve desprezar o antigo testamento, mas sim fazer uma análise histórico-crítica, não somente do antigo, mas também do novo.

Quando vc cita Levítico e Romanos vc toca num ponto onde há uma estrondosa má interpretação e por consequência um grave erro de tradução.

Em parte de Levítico 20:13, lê-se o seguinte: "E quando um homem se deita com um macho assim como alguém se deita com uma mulher (...)". Se o escritor pretendesse dizer que a homossexualidade era de fato abominação, ele provavelmente preferiria utilizar a palavra hebraica 'iysh, que significa "homem", ou mais precisamente, "pessoa do sexo masculino". Ao invés, o autor utiliza uma palavra hebraica muito mais complicada, zakar, que traduzida literalmente significa "uma pessoa digna de reconhecimento". Esta palavra era usada para designar os altos sacerdotes das religiões idólatras ao redor de Israel. As pessoas acreditavam que, se prestassem favores sexuais ao alto sacerdote (um ritual de fertilidade), era-lhes garantida a abundância de filhos e de colheitas. Então, se virmos o texto de Levítico 18:22 atendendo ao seu próprio contexto, teremos também que levar em conta o versículo 21, que lhe antecede: "E não deves permitir que alguém da tua descendência seja devotado a Moloque". O que temos aqui, na verdade, são avisos feitos aos israelitas para que eles não se envolvessem nos rituais de fertilidade dos adoradores de Moloque, que frequentemente requeriam a prestação de favores sexuais ao sacerdote, ou seja, prostitutos de templo. Se esta fosse uma mera condenação dos homossexuais, o escritor teria empregue uma linguagem mais clara.

Já no novo testamento, que foi todo esc rito em Grego, vemos que a língua grega, tal como a hebraica, é muito mais descritiva do que a portuguesa. Por exemplo, enquanto nós temos a palavra "amor", no grego existem as palavras ágape, storge, philia e eros, e cada uma descreve uma forma diferente de amor. Todos sabemos de palavras que mudam de sentido conforme a época e as circunstâncias, por isso, é fácil compreender porque é que certas palavras no antigo grego podem ser mal interpretadas, tais como os termos "homens que se deitam com homens", "efeminado", "homossexual" e "depravado", que muitos vêm nas passagens bíblicas acima mencionadas. As duas palavras em grego usadas nas passagens acima que são comumente mal traduzidas dessa forma são arsenokoites ou arsenokoitesum e malakos ou malakoi . Os estudiosos acadêmicos da bíblia veem hoje em dia que arsenokoites significa "prostituto masculino do templo", tal como referido nas Escrituras Hebraicas em Deuteronômio 23:17-18. O verdadeiro significado desta palavra, porém, acabou por se perder ao longo da História, por ser um termo em calão que, traduzido à letra, poderia significar "cama levantada" ou "homem de cama".


Querido, grata por seus comentários…

Bjux…….
Anja

Ricardo F. Vaz disse...

Anja, sua explicação ao meu comentário foi muito interessante. Apenas quero frisar dois pontos que considero importantes. O primeiro é que a idéia de descartar o velho testamento é colocada por parte dos seguidores do cristianismo, eu não disse que é uma afirmação sua, da mesma forma que sei que o pensamento de que a bíblia foi escrita por um deus também não é compartilhado por você, mas é o aceito pelos cristãos. E a leitura ser seguida ao pé da letra, é o que está colocado no próprio livro, como exemplo, os versículos que citei em Mateus 5:17-18.
O segundo ponto que quero colocar é que, pode haver um erro de interpretação do original e conseqüentemente uma série de traduções equivocadas para as versões posteriores até chegar nas bíblias atuais que estão disponíveis nas livrarias e que, suponho que sejam avalizadas pelos representantes da igreja católica antes de serem comercializadas. Então, não é um erro de interpretação do texto final, o problema está nas sucessivas edições e suas respectivas distorções.

Beijos, Anja.
Ricardo.

Eduardo Medeiros disse...

Está muito bom o debate aqui. Ricardo, gostaria de fazer algumas pontuações.

Hoje em dia, nem mesmo os cristãos ortodoxos creem que Deus "ESCREVEU' a Bíblia, e sim, que ele inspirou os seus escritores. Logo, quem de fato escreveu, foram os homens, por isso ela é passível de interpretação e de temporalização.

Anja, não existe livre-arbítrio absoluto. Você apenas acha que é livre, mas suas ações são em muito, determinada por suas experiências e pelo seu inconsciente. (assim como todo mundo).

Ser livre, creio, não é ser capaz de fazer tudo o que se quer, e sim, o poder de não fazer aquilo que pode fazer.

Se alguém não consegue ficar uma semana longe do álcool, ela não é livre. Se não consegue ficar uma semana sem ver o jornal nacional, também não é livre.

Ser livre é antes de tudo, o poder de decidir não fazer.

A própria convivência em sociedade nos impõe freios à liberdade.

Diante disso, não creio ser absurdo Deus ter criado o homem com livre-arbítrio mas também ter criado "instruções" (significado de "Torá") para a própria vida.

Ora, nós temos que cumprir uma série de regras sociais(instruções) para que possamos viver bem com o próximo mas nunca vi ninguém protestar que cruzou um sinal vermelho por que é livre e o sinal lhe tole a liberdade.

Bem, fiz aqui o papel de advogado de Deus só para contrapor, mas você conhece um pouco do meu modo de pensar sobre a religião bíblica.

Anja_Arcanja disse...

Ricardo, penso eu que Jesus falava exatamente isto: EU VIM CUMPRIR A LEI PORQUE VOCES NÃO A PODEM CUMPRI-LA.

Isto eu fazendo uma interpretação do evangelho de Mateus 5:17 e 18.

Ricardo, sobre os erros de interpretação e tradução, é óbvio que existe uma conivência da ICAR,e vejamos o que Jerônimo diz a respeito da tradução que fora obrigado a fazer, e também o que o Papa diz:


Sobre Jeronimo o papa diz "Dele disse o Papa Bento XVI: A preparação literária e a ampla erudição permitiram que Jerónimo fizesse a revisão e a tradução de muitos textos bíblicos: um precioso trabalho para a Igreja latina e para a cultura ocidental. Com base nos textos originais em grego e em hebraico e graças ao confronto com versões anteriores, ele realizou a revisão dos quatro Evangelhos em língua latina, depois o Saltério e grande parte do Antigo Testamento. Tendo em conta o original hebraico e grego, a Septuaginta, a versão grega clássica do Antigo Testamento que remontava ao tempo pré-cristão, e as precedentes versões latinas, Jerónimo, com a ajuda de outros colaboradores, pôde oferecer uma tradução melhor: ela constitui a chamada "Vulgata", o texto oficial da Igreja latina, que foi reconhecido como tal pelo Concílio de Trento e que, depois da recente revisão, permanece o texto oficial da Igreja de língua latina."
Jerononimo sobre a sua tradução disse assim. ""Obrigas-me fazer de uma Obra antiga uma nova… da parte de quem deve por todos ser julgado, julgar ele mesmo os outros, querer mudar a língua de um velho e conduzir à infância o mundo já envelhecido. Qual, de fato, o douto e mesmo o indouto que, desde que tiver nas mãos um exemplar, depois de o haver percorrido apenas uma vez, vendo que se acha em desacordo com o que está habituado a ler, não se ponha imediatamente a clamar que eu sou um sacrílego, um falsário, porque terei tido a audácia de acrescentar, substituir, corrigir alguma coisa nos antigos livros? (Meclamitans esse sacrilegum qui audeam aliquid in verteribus libris addere, mutare, corrigere). Um duplo motivo me consola desta acusação. O primeiro é que vós, que sois o soberano pontífice, me ordenais que o faça; o segundo é que a verdade não poderia existir em coisas que divergem, mesmo quando tivessem elas por si a aprovação dos maus". (Obras de São Jerônimo, edição dos Beneditinos, 1693, t. It. Col. 1425)."


Penso que aqui eu elucido a questão, mostrando que pode (e há) haver embustes da ICAR e uma conivência exacerbada aos eeros cometidos pelos primeiros tradutores.

Anja_Arcanja disse...

Edu, seu advogado do diabo, opsss de Deus rsrs Fiquei feliz demais com seu comentário e fala pro Doni vir aqui tb senão eu como anja, darei a ele uma punição exemplar. rsrs

Sobre seu comentário, eu concordo em partes, pois de fato, eu sou presa (vc sabe a que né? rsrs pois não consigo abster-me por mais de 2 dias, o que pra mim, é as vezes muito desgastante), e eu não tenho o poder de decidir não fazer, preciso fazer e pronto! FAÇO.

Mas quanto as instruções, discordo, pois não são instruções e sim ordens, pois quem não cumprir tais ordens, estará condenado, por isto o sacrifício vicário de Cristo fez-se necessário e imprescindível, pois que haveria de cumprir tais instruções?(mas vc sabe bem como penso a respeito disto, e digo-lhe que estou escrevendo para pessoas que podem ter ou não o mesmo problema que eu e sentem-se presas pelos dogmas religiosos viu?)

Bjux Edu, posso já postar a 2° parte da entrevista na confraria?

Anja_Arcanja disse...

errata: onde se lê que haveria de cumprir... leia-se quem haveria de cumprir...

Ricardo F. Vaz disse...

Sobre o comentário do Eduardo, dizer que a bíblia foi inspirada por Deus, me parece ter o mesmo sentido que dizer que ele a ditou. Se o sujeito é Deus e dá apenas uma vaga idéia para que alguns homens escrevam um livro como eles quiserem e o coloquem como lei (ou instrução), ou esse Deus foi extremamente falho ou então o livro não tem qualquer valor além de literatura. Além disso, há várias passagens na Bíblia em que se conversa com o tal Deus, se pede orientações e este Deus responde em primeira pessoa. O novo testamento foi publicado em um contexto político, seus textos foram selecionados por pessoas com seus respectivos interesses, então a inspiração aí está furada... Talvez a Igreja Católica não afirme diretamente que a Bíblia foi ditada por Deus, mas também não assumiram que não foi. Eu falo do cristianismo de modo geral, então entram católicos, evangélicos, protestantes... Principalmente na parte evangélica, observo que eles acreditam sim que a bíblia foi ditada por Deus e que Jesus era este mesmo Deus. Essa é minha observação pessoal sobre a visão popular dos religiosos. Acredito que não exista nenhuma estatística que comprove ou refute esta afirmação, mas seria muito interessante se houvesse tal estudo. Quanto ao livre-arbítrio, se o tal Deus deixou instruções no caráter de orientação tudo bem, são causas e conseqüências dentro do mundo material, mas não poderia haver punição posterior. A partir do ponto que há punição, a instrução passa a ser obrigação, uma lei, e a liberdade deixa de existir. A grosso modo, na religião cristã, a proposta que vejo é justamente essa: quem cumpre a lei é salvo e vai para o paraíso e quem descumpre é castigado com sofrimento eterno.

Ricardo F. Vaz disse...

Respondendo à interpretação da Anja sobre a passagem de Mateus 5:17-18, particularmente não concordo. Seguindo a linha cristã mais fiel e considerando que Jesus era o próprio Deus (persistindo no monoteísmo), não vejo sentido em ele precisar dizer que vem cumprir uma lei ditada por ele próprio. Pela minha lógica, ele teria obrigação de cumpri-la e orientar para que as outras pessoas também a pudessem cumprir. E se ele já soubesse que as pessoas não seriam capazes de cumpri-la, então para que a lei? Será que um ser com uma inteligência tão superior não foi capaz de ver que isso não daria certo? Essa idéia é muito parecida com a da crucificação, onde Deus envia a si mesmo à Terra no papel de seu filho (?!?!?), sacrifica-se para ele próprio para salvar a humanidade da ira dele mesmo, fica morto por 3 dias e ressuscita para ser o bam-bam-bam do paraíso por toda a eternidade. Aos meus olhos, parece ser um ótimo negócio, além disso, a humanidade vai pagando esta fatura através das gerações... E só pelo fato de ele não ter continuado morto, não posso considerar que tenha sido um sacrifício verdadeiro, ao menos não foi honesto. Faço essa colocação para dizer que o embuste está na própria bíblia (este é apenas um), está na raiz da religião, que foi e ainda é utilizada de forma política, um meio desonesto de controle. A ICAR apenas utiliza outros embustes para respaldar a crença, que já anda bem desqualificada...

Eduardo Medeiros disse...

Ricardo, algumas observações:

A crença que Deus inspirou a bíblia é exatamente isso - uma crença. Só tem valor para quem crer, logo, não é muito produtivo ficar discutindo uma crença. Porém, teologicamente falando, o que você disse não é correto:

"Sobre o comentário do Eduardo, dizer que a bíblia foi inspirada por Deus, me parece ter o mesmo sentido que dizer que ele a ditou.

Existe uma amplidão separando a inspiração que alguém possa ter a partir de um outro alguém(no caso, Deus) e esse alguém ditar-lhe palavra por palavra o que deve escrever.

Isso parece-me bem óbvio, e é assim que a teologia cristã entende essa crença. Deus inspira mas não dita. As palavras não são de Deus, são dos homens.

Muitas vezes se critica a bíblia sem conhecer as particularidades da literatura bíblica.

Do ponto de vista literário, quando o profeta diz "Assim diz Javé", está dizendo que a palavra dele - profeta - tem a autoridade dada por Javé.

Sim, muitas vezes é dito que Deus disse, mas literariamente, volto a enfatizar, temos que ler isso como algo simbólico, literário, figura de linguagem.

Você disse que

"...ou esse Deus foi extremamente falho ou então o livro não tem qualquer valor além de literatura. Além disso, há várias passagens na Bíblia em que se conversa com o tal Deus, se pede orientações e este Deus responde em primeira pessoa...

Pois te digo que o Livro tem um grande valor como literatura - e muitos acadêmicos estão hoje redescobrindo a bíblia como literatura - e tem valor religioso para quem crê literalmente que Deus falou. Uma coisa não anula a outra, o que muda são os significados que cada um desses campos dará ao texto.

O drama humano relatado na Bíblia foi interpretado pelos profetas como resultante da falha do povo escolhido em caminhar na instrução que Deus lhe havia proposto.

Sim, foi uma proposta. No livro de Josué, registra-se que Javé teria dito: "proponho hoje diante de vocês vida e morte, escolha pois, a vida"

Sobre sua observação:

"...Principalmente na parte evangélica, observo que eles acreditam sim que a bíblia foi ditada por Deus e que Jesus era este mesmo Deus. Essa é minha observação pessoal sobre a visão popular dos religiosos."

Sobre o ditado da bíblia já falei. E é verdade que eles creem que Jesus era Deus, mas não que Jesus era o Pai.

Confuso? Claro, ué, isso é teologia e teologia é por definição, confusa para nossos olhos racionais...rsss

Vale também dizer que o dogma da divindade de Cristo só foi estabelecida bem depois de Jesus, depois de Constantino.

Jesus mesmo nunca disse de si mesmo ser Deus. Nos evangelhos sinopticos - os três primeiros - ele é sempre mostrado como messias, como Filho do Homem ou como filho de Deus(que não quer dizer que ele era DEus na mentalidade judaica do primeiro século).

No evangelho de João, o mais "teológico" dos canônicos, o autor a partir da filosofia grega do Logos, interpreta o Cristo como sendo o Logos divino, a Palavra encarnada de Deus. E nesse sentido, a palavra de Deus, é Deus.

A palavra do Eduardo, é o Eduardo. O sentido filosófico-espiritual é esse.

(continua)

Eduardo Medeiros disse...

separei o comentário em dois para ele não ficar muito longo e cansativo, ok, Ricardo?

Sobre ainda sua frase

A partir do ponto que há punição, a instrução passa a ser obrigação, uma lei, e a liberdade deixa de existir.

Bem, aqui sou obrigado a concordar em parte com você.

A "punição" em maior ou menor grau, faz parte da psicologia da educação. Apesar de hoje em dia existir um entendimento(para mim errado) que dar uma palmada num filho é uma agressão (desde, é claro, que seja de fato uma palmada e não um soco raivoso de um pai descontrolado e furioso).

Quantas vezes não usamos a compensação com nossos filhos?

"Se você tirar boas notas te dou aquele game que você tanto quer" ou, de forma negativa,

"Se você não tirar boas notas eu vou restringir o tempo que você passa com seu game".

Nada de anormal nisso.

Todos nós vivemos uma liberdade relativa em sociedade. Se todos fossemos livres para fazermos o que desse na telha, a vida em sociedade seria impossível.
Estão aí as leis e normas sociais para nos lembrar que as "instruções" não acatadas por se tornar em punições.

A ideia do Deus bíblico é exatamente essa - e não é estranha que fosse, pois os judeus (e outros povos antigos) compreendiam Javé (ou seu deus) como Pai. E pai, numa sociedade patriarcal, tinha a sua imagem ligada à autoridade e afetividade ao mesmo tempo.

Freud trabalhou muito bem esses conceitos.

Então, amigo, tudo depende de como você lê a história bíblica. Há um modo "infantil" de lê-la (que é o modo da maioria dos cristãos) e um modo mais "adulto" (que é o modo dos especialistas literários, os teólogos históricos, etc).

É inútil alguém do segundo grupo, menosprezar e procurar furos e contradições(e os achará aos montes) na leitura popular da Bíblia, pois a leitura "espiritual", "religiosa", é exatamente aquele que vê em Deus, um Pai, com seu misto de autoridade e afetividade.

Os antigos hebreus nunca chegaram a construir uma ideia de um "inferno" como fizeram depois, os cristãos. A ideia de um castigo eterno, de um lugar de habitação consciente dos mortos, chegou na cultura judaica pela via grega. O inferno cristão nada mais é do que filho do Hades grego.

Por certo, um mito, que muitos têm por literal. Mas aí voltamos àqueles dois tipos de leitura da Bíblia.

Para finalizar, quero lhe dizer que faço parte do segundo grupo de leitores da bíblia.

um abraço. e aparece lá nos comentários da Logos e Myhtos que observei que você está seguindo. Você será muito bem vindo por lá.

Anja_Arcanja disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anja_Arcanja disse...

Ricardo, estamos nos entendendo bem viu? Então embarquemos numa viagem ao mundo das falta de lógica

Exemplo 1°:

Deus decide criar o universo e, para poder mostrar ao homem seu poder e majestade, dita leis impossível de cumprir, para que seja necessário ele mesmo vir cumprir esta lei e sacrificar-se em prol da humanidade que "ele mesmo" criara para cair; vide Salmo 139:16. Por isto muitos dizem que houve primeiro a cruz para depois a luz, ou seja, deus premeditou (e ditou) tudinho, estamos num jogo de cartas marcadas.

2° exemplo:

Deus cria o homem dotado de inteligência e com o livre arbítrio para escolher entre o bem e o mal (mas deus em sua onisciência, já previu de antemão que o homem cairia em pecado, fazendo-se necessário ele vir em forma humana na pessoa de seu filho, sacrificar-se pela humanidade)
Ilógico? Sim! E muito! Eu ainda irei além, é improvável!

São tantos mitos que o deus hebreu plagiou (ou os hebreus inseriram em suas crenças) que quem usa a razão para entender a lógica de deus, o desqualifica por completo, e vê no deus hebreu, no deus da igreja e nos outros deuses, meras criações do psique humano em busca de explicar metaforicamente de onde viemos e para onde vamos!

Ps.: não vou entrar no debate seu e do Edu viu? rsrs

Ricardo F. Vaz disse...

Para facilitar, também vou seccionar meu comentário...

Voltando ao tema da suposta inspiração, como eu disse anteriormente, para o livro ter valor como “sagrado”, dizer que foi inspirado ou ditado precisaria ter o mesmo peso, e não o sentido usual da palavra da forma que está no dicionário, que neste caso é completamente diferente. Em modo comparativo, digo que a Constituição não “inspira” os legisladores, eles são obrigados a segui-la à risca, os códigos civil, penal, trabalhista, etc., não “inspiram” o judiciário e, as ciências médicas não “inspiram” os médicos no exercício da sua profissão. Estamos falando de normas, regras, preceitos, exatamente como a Bíblia é apresentada.

Quando falo dos religiosos, falo daqueles que são seguidores da religião, não dos que meramente acreditam em um deus de forma mais abstrata. Não sei qual é a fonte da argumentação de que a Bíblia é apenas uma inspiração divina visto que não encontrei qualquer estatística sobre o tema e, por observação própria, todas as frentes cristãs que conheço apresentam a Bíblia como livro sagrado, detentor de toda a moral e sabedoria existentes, sendo palavra legítima de Deus e, como lei, é perfeita. Ainda estou para ver alguma linha ideológica cristã apresentar a Bíblia como mera literatura inserida apenas no contexto histórico, sem influência de uma divindade além da inspiração dos homens. Enquanto não for apresentado um estudo estatístico sério e imparcial sobre as palavras escritas na Bíblia serem de Deus ou dos homens, é opinião contra opinião, então sigo com a minha.

Respondendo diretamente às palavras do Eduardo: “Existe uma amplidão separando a inspiração que alguém possa ter a partir de um outro alguém(no caso, Deus) e esse alguém ditar-lhe palavra por palavra o que deve escrever.” Seguindo este pensamento, eu posso inventar um deus agora, escrever sobre ele e publicar dizendo que meu pensamento foi uma inspiração. Não deixaria de ser correto, mas para dar este mesmo sentido à Bíblia, a mesma deixa de ter qualquer valor além de literatura.

Sabemos que historicamente não foi assim, este “algo simbólico”, como você insiste em dizer, fizeram com que a bíblia fosse utilizada como ferramenta de governo na época em que a igreja católica tinha esse poder, quando civilizações inteiras foram dizimadas, pessoas escravizadas, torturadas, estupradas, apedrejadas, esfoladas e até mesmo queimadas vivas promovendo um espetáculo público de terror e sadismo, sendo tudo isso com respaldo do tal livrinho mágico imposto como palavra de Deus, provavelmente no pior exemplo de sociedade que já existiu em todos os tempos e que, faria com que as mais severas teocracias islâmicas atuais fossem uma espécie de “Disney World” quando comparadas ao cristianismo da famigerada Idade das Trevas. Certamente eu me sentiria muito mais seguro no Irã atual ou na Alemanha nazista do que nos países sob o domínio da igreja católica na época da inquisição.

E quanto a dizer que muitos acadêmicos estão dando à Bíblia grande valor literário, eu pergunto, quais acadêmicos? Seriam eles os teólogos? Certamente no meio científico não é. Nas outras áreas acadêmicas não vejo qualquer menção bíblica, inclusive reparo que conforme o tempo passa há mais desprezo pelo livro, exceto da parte de alguns historiadores cujo trabalho costuma ser bem controvertido.

Ricardo F. Vaz disse...

Sobre a Bíblia como literatura, utilizo a análise de Penn Jillette para esta conclusão: “Certamente não é boa literatura. Se fosse publicada como ficção, nenhum crítico daria a ela uma nota decente. Tem algumas cenas vívidas e algumas frases boas, mas não tem enredo nem estrutura, e os personagens são terrivelmente unidimensionais.”

Se a teologia é confusa para olhos racionais, então o problema está nela própria e não na racionalidade, que considero uma virtude. Se um teólogo precisar de fé para compreender a teologia, não o considero um profissional.

Quanto à questão de Jesus ser Deus encarnado, filho dele ou qualquer outra coisa, depende da linha do cristianismo que analisarmos, há as duas opiniões e, considero que estamos tratando de monoteísmo, como a própria religião se apresenta.

Comentando brevemente sobre o torpe livre-arbítrio. Independente do grau, quando há punição, não há liberdade, então não vamos confundir com conseqüências naturais. Utilizar educação de filhos como exemplo, só fortalece meus argumentos, visto que a educação de crianças é restritiva e elas não são livres para fazer o que quiserem. Não tenho filhos, mas se tivesse, eles certamente não teriam livre-arbítrio para escolher se iriam querer ir à escola ou jogar vídeo-game o dia todo, também não seriam livres para escolher se iriam querer almoçar e jantar no McDonald’s todos os dias ou ter uma alimentação saudável, nem teriam o livre-arbítrio de dirigir o carro dos pais com 12 anos de idade, por exemplo...

Nas duas frases que você usou para exemplificar, eu não chamaria de compensação e sim restrição (termo que você próprio utilizou em uma delas). Restrição não é compatível com liberdade, esta é apenas a forma de punição obviamente mais normal e apropriada que a violência ou o assassinato por apedrejamento como prega a Bíblia. Claro que não há nada de anormal em restringir a liberdade das crianças, muito pelo contrário, porém, isto não é livre-arbítrio, é imposição.

“Então, amigo, tudo depende de como você lê a história bíblica. Há um modo "infantil" de lê-la (que é o modo da maioria dos cristãos) e um modo mais "adulto" (que é o modo dos especialistas literários, os teólogos históricos, etc).”
Esta dualidade que você coloca sobre a leitura bíblica, eu considero superficial e equivocada. Sequer pondero como leitura a forma como muitos dos cristãos a fazem, apenas lendo alguns versículos bonitinhos que os padres ou pastores recomendam e mais nada. Há um grupo de leitores que de forma tendenciosa observam as atrocidades escritas e imediatamente as tentam colocar em um contexto ou procurar problemas de tradução para fugir do problema, já a parte bonitinha, não precisa ser contextualizada... Há também um grupo de pessoas que analisa os textos bíblicos de forma crítica e isenta, que busca evidências nas assertivas e é capaz de ver que o que está escrito de maléfico, é mesmo ruim, sem desculpas esfarrapadas, interpretações enigmáticas ou traduções rotas, que buscam a verdade por mais desconfortável que possa ser.

Ricardo F. Vaz disse...

“É inútil alguém do segundo grupo, menosprezar e procurar furos e contradições (e os achará aos montes) na leitura popular da Bíblia, pois a leitura "espiritual", "religiosa", é exatamente aquele que vê em Deus, um Pai, com seu misto de autoridade e afetividade.”
Esta mesma argumentação também pode ser usada no sentido oposto. Eu diria que é inútil apelar para contextualização e tradução de um livro que, apesar de conter termos pouco usuais, trata-se de literatura simples, direta e de fácil compreensão. Percebemos contradições quando fazemos comparações entre os livros do velho testamento e entre os evangelhos do novo, mas os livros e evangelhos isoladamente não são contraditórios, então, não se pode dizer que o conteúdo está fora de contexto, pois para isso, o próprio texto mais adiante deveria contradizer o trecho tido como descontextualizado. Da mesma forma que, procurar uma palavra no grego ou hebraico para justificar que a mesma pode ter sido mal traduzida e assim desviar o foco da argumentação para afirmar que o livro está certo e que o leitor está errado é leviano. Dizer que o livro inteiro vem sendo traduzido de forma errada em todos os idiomas há séculos ao nível de ter sua acepção completamente contrária ao significado original, chega a ser patético.

Embora o livro possa ser considerado medíocre sob o ponto de vista literário, ele tem seu sentido e mantém a coerência, mostrando um deus totalmente humanizado, tirano, ciumento, vingativo, preconceituoso, assassino, malevolente, entre outros adjetivos que tornam impossível qualquer aproximação com uma idéia de amor e bondade como se tenta empurrar na religião. Infelizmente o tal livrinho mágico é apenas uma ferramenta eficiente para segregação e ódio.

Finalizo assegurando que as todas as divergências nas idéias apresentadas nos comentários são exclusivamente de ordem filosófica, sem qualquer referência pessoal.

Abraços.
Ricardo.

Ricardo F. Vaz disse...

Em resposta à Anja:

Lógica e religião realmente não combinam. Penso que a fé só é possível na ausência completa da lógica.

O conceito de um deus com inteligência superior não supera meus crivos logo nos primeiros capítulos do livro de Gênesis. Se este deus cria o universo com toda sua magnitude para colocar em um planeta milhões de espécies vivas sendo que, uma dessas espécies é dotada de inteligência, privilegiada a ponto de ser criada à sua forma e semelhança e, no primeiro instante em que este criador dá as costas, é grosseiramente enganado por uma simples cobra falante que foi capaz de arruinar por completo todos os seus planos, na prática, ou este deus não era tão inteligente assim ou simplesmente estava de sacanagem criando propositalmente a situação do fruto proibido para induzir o impulso a se cometer o pecado original...

Pelo que entendo, todas essas mitologias que originaram o cristianismo, tem origem na primitiva adoração ao Deus Sol. Essa figura divina apenas foi mudando de forma através dos milênios e vários elementos mitológicos foram acrescentados, mas não passa de uma grande fantasia, uma mistura entre o anseio humano de compreender a própria origem, a razão da sua existência e principalmente a necessidade de uma muleta espiritual na figura de um “papai” imaginário eterno, que sempre estará ao seu lado segurando pela mãozinha, conduzindo e protegendo sua vida.

Quanto ao sacrifício de Jesus, pondero que seja o maior embuste do cristianismo e a forma mais desprezível de manipulação já inventada, onde se tenta imputar uma dívida de sangue às pessoas sobre sua ancestralidade e, essas pessoas sequer tiveram a chance de recusar tal sacrifício. Este sacrifício lhes foi imposto e a dívida simplesmente é cobrada, o que é absolutamente imoral sob qualquer ótica racional e um mínimo senso de justiça.

Quero aproveitar e voltar ao tema inicial da entrevista sobre coito anal, tanto heterossexual quanto homossexual, com a citação do novo testamento em 1 Coríntios 6:9-10 “Porventura não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus.”
Este trecho serve para amparar a afirmação de que tal comportamento sexual é reprovável na doutrina cristã e serve para dar suporte às citações anteriormente por mim apresentadas (Levítico 20:13 e Romanos 1:26-27), refutando a idéia de que tais afirmações pudessem estar fora de contexto.

Beijos, Anja!

Anja_Arcanja disse...

a citação do novo testamento em 1 Coríntios 6:9-10 “Porventura não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os que se dão à embriaguez, nem os maldizentes, nem os roubadores possuirão o reino de Deus.”
Este trecho serve para amparar a afirmação de que tal comportamento sexual é reprovável na doutrina cristã e serve para dar suporte às citações anteriormente por mim apresentadas (Levítico 20:13 e Romanos 1:26-27), refutando a idéia de que tais afirmações pudessem estar fora de contexto.
(Ricardo)

Meu lindo, eu falo sobre estes trechos que vc cita na própria entrevista e deixo bem claro que há um enorme erro de interpretação e consequentemente de tradução. Vejamos a alguns trechos de minha tréplica:

Sodomita

Grego: Arsenokoitesum
Que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual

Hebraico: Qadesh
Prostituto de templo masculino.


Lemos no original Grego: Arsenokoitesum que literalmente significa: que se deita com um macho como com uma fêmea, sodomita, homossexual.

Mas no Antigo Testamento (todo escrito em hebraico e aramaico) lemos: Qadesh

Que significa: prostituto de templo masculino. (não interprete como sendo um costume apenas dos gentios, mas sim do povo Judeu, pois era costume entre os judeus, misturar o culto ao deus hebreu com diversas formas de cultos pagãs, o que mostra que a lei se referia apenas ao povo judeu).

Mas não devemos deixar de lembrar que a palavra sodomia que se apresenta no latim apenas, e abre o leque para perversões sexuais, seja entre homossexuais, seja entre heterossexuais, e nada mais foi que um dos muitos erros não somente de tradução, mas de interpretação contidos na bíblia. Muitos mitos são construídos sobre pesados escombros, consequentemente, basta removê-los para que o alto edifício dos velhos e falsos conceitos caia por terra. O significado de sodomia que hoje lemos nos melhores dicionários não passa de produto de um equívoco que dura há séculos e insiste em permanecer de pé.


Sobre a primeira parte de seu comentário, concordo em genesis, números e gálatas rsrsrs

Ricardo F. Vaz disse...

OK Anja, você fala em erro de tradução do termo, mas não vejo distanciamento entre um e outro. Suponho que um prostituto masculino de templo naquela época servia aos homens, não às mulheres. No meu entendimento, nem todo sodomita era um prostituto, mas todo prostituto era obrigatoriamente um sodomita (neste caso poderia ser considerado ativo ou passivo). A palavra prostituto não diz diretamente que há um sexo anal, mas sem dúvida há um contato sexual com outro homem e, o fato de haver envolvimento financeiro, afetivo ou ritualístico religioso, me parece ser pouco relevante para esta argumentação. O próprio coito anal parece irrelevante, a reprovação em Levítico está no contato homossexual.

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