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sexta-feira, 13 de julho de 2012

TRANSE E POSSESSÃO - Parte 2 de 3



Pra quem não leu a 1° parte, eis o link: 




O QUE É O PENTECOSTALISMO?
O Pentecostalismo é um movimento religioso que tem a convicção de que os dons milagrosos ou os sinais que Deus deu aos apóstolos e às igrejas primitivas ainda estão disponíveis, podendo ser exercitados pelos cristãos hoje, portanto, o Pentecostalismo reivindica que Deus dá dons milagrosos para as pessoas.
A idéia se baseia no Evangelho de São Marcos (16:17-18 e I Corintos 12:8-11):
“E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.”
.......
 “Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, pelo mesmo Espírito, a fé, e a outro, pelo mesmo Espírito, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro a interpretação das línguas. Mas um só é o mesmo Espírito que opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.”
Na igreja católica o Pentecostalismo às vezes é chamado de movimento carismático, devido ao fato de dar ênfase à suposta continuação do charismata milagroso ou dons.
Haveria dois tipos de dons, mencionados no Novo Testamento: há os dons chamados ordinários e os dons extraordinários.
Os dons chamados ordinários levam esse nome porque Deus, ordinariamente, os dá às pessoas em todos os tempos, tais como a fé, a esperança e a caridade. Os dons extraordinários são assim chamados porque não são dados ordinariamente. Estes dons extraordinários são sobrenaturais e permitem às pessoas que os possuem executar ações sobrenaturais.
Normalmente, quando os Pentecostais falam de dons ou charismata, eles se referem aos dons extraordinários da cura, dos milagres, de falar línguas estranhas, revelações diretas de Deus, expulsão de demônios e até mesmo pegar em serpentes e beber veneno e outras peripécias.Para os Pentecostais, a expressão Batismo com o Espírito Santo é um evento diferente do batismo da igreja, o qual objetiva a graça da salvação e perdão do pecado original. Para eles, o Batismo com Espírito Santo seria o exercício de um ou mais dons extraordinários, falar em línguas estranhas, etc. O nome Pentecostal deriva, justamente, da crença de que podem ser repetidos os milagres do Pentecostes, especialmente, o de falar em línguas estranhas.
Fonte: Estudos Bíblicos de Autores Batistas

CONVERSÃO
Enquanto na terminologia psiquiátrica conversão significa a passagem ou o salto de um conteúdo psíquico para o orgânico, um quadro que faz parte do espectro histérico ou histriônico, em religião conversão significa uma grande mudança na atitude cognitiva da pessoa.
Após a conversão as pessoas percebem-se a si mesmas como mudadas em pelo menos dois diferentes aspectos: em seus traços de personalidade (temperamento por exemplo), e na própria identidade social (incluindo vínculos comunitários, sentimentos de pertinência, papéis desempenhados, percepções do mundo, etc). Veja Hulda Stadtler  
Entre as mudanças cognitivas operadas na conversão destacam-se as concepções de si mesmo e a aquisição de um novo sistema cognitivo. Entre as alterações da concepção particular de si mesmo ou da reavaliação do "estar-no-mundo", o Pentecostalismo descortina para a pessoa a possibilidade de tornar-se um membro especial do povo de Deus com a conseqüente reestruturação cognitiva.



Segundo Hulda Stadtler, em sua tese “Conversão ao pentecostalismo e alterações cognitivas e de identidade”, o Pentecostalismo gera mudanças em todos os aspectos das vidas das pessoas, e essas mudanças são valorizadas positivamente tanto pelos convertidos quanto pelos outros.
Existem, de acordo com os dois principais modelos religiosos de nosso meio, duas explicações para as mudanças da personalidade na conversão. Para os católicos carismáticos, as alterações seriam o resultado do abandono de comportamentos prévios pela intervenção direta do Espírito Santo. Para os crentes da Assembléia de Deus e outros evangélicos pentecostais a conversão seria a adoção de um modelo de personalidade e comportamento do próprio Cristo.


O DOM DE FALAR LÍNGUAS

Com grande freqüência, podendo constatar-se até  em programas da televisão, fiéis tomados pelo Espírito Santo, com grande júbilo e êxtase, conversam entre si falando línguas.
Para os Pentecostais,  como vimos, trata-se do Batismo com Espírito Santo, ou seja, do exercício de um ou mais dons extraordinários, como por exemplo, o dom de falar em línguas estranhas, etc. Na psiquiatria a emissão de sons desconexos leva o nome de glossolalia. E de fato, essa questão pode ser vinculada a uma problemática fundamental na constituição do sujeito humano; sua relação com a linguagem.
A aquisição da linguagem no ser humano não pode ser considerada um mero aprendizado de uma espécie de comunicação para usos imediatos como ocorre com outros animais. Trata-se do ingresso no mundo simbólico, fato que caracteriza essencialmente o ser humano, que funda a cultura e marca o limite da espécie.
Segundo Sérgio Telles (O Dom de Falar Línguas), ao nascer a criança é mergulhada no universo lingüístico dos pais, num encontro definitivo, irreversível. Uma vez dentro da língua materna, a criança dela não mais poderá sair. A mãe fala e, através da linguagem, introduz a criança no mundo simbólico.
No início da vida, as palavras e o discurso, soarão sempre à criança como uma língua estrangeira, imposta duramente e indispensável ao estabelecimento das bases de sua sobrevivência e de sua identidade como sujeito humano. Quem fala representa, à criança, quem manda, entende e domina, embora não se entenda ainda e perfeitamente o que fala.
Aos poucos a criança que ainda não fala, ouve, absorve, apreende e adquire a fala dos adultos. Estes sons parecem-lhe absolutamente desconhecidos, misteriosos, surpreendentes, enigmáticos e fascinantes (Idem). E esse fascínio por línguas estranhas acaba persistindo, tal como uma cicatriz indelével, ao longo da vida das pessoas.
Podemos supor que ao falarem "línguas", as pessoas em transe, possuídas ou, como se diz culturalmente, dotadas desse estado, estariam psicologicamente regredidas e identificadas com a mãe, com os adultos ou com poderosos portadores da linguagem, aqueles que representavam ser os superiores na infância.
O episódio pode simbolizar aqueles momentos fundamentais do psiquismo, onde a pessoa ouvia fascinada a língua "estrangeira", incompreensível e misteriosa, eficaz e capaz de resolver problemas, de oferecer soluções. Pode significar o encantamento da criança que ainda não fala ao se deparar com os sons do discurso dos adultos poderosos.
Quem vivencia alguma liturgia católica conduzida em latim experimenta sentimentos estranhos e poderosos. As expressões dessa língua estranhapersistem ruminantemente na memória.
Ao falar “línguas” a pessoa em transe, possuída, ou melhor, o inconsciente dessa pessoa faz com que a palavra transcenda sua condição de signo comunicativo para representar o simbólico, para manifestar e expressar sua identificação com o superior poderoso.

Vocação para o Sobre-Humano

De certa forma todos nós, através do lado mágico de nosso pensamento (veja Pensamento Mágico - Derreísta) temos uma tendência a ter sentimentos e comportamentos sobre-humanos, algo de compense a desagradável sensação de pequenez e finitude a que todos estamos sujeitos, ora mais, ora menos fortemente.
Sentir-se "sobre-humano" pode aliviar a limitação para a felicidade plena imposta por nossa condição existencial. Mesmo nas pessoas tidas por descrentes, realistas, racionais, seja lá como gostam de ser consideradas, a partir do momento em que jogam na loteria, mesmo quando todas as probabilidades racionais não recomendam o jogo, está se manifestando um pensamento mágico. Seria um pensamento que foge à dureza da racionalidade que estabelece as probabilidades de ganhar, seria algo do tipo: "pode ser que eu tenha sorte" ou "pode ser que tenha chegado o meu dia..." e assim por diante. Isso é sentir-se sobre-humano, diferente dos demais.
Pode ser que a sensação de poder se comunicar com espíritos, de ser escolhido como porta-voz dos espíritos, de ter sensibilidade especial (diferente dos outros), de poder curar, de poder prever ou influir no futuro, nos faça sentir especiais, sobre-humanos.
Não tem sido nem um pouco comum encontrar um renomado e competente médico recebendo espíritos de outro médico para realizar suas curas; ele as realiza de maneira convencional, a duras penas de ter tido que aprender, estudar, se formar, etc. Mas, estando profissionalmente realizado, esse médico não precisa recorrer ao sobre-humano para dar vazão à uma vocação oculta e, muito provavelmente, frustrada.
Também atenua a sensação de termos falhado, de nos sentirmos uma pessoa não tão brilhante como gostaríamos, se nossas falhas e limitações tivessem origem fora de nós mesmos, independentemente de nossa vontade. A possessão por entidades pode resolver esses sentimentos de inferioridade ou, quando não, realçar sentimentos de superioridade.
O sentimento sobre-humano e até mesmo o sentimento de achar que Deus está conosco (um fortíssimo aliado) alivia frustrações e sensações de fraqueza, nos dá forças e compensa a dureza de um cotidiano simplesmente humano.

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