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terça-feira, 10 de julho de 2012

TRANSE E POSSESSÃO - Parte 1 de 3



Estarei trazendo para ser compartilhado e debatido entre os leitores que acompanham meu blog, um excelente artigo sobre o tema TRANSE E POSSESSÃO que e será dividido em três (3) postagens; e quero deixar claro que apesar da introdução do artigo dizer que acredita piamente em deuses e demônios, este não é meu credo, sendo eu, ateia, mas o artigo traz questões muito esclarecedores em relação a tais fatos e espero que gostem
Apesar de acreditarmos piamente em todos os deuses e demônios, vamos abordar o tema como se espera da ciência, deixando para outros profissionais de outras áreas a difícil tarefa de lidar com o sobrenatural.
Em nosso meio a maioria das pessoas que se apresentam em transe não são, decididamente, portadoras de nenhuma patologia psiquiátrica. Trata-se da influência de elementos sócio-culturais na representação da realidade. Mas essa página não objetiva tratar desses casos. 
A influência da cultura nos sentimentos, afetos e comportamentos não deve ser, por si só, tomada como doenças mental. Se assim fosse, um cordão de carnaval, aos olhos de outra cultura, por exemplo, poderia ser tomado como um batalhão de dementes. Trataremos aqui daqueles casos que comportam um diagnóstico médico e psíquico.
Alguns pacientes com Epilepsia do Lóbulo Temporal ou do Sistema Límbico podem sofrer exóticas mudanças de personalidade, tanto sob a forma aguda, durante crises (se houverem) ou, mais curiosamente, entre os ataques. A sintomatologia dessas mudanças de personalidade se dá, comumente, com episódios de êxtase místico, preocupações religiosas, compulsão e falar ou escrever sobre temas metafísicos, orações, estados de êxtase de graça (com sentimentos de bondade extrema).
Se as visões e alterações da personalidade forem muito evidentes nesses pacientes disrítmicos, podemos falar em Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica Geral. Esse transtorno é caracterizado por alucinações ou delírios proeminentes, presumivelmente decorrentes dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral sobre o cérebro.


As alucinações (sintoma psicótico) nesses pacientes podem ocorrer em qualquer uma das cinco modalidades dos sentidos, isto é, visual, olfativa, gustativa, tátil ou auditiva, mas certos fatores etiológicos tendem a provocar fenômenos alucinatórios específicos. Assim sendo, as alucinações olfativas, especialmente aquelas envolvendo o odor de borracha queimada, enxofre ou outros cheiros desagradáveis, são altamente sugestivas de epilepsia do lobo temporal. Os delírios podem expressar uma variedade de temas, incluindo somáticos, grandiosos, religiosos e, com maior freqüência, persecutórios (DSM.IV).
Em relação ao misticismo, as epilepsias temporais são tão cogitadas que o DSM.IV diz, textualmente: “Os delírios religiosos têm estado especificamente associados, em alguns casos, à epilepsia do lobo temporal.” Uma outra consideração do DSM.IV, diz respeito à constante presença de aspectos atípicos num Transtorno Psicótico que aparece como conseqüência de alterações orgânicas; é atípica, por exemplo, a idade do início das alucinações, a qual pode surgir em qualquer época da vida. Também é quase obrigatória a hipótese de Epilepsia do Lobo Temporal diante da ocorrência de alucinações olfatórias e gustativas.
Na mesma linha das disritmias cerebrais (epilepsias), alguns casos de enxaqueca também podem incluir, entre seus sintomas, episódios definidos como aura, quando então são vistas luzes brilhantes muito similar às visões místicas atribuídas por alguns.
Por outro lado, a literatura psiquiátrica também descreve numerosos casos de Síndrome de Tourette, um transtorno psiconeurológico não tão raro, interpretados erroneamente como possessões do demônio, assim como pode acontecer em relação a certos casos, como a Esquizofrenia, o Transtorno Afetivo Bipolar ou mesmo alguns Transtornos Depressivos mais graves com sintomas psicóticos. Isso tudo sem falar dos maiores clientes de espíritos e demônios; os histéricos em suas mais variadas apresentações.
O melhor conhecimento da neurociência vem permitindo que esses pacientes possam ser tratados adequadamente, em vez de serem considerados como iluminados, paranormais, mediúnicos ou tocados por algum espírito, superior ou inferior, dependendo das conveniências. Acontece que nem sempre há interesse cultural que sejam tratados, mas essa é outra questão, muito extensa para esse trabalho.
Algumas crises neurológicas (Epilepsias), neuropsiquiátricas (Síndrome de Tourette) ou psiquiátricas propriamente ditas (Histerias e afins), podem se manifestar por uma sensação de horror e medo, por violentas convulsões, por lançar o enfermo ao solo, falar “línguas estranhas”, enfim, por sintomas culturalmente atribuídos aos demônios ou outras entidades poderosas.
Embora a sintomatologia básica das doenças mentais seja uniforme e universal, ela sofre grande influência do contexto cultural. Delírio, por exemplo, assim como alucinações, são de ocorrência universal em pacientes esquizofrênicos do mundo todo, assim como é também universal a teatralidade dos histéricos, as palavras estranhas proferidas pelos portadores de Tourette e assim por diante. É a mesma universalidade do sintoma da febre diante de uma infecção, em qualquer lugar do mundo.
Entretanto, delirar e alucinar com isso ou aquilo, dependerá do conteúdo cultural do psiquismo de cada um. Mas, mesmo assim, muitos casos continuam sendo objeto de controvérsia, especialmente quando o entorno social do enfermo favorece a interpretação demoníaca.
Veja assuntos relacionados:
Epilepsia do Lobo Temporal (melhor descrito em Forense)
Histeria (veja Histeria e Demônios)

 


Os Cultos da Aflição

Cristina Pozzi Redko é uma antropóloga que publicou interessante trabalho sobre Cultos de Aflição, entendendo-se esse tipo de culto como aquele para o qual se dirigem pessoas aflitas e em busca da resolução de problemas concretos do cotidiano. Com esse enfoque, a religiosidade é usada para resolver problemas que dizem respeito a doenças, dificuldades amorosas e financeiras e problemas familiares  (Alguns Idiomas Religiosos de Aflição no Brasil - Cristina Pozzi Redko).
Supondo verdadeiro o fato das pessoas procurarem apoio religioso proporcionalmente à angústia que as aflige, também será lícito o ditado segundo o qual quem está bem consigo mesmo não incomoda os demais (nem as entidades). Portanto, com clientela garantida pelas mazelas do cotidiano, os sofrimentos emocionais ou angústia existencial são os alvos perseguidos por muitas religiões, tentando tornar a vida mais compreensível, suportável e auxiliando as pessoas a se orientarem dentro de seus contextos problemáticos.
De fato, os problemas de saúde em primeiro lugar, seguido por problemas econômicos e sentimentais, constituem a parte mais expressiva da aflição que leva as pessoas a procurarem uma ajuda religiosa. E essa procura será tão maior quanto mais incômodos forem os problemas e quanto mais escassas forem as condições tradicionais para resolvê-los.
Normalmente a religião mobiliza pessoas a procurar ajuda por causa de suas representações mágicas. Há ainda um elemento facilitador que é concepção cultural da existência de dois tipos de doenças; as do corpo e, desafiando qualquer avanço científico, aquelas do espírito. A igreja, de modo geral, pode se ocupar de ambas, com evidente predileção pelo segundo tipo.
A doença espiritual é mais conhecida em nosso meio como "encosto" (causado por um espírito naturalmente mau) ou "uma obsessão" (causada por um espírito obsessor, entenda-se como quiser). Entretanto esta distinção é muito sutil, na medida em que as doenças materiais de difícil solução médica podem passar, repentinamente, a ser consideradas como agravadas por elementos espirituais.
Ora, para essa população que sente as agruras da vida através da magia de seus corpos, não basta a medicina. Há que se recorrer ao arsenal igualmente espiritualizado. Os sofredores constituem-se num Culto dos Aflitos, procurando seitas e igrejas que mais prontamente atendem seus reclamos. O exótico e exuberante culto pentecostal atende a todos.
Durante os Cultos de Aflição essas igrejas despedem grandes esforços para retirar encostos, desfazer a inveja e o olho-grande, libertar pessoas da feitiçaria, dos despachos de macumba, das possessões por orixás, guias e espíritos. Alguns folhetos chegam ao ponto de trazerem uma lista de indicações ao alcance dos trabalhos dos cultos, tais como problemas de "desemprego, sentimental, financeiro, vícios, enfermidades, nervosismo, depressão, ouvir vozes, ver vultos, familiar", divulga as especialidades terapêuticas da igreja conforme o dia da semana (Neopentecostais; Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil - Ricardo Mariano, Editora Loyola).
Um dos perigos mais contundentes desses Cultos de Aflição é tentar alterar o significado de alguma doença para aquele que a está sofrendo. Mas os rituais não implicam, obrigatoriamente, na remoção definitiva dos sintomas, mas na mudança dos significados que a pessoa atribui a esses sintomas ou ainda a uma alteração em seu estilo de vida, protelando perigosamente um tratamento médico adequado.
Fenômenos como o encosto, a possessão pelo demônio ou por um espírito, muitas vezes são sintomas de transtornos emocionais mas, infelizmente, no contexto religioso do Brasil a possessão e o transe são comportamentos culturalmente aceitos e raramente são vistos como sintomas de distúrbio mental.
Muitas das doenças curadas nesses Cultos de Aflição são causados, segundo seus embasamentos teológicos, pelo mal-olhado, feitiço, coisa-feita, bruxaria, macumba ou coisa que o valha.  O próprio catolicismo popular é muito flexível, tolerante e receptivo a essas idéias, pois, compartilha a crença nos espíritos, na eterna luta entre Deus e o diabo e na possibilidade ser possuído por ele.

 


Deus, Diabo, Cultura e Religião

O Pentecostalismo (de pentecostes) surge em 1906 no interior das igrejas reformadas dos EUA e difunde-se rapidamente pelos países do Terceiro Mundo. Os primeiros missionários do pentecostalismo chegam ao Brasil em 1910 e rapidamente conquistam grande número de fiéis.
As igrejas pentecostais são as que mais crescem na América Latina, dando ênfase à pregação do Evangelho, às orações coletivas, feitas em voz alta por todos os fiéis; aos rituais de exorcismos e de curas, realizados em grandes concentrações públicas. Uma das seitas pentecostais mais difundidas no Brasil é a Igreja Universal do Reino de Deus (Conhecimentos Gerais).
Uma porcentagem de 13 a 15% da população brasileira se considera "evangélica", uma categoria que engloba todas as religiões protestantes e, destes, 70% são Pentecostais. Os evangélicos pentecostais no Brasil estão distribuídos pelas seguintes religiões:
Assembléia de Deus
Congregação Cristã no Brasil
Exército de Salvação
Igreja Batista Aliança
Igreja Batista Independente
Igreja Cristocêntrica - Casa de Oração
Igreja do Evangelho Quadrangular
Igreja Metodista Wesleyana
Igreja Pentecostal Brasil para Cristo
Igreja Pentecostal Deus é Amor
Igreja Sara Nossa Terra
Igreja Universal do Reino de Deus
A Igreja Católica, por sua vez, mantém uma posição ambígua nestas frentes demoníacas: após o Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI eliminou a figura do exorcista, que foi recuperada, no entanto, por João Paulo II.
Cada diocese deve dispor de um, ainda que nem todas o tenham embora os casos de possessão estejam aumentando devido ao auge do esoterismo.
Esoterismo - S. m. 1. Filos. Doutrina ou atitude de espírito que preconiza que o ensinamento da verdade (científica, filosófica ou religiosa) deve reservar-se a número restrito de iniciados, escolhidos por sua inteligência ou valor moral. 2. Designação que abrange um complexo conjunto de doutrinas práticas e ensinamentos de teor religioso e espiritualista, em que se confundem influências de religiões orientais e ciências ocultas, associadas a técnicas terapêuticas, e que, supostamente, mobilizam energias não integrantes da ciência e que visam a iniciar o indivíduo nos caminhos do autoconhecimento, da paz espiritual, da sabedoria, da saúde, da imortalidade, etc.  
Exotérico - Adj. Filos. 1. Diz-se de ensinamento que, em escolas da Antiguidade grega, era transmitido ao público sem restrição, dado o interesse generalizado que suscitava e a forma acessível em que podia ser exposto, por se tratar de ensinamento dialético, provável, verossímil.
Em alguns movimentos dentro da Igreja Católica o exorcismo é prática constante e habitual, como é o caso do Movimento Carismático. Mas, tanto os segmentos mais tradicionais da Igreja Católica, como da Igreja Anglicana, manifestam temores de que exorcismos levados a cabo por fanáticos evangélicos possam chegar a causar problemas sérios a pessoas indefesas.
No pentecostalismo se exercem práticas de exorcismo, que é libertar a pessoa da possessão por demônios (pessoa endemoninhada, não é certo dizer endemoniada), pois o demônio está presente em todos esses cultos pentecostais e seus rituais de exorcismo consistem em receber o Espírito Santo e expulsar os demônios.
Há muitos grupos de tonalidade espiritualista no Brasil, assim como o batuque, xangô, kadercismo, umbanda, candomblé. Alguns preferem ser considerados seitas, outros preferem ser tidos por religiões, o certo é que todos se baseiam na comum teoria da espiritualidade.
Embora as tendências dessas seitas e religiões sejam de contraporem-se umas às outras, muito existe de comum entre elas. As crenças da influência do demônio e dos espíritos se baseiam em 3 conceitos principais:
  1. o ser humano tem um outro corpo além do material; o corpo espiritual;
  2. espíritos desencarnados estão em constante contato com o mundo físico;
  3. os humanos podem aprender a incorporar espíritos.
A Umbanda foi, sem dúvida, a primeira religião espiritualista desenvolvida no sul do Brasil, ao longo do processo de industrialização e apresenta um sincretismo de  elementos do candomblé afro-brasileiro, da macumba, kardecismo e catolicismo. Na umbanda o consulente tem a oportunidade de entrar em contato com espíritos através da incorporação dos mesmos no médium.
O caldo cultural, entretanto, dentro do qual vive nosso sistema tende a legitimar como real a existência dos demônios, os quais agem neste mundo, possuem pessoas, interferem na felicidade e bem estar de qualquer um e se passam por muitas formas que assumem.
Para se ter uma idéia da força do demônio em nossa cultura, buscando-se pela palavra “satanismo” na Internet através dos mecanismos de busca, constatamos existirem mais de 14.800 páginas em português e mais de 94.000 em inglês (satanism, pesquisado por Busca-UOL em abril de 2002).

 

Os Transes e Possessões

O falar línguas estranhas, a chamada glossolalia, constituiu um elemento marcante da doutrina pentecostal. Trata-se de uma forte evidência do batismo no Espírito Santo. Alguns antropólogos e psicopatologistas classificam tal experiência extática (posto em êxtase, absorto, enlevado) como sendo um transe de inspiração.
Distinguem esse tipo de transe dos fenômenos extáticos religiosos da umbanda e do candomblé, os quais classificam como transes de possessão. Não vemos como atribuir alguma importância a essa distinção, enfim... De qualquer forma, em matéria de manifestação extática, são tratados juntos e com a mesma terapêutica a glossolalia e o transe de possessão.
A CID.10 (Classificação Internacional das Doenças) rotula em F44.3 o chamado Estado de Transe e de Possessão. Trata-se de um transtorno caracterizado por uma perda transitória da consciência de sua própria identidade, associada a uma conservação perfeita da consciência do meio ambiente. Devem ser incluídos nesse diagnóstico somente os estados de transe involuntários e não desejados, excluídos aqueles de situações admitidas no contexto cultural ou religioso do sujeito.
Isso significa que, durante um culto religioso entrando uma pessoa em transe, voluntariamente, pois ocorre no momento em que isso lhe é adequado, não se pode atribuir esse diagnóstico. Para que o quadro seja reconhecido como Estado de Transe e de Possessão não deve ser voluntário.
O DSM.IV (Classificação de Doenças Mentais da Associação Norte-americana de Psiquiatria), por sua vez, classifica o mesmo quadro como 300.15, Transtorno Dissociativo Sem Outra Especificação. Esta categoria se destina a transtornos nos quais a característica predominante é um sintoma dissociativo (isto é, uma perturbação nas funções habitualmente integradas da consciência, memória, identidade ou percepção do ambiente, enfim histérico) que não satisfaz os critérios para outro Transtorno Dissociativo específico.
Como exemplos o DSM.IV cita, entre outros casos, estados dissociativos ocorridos em indivíduos que foram submetidos a períodos de persuasão coercitiva prolongada e intensa, como por exemplo, lavagem cerebral, reforma de pensamentos ou doutrinação em cativeiro. Em seguida fala também do Transtorno de Transe Dissociativo, referindo como perturbações isoladas ou episódicas do estado de consciência, identidade ou memória, inerentes a determinados locais e culturas, subdividindo esse transtorno em dois tipos; Transe Dissociativo e Transe de Possessão.
O Transe Dissociativo envolve o estreitamento da consciência quanto ao ambiente imediato, comportamentos ou movimentos estereotipados vivenciados como estando além do controle do indivíduo. O Transe de Possessão envolve a substituição do sentimento costumeiro de identidade pessoal por uma nova identidade, atribuída à influência de um espírito, poder, divindade ou outra pessoa, e associada com movimentos estereotipados "involuntários" ou amnésia.
O Transe de Possessão adquire colorido regional e cultural nas várias partes do mundo; amok (Indonésia), bebainan (Indonésia), latah (Malásia), pibloktoq (Ártico), ataque de nervios (América Latina) e possessão (Índia).

(Continua...)
Fonte: PsiqWeb G.J.Ballon 
Dica: Francisco Reis

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