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sábado, 7 de julho de 2012

A Última Hora





Terminava assim as minhas noites domingueiras: de olhos cerrados, torcendo pela Vida contra a Morte, ao som do tradicional hino cristão que, ainda hoje, é usado para arrebanhar as almas em conflito entre suas poderosíssimas forças internas.
O estribilho do emblemático hino - “A Última Hora” - que é cantado, repetidas vezes, de modo solene ao final do culto evangélico, diz assim:

“Meu amigo hoje tu tens a escolha
Vida ou morte qual vais aceitar?
Amanhã pode ser muito tarde
Hoje Cristo te quer libertar”.

A casa de minha infância, de que me lembro com saudade não é mais a mesma que dava guarida a essa ilusão de me ver partido em duas metades: “uma má e outra boa”, de me ver como um campo de trigo em que não há joio por perto para me atrapalhar.
Agora, outros sonhos povoam o espaço sentimental dessa casa, a ponto de me deixar mudo diante da escolha fatídica do apelativo hino “cristão”.
No meu imaginário de menino não via como metáforas os termos: “Vida” e “Morte”, por isso mesmo não entendia a grande tirada filosófica de Cristo que no evangelho de São João deixou claro que, “Vida eterna é conhecer a Deus” e “condenação eterna é a ignorância a Seu respeito”.

Assim como o dia (a luz) e a noite (as trevas) se revezam ininterruptamente, assim somos nós que vivemos e morremos a cada dia. Somos condenados aos desencontros e encontros entre as pulsões de vida e pulsões de morte. O poeta Olavo Bilac chegou certa vez a dizer em um de seus versos: “Em meu peito há um Demônio que ruge e um Deus que chora”. Separar de nós essas instâncias psíquicas seria inumano, seria a própria morte.
Mas a civilização dita cristã opta secretamente por essa separação, jogando-nos diante de uma escolha impossível de se realizar. Ela quer excluir o resíduo dos sentimentos “maus”, negando a lógica dos nossos paradoxais afetos internos.

Na última hora,  — personagem mítico Judaico —, foi libertado da cegueira psíquica que o impedia de enxergar a sua ambivalência interna, simbolizada por Deus e o diabo em conflito, imagens que representam os nossos dois lados obscuros que não podem ser separados e sim reintegrados para que possamos viver em equilíbrio. A Paz conseguida por  foi decorrente da aceitação de seu outro lado, como parte integrante de sua natureza. Aquilo que ele mais temia — a síntese dos dois lados aparentemente opostos de sua natureza — aconteceu.

Espinosa, treze séculos depois de Santo Agostinho dizia: As afecções de ódio, de cólera e de inveja, resultam da natureza e não de um vício desta.”

Respeito o fundamentalista (ainda tenho suas crises) quando entende de forma literal o mito da revolta dos anjos, movidos pela inveja contra o Criador, sem se deter na sua grandeza simbólica que revela nada mais que a nossa ambivalência. Os mitos bíblicos são amostras das pulsões de morte e de vida latejando em nossa psique.

O meu imaginário de crente forjado na minha efervescência instintiva mexeu em meus sentimentos e desejos contraditórios, produzindo uma estranha composição de visão de mundo: então eu via que a vergonha dosincrédulos era uma vergonha escancarada, enquanto que em mim, secretamente, reinava uma inveja envergonhada e reprimida.
Diz o convertido: “Não sou mais escravo dos desejos”. Mas para onde quer que ele corra, lá está o desejo, como diz o rabino, Nilton Bonder, da Congregação Judaica no Brasil: “O Governo do desejo é sempre marcado pela maldição da carência e pela dependência total do querer".

Talvez, a ambivalência representada pelos eternos extremos denominados vida morte, na última hora, seja substituída pela univalência ou um único desejo: “o de partir”. Só aí, com o nosso corpo de desejos já desfalecido é que poderíamos ouvir os acordes finais do nosso lado transcendental, a se esvair do nosso órgão-comandante – o cérebro -, como a última função nossa a desaparecer.

Mas aí, esse desejo de partir já não seria mais a univalência, e sim uma ambivalência, pois, o anseio de partir da última hora seria o mesmo desejo ambíguo de morrer para viver.
Por enquanto, como seres da dúvida e da ambigüidade, é melhor que vivamos e morramos um pouco a cada dia, do que ficar o tempo todo digladiando-se em querer egolatricamente só ganhar a vida.

Ensaio por Levi B. Santos via Ensaios & Prosas

Um comentário:

Ormes de Paula disse...

Gostei do texto! Pude observar o caminho de dúvidas do autor quanto a credulidade e a incredulidade. Ao descrever Deus, ele iniciou a frase com letra maiúscula o que me leva a crer, que apesar de sua "crença ímpia" ainda existe o remanescente teocêntrico em seu íntimo ou cerne.
O que quero deixar claro na verdade é que, todos tem dúvidas no âmago quanto a afinidade com Deus. Todavia, acreditam no Pai Maior,ou no Espírito de Luz eterna do qual todas as coisas surgiram.

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