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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A Serpente




“Sem os contrários, não há progresso.
Atração e Repulsão,Razão e Energia,
Amor e Ódio são necessários para a existência humana.
Destes contrários dá-se origem ao que a religião chama de Bem e Mal.
O Bem é o passivo que obedece à razão.
O mal é o ativo, que responde à energia.
 O Bem é o Céu. O Mal é o inferno.”
(William Blake – The Marriage Between Heaven and Hell.)

Eva nunca havia descoberto por que é que gostava tanto de se deitar sob a sombra daquela arvora. Justo aquela árvore, a do fruto proibido. Parecia que a chata rotina do paraíso não lhe dava muitas opções. Ter liberdade para fazer o que quer perde a graça quando você realmente tem. Piora muito as coisas não ter imaginação para saber usar esta liberdade e Eva era burra como uma porta, por que nunca aprendeu nada com ninguém, só com Adão, que era outro imbecil que fazia tudo o que ela mandava.

Mas aquele dia foi um dia especial, por que Eva viu uma coisa inédita, muito mais incrível que todos os dinossauros que passeavam no paraíso e seriam extintos pelo dilúvio: Ela viu uma cobra falar.

Ela nunca se perguntou se foi por causa dos cogumelos que ela comeu ou da maconha que ela fumou, por que era burra demais para fazer esta associação.

Mas maconha e cogumelo eram permitidos, a única coisa que não permitida era o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal.

E mesmo sabendo que não podia comer daqueles frutos, Eva adorava deitar sob a sombra daquela árvore, chapada de maconha e cogumelo e secretamente perguntar-se como é que seria fazer a única coisa que não lhe era permitida.

Mas Eva era burra demais para entender suas próprias indagações e continuaria sendo, mula e obediente como uma porta, se não fosse aquela maçã cair em sua cabeça.

Eva jamais se perguntaria se aquilo foi ou não ação da gravidade, pois isso seria uma blasfêmia que só seria proferida dali a séculos, quando diz a lenda que alguém menos burro estava em uma situação muito parecida.

E eis que Eva pega o fruto que caiu em sua fronte e sente seu vigor e seu cheiro, instigando seu apetite.

Ao mesmo tempo, do meio das folhas, surge uma serpente. A serpente era bicho mais inteligente que existia naquele jardim. E a serpente falava. E veio com esse papo:

_Deus não te falou que podia comer o que quisesse aqui dentro?

Eva, mesmo chapada, lembrava bem do recado que painho tinha deixado:

_Vocês podem comer do fruto de todas as árvores deste jardim, menos a do conhecimento do bem e do mal. Nessa, eu não quero que vocês nem relem a mão. Se vocês fizerem isso, estão lascados, com certeza vocês vão morrer.
E a serpente, especialista em identificar papos furados, foi incisiva:

_Morre nada! É que Deus tá ligado que o dia em que vocês comerem isso aqui, vocês vão começar a se ligar das coisas, igual ele já manja, e sabendo o que é o bem e o que é o mal, não vão mais precisar dele, por que vão se tornar Deuses, iguais a ele.

E Eva sentiu o cheiro daquele fruto e pensou. A serpente sabe das coisas. E a fruta deve ser gostosa. E saber das coisas deve ser uma coisa boa. Pensou, pensou, pensou e chegou à conclusão:

_Foda-se.

Meteu os dentes no fruto e curtiu pra caramba. Tanto que fez o Adão comer na hora. E foi neste momento que eles tiveram a malícia de se ligar o quão gostosos eram os corpos pelados um do outro. Mas como ainda eram bocós, ficaram morrendo de vergonha, e saíram procurando pedaços de folhas pra cobrir suas partes íntimas. E nessa mesma hora, eis que DEUS (o próprio), tava passando ali justamente naquela hora e flagrou os dois se escondendo no meio das árvores, morrendo de vergonha de Deus. No fundo eles já estavam ligados que estavam fodidos, e tentavam apenas postergar a inevitável comida de rabo que iriam tomar por tê-lo desobedecido.

E eis que disse Deus:

_Cadê você, Adão?

E respondeu Adão:

_Ouvi tua voz e fiquei cagando de medo, por que tu vai flagar que eu estou peladão, aí eu me escondi atrás das árvores.

E disse Deus:

_E como você sabe que você tá pelado, seu moleque? Você comeu daquela árvore que eu falei que não era pra comer não é, seu ridículo?

E respondeu Adão, morrendo de medo:

_Foi aquela mulher que tu fez pra mim que me fez comer aquela bosta!

E Deus virou pra Eva, puto da vida:

_Por que você fez isso, sua vadia?

E Eva:

_Foi aquela filha da puta daquela serpente! Ela fodeu com a minha vida!

E disse Deus:


_Bichinho filho da puta dos infernos que eu criei. Você fodeu tudo. Agora também, você tá fodida. Pra sempre você vai ser um bicho maldito que vai andar de barriga comendo poeira pro resto da sua vida.

E pra mulher:

_E você também tá ferrada: Vai sentir dor pra caralho e vai ter que parir daqui por diante, tendo um monte de filhos. E tudo o que você fizer vai ser pro seu marido e ele é que vai ter que mandar em ti daqui por diante, eu não quero nem saber.

E para o Adão:

_E por que você caiu na conversa fiada dessa vagabunda, fazendo o que eu falei pra você não fazer, vai ter que se foder de trabalhar daqui por diante e ter que sustentar uma mulher chata e uma molecada briguenta até o resto dos seus dias. E vai perpetuar essa miséria ao longo dos milênios daqui por diante.

E Deus continuou com o sermão:

_Vocês não queriam ser os fodas, que estão ligados sobre o que é o bem e o que é o mal. Agora vocês vão saber o que é o bem e o mal.

E Deus chutou a bunda dos dois do jardim do Éden e colocou dois querubins para proteger a entrada com espadas de fogo, pra não deixar que eles cheguem perto da árvore da vida e fazê-los viver eternamente, finalmente igualando-se à Deus.

Aquela era a árvore do conhecimento. E depois de comer daquele fruto e também seduzir Adão, seu pai e amante e doador de órgãos (a costela), o mundo nunca mais foi o mesmo.

A punição por desobedecer a Deus e provar do conhecimento proibido, ou seja, aquele que é diferente daquele que nos é ensinado, foi terrível!

Desde este dia, não somos mais inocentes e sentimos a vergonha e também atração pelo sexo. Saber das coisas também faz as pessoas mentirosas, trapaceiras e egoísta e deste dia em diante, ninguém mais iria viver para sempre, apesar de que os primeiros homens ainda viviam quase mil anos.

É assim que o opositor, Satanás, nos é apresentado pela primeira vez na bíblia, pela ordem dos livros, no Gênesis, o livro que narra toda simbologia cristã da criação do universo e também da gênese de tudo aquilo que é certo ou errado, a primeira ordem para aquilo que temos que fazer: OBEDECER.

Se o que você se propõe é seguir os pilares simbólicos da doutrina religiosa que exerce a maior influência na forma de pensar de seus compatriotas, fique longe da árvore do conhecimento. Saber das coisas vai te trazer cada vez mais perguntas e quanto mais dúvidas, mais distante de Deus vai estar.

A primeira forma que temos de conhecer o mundo, e também a mais tosca é o conhecimento vulgar, ou senso comum, que é a herança da influência social que é exercida sobre nós desde o dia em que nascemos.

Todos nascem sem acreditar em deus, e como não possuem nenhum deus, pode-se dizer que são ateus. Ao longo da vida, receberemos influência social que fará parte do nosso aprendizado que será responsável por formar nossa própria versão da realidade.

E cada um possui sua própria versão da realidade, com suas próprias respostas para os dilemas mais complicados, que garante que alguém consiga viver sua vida, seguro de suas próprias ideias e fundamentado naquilo que ele próprio escolheu para definir a si mesmo.

Mas a história e também a filosofia tem nos mostrado que o ser humano é um excelente especialista na arte de equivocar-se. Inúmeras grandes convicções humanas foram quebradas ao longo dos séculos para formar arquivos de conhecimento que contrariam a experiência empírica e são anti-intuitivos, mostrando que existe uma outra realidade além daquela que podemos conhecer quando fundamentamos nossas ideias apenas naquilo que nos é dito por nossas autoridades ou pelas pessoas com quem convivemos.

Culturas inteiras se enganam em relação a questões fundamentais da existência humana. O que é considerado um absurdo por uma cultura pode ser considerado essencial para outra. Mas se existe uma verdade transcendental, ela deve estar além das culturas e estar ligada a alguma característica que é inerente a todos os seres humanos.

Todos possuem em determinado nível algum juízo preconcebido que pode ser manifestado em forma de atitudes discriminatórias perante outras pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes ou “estranhos” aos seus. Existem coisas toleráveis e coisas que não conseguimos tolerar, sendo que a maioria das nossas intolerâncias são aprendidas por influência social, oriunda do senso comum.

Por vezes, vemos um grupo social indicar desconhecimento pejorativo de alguém ou de algum grupo social, que lhe é diferente. Qualquer atitude que, de alguma forma, gere algum desconforto psicológico, instintivamente ativa esta resposta comportamental. Entretanto, todos os seres humanos possuem a capacidade de ponderar sobre suas próprias certezas antes de se achar no direito de impô-las às pessoas à sua volta. Alguns chamariam isto de livre arbítrio, eu chamo de poder de escolha, que todos nós possuímos e podemos escolher o que vamos fazer com ele.

Quando não pensamos na possibilidade da nossa ideia estar errada, formamos conceitos baseados em estereótipos incorruptíveis que jamais poderiam representar verdades filosóficas, uma vez que são formados por argumentos circulares que se auto suportam e criam um ciclo de sofismas irrefutáveis que dão a ilusão de que podemos ter certeza de alguma coisa.

A coisa mais importante nas reflexões de alguém guiado pela honestidade intelectual é a dúvida. Se você aceitar um dogma ou um postulado como fundamento, nunca poderá provar-se errado. E se não puder perceber que está errado, jamais poderá perceber a verdade que existe além daquilo que você já aprendeu.

Mas para fazer isso, é necessário comer do fruto da árvore do conhecimento para experimentar coisas que vão muito além daquilo que nos é apresentado pelo senso comum, como cobras falantes que nos guiam para os rumos proibidos da sabedoria: a revelação do novo, a exposição ao contraditório e o conflito.

Ou seja, o opositor, que é o significado do termo “SATANÁS”, que nada mais é que uma simbologia para representar tudo aquilo que se opõe à obediência cega de normas estabelecidas por imposição cultural.

Por trás desta figura, vista com enorme repulsa pela maioria das pessoas, está sua verdadeira face: “LÚCIFER”, a estrela da manhã, ou aquele que veio da Luz. Também está relacionado ao termo “Lucidez”, que se relaciona com o fato de se realmente conhecer a realidade.

Exatamente como no mito da caverna de Platão, alguém com uma lâmpada em um lugar onde as pessoas foram criadas a vida inteira dentro de cavernas traria imenso desconforto.


Mas a razão poderia fazer com que algumas pessoas quisessem se unir a estes causadores de problemas, guiados principalmente pela curiosidade de saber como é o mundo através deste novo sentido: a visão.

Alguém com uma lanterna legal poderia talvez até criar uma revolução na caverna que trouxesse para o seu lado um terço da galera, apenas para morrer na tentativa e morrer na pancadaria nas mãos da maioria, como Platão profetizou.

E os cegos remanescentes contariam a história para os seus filhos sobre como bruxos malvados tentaram enfeitiçar a todos com ilusões macabras e como os heróis do povo sem visão salvaram seu povo dos demônios malfeitores.

Por que quem vence a guerra conta a história como acha melhor, não é?

E é por isso que ninguém se atreve a tentar ver as coisas pelos olhos do outro lado: do Opositor.

O caminho racional que levou Jesus Cristo a resistir às tentações de Satanás e morrer na Cruz para “salvar” os SEUS pecados (bem lógico isso, não é?) é o caminho que levou o terrorista a sacrificar sua vida e matar todas aquelas pessoas no famigerado atentado de 11 de setembro de 2001: A obediência cega a uma entidade sobrenatural.

E é exatamente com esta mensagem que a Bíblia começa seu texto em sua primeira alegoria sobre a origem da condição humana.

Parece que na época em que a Bíblia foi escrita, Deus conversava com os homens com frequência. Hoje quando isso acontece, o indivíduo é internado em um hospício imediatamente. Falar com Deus muita gente fala, agora se você anda ouvindo vozes vindo do nada, deveria se preocupar com suas faculdades mentais.

Mas em um de seus primeiros leros com a raça humana, Deus é bem claro em seu aviso e também em sua primeira AMEAÇA:

“E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,
Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”
Gênesis 2:15-17

Depois você sabe que eles comem e não morrem coisa nenhuma. Mas você pode dizer que “morrerás” está ligado à perda da imortalidade.

Pobrezinho do Adão. Viveu apenas só até os 930 anos. Bem feito para ele. Quem mandou cair na tentação da mulher, a enganadora, que junto com a serpente armaram para ele esta cilada que acabaram lhe custando toda sua moral que ele tinha com o maioral.

Segundo interpretações, Adão e Eva teriam sido vítimas da enganação de uma serpente que os fez acreditar que Deus era um enganador e que estava sendo injusto em esconder os segredos do conhecimento do bem e do mal.

Ao longo da história, várias pessoas foram acusadas justa e injustamente de Satanismo. Muita gente perdeu sua vida por causa deste rótulo.

Mas o que quase ninguém fez foi tentar interpretar os símbolos com honestidade, refletir profundamente sobre as alegorias e tudo o que elas podem representar.

E a razão para isto é bem simples. Além das inúmeras contradições (dizer uma coisa para se auto refutar depois), as alegorias apresentadas representam uma visão que pode ser extremamente prejudicial para a lucidez das pessoas e a manutenção de atitudes pautadas em um humanismo racional altruísta que é a verdadeira base de tudo aquilo que acreditamos ser bom e correto. E isto é fruto de nossa influência cultural de filósofos humanistas em sua maioria seculares e reformistas que contribuíram para a transformação da visão de mundo do ser humano da barbárie à civilização.

Mas pra mim não é nenhum pecado considerar a possibilidade de que o que está escrito na Bíblia poder mesmo representar alguma verdade, com alegorias que possuem aplicações marcantes em nossas vidas.

E justamente por considerar essa possibilidade que eu digo que, considerando que o que está escrito ali é verdade, eu prefiro ser um Satanista, para poder apoiar aquele que se opõe a todo este grupo de ideias defendidas pelo “maioral”.

Não é por que a realidade proposta não é agradável que ela não possa ser verdade. Isso é uma coisa que todo cristão deveria aprender. Como eu já sei disso, eu considero a possibilidade de que, quer eu goste ou não, Deus, tal como descrito pela tradição judaico-cristã, realmente existe.

Mas diferente dos cristãos, sinto repulsa com a ideia de que eu possa ter sido criado por um ser superior com a única finalidade de ser sempre servo e inferior e ter que obedecer cegamente e sem perguntar por que a tudo o que me é dito por uma voz vinda do além ou que seja dito por algum anjo vindo do céu ou mesmo que tenha sido há muito tempo atrás por alguém que passou por algo parecido.

Assim como John Milton, eu imagino o dilema existencial de Lúcifer, o mais belo de todos os anjos dos céus.

“É melhor reinar no inferno do que servir nos céus.” – Segundo Milton, o desejo de Satanás de se rebelar contra seu criador vem de sua incapacidade de ser subjugado por Deus e seu filho, falsamente clamando que anjos são “auto-criáveis” e desta forma negando a autoridade de Deus sobre eles como seu criador.

Milton mostra uma imagem de Satanás arrogante e poderosamente carismático. Através de seus poderes de persuasão, ele consegue convencer um terço dos anjos do céu a unirem-se a ele em sua rebelião contra o criador. Ele argumenta que Deus é um tirano e que os anjos deveriam reinar como deuses.

Além da ideia da subserviência inata, a alegoria bíblica difunde uma outra ideia: Assim como os anjos são pioneiros no universo, o Homem também é em relação à mulher. A mulher foi criada para satisfazer os desejos de um homem solitário e não o contrário. Além disso a fêmea não é fruto do sopro divino como o homem, mas sim o resultado do trabalho feito em uma costela.

E para quem não acredita, tá lá na Bíblia. Pegue lá e veja:

“E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele
E Adão pôs os nomes a todo o gado, e às aves dos céus, e a todo o animal do campo; mas para o homem não se achava ajudadora idônea.” Gênesis 2:18

Quer dizer que antes de Eva, eles procuraram antes, possivelmente entre o gado, as aves do céu e nos animais do campo. RS

O fato é que livros que não entraram na Bíblia narram a história de Lilith, a primeira mulher, que teria sido expulsa do paraíso por não ser uma “ajudadora idônea” e ter entrado em conflito com Adão por, assim como Lúcifer, não aceitar seu posto de submissa. Não fosse só isso, a mulher também é responsável direta pela danação do homem, por ter sido seduzida pela serpente e induzido o homem a fazer o mesmo.

O fato de Deus, tal como mostrado na bíblia ser realmente o verdadeiro criador de todas as coisas, não faz, por si só, ele uma pessoa boa e digna de ser seguida. O universo poderia ter sido criado por um tirano desgraçado para o qual valeria a pena se rebelar.

Assim como o fato de que estar escrito na bíblia não deveria jamais ser aceito como argumento definitivo para qualquer verdade irrefutável.

Qual é a prova que você tem que Deus nunca mente?

Está escrito na Bíblia, o cristão vai responder.


E como você sabe que a Bíblia não erra?

Por que foi inspirada por Deus, ele responde.

Oras, se eu fizer um livro que diga que eu mesmo sou o criador do universo, para sempre vou poder usar o livro que eu mesmo escrevi para confirmar o que eu já havia dito.

Mas é óbvio que isto não prova coisa nenhuma.

Mesmo sem perceber as implicações de sua filosofia, ao considerar que toda a realidade que conhecemos possa ser fruto de uma ilusão, Descartes levanta a possibilidade de Deus ser um enganador e através dos sussurros de um demônio foi desenvolvendo os pilares de seu sistema filosófico, cujo principal objetivo era separar a física da metafísica, uma vez que a razão já começava a mostrar o quão intelectualmente obsoleta estava se tornando a visão naturalista defendida pela escolástica.

E não foi só isso que foi obra do demônio.

Nenhuma figura foi criada para trazer tanta aversão quanto a figura de Satanás. Um rótulo desenvolvido com a única função de designar a qualquer praticante de seita pagã que contrariasse a “verdade” estabelecida pela dogmática da igreja, que por séculos sentenciou pessoas à morte pela exposição de ideias que se opusessem (o opositor = Satanás) a ordem vigente.

E com isso, a santíssima igreja conseguiu destruir culturas inteiras, todas com deuses que se opunham à absoluta onipotência do grande criador e senhor dos exércitos

Na verdade, o mito de Satã muito se assemelha com o mito grego de “Prometeu”, o titã que deu o fogo aos homens, e como punição, foi aprisionado em cima de uma montanha onde abutres diariamente comem-lhe o fígado, que sempre se regenera e o mantém sentindo dores constantes por toda a eternidade. Não é a toa que este mito foi várias vezes comparado com o de Satanás, o anjo que deu a capacidade de conhecer o bem e o mal ao homem, por simbolistas ao longo da história.

Influenciado pelos sussurros de demônios, Sócrates dizia que “Existe um único bem: O saber.” 
Esta antinomia “Deus” X “Conhecimento” estará sempre presente quando alguém, para justificar a existência de Deus, usa a ignorância como muleta. É o famoso “Deus das lacunas”. Tudo o que o homem não sabe faz parte deste outro reino. Do misterioso, do divino e das respostas definitivas, baseadas naquilo que não se sabe.

Oras, se Deus é incognoscível e também a personificação da incognoscibilidade, Satanás, como opositor, só pode ser o cognoscível, ou seja, aquilo que se pode conhecer, o mundo real, perceptível.

O mundo livre de contos de fadas que aprisionam a mente das pessoas em estados de “inocência”, fazendo-as moldar suas vidas a conceitos morais de centenas de anos atrás na sociedade de hoje, cujo “conhecimento do bem e do mal” é muito maior.

O ser humano não é mais o inocente nômade do deserto que vivia sendo escravo em terras estrangeiras. Existe todo um alicerce teórico baseado naquilo que sabemos a respeito de moralidade e desde que comemos do fruto proibido, aprofundamo-nos bastante nesta jornada de conhecer o “bem” e o “mal”.

Para muitos, isso nos aproxima de Satanás. E os piores Satanistas não seriam aqueles que se dizem Satanistas. O problema disso tudo é que, ao saber o que é melhor para si mesmo, o ser humano não precisa mais de uma figura invisível para representar tudo aquilo que ele não sabe. Então Satanás estaria incorporado à todo o conhecimento humano adquirido por conta própria, sem as arbitrariedades dogmáticas das religiões.

E quanto mais aprendemos coisas, menor a relevância do Deus das Lacunas. A igreja estava certa ao combater “mentes revolucionárias” como Copérnico e Galileu, pois o conhecimento que eles revelaram colocou em cheque muitas das verdades absolutas proferidas pela igreja. Ao se conhecer mais sobre os objetos e sobre nossa condição do universo, é natural que o poder de um criador, pautado naquilo que não se sabe, diminua. Até que chegue um ponto em que histórias fantasiosas que contrariem fatos como a evolução, começam a ser questionados por quem tem um mínimo de racionalidade.

“O Deus da Bíblia é um dos personagens mais desagradáveis da ficção, ciumento, controlador, mesquinho, injusto, intransigente, genocida étnico, vingativo, sedento de sangue, perseguidor, misógino, homofóbico, racista, infanticida, pestilento e megalomaníaco” (Richard Dawkins)

Alguém que doutrina seu filho, corrompendo suas capacidades críticas ao impor uma visão de mundo nefasta como esta está cometendo um abuso infantil tão perverso e traumatizante quanto o estupro. Mesmo assim, existem muitos religiosos que tentam extrair o que há de melhor em nos ensinamentos que lhe foram dados, nem que tenha que reduzir tudo a apenas 2 mandamentos. Mas se você reduzir tudo à “paz e amor”, não precisa ser religioso, seja Hippie. Mas seja de verdade, como foi Jesus Cristo, o Judeu Cínico. Caso contrário, dizer que concorda “apenas com algumas partes” de sua verdade absoluta te coloca em uma encruzilhada de contradições das quais vai ser impossível você sair sem parecer extremamente cara de pau.


Eu só não entendo por que é que os religiosos querem tanto se intrometer na vida dos outros, dizendo o que é que as pessoas devem ou não fazer peladas, as drogas que devem ou não usar ou as leis que devem aprovar ou não, baseadas nas fantasias de um grupo de pessoas.
A forma mais honesta de você investigar se suas próprias crenças são baseadas em reflexões legítimas ou apenas um adestramento às normas que a sociedade impõe a cada um de nós é continuar perguntando-se, sempre. E investigando.

No início do Cristianismo, os Cristãos Judeus consideravam Paulo um herege e davam pouca atenção ao capítulo 3 de Gênesis. As seitas Gnósticas honravam a cobra do Gênesis 3. Não viam a cobra como um sedutor que levou o primeiro casal ao pecado. Ao invés disso, eles veem a serpente como um libertador que trouxe o conhecimento à Adão e Eva ao convencê-los a comer da árvore do conhecimento do bem do mal e desta forma deixar sua forma anterior de “proto-humanos”, para humanos verdadeiros.

Ambas estas facções Cristãs foram dizimadas com o apogeu da igreja cristã, que tinham a maioria de suas crenças teológicas a partir do Apóstolo Paulo e o evangelho de João. Para eles, Gênesis 3 era de importância crucial, sendo a razão para a natureza corrupta e situação existencial desesperada dos seres humanos. A ideia de pecado original diz que existem conflitos entre os seres humanos e Deus, que foi criado por nossos ancestrais e que todos nós temos que carregar, sendo que, de alguma forma, Jesus Cristo apareceu para nos redimir disso.

Ou seja, Jesus está aqui para nos salvar de uma coisa que nem fomos nós que fizemos, mas sim Adão. E o pior, o “grande mal” que Adão fez foi comer um fruto, de uma árvore que iria dar o conhecimento do bem e do mal para quem comesse. Tudo isso às custas do maior preço possível: Nossas próprias vidas.

A partir deste momento, nos tornamos mortais e verdadeiros e não apenas alegorias em livros empoeirados. Os seres humanos seriam capazes de conhecer o bem e o mal. E escolher.

By Chico Mefisto. Via http://vidasofista.blogspot.com.br/

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